sexta-feira, setembro 26, 2008

Três Pessoas Encontram-se

Foi já há algum tempo. Ia pela rua, a pensar no que quer que fosse, quando o vi. Já o conhecia de outros lugares, mas nunca o tinha visto ali e não o voltei a lá ver, depois. Achei logo que dava uma história – ou estória, nunca sei. Abrandei o passo, que não tinha pressa e penso melhor a caminhar devagar. Coisa rara, não demorei muito a encontrar uma ponta na meada das ideias súbitas. Talvez por isso, a minha primeira preocupação não foi puxar pelo fio, antes, foi decalcar indelevelmente a ideia no pensamento, para não a deixar escapar, que ando muito desalembrado das coisas e não tinha com o que escrever – apercebi-me, entretanto, que habitualmente até dou boleia a uma solução para este tipo de situações: dizer das pontas que se acham por aí, para o telemóvel, que as conserva. Agora, são tantas as pontas de fio que lá guardo, que já é ele mais um novelo que outra coisa.
Regressando à ideia. Tive-a, agarrei-me a ela como um naufrago se agarra a qualquer coisa que flutue e segui caminho, devagar, a tentar compor, logo ali, a trama, a desembaraçar o fio. Quando cheguei onde tinha de chegar, já ia com o que julgava ser o núcleo central da história alinhavado, era apenas uma questão de acrescentar uns “antes” e uns “depois”, e já tinha mais um texto para publicar – coisa pouca, mas uma coisa.
Satisfeito, arrumei-lhe com um segundo pastel. E a ideia cá ficou, no limbo das ideias, à minha espera.
Nem é por não pensar nela, mas falta sempre aquela coisa essencial a tudo, que é começar – tenho sempre desculpas prontas para dar a mim próprio. Até que…
No outro dia, estava eu a começar pela quarta – talvez a quinta, ou a sexta vez – um outro texto – uma coisa algo densa, pesada, comprida (para blogue) e não amadurecida – e nada me parecia bem, tudo eram dificuldades e falta de jeito. Larguei-o, uma vez mais, e logo me veio à ideia aquela ponta do novelo. “Vai ser desta”. Mudei de folha e pus-me a matutar no “antes”. Lá acabei por encontrar um caminho, e segui-o.
Com a intenção de o construir curto, deixei-me ir por ali a fora, descuidei-me e, quando olhei em redor, vi que tinha caminhado muito para, afinal, continuar ainda longe do lugar a que queria chegar. Pior do que isso, constatei – constrangido – que o fio que tinha estado a tecer, nada tinha a ver com o fio inicial: as pontas não se encontravam em parte alguma do percurso; apesar de partirem de uma mesma ideia, os dois textos eram duas realidades distintas.
Agora, tenho um personagem ao fundo de uma rua, sentado ao lado de livros espalhados no chão, e um outro, que desce essa rua, distante de tudo o que o rodeia, até algo acontecer. Dito assim, parece não haver problema, mas a verdade é que o texto acaba por não ser sobre quem está ou sobre quem passa.
Talvez seja sobre duas pessoas que se cruzam, sem que nada haja que os una, por um instante que seja – não é sempre assim?
Talvez não seja sobre nenhum deles. Talvez seja sobre quem os imaginou, ali, assim.


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quarta-feira, julho 30, 2008

O Corredor (3)

Aquela calma inquietante, que a todos incomodava de uma maneira inexplicável, não o afectava da mesma maneira. Sentado na sua cadeira, Delmino conseguia encontrar nela a tranquilidade que durante tantos anos ambicionara, um dia, conquistar. Na sua maneira de ver, estava velho e demasiado cansado para querer mais da vida do que aquilo que a vida lhe dava; com o pé-de-meia que tinha amealhado e a reforma dele e da mulher – ainda que fossem um insulto para duas vidas de trabalho – permitia-lhe já não ter de provar nada a ninguém. “Não ter de ir à luta”, era a expressão que usava frequentemente, quando discutia o assunto com Ulisses que, sempre inconformado e revoltado, via em tudo e em todos os que mandavam ou tinham algum poder, razões de sobra para protesto. “Estamos condenados a ser velhos, mas nunca podemos aceitar que nos condenem a ser miseráveis”, respondia ao colega. Era desse descanso complacente e resignado que desfrutava, naquele momento, de olhos fechados e expressão tranquila, enquanto relembrava o acontecimento de há minutos.
Ulisses tinha deixado para o fim os pêlos que circundavam um protuberante sinal, na face esquerda do senhor Políbio. Passou as mangas arregaçadas da camisa para lá dos cotovelos e aguçou a vista, concentrando-se naquele montículo de carne ligeiramente arroxeada que pendia de uma pálida prega de carne. Depois de muito piscar os olhos, desistiu e foi a uma gaveta buscar os óculos. Limpou-os bem limpos e deixou-se estar um minuto a habituar-se às lentes. Pelo espelho, viu que o cliente se mantinha hirto e com o olhar parado. Num primeiro momento, chegou mesmo a assustar-se e julgou que ele teria morrido na cadeira, de olhos esbugalhados, não fora um ligeiro e espaçado arquear que notou a bata fazer, na zona do peito. Depois de um suspiro profundo, o barbeiro ainda abriu a boca para falar de futebol, mas não disse nada. Suspirou outra vez e voltou à sua tarefa.
Quando encostou a lâmina ao tufo de cabelos brancos, o homem mexeu-se. “Ó senhor Políbio, então agora é que você se mexe? Olhe que cirurgia plástica nunca foi o meu forte. Ainda lhe levo o sinal à frente”. Como que hipnotizado e a obedecer a um estranho desígnio, sentou-se à beira da cadeira e falou numa voz fraca, mas clara. “Vocês repararam que o sol apareceu”? Os barbeiros olharam em simultâneo pela montra. “Olhe que não. Está até mais escuro, agora”, retorquiu Delmino, ainda à procura de qualquer vestígio de luz na rua. “Não digo agora. Há bocado, quando o homem passou a correr”. Ulisses arqueou as sobrancelhas e franziu os lábios, fazendo uma careta. “Tem a certeza, senhor Políbio? Eu não vi nada”. “Eu também não”.
Florinda largou um saco de plástico, que parecia pesado, no passeio e apoiou a mão esquerda na moldura da porta. Um “ai Jesus” escapou-lhe dos lábios. “Vocês já viram este tempo”? Estava ofegante, respirando com dificuldade. “Estávamos precisamente a falar do tempo… mais ou menos…”, disse o marido, voltando a reclinar-se na cadeira. “O senhor Políbio está bom”?, perguntou a mulher, enquanto entrava na barbearia. O velhote disse que sim com a cabeça, mas sem convicção. Ulisses rebolou os olhos para Florinda e fez outra careta, como que a dizer para ela não acreditar. “Devias ter vindo mais cedo. Perdeste cá uma cena…”, Delmino tinha cruzado as mãos sobre a barriga, como se tivesse acabado de almoçar naquele momento. “Ai sim?” Florinda tinha vestido uma bata e preparava-se para começar a varrer o chão. “É como te digo. Umas das antigas”.
Enquanto Delmino contou à mulher do “atleta ao natural” – não poupando nos detalhes –, Ulisses terminou a barba do senhor Políbio e recebeu uma nota de cinco euros, muito dobrada, que ele retirara do pequeno bolso do colete, peça de roupa que sempre usava, mesmo nos dias mais quentes de Verão. Distraídos com a conversa sobre o nu, nenhum deles reparou que o velho saiu da barbearia e não ficou, como sempre acontecia, até ao fecho, sentado junto à montra, numa das três estafada cadeiras que, em tempos, tinham servido para o descanso dos clientes que aguardavam vez.
Carmelinda bateu várias vezes com a palma da mão, e com quanta força tinha, na montra do Salão Braga. “Jesus, que parece um terramoto”, disse Florinda, levando uma mão ao peito. Da rua, a vizinha da lavandaria Texas, nem olhava para eles, limitando a fazer gestos frenéticos para que se juntassem a ela. Hermenegildo apareceu também na montra. Ria como um perdido e estava a ficar bastante vermelho, enquanto batia com a mão direita numa perna. “É o corredor, voltou!”, exclamou Ulisses. Os três precipitaram-se para a rua.
No centro do asfalto, para o lado da Praça da Figueira, estava o senhor Políbio em tronco nu e descalço, a baixar, a custo, as ceroulas. Se lhe fosse permitido, teria começado a correr mas, assim que se livrou da roupa interior, limitou-se a dar um pequeno passo e depois outro e outro…
Nesse exacto momento, um raio de sol fez ricochete na janela do primeiro andar do número 29 da rua João das Regras e foi reflectir-se mesmo à sua frente, como que a indicar-lhe o caminho a seguir.

FIM

(depois da magia das águas, vai este blogue à procura da Atlântida; voltará com o cair da folha)

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quarta-feira, julho 23, 2008

O Corredor (2)

Por serem absolutamente evidentes, certas coisas não carecem de menção. Ainda assim, frequentemente e sem pensar nisso, não resistimos a constatar o óbvio. Quase caindo ao sair do Salão Braga, espantado com o que via, foi o freguês o primeiro a ceder à tentação. “Vai nu”, no que foi logo secundado por Ulisses, “O gajo está em pelota”. Como que para autenticar definitivamente a veracidade de tão insólito acontecimento, Delmino sentenciou que, “epá, o tipo não traz roupa”, acrescentando logo de seguida, “nem sequer sapatos”.
Por esta altura, vindos das portas e janelas, a rua João das Regras estava cheia de sons. Ouviram-se interjeições, palavras soltas – a maioria, de incentivo ao atleta naturista –, assobios e até palmas. Quem tivesse atentado nos espectadores e não no espectáculo, teria visto expressões de estupefacção e, sobretudo, de gozo. Teria visto uma outra rua, outras gentes, diferentes das de todos os outros dias.
Nos dias seguintes, nos inúmeros comentários que se fizeram, não houve acordo sobre tão estranha personagem. Era como se cada pessoa tivesse visto uma cena diferente e lhe atribuísse um significado próprio. Para uns era um homem alto, para outros, baixo. Tanto tinha cabelo claro, como escuro e era entre o comprido e o curto. Houve quem garantisse já o ter visto por ali e quem afiançasse, por todos os santinhos do altar, que aquela cara (“e pernas e braços e cu e…”) jamais por ali tinham passado. Sobre as motivações de tão estranho comportamento, também não se obteve consenso. “Estava a fugir da bófia”. “Tinha aspecto de camone e devia estar carregadinho de droga”. “Vinha era a fugir de um marido que tinha estado a encornar”, brincou o Hermenegildo, da loja de ferragens. Numa coisa, no entanto, todos estavam de acordo: era do sexo masculino e estava em boa forma física, já que percorreu a rua em “muito menos de um fósforo”, como afirmou a Dona Carmelinda, da Lavandaria Texas, ficando logo de seguida muito afogueada e corada, quando Hermenegildo, dando-lhe um toque com o cotovelo, disse bem alto que ela tinha sido quem melhor reparou no atleta. “Correu depressa, com pena sua, não foi”?

Depois de o corredor ter desaparecido na Praça da Figueira, Hermenegildo foi a correr na direcção contrária, na certeza que alguém viria no encalce do homem. Mas nada aconteceu. Era como se ele se tivesse materializado na esquina e ali começado a correr. “De que fugiria ele”? perguntou o especialista em todo o tipo de ferragens, encolhendo os ombros. “É maluco, ora”, respondeu alguém.
À porta do Salão Braga, nem uma palavra tinha sido proferida. Enquanto Delmino e Ulisses se foram juntar aos vizinhos, o freguês, agora a meio da rua, curvado sobre si, tinha o olhar perdido na Praça da Figueira. Quando regressaram à barbearia, o velhote ofereceu uma pergunta como resposta a Hermenegildo. “Porque é que dizem que ele estava a fugir”?
Os dois barbeiros trocaram um olhar vago. Ulisses colocou a mão no ombro frágil do freguês e só sentiu ossos, por baixo da roupa. “Vamos tirar essa espuma senhor Políbio, já está seca e sem préstimo. Alguma vez tinha visto coisa igual”? Já sentado, o homem nada disse. Inexpressivo, encarava o espelho. Era como se ali não estivesse. À porta, Delmino ainda brincou com a Dona Carmelinda, dizendo-lhe que se ela fosse mais nova, com mais força nas pernas, tinha ido a correr atrás do outro. “Mas para lhe dar umas roupas, dessas que ficam aí esquecidas na lavandaria, não me perceba mal”. Voltou para a sua cadeira e reclinou-se, ainda com um breve sorriso nos lábios. Por esta altura, o silêncio tinha reconquistado o seu domínio e nada parecia ter acontecido na cinzenta rua João das Regras. As cabeças, ainda há pouco erguidas e cheias de vida, voltaram a sucumbir à sua pesada existência e a apenas encontrar amparo nas pedras da calçada.

(continua)

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quarta-feira, julho 16, 2008

O Corredor (1)

O denso e escuro tecto de nuvens, que há vários dias havia estacionado sobre Lisboa, dava à rua João das Regras, naquele final de tarde, um aspecto ainda mais lúgubre que o habitual. Não tinha chovido mas, ali, naqueles cinquenta metros de Baixa, parecia que as nuvens haviam largado o seu peso e deixado a pairar um sufoco que, qual parasita, caía sobre quem passava, materializando-se na respiração subitamente ofegante, no cansaço inesperado, nos ombros pesados, que faziam as cabeças pender para a frente.
No Salão Braga, reclinado na sua cadeira, Delmino deixava-se embalar pelo familiar som que, na cadeira ao lado, o seu colega Ulisses produzia ao escanhoar o único cliente do dia. Numa dança vagarosa e sem ritmo, a lâmina contornava as pregas de carne velha e seca, cobertas de espuma de barbear, do homem. Quem perguntasse aos dois barbeiros quando tinha sido a última vez que haviam passado a lâmina na face de um freguês, de alto a baixo, num único movimento, não saberiam responder. Com o passar dos anos, barbear tinha-se tornado um processo cada vez mais demorado, que voltava a exigir atenção, cuidado e paciência – tudo aquilo que a prática, depois de muitos anos de gestos repetidos à exaustão, permite prescindir e que a idade acaba por roubar; um paradoxo que muito afligia Delmino. “Agora que eu devia cortar cabelos e desmanchar barbas de olhos fechados, é que tenho de me concentrar em cada gesto, em cada tesourada!? Estou pior do que quando comecei nesta vida”, queixava-se ele à mulher, Florinda, no final dos dias piores, quando fechava a porta e ela varria os despojos ralos e brancos dos cada vez mais ralos e pálidos clientes. Com os olhos cravados nos mosaicos gastos do chão e apoiada no cabo da vassoura, ela respondia-lhe que não havia pressa, que aqueles clientes não eram esperados por quem quer que fosse e que só não tinham sido ainda completamente esquecidos, porque, permitissem as forças e a parca reforma ao fim do mês, vinham aparar os mal-semeados pêlos que, teimosa e inexplicavelmente, desafiavam o cansaço dos corpos e despontavam, ainda que também tristes e abatidos. São homens – continuava ela – que apenas pareciam existir ali, no Salão, quando iam aparar o cabelo ou apenas estar, sentados nas cadeiras velhas como eles, a olhar através da montra, para o vazio em que quem manda havia deixado a Baixa escorregar. O mesmo vazio que sentiam ser a sua existência. Delmino olhava para a mulher com incredulidade, escutá-la era sempre descobrir algo novo, mesmo depois de tantos anos juntos.

Foi com grande espanto que os três homens ouviram gritar. Entreolhando-se, perguntaram com o olhar a mesma pergunta: teriam escutado bem? – percebendo na pergunta que viam, a resposta. E então, alguém encheu a rua com outro grito. Não de dor, que não havia sofrimento naquele alarme, antes, percebia-se surpresa e espanto, perante algo ou alguém. Era um grito de surpresa.
O velhote, de bata e com metade da cara ainda cheia de espuma, movido pela energia que a curiosidade dá, ergueu-se como pôde na cadeira e foi à porta espreitar. Atrás dele, Delmino e Ulisses assomaram-se também, ficando os três a rodar cabeças
durante vários segundos, cobrindo todos os pontos cardeais. No exacto momento em que, desalentados, se convenciam que não tinha sido nada de importante, uma exclamação estridente cortou o pesado silêncio que se havia voltado a fazer sentir. “Ah! Valente.”
Alertadas pelo inusitado da situação, várias cabeças haviam despontado nas portas e janelas e estavam agora todas apontadas para o lado da rua do Arco do Marquês do Alegrete onde, fazendo uma tangente à esquina, alguém entrou a toda a velocidade, correndo o mais depressa que lhe era possível. Todo nu.

(continua)


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quinta-feira, julho 10, 2008

Três Anos

Três anos é um mar suficiente para imensas palavras. Ainda que muitas delas não tenham sido as mais acertadas, as que, verdadeiramente, diziam aquilo que queria ser dito, valem todas, têm todas (a mesma) importância. Ainda assim, certas e erradas, são apenas uma ínfima parte daquilo que quem as emalhou, é.
Dizemos de nós malhagens de variável tamanho e significado, quando criamos personagens e enredos – mesmo quando de nós eles são o mais diverso possível. Fazemo-lo por uma qualquer necessidade de chegar mais além: um esperançado prolongamento de nós, uma mão estendida sobre as águas que anseia por um toque ou que, tão simplesmente, serve para largar algo que nos pesa, que nos atrasa o necessário regresso à margem.

Atiramos palavras à vida como quem lança uma rede ao mar. Felizes daqueles que, através delas, conseguem trazer até si algo de bom.

Foram três anos bons.


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quinta-feira, junho 12, 2008

Eu

Gostava de saber escrever. Tenho um caderno de apontamentos que é uma miséria.

Gostava de saber desenhar. Tenho um caderno de esquissos que é uma desgraça.

Gostava de ter boas histórias para contar. Tenho uma imensidão de páginas vazias.

Gostava de saber completar os espaços em branco. Tenho as ideias extraviadas.

Gosto tanto. De tanta coisa.



Este blogue vai em busca da magia das águas. Volta em Julho. Um abraço.

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quarta-feira, junho 04, 2008

O Aniversário

Patrícia mordeu o lábio inferior e abriu muito os olhos, como faz sempre que está perante uma dificuldade.
Por momentos, conseguiu abstrair-se da situação difícil em que a filha Joana a tinha colocado. Olhando para ela, reparou como estava diferente, como tinha crescido, desde a primeira vez em que lhe tinha feito uma pergunta a que não sabia muito bem como responder, fazia naquele dia, precisamente, dois anos. Os caracóis tinham-se tornado mais escassos e mais abertos, na exacta proporção em que o cabelo se tinha tornado menos claro; a expressão perdera passividade e os olhos, muito azuis, ganho preponderância no seu rosto redondo e terno.
Quase a completar cinco anos, era um compêndio de dúvidas, exigindo para todas, resposta rápida e convincente.

Após vários meses de luta contra o cancro, o pai de Patrícia morrera e, durante vários dias, Joana fez muitas perguntas sobre o desaparecimento do avô. Havia entre ambos uma relação especial. Viúvo e com apenas aquela neta, coube-lhe, desde cedo, a tarefa de a ir buscar à Creche e entretê-la até que um dos pais a fosse buscar. Foram muitas as histórias que lhe contou, muitos os sítios onde a levou a passear, os lanches que dividiram, as gargalhadas que partilharam. De um dia para o outro, o avô deixou de puder fazer essas coisas, passava o dia deitado num sítio estranho, onde estavam muitas pessoas tristes, e já não a ia buscar, já não lanchavam juntos, nem iam passear. Continuava a contar-lhe histórias, mas também já não ria como antes. E depois, desapareceu.
A mãe falou-lhe do céu, de anjos e de como o avô tinha ido para um lugar melhor, mas isso só lhe aumentou a confusão: se era bom estar no céu, porque não iam para lá, ter com o avô?

Mordendo o lábio e com os olhos arregalados, Patrícia olhou em redor. Não eram muitas as pessoas que tinham vindo propositadamente à missa de celebração do segundo aniversário da morte do pai, mas a igreja estava quase cheia – sobretudo com as paroquianas de sempre, as que, todos os finais de tarde, cumprem o mandamento de Cristo de fazer o que ele mesmo fez na Última Ceia.
Nos últimos dias, tinha tentado explicar à filha o que era uma missa e que esquisita ideia era essa de celebrar o desaparecimento de alguém de quem se gosta. Agora, em plena homilia, era confrontada com o que lhe pareceu ser o seu fracasso.
Os fiéis olhavam para Patrícia. Uns sorriam, outros nem por isso. O padre tinha-se calado e um inusitado silêncio caiu sobre a audiência, como se estivessem todos à espera da sua resposta.
Impaciente, Joana puxou a mão à mãe e repetiu, bem alto, a pergunta:


– Quando é que cantamos os parabéns ao avô?


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quinta-feira, maio 29, 2008

A Solução

(o texto que se segue, começou por ser um comentário ao post de dia 27 de Maio, do Eyes Wide Open)

Apetecia tanto a Carmelinda ir dar mais uma aula de Química, como lhe apetecia partir uma perna em três lados e estar seis meses sem se mexer. Encostada ao umbral da porta das traseiras da sala de professores, atirou a beata para longe e exalou o produto da combustão do SG Gigante. O terceiro período estava próximo do fim e ainda chovia com frequência. Isso aborrecia-a verdadeiramente. Isso e ter de ir dar mais uma aula de Química.
Pegou numa pilha de livros e folhas soltas, na mala e olhou-se no reflexo que o vidro da porta de um móvel lhe ofereceu. Estava a precisar de ir ao cabeleireiro. E de uma massagem facial. E de arranjar paciência e tempo para se maquilhar, por pouco que fosse – um nadinha, só mesmo para realçar... qualquer coisa. E estava a precisar de deixar de fumar. E de dormir mais. E de comer melhor, que ninguém se alimenta apenas de iogurtes e queijo fresco e sopas de pacote. E estava também a precisar de férias. Muitas férias. Férias longe dali. Onde houvesse muito sol. Onde ninguém a conhecesse. Onde lhe fossem levar bebidas exóticas e fruta e marisco à espreguiçadeira, onde ela, estendida à beira de um mar azul-turquesa, se curaria de todos os seus padecimentos.

– Estás bem?

Quando focou de novo o olhar no vidro, surpreendeu-se a sorrir, com cara de quem estava feliz. E ela não estava feliz.

– Carmelinda… – uma colega olhava-a com cara de caso.

Atirou-lhe beijos e acenou como que a dizer que não era nada e já estava atrasada. Saiu para a chuva. Não quis saber. Foi a passo. Talvez servisse para lhe aclarar as ideias ou, não pedindo tanto, que a despertasse o suficiente para que os alunos não percebessem o seu desanimo e falta de pachorra.
Entrou na sala de aula, atirou os papéis para cima da secretária e sentou-se. Ainda tinha cinco minutos para queimar. Tomou duas notas mentais: nunca chegar à sala antes dos alunos; nunca ter minutos só para si – não mais que aqueles que já tem em casa.
Levantou-se. Com um pequeno pau de giz azul, desenhou uma flor no quadro. Um malmequer. Bateu com a ponta do giz dentro de uma pétala, “mal me quer”, depois noutra pétala, “bem me quer”, “mal me quer”, “bem me quer”… Não precisou chegar ao fim para saber o veredicto. Pegou na mala. Precisava de um cigarro. Sujou a mala de giz e disse uma asneira, bem alto. Reparou que a saia, originalmente preta, estava agora coberta por uma fina camada de pó branco. Ia repetir a asneira, mas interrompeu a palavra a meio. Com os braços afastados para não sujar mais nada, sem saber o que fazer às mãos, andou de um lado para o outro, passos pequenos e desajeitados. Só parou quando deu um pontapé na parte lateral da secretária. Aleijou o pé e a dor acalmou-a.
Sacudiu as mãos e tirou um cigarro. Fumou na janela, encostada ao vidro. Continuava a cair uma chuva fina, irritante. E o verão quase a chegar. Atirou a beata para longe, quando ouviu os alunos à porta. Voltou à secretária e uma aluna chamou-lhe a atenção para a saia suja. Encolheu os ombros e apagou a flor, lentamente, deixando que o ruído se dissipasse por si. Não tinha pressa.


– Quem é que me sabe dizer como se chamam as substâncias que não se dissolvem em água? – gostava de começar as suas aulas assim, não revelando algo mas, ao invés, suscitando uma dúvida; partir da ignorância e, através da discussão, do pensamento lógico, do raciocínio, chegar a uma resposta – ou a uma hipótese de solução, que em ciência há ainda muita coisa a carecer de definitividade. Aquele dia estava longe de ser o seu, mas fez um esforço.
Tinha-se tornado professora por vocação. Desde sempre que o queria ser. Nos primeiros anos, o que mais tinha era paciência para os miúdos. Divertia-se com as aulas, com a sua preparação e nunca se cansava, tal era o gosto com que ensinava. Mas há já vários anos que não era assim. Algures no tempo, tinha-se cansado. Primeiro da escola, depois de tudo o resto. Parecia-lhe que a única coisa que conseguia sentir, era fastio.


– Hidrofóbicas – a palavra pareceu ter sido proferida a medo, numa voz desprovida de timbre e calor. Era apenas som e nada mais. Henrique era, de longe, o melhor aluno, mas também o mais apagado – no inicio do ano lectivo, ela tinha-se interrogado sobre se ambas as coisas estariam relacionadas, mas depois, desinteressou-se.
– Por sua vez, as substâncias que se dissolvem, são… Henrique…
– Hidrofílicas.
– Pois são. Hoje vamos falar delas e vamos ver uns casos práticos – sentou-se no tampo da mesa e começou a dar aos pés. – Mas antes, queria que me dessem exemplos de substâncias hidrofílicas.
– O cloreto de só…
– Sem ser o Henrique – interrompeu ela. Ninguém sabia. – Quando a vossa mãe está a fazer sopa, por exemplo, e coloca sal na água, o que é que acontece ao sal?
– A minha mãe não sabe fazer sopa – ouviu-se. Todos se riram.
– O sal desaparece – respondeu uma rapariga com um aparelho azul nos dentes.
– E que outro nome tem o sal?... Alguém?... Cloreto de sódio…

Explicou conceitos como solução, solvente, solvatação, falou sobre as forças de atracção a nível molecular e sobre reacções ácido-base. Tudo em termos e numa velocidade, que não permitiu aos alunos apreender nada. Tinha consciência disso, mas não quis saber. Voltaria à matéria numa outra altura, num outro dia.
Dispôs na mesa vários recipientes e um jarro com água.


– Vamos fazer algumas experiências com soluções aquosas – alguns alunos levantaram-se. – Depois de apontarem as regras simples que permitem determinar a solubilidade em água, que vou escrever no quadro, calma.
Perante o olhar curioso da maioria dos alunos, misturou algo na água e agitou ligeiramente. Escreveu depois, apressadamente, várias frases e símbolos químicos no quadro.
Enquanto a turma se demorava a tentar decifrar a sua letra, dirigiu-se à janela. Lá fora, as sombras tinham-se alongado um pouco mais. Reconheceu na agitação das folhas das árvores o vento frio que tinha chegado no ano passado e teimava em não se ir embora. Sentiu que estava à sua espera.
Deu um passo atrás e voltou a encontrar-se no reflexo do vidro. Os olhos pareciam não estarem lá, de tão afundados na cara macilenta e pálida.


– Sôtora, aquilo ali é sulfeto ou sulfato?
– Sulfato. E, já agora, podes explicar aos teus colegas o que é um sulfato.
– Assim, não vale… – queixou-se a aluna.

A resposta não interessava e não a escutou. No vidro, tinha aparecido a espreguiçadeira e o mar azul-turquesa de há pouco. Sorriu brevemente, até ter reparardo que a espreguiçadeira estava vazia. Procurou por si naquela paisagem idílica, mas o que viu foi o rosto de Henrique, reflectido por cima do seu ombro.


– Está bem?
– Eu? – demorou a perceber a pergunta. Olhou de novo para o vidro. – Estou óptima. Nunca estive melhor… Vá, senta-te. – Sacudiu as mãos e depois a saia, sujando-a ainda mais. – Que horas são?
– Não são as que deviam ser – todos riram.

Voltou a olhar para o vidro. Concluiu que a pessoa da espreguiçadeira não poderia ser ela. Quem quer que fosse, já tinha curado as suas mazelas e partido.


– E agora, sôtora, o que fazemos a seguir?

Boa pergunta. Fazer o quê, a seguir?


– Vamos à procura da resposta! O primeiro passo já o demos, que foi colocar a questão – falava depressa, com ânimo, virada para a janela. – Agora, temos de optar, por muito que nos custe. Temos que nos convencer que não conseguimos ter tudo, não é? – toda a turma olhava para a rua, à procura de algo ou de alguém; uns encolhiam os ombros, outros esticavam o pescoço. – Temos que ser lógicos, raciocinar. Encontrar uma hipótese a que nos agarremos com unhas e dentes, a algo que nos impeça de ir ao fundo – fez-se silêncio. Depois, disse: – Acho que sim…
– A sôtora passou-se…
– Meninos, meninos, está quase na hora da saída e ainda não fizemos nada – bateu as palmas e uma pequena nuvem branca ergueu-se no ar. – Vamos lá falar das soluções aquosas – de volta à secretária, por entre os papéis e recipientes, procurou a mistura que tinha feito. – Esta agora! Onde é que está a solução?
– Mesmo debaixo do seu nariz – respondeu a turma em coro.

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sábado, maio 24, 2008

O Jogo da Bola

Numa sucessão de movimentos rápidos e imprecisos, o jogador do Benfica tocou a bola para a linha lateral e depois para a frente. Com a progressão dificultada pelo jogador do Sporting, levantou a cabeça e chutou na direcção do jogador do Porto que, no centro do terreno de jogo, tinha estado a esbracejar por atenção. O público reagiu com a indiferença do costume, não se ouviu um ai de espanto, um assobio, uma interjeição rude e mal-educada. Entre a assistência, as conversas continuaram as de sempre – o tempo que ninguém entende, a crise, as dores do corpo e do espirito –, a sueca a ser jogada no muro e nos bancos, o casal de namorados a beijar-se como se não houvesse amanhã.
Mas a bola não chega ao jogador das listas verticais azuis e brancas, interceptada que foi pelo fã dos Iron Maiden que, numa finta atípica, deixou para trás o adversário da camisola do Che Guevara e correu desalmadamente, pelo relvado a fora.
Como acaba por acontecer a todos os que intentam acções, quando para elas vão desprovidos de alma, o metaleiro não obteve sucesso. Projectando-se num carrinho que lhe deixou os calções verdes ainda mais verdes, o jogador da selecção nacional tomou posse do esférico, fez uma tabela com o colega da t-shirt branca com mangas azul-bebé e isolou-se. Perante a iminência do golo, quem estava sentado não se levantou, tal como não se levantou um clamor de antecipação, no estádio.
O guarda-redes da camisola “Jesus Te Ama” deu dois passos à frente, afastou as pernas, fincou os pés na relva e baixou o centro de gravidade, ao mesmo tempo que abria os braços. O seu olhar revelava a ausência de medo que a determinação e a fé acarretam. O avançado, que estava agora muito próximo, tocou a bola para o lado e, no momento em que se ouviu em coro “chuuuuuta”, rematou em trivela e com quanta força tinha.
Nenhum jogador questionou tão duvidosa opção quando a bola ultrapassou a linha de fundo, longe da baliza – ouviu-se apenas um “fénix! sempre a mesma coisa!” Mas houve um protesto vindo de fora das quatro linhas imaginárias: uma senhora, que empurrava um carrinho de bebé, sugeriu – usando terminologia que aqui não é reproduzida – que fossem todos jogar para… outro estádio.
Não a ouviram, que um ataque rápido, na direcção da baliza contrária, estava já lançado – mais uma vez, acabando por ser inconsequente. Estava a bola a ser maltratada a meio campo, quando um peludo e preto cão, com tamanho suficiente para impor a todos respeito, invadiu o terreno de jogo, abocanhou o esférico e, não lhe conseguindo enfiar o dente, partiu atrás de um pombo que, inadvertidamente, tinha considerado aquela uma boa altura para ali pousar.
Tirando partido da confusão que se gerou, o jogador que envergava a camisola da Escola de Condução Lisbonense, chutou a bola para a baliza adversária, conseguindo fazê-la passar entre as mochilas que serviam de postes. “Goooolo” gritaram em uníssono os jogadores da sua equipa.
Foi o suficiente para se gerar uma tremenda confusão. Trocaram-se palavras amargas e desenharam-se no ar gestos contundentes. Depois, ofegantes e transpirados, com as energias a abandoná-los, foram todos beber água ao repuxo.
Quando pegaram nas mochilas e nos casacos, para se irem embora, iam a falar de miúdas e das férias que nunca mais chegavam.
Sozinho, sentado num banco de jardim, um velhote observava, divertido, a cena. Sentei-me perto dele e perguntei-lhe pelo resultado. Ajeitou a boina e sorriu-me antes de responder.
– Amizade, quinze a zero.

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domingo, maio 18, 2008

Depois da Tempestade

A língua parecia-lhe um trapo velho e ressequido pelo sol. Foi com esforço que a conseguiu passar pelos lábios gretados e muito inchados. O gosto a sal aumentou-lhe, na boca. Caso conseguisse, teria sorrido com a ironia da sua situação: estava prestes a morrer à sede, rodeado de água.
Arrastou-se na jangada e levou a boca ao oceano. No último instante, deteve-se. “Não, mais água do mar, não”. Deitou-se de costas nas madeiras molhadas do seu caixão flutuante e, prostrado e sem forças, amarrou o olhar na única nuvem que a vista alcançava. Disse uma oração e, com a última palavra, os olhos fecharam-se.

Jamais conseguirá afirmar com certeza o que lhe sucedeu a seguir, mas julga ter estado morto – mesmo que por breves instantes. Lamenta não se recordar se a vida lhe passou, em resumo, pela mente, como as apresentações de filmes, no cinema: sempre teve curiosidade em saber se a sua vida daria um filme minimamente interessante.
Ainda assim, não tem pressa em voltar a morrer.
Depois da nuvem, a primeira coisa de que se recorda, é algo parecido com uma chapada na cara e de ter muito frio. A custo, entreabriu os olhos. O azul do céu tinha dado lugar a um cinzento-escuro de mau augúrio e o mar, até então sereno, era agora uma sucessão de vagas alterosas que ameaçavam a todo o instante a sua ridícula embarcação. Furioso, parecia que o oceano se tinha revoltado contra o vento e que ambos lutavam. Começou a chover copiosamente.
A água tinha arrefecido consideravelmente e atingia-o com uma violência inusitada, como se fosse um castigo por ele se estar a intrometer numa contenda que não lhe dizia respeito. Quase o empurrando borda fora, também o vento o ofendia de toda a maneira e feitio. Agarrou-se às madeiras que o iam mantendo à tona e surpreendeu-se com uma força que julgava já não ter.
Ocorreu-lhe então que o mar e o vento não lutavam entre si, antes, lutavam contra ele. Tinham-se unido para, com verdadeiros requintes de malvadez, lhe tornar os últimos instantes, verdadeiramente insuportáveis. Quis gritar para pararem, que se rendia, mas da garganta nada lhe saiu. Era um joguete às mãos dos elementos, que se divertiam com a sua miséria.
Uma enorme e escura vaga surgiu do nada e elevou-o muitos metros. Durante um breve momento, conseguiu ver muito longe e tudo era escuridão. Depois, deixou de sentir a jangada debaixo de si e fechou os olhos. No instante seguinte, tudo tinha passado.

Uma dor aguda percorreu-lhe a mão direita. Ouviu um ruído estranho, caótico, ao longe. Julgou escutar o seu nome. Quis abrir os olhos, mas não foi capaz. Tentou mexer a mão. Sem sucesso. Uma perna. Depois a outra. Nada. Estava paralisado. Tudo lhe doía. Nada lhe era permitido. A mesma dor voltou a percorrer-lhe a mão, agora no sentido inverso.
Sentiu a língua mexer-se. Levou-a aos lábios. Já não estavam inchados, mas continuavam secos e, agora, cheios de areia. Tinha a boca aberta e percebeu que um fio de saliva lhe escapava pelo canto da boca. De novo o seu nome, ao longe. Seria possível? E novamente aquela sensação estranha na mão. Desta vez, não passou. Aos poucos, começou a distinguir partes do corpo, por entre a imensa dor que o afligia. As costas doíam-lhe particularmente. A cabeça também. Um grande calor invadiu-o.
Afastou um pouco a pálpebra direita e viu uma pequena forma, indistinta, à sua frente. Subitamente, moveu-se e com ela, a sensação estranha na mão. Abriu o olho e viu um pequeno caranguejo a afastar-se. “Vitalino”. Agora tinha a certeza, alguém chamava por si. “Tempestade…”, tentou articular a palavra, mas percebeu que nada tinha saído. Tentou de novo. “A tempestade… estou aqui…”. Conseguiu erguer um pouco o braço para acenar a quem o procurava, mas algo o atingiu na cabeça, interrompendo-lhe o pedido de auxílio. O impacto não o tinha propriamente magoado, apenas aturdido um pouco, aumentando a sua confusão e desespero.
Quando voltou a abrir o olho, viu um macaco mesmo à sua frente. Assustado, procurou encolher-se, como fazem os forcados que são atirados da cara do touro. Depois, achou que algo não estava bem. Voltou a abrir o olho. O macaco lá estava, a rir-se, com um penacho de pêlo pendurado do queixo. Por cima da cabeça, em letras gordas, a palavra GORILA, em amarelo. “Desculpe, foi sem querer”, e o macaco foi levado, debaixo do braço, por uma criança que depois chutou a bola insuflável. “Acorda Vitalino, já é tarde. Está quase a começar”.
A voz estridente e tão familiar da mulher teve o condão de o despertar. Estava em Carcavelos, na praia. “Levanta-te, olha a minha série”. Tinha adormecido. As costas ferviam-lhe. “A emissão da RTP Memória não espera e eu não me quero atrasar”. Ele suspirou profundamente. “Vitalino…” Acabou por levantar a cabeça. Abriu a boca para explicar à mulher que tinha tido um pesadelo em que quase morria, que depois de uma tão grande tempestade…
Ela interrompeu-o com um gesto. De sacola ao ombro, uma cadeira de praia numa mão e a geleira na outra, a mulher estava com cara de poucos amigos. A voz, carregada de impaciência. “Vai dar o Bonanza”.

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terça-feira, maio 13, 2008

A Montanha Vermelha

A montanha vermelha surgiu no desfazer de uma curva apertada. Que coisa estranha, em plena planície, por entre as árvores, uma montanha vermelha e em movimento.
Com os soluços da estrada, ia-se desmoronando à frente deles. Um bocado de vermelho aqui, outro ali. Plaaaf! E outro e outro. Plaaaf! Plaaaf! O alcatrão era uma imensa tela escura, onde manchas de vermelho se iam pintando.

O Fiat 127 tinha vencido cada metro de caminho com esforço e aquele lento compasso de espera, atrás do tractor carregado de tomate, soube bem a todos.
Talvez fosse da noite mal dormida, pela antecipação da viagem, talvez fossem os seus quatro anos condicionados pelas histórias que sempre pedia que lhe contassem, antes de adormecer – fantásticas, com personagens estranhos, em locais longínquos e muito diferentes; sítios que ele, um dia, iria visitar. Ou talvez fosse mesmo uma montanha vermelha que seguia à frente do carro, nas voltas da estrada, sempre ladeadas de frondoso arvoredo.
No banco de trás, quase de pé, João não tirava os olhos de tão incrível acontecimento. Achou que talvez os pais da montanha também lhe contassem histórias de locais fantásticos, antes de adormecer, e ela os fosse agora visitar.
Claro, só podia ser isso.
Ao entrar numa enorme recta, onde o sol chegava filtrado pelos ramos das árvores, o Fiat deu um grande solavanco, fez um barulho rouco e arrastado e depois, num assomo de energia, ganhou velocidade. Pouca mas, ainda assim, suficiente para se colocar lado a lado com as grandes rodas escuras da montanha. O rapaz colou o nariz à janela e bateu no vidro. Gritou:

– Vai mais devagar, estás a cair aos bocados. Assim não chegas lá. Esses sítios são muito longe.


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quinta-feira, maio 08, 2008

O Dia de Amanhã

Rodou a maçaneta da porta com um esforço desnecessário. A expressão era a de quem realizava uma tarefa superior a si. De olhos cerrados, encostou o corpo à porta, a boca rasgando-lhe a face, as veias a sobressaírem-lhe no pescoço. Por baixo da fina camisa de noite, os músculos dos braços contraíram-se e aumentaram de volume quando puxou a madeira para si. A cada centímetro, parava, suspendia a respiração e punha-se à escuta. Demorou até conseguir conquistar o mínimo espaço necessário para passar. Não precisava de muito: era magra e, em bicos de pés, alongava-se de uma tal maneira que a tornava quase invisível.

Esgueirou-se do quarto e logo parou, a meio do corredor, suspendendo novamente a respiração. Não se atreveu, sequer, a rodar a cabeça. A sensação de vazio que aquela casa, tão grande e tão cheia de tudo, lhe transmitia, apoderou-se dela por um momento, para logo ceder à sua determinação. Tudo permanecia escuro e silencioso, até que uma das velhas tábuas do soalho rangeu. Não porque ela se tivesse mexido, apenas porque tremia. Com o regresso do silêncio, avançou, decidida, que a movimentar-se sabia ser como as plumas. Parada, tudo lhe custava mais.
Guiada pela ténue luz que a lua conseguia empurrar para dentro de casa através das frestas das janelas, desceu a escadaria e parou de novo. Olhou em redor, à escuta, apenas os segundos necessários para se assegurar que continuava sozinha. Tremia, ainda – não de frio, mas de antecipação.
Com passos largos e leves, dirigiu-se à grande e pesada porta da mansão, curvando-se o suficiente para conseguir espreitar pela fechadura. A princípio, nada viu: tudo era uma imensa e pesada mancha escura. Depois, como se um poderoso vento por ali tivesse passado, o futuro, ainda que estreito e apertado, apresentou-se diante de si. E ela sorriu com o dia de amanhã.

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domingo, maio 04, 2008

O Pássaro

O topo da folha era o cume íngreme da colina. Dali, o olhar ganhava velocidade e vinha pelas palavras abaixo, aos trambolhões, passando por cima de figuras de estilo, das ideias e do enredo. Tal pressa nada tinha a ver com ela. Mas era-lhe, ali, superior.
A cada página atirada para a esquerda, levantava discretamente os olhos na direcção dele. Dois capítulos e três apeadeiros depois, mantinha-se imperturbável, o olhar atirado para longe, através da janela. Exactamente como ela o encontrara quando, timidamente, se havia sentado à sua frente.
Prosseguíram, durante mais algum tempo, viagem sozinhos, na inerte companhia um do outro, embalados no suave agitar do compartimento. Até...

Ela percebeu-lhe um movimento, ainda assim, não ousou olhar. Não até virar a folha. Tinha sido apenas um estremecimento, mas o suficiente para a deixar curiosa. Despenhou a vista pelos quatro últimos parágrafos e transpôs o olhar por cima do livro.
O homem continuava a olhar pela janela mas, agora, sorria. A expressão era a de alguém que, após uma longa viagem, tinha chegado ao destino. Ela franziu a testa: o comboio estava ainda longe da próxima paragem. Um inusitado solavanco apanhou-a desprevenida e fê-la levar a mão ao parapeito da janela. Nesse instante, o dia tornou-se noite e ela deixou de ver. Abriu muito os olhos, mas tudo era um denso e sufocante negrume. Percebeu que tinham entrado num túnel, sem que as luzes se tivessem acendido.
Sentiu um toque suave na mão, seguido de um arrepio frio. Assustou-se. Sem pensar no que ia dizer, afastou os lábios para falar no preciso momento em que o dia regressou, na mesma pressa com que os tinha deixado. Instintivamente, fechou os olhos. Deixou-se ficar, assim, ainda no escuro, durante algum tempo. Tinha percebido algo, uma sombra, um movimento, uma diferença, uma perturbação. Não conseguiu decifrar o regresso à luz. Talvez não tivesse sido nada.
Quando voltou a abrir os olhos, estava sozinha. A janela – que tinha estado fechada – estava agora entreaberta. No banco, à sua frente, uma pena preta de pássaro.

Levantou o livro e leu: “Hoje era um dia bom. Finalmente, após uma longa e extenuante luta consigo próprio, era livre.”
Aquela passagem do livro não lhe dizia nada. Parecia não fazer sentido com o que tinha lido até aquele momento. Olhou em redor e depois pela janela. Por fim, decidiu voltar três capítulos atrás, retomar o ponto em que ia antes de entrar no comboio. O sentido das coisas estaria, seguramente, ali, algures.

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segunda-feira, abril 28, 2008

O Estojo (16)

Colégio Feminino 14 – Mais um Ano de Deboche. Filme exclusivamente com raparigas. Joaquim recordou o fiasco e engoliu em seco. Não, decididamente, não podia voltar a cometer erros, repetiu mais uma vez para si, enquanto continuava a caminhar de um lado para outro, no quarto.
Deteve-se em frente ao espelho que tinham por cima da cómoda e este devolveu-lhe um rosto sério, macilento e com olheiras. Desviou o olhar para a larga tira de renda que cobria a parte central do móvel e caía para os lados, até meio. Tinha vindo no enxoval de Deolinda, feita por Jesuína “com muito amor e carinho, a pensar num dia feliz como este”.

Em cima da renda estava uma pequena caixa de jóias em madeira. Abriu-a. Estava vazia. Abriu depois a primeira gaveta. Para além da roupa interior da mulher – também ela vinda no enxoval – encontrou lá as duas embalagens de perfume que lhe tinha oferecido no último ano. Abriu as caixas. Os frascos estavam cheios. Cheirou ambos. Na opinião dele, eram fragrâncias agradáveis.
Quando os olhos regressaram ao espelho, uma ideia começava a tomar forma no seu espírito. O rosto tinha-se animado.
Pegou no casaco e na carteira e saiu de casa.

A loja estava profusamente iluminada. No ar, sentia-se um aroma doce. Eram vários os expositores e muita e variada a oferta disponível. Uma batida electrónica descia da instalação sonora. Desorientado com a súbita sensação de dejá vu, Joaquim deu dois passos e parou, tentando concentrar-se. Teve que fazer um esforço para se lembrar do que estava ali a fazer.


– Boa tarde. Posso ajudá-lo? – uma rapariga morena, alta, magra, muito bem maquilhada e a cheirar a flores, sorria-lhe o sorriso mais resplandecente que ele alguma vez tinha visto.
– Er… pode, sim… eu, como é que lhe consigo explicar isto?! A minha mulher, ela… não é muito dada a estas coisas… – a vendedora da perfumaria mantinha o sorriso jovial e acenava ligeiramente com a cabeça, como se soubesse exactamente o que ele queria dizer, o que o tranquilizou. – Você sabe. Eu queria… vocês não têm à venda, tipo, um kit de beleza, com um pouco de tudo. Ela nunca usa e está a precisar.

A rapariga não conteve o riso e pediu para a acompanhar. Dirigiram-se ao expositor dos estojos de maquilhagem, onde se demoraram.

* * *

Deolinda engravidou pouco depois. O rapaz, Afonso Prazeres Aleluia, foi a alegria de todos mas, logo a seguir ao seu primeiro aniversário, Joaquim convenceu-se que havia algo irremediavelmente danificado na relação, algo que ele jamais conseguiria reparar – algo que ele, percebeu sem qualquer margem de dúvida, já não queria sequer tentar reparar. Deolinda escutou uma longa explicação do marido sobre as razões que o levavam a pedir-lhe o divórcio, sem qualquer emoção visível. No final, limitou-se a encolher os ombros e a dizer “está bem, mas fico eu com o miúdo”.
Joaquim não voltou a casar. Vive actualmente em união de facto com uma colega de trabalho e tem uma filha dessa relação. Era suposto ele ficar com Afonso aos fins-de-semana, mas o rapaz dá noites más, chora muito – a avó Jesuína diz serem pesadelos causados pela separação dos pais – e, com a desculpa de não perturbar a irmã, passa quase todo o tempo em casa dos avós paternos.
Joaquim diz que é feliz.
Deolinda vive para o filho. Afirma com convicção não querer saber de mais homem nenhum. É mãe extremosa e ajuda os pais na loja enquanto o filho está na creche.
Nunca chegou a abrir o estojo de maquilhagem.

FIM

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quinta-feira, abril 24, 2008

O Estojo (15)

Não foi fácil a Joaquim explicar a compra do lubrificante.


– Às vezes pode dar jeito, tu sabes.
– Não, não sei.
– O senhor disse que facilitava, que é natural…
– Tu andas a falar da nossa vida com outras pessoas, Quim?
– Na, na, eu não! Falou-se nisso, mas genericamente... da… do… de não ser fácil, às vezes… tu… eu… – com o dedo indicador a apontar, parecia seguir o voo errante de um qualquer insecto invisível. Depois de um breve silêncio, baixou o braço e os olhos. – Eu não falei com ninguém. Comprei isso porque estava em promoção e… pareceu-me uma boa ideia. Tu sabes que às vezes… não foi por mal.

Deolinda hesitou sobre a reacção a ter. Se por um lado se sentia, de alguma maneira, diminuída por aquilo, por outro, não deixou de achar que podia ser, de facto, útil. Foi sentar-se no sofá e colocou debaixo de cada braço, na vertical, uma almofada. Soprou o cabelo da franja. No olhar, já mal se distinguiam dois pequenos pontos luminosos.


– Põe lá isso a andar.

Joaquim apagou as luzes e colocou o DVD no leitor. Uma luz esverdeada tomou conta do ecrã do televisor, iluminando um rosto sorridente e duro como pedra. Foi sentar-se ao lado da mulher e tentou em vão tirar a almofada que os separava. Resignado, apontou o comando.


– Como é que isto se chama?
– Boa pergunta. Nem vi. Eu posso…
– Deixa estar, não interessa.

Depois de um breve genérico, surgiu em grande plano uma mangueira que a câmera acompanhou até um aspersor que estava desligado. O plano abriu, revelando um relvado e uma estrada de cascalho, que terminava junto à escadaria dum edifício com ar antigo e pesado. Um carro deteve-se junto dos degraus e dele saiu uma rapariga loura, apertando contra si um dossier. Joaquim reconheceu-lhe o uniforme e tossiu. A estudante subiu as escadas e entrou.
A câmera fez então o movimento inverso, terminando no aspersor que, desta vez, projectava grandes golfadas de água em todas as direcções.

Sala de aula. Seis estudantes – uniformizadas na roupa e no físico – escutavam a directora – ar severo, no seu saia-casaco preto e saltos altos. Escola em regime de internato. Primeiro dia de aulas. Sessão de boas vindas, incluindo conjunto de regras – duras – a cumprir. Penalidades para quem prevaricar. Trocam-se olhares. Línguas humedecem lábios. Pernas cruzam-se e descruzam-se como se fosse uma aula de dança.
Sente-se ansiedade na sala. Joaquim mexe-se no sofá. Coloca um braço nas costas do sofá, atrás da mulher.
Quarto. Duas raparigas partilham o exíguo espaço. Apresentam-se. Concordam no ar ameaçador da directora. Uma queixa-se do calor e despe-se. Vai tomar banho. Banho demorado, em que nenhum milímetro de pele é descurado. A colega, na cama, lê um livro. Está nua. “Queres ajudar-me com o top”? Trocam-se elogios à beleza e ao corpo fantástico. Carícias. Beijos. Sexo.


– Passa isso para a frente, Quim.

Fast Forward.

Corredor. Directora bate à porta. Aluna abre. Esqueceu-se de um livro na sala de aula. “Obrigado. Já agora, entre”. Trocam-se elogios à beleza e ao corpo fantástico. Carícias. Beijos. Sexo.


– Passa isso para a frente, Quim.

Fast Forward.

Ginásio. Duas alunas atiram uma bola de basquete uma à outra. Risos histéricos. Comentários sobre mais um ano lectivo que começa. Balneário. Banho. Trocam-se elogios à beleza e ao corpo fantástico. Carícias. Beijos. Sexo.


– Já sei – e Joaquim passou o filme para a frente.
– Onde é que estão os homens, Quim?

(continua)

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terça-feira, abril 22, 2008

O Estojo (14)

– Eu não queria comprar aquilo. A sério… estava só a ver… quer dizer, não estava… eu estava… foi sem querer… – Joaquim sentia fios de suor a escorrem-lhe pelas costas. Tinha tirado o boné e o casaco: precisava dissipar o lume em que se sentia arder. Com os olhos baços, o empregado da sex-shop olhava para ele, mas Joaquim duvidava que o estivesse a ver, quanto mais a ouvir. Ainda assim, continuou a explicar-se: – Não sou desses, hã?! Não vê o filme que eu vou levar? Naaaaa, eu cá não sou desses. Aquilo… foi… uma brincadeira… er…

Com um movimento maquinal, o empregado rodou lentamente a cabeça para o televisor e deixou-a cair para a frente. Pouco a pouco, como se se tornasse subitamente pesado, o queixo descaiu-lhe. Raios laser e naves espaciais reflectiram-se nos seus olhos cinzentos.


– Gosto da sua gravata. A minha mulher comprou-me uma parecida, no Natal… foi a minha sogra, mas isso… sabe, a minha mulher, ela… ela é assim, pronto – Joaquim andava com o fecho do casaco para cima e para baixo. – Eu não a culpo de nada… ela não tem culpa de nada. Continua a mesma Deolinda de sempre… sabe, eu já a conheci assim… por isso… – encolheu os ombros – é metida consigo, está a ver?! Um bocadito alheada do resto, daquilo que está para além do alcance do braço… mas eu apaixon… eu gostei dela assim, fazer o quê?! Talvez tenha achado que a conseguia mudar… – o fecho encravou e Joaquim começou a batucar com as pontas dos dedos no balcão; o olhar preso no movimento ritmado da mão. – Vou levar este filme para ver se… é que… eu acho que sim… que é uma coisa importante na vida de um casal… acho que sim… – ficou algum tempo em silêncio. OFleur d’Amour… se é afrodisíaco, eu levo. E aquilo ali, aquelas embalagens em promoção? – apontou para um expositor na outra extremidade do balcão. O empregado soltou um grunhido que Joaquim não decifrou: – Lubi quê?

O barulho da percussão digital foi abafado por uma gigantesca nave que, na televisão, desafiava as leis da física, rugindo ferozmente enquanto cruzava a imensidão de vácuo galáctico, em direcção a uma longínqua bola cor de laranja. Quando se preparava para aterrar numa pantanosa cratera, Joaquim voltou a falar: – Sabe uma coisa? Se calhar, quem tem de mudar sou eu. É isso mesmo! Vai na volta, é mais um problema meu que dela – parou com o batuque e sorriu um sorriso natural. – Isto aqui é o quê?

Os artigos foram registados, colocados dentro de um saco e o troco feito sem que o empregado tivesse descolado o olhar do televisor. Dois monstros peganhentos e cabeludos, lutavam impiedosamente. Joaquim, por seu lado, estava animado e satisfeito com as compras. Enquanto vestia o casaco e colocava o boné, afirmou:


– O senhor é um bom ouvinte, sabe. Nem todas as pessoas que estão a atender outras têm essa capacidade. Há por aí muita falta de pachorra. Muita cera no ouvido. Gostei verdadeiramente de o conhecer. Então, boa noite – quando já estava perto da porta, voltou para trás. – E não posso deixar de lhe agradecer os conselhos que me deu. Muito obrigado. Acho mesmo que é mais um problema meu que outra coisa. Que me está a escapar algo… – tomou a direcção da porta e parou. Hesitou durante uns segundos e regressou de novo ao balcão. – Já agora, uma pergunta. Em vez de desenhos animados, você não devia estar a ver filmes de… – fechou o punho e deu uns quantos socos tímidos no ar – você sabe…

O empregado levantou a cabeça e olhou para Joaquim como se ele fosse louco.

(continua)

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segunda-feira, abril 21, 2008

O Estojo (13)

Enquanto Deolinda abria a janela da sala, Joaquim foi para a cozinha preparar o jantar. Retirou vários recipientes cobertos com película aderente do frigorífico, abriu a garrafa de vinho – sem acidentes de maior – e passou a travessa Cozinha Velha por água. Depois, separou os pedaços de frango: de um lado, as asas e as pernas (para ela), do outro, o peito (para ele) e levou tudo para a sala. Não deixou que ela se servisse:


– Eu sirvo-te, querida – com um pano de cozinha no ombro e o mais cerimoniosamente que conseguiu, colocou com um garfo, uma asa, uma perna e três rodelas de tomate, num prato. Seguidamente, abriu o pacote de batatas fritas Pála Pála e colocou uma mão-cheia no prato, que passou à mulher. Encheu o copo dela de vinho e repetiu a operação para si próprio, não vendo a careta que Deolinda fez quando, como o dedo, percebeu que a temperatura se tinha escapado por completo da ave. Mordeu o lábio inferior e nada disse.
Não tocaram nos patês nem no pão e nada disseram até só haver ossos nos pratos.


– Gostei de ter dançado… – sem olhar para o marido, Deolinda ia empurrando um osso de frango, com a faca. Joaquim ficou sem reacção. Muito sério, contemplou o osso a rebolar de um lado para o outro no prato da mulher. Depois de uns segundos de silêncio, levantou-se e recolheu os pratos sujos.
– E agora, temos uma sobremesa que é um mimo – afirmou, indo para a cozinha. Regressou com uma taça de mousse e um tupperware cheio de morangos. – Funciona assim, metes o morango na mousse e comes. É um manjar dos deuses.
– O chocolate faz-me borbulhas. Sabes isso.
– Oh, só um bocadinho não pode fazer mal – e encheu os copos com mais vinho.

Enquanto Joaquim levantou a mesa, Deolinda foi conferir o estado do seu espelho de água caseiro. Confirmou as suas piores suspeitas: a água estava turva, cheia de cinza do incenso. Rangia os dentes quando o marido voltou à sala e se dirigiu ao móvel das bebidas. Colocou-se de cócoras e depois, como que accionado por uma mola, ergueu-se com um salto. Tinha na mão um saco e na boca um sorriso dos tais.


– Nem penses – atirou-lhe ela, bruscamente, ao mesmo tempo que saía da sala.
– Hã?
– Estou cheia e ainda quero ver as notícias. E bem podes ir pondo a novela a gravar…
– Vais onde, querida?
– Dar de comer aos peixes e depois à casa de banho, posso?

Programou o gravador, colocou a loiça na máquina, varreu o chão da cozinha e foi por o lixo à rua. Quando Joaquim regressou a casa, deu com Deolinda no meio da sala, hirta e muito vermelha, com uma embalagem na mão. No chão, a seus pés, jazia o saco das compras.


– O que é isto, Quim? – leu o rótulo em voz alta: – Wet n’ Wild, wine grape, sugar free, non staining, flavoured lubricant… – permaneceu quieta, lívida e com a boca escancarada. No olhar, ardia-lhe uma fogueira imensa.

(continua)

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sábado, abril 19, 2008

O Estojo (12)

Joaquim veio esperar a mulher à rua.
– Anda, vamos os dois à churrascaria – disse ele, pegando-lhe na mão.
– Já? Não é cedo?
– Não. Há certas coisas que se querem feitas com calma – Deolinda ia lançar-lhe uma farpa, mas susteve a respiração. Com voz pausada, disse:

– Não podes ir comprar o frango sozinho? Estou cansada.
– Cansada? – Joaquim engoliu em seco. – Isso quer dizer que… – foi incapaz de concluir.
– Não tão cansada assim, não te preocupes.
– Ah… ah… boa… ainda bem.
– Vai lá tu ao frango. Quero ir por os pés de molho e rapar os pêlos das pernas.
– Não podes ir para casa, temos que chegar juntos. Preparei umas coisinhas…

À medida que se aproximavam de casa, o sorriso de Joaquim era cada vez mais evidente, comprimindo-lhe as maçãs do rosto contra os olhos. Deolinda sentia-lhe os nervos na mão esquerda, aquela que ele teimava em não largar. Quando entraram no prédio, não se conteve:


– Agora já chega – soltou-se e sacudiu a mão, que estava escura.

Subiram as escadas em silêncio. No último degrau, Joaquim parou e encarou a mulher:


– Tens que ficar aqui um bocado – ela franziu a testa. – Quero que esteja tudo perfeito, quando entrares – ela ia falar, mas Joaquim colocou-lhe o dedo indicador direito nos lábios. – Por favor.

Deixou a porta encostada, enfiou o saco com o frango no forno e levou para a sala o pão e a salada de tomate, que colocou na mesa. Acendeu as velas e o incenso. De volta à cozinha, retirou a garrafa de Raposeira do frigorífico e começo a abri-la, quando a voz de Deolinda se fez ouvir:


– O frango está a arrefecer, Quim – tinha-se aproximado da porta e tentava espreitar pela fresta. – Tu sabes que eu não gosto do frango frio.
– Já vai… – tinha a garrafa presa entre as pernas e puxava pela rolha, que teimava em não sair. – Que porra...
– Que pivete é este?
– É do Fleur
– gritou da cozinha. Vá lá, pá… caraças… abre! Mãezinha do céu…
– O que é que estás a fazer, Quim? – estava agora com a cabeça encostada à porta, tentando enfiar o olhar pela minúscula abertura.
Por fim, com os dentes, Joaquim conseguiu retirar a rolha.


– Fosgasse!... Copos... copos, isto devia beber-se naqueles… bem me tinha que esquecer de alguma coisa… – foi ao móvel da sala, pegou em dois copos long drink e colocou o cd a tocar. Uma voz grave e profunda, encheu o pequeno apartamento.

“I've heard people say that too much of anything

Is not good for you baby

But I don't know about that

As many times as we've loved

Shared love and made love

It doesn't seem to me like it's enough

It's just not enough”


– Quem é que está aí contigo? Que barulheira é esta? – Joaquim apareceu à porta, sorriso rasgado. Estendeu um copo à mulher:
– A uma noite inesquecível.
– Olha os vizinhos… – e entraram. – Isto é o quê? – perguntou ela com o nariz enfiado no copo.
– Espumante.
– Tu sabes que eu não aprecio coisas com gás. Nunca me viste beber Sumol. Faz-me azia….
– Uma vez não pode fazer mal – ele estendeu o copo para um brinde, mas Deolinda já tinha despejado o seu copo, de um trago.
– O frango já deve estar frio. E esta música…
– Anda, vamos para a sala – num movimento rápido, Joaquim pegou na mão da mulher e fê-la rodar, ficando os dois apertados um contra o outro. – Nunca dançámos.
– Por uma boa razão, eu não…
– Só precisas de me seguir.
– Olha lá, este cheirete não vai ficar entranhado nas cortinas?

(continua)

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quinta-feira, abril 17, 2008

O Estojo (11)

Não, decididamente, não podia voltar a cometer erros, repetia Joaquim para si mesmo, relembrando os acontecimentos funestos do dia em que viram o filme.
Surpreendentemente, Deolinda até aceitou bem a sugestão. A princípio, mostrou-se chocada, depois, considerou a ideia sem jeito, terminando por ceder, com o argumento que se ele achava que ajudava a relação, estava disposta a fazer o sacrifício – sem confessar que tinha sentido uma desinquietante curiosidade em saber como reagiria ela a outros homens nus; “quem sabe se, imaginando-os”… Marcaram para daí a quatro dias, sábado.
Sem nada dizer à mulher, Joaquim tratou de tornar o dia especial. A ideia de ser só o filme pelo filme, causava-lhe desconforto. Decidiu elaborar “um plano mais vasto”: pediu à mãe parte do serviço Vista Alegre, os talheres Cutipol e um candelabro; comprou velas aromáticas, uma garrafa de vinho tinto – em que gastou quase sete euros – e outra de Raposeira, para aperitivo; aconselhou-se com o amigo Tavares – mais experiente nas coisas do romantismo –, sobre a música ambiente, a entrada e a sobremesa.

Chegado o dia, Deolinda foi almoçar a casa dos pais e Joaquim para a cozinha: retirou os patês La Piara das embalagens e colocou-os num prato (“mais chique”, nas palavras do amigo); fez uma salada de tomate; preparou a mousse de chocolate, certificando-se que a quantidade de água estava absolutamente como dizia no pacote (“parte umas nozes e põe por cima, tem mais pinta”); lavou os morangos, com que iriam acompanhar a mousse e partiu-os aos quartos (“uma sobremesa que é um sainete”); colocou o vinho e o espumante no frigorífico; pôs a mesa na sala; colocou o cd emprestado de Barry White a jeito (“elas ficam passadas com a voz do gajo”); as velas no candelabro, certificou-se que tinha fósforos e partiu pão. Dirigiu-se depois ao móvel da sala onde guardava algumas bebidas alcoólicas para oferecer às visitas – todas por abrir – e, de detrás delas, puxou o saco de plástico onde guardava as compras que fez na sex-shop. Retirou um dos três objectos e voltou a guardar o saco. Sorriu quando leu a embalagem: Fleur d’Amour – Incenso Afrodisíaco.


– Oh diabo, então isto é em palitos? Onde é que eu agora vou espetar isto?! – interrogou-se, coçando a cabeça. Acabou por colocar dois paus de incenso na pequena sereia que tinham na sala.

Tinha sido o presente de casamento dos avós: uma coluna com quase um metro e meio, encimada por uma jovem sereia em loiça que, posta em sossego num rochedo, entornava um cântaro. Enchido o depósito e ligada a electricidade, um motor punha a água a circular, fazendo-a cair do cântaro para uns degraus, terminando num pequeno charco, no qual a rapariga perdia o olhar.
Agora, para além do recipiente, a sereia amparava em cada braço uma espécie de lanças do amor.

(continua)

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terça-feira, abril 15, 2008

O Estojo (10)

Considerou a altura péssima para se lembrar de tal coisa: talvez tivesse sido boa ideia perguntar primeiro a Deolinda se queria ver um filme pornográfico com ele. Fitou a porta, depois o empregado – que se mantinha em transe – e considerou sair da loja a correr.


– Disparate. Levas o filme, escondes bem escondido e fazes-lhe a conversa – disse ele, como se estivesse a falar com alguém. – Passas-lhe a mão pelo pêlo, amansas… a fera…

Tirou da prateleira uma caixa com a foto de uma rapariga que fazia um trejeito com a boca, como se estivesse muito, muito zangada. Vestia cabedal e brandia um chicote, enquanto espezinhava com os stilettos o que parecia um corpo masculino, gordo e peludo, metido dentro de umas cuecas de látex e com uma máscara a cobrir-lhe a cabeça. Chun-Li A Fera Asiática, leu ele em voz alta. Com as mãos a tremer, quase deixava cair a caixa quando a devolveu ao expositor. Olhou em redor. Tudo se mantinha calmo. E foi então que umas quantas raparigas loiras lhe sorriram.
Aparentavam ser muito novas, felizes e moderadas no uso de roupa – envergavam mini fardas colegiais, em cores garridas. A vida, seguramente, corria-lhes bem e Joaquim devolveu-lhes o sorriso. Pegou no dvd. Estava decidido, ia aquele.
Naquele momento, uma descarga de adrenalina percorreu-lhe o corpo e ele estremeceu. Depois, sentiu-se aliviado e até um pouco eufórico. Afinal, não tinha sido assim tão difícil. Estava confiante, até, algo que já tinha esquecido como era sentir. “As coisas que uma sex-shop fazem a uma pessoa”. Espantou-se.

Dirigiu-se ao balcão, onde o empregado se mantinha impávido, mas não sereno a olhar para o ecran – parecia ter sido mumificado naquela posição, com a cabeça pendurada para a frente e a boca ligeiramente aberta; havia nele algo que perturbava. Joaquim alterou a trajectória para conseguir ver o que provocava aquele estado catatónico. Dirigiu-se a um outro expositor, onde fingiu estar a observar algo, mas apenas imaginava cenas depravadas. Discretamente, levou o olhar até ao balcão. Para sua surpresa, tratava-se apenas de um filme de banda desenhada.
Foi nessa altura que a cabeça do empregado rodou no nó da gravata e o olhar dos dois se cruzou. Como se tivesse sido apanhado em falta, Joaquim virou-se rapidamente para a frente e soltou um grito, horrorizado: sem dar conta, tinha pegado num artigo exposto. Muito vermelho e com a face a arder-lhe, deu por si com um comprido e rugoso pénis a baloiçar-lhe na mão.

(continua)


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