terça-feira, abril 22, 2008

O Estojo (14)

– Eu não queria comprar aquilo. A sério… estava só a ver… quer dizer, não estava… eu estava… foi sem querer… – Joaquim sentia fios de suor a escorrem-lhe pelas costas. Tinha tirado o boné e o casaco: precisava dissipar o lume em que se sentia arder. Com os olhos baços, o empregado da sex-shop olhava para ele, mas Joaquim duvidava que o estivesse a ver, quanto mais a ouvir. Ainda assim, continuou a explicar-se: – Não sou desses, hã?! Não vê o filme que eu vou levar? Naaaaa, eu cá não sou desses. Aquilo… foi… uma brincadeira… er…

Com um movimento maquinal, o empregado rodou lentamente a cabeça para o televisor e deixou-a cair para a frente. Pouco a pouco, como se se tornasse subitamente pesado, o queixo descaiu-lhe. Raios laser e naves espaciais reflectiram-se nos seus olhos cinzentos.


– Gosto da sua gravata. A minha mulher comprou-me uma parecida, no Natal… foi a minha sogra, mas isso… sabe, a minha mulher, ela… ela é assim, pronto – Joaquim andava com o fecho do casaco para cima e para baixo. – Eu não a culpo de nada… ela não tem culpa de nada. Continua a mesma Deolinda de sempre… sabe, eu já a conheci assim… por isso… – encolheu os ombros – é metida consigo, está a ver?! Um bocadito alheada do resto, daquilo que está para além do alcance do braço… mas eu apaixon… eu gostei dela assim, fazer o quê?! Talvez tenha achado que a conseguia mudar… – o fecho encravou e Joaquim começou a batucar com as pontas dos dedos no balcão; o olhar preso no movimento ritmado da mão. – Vou levar este filme para ver se… é que… eu acho que sim… que é uma coisa importante na vida de um casal… acho que sim… – ficou algum tempo em silêncio. OFleur d’Amour… se é afrodisíaco, eu levo. E aquilo ali, aquelas embalagens em promoção? – apontou para um expositor na outra extremidade do balcão. O empregado soltou um grunhido que Joaquim não decifrou: – Lubi quê?

O barulho da percussão digital foi abafado por uma gigantesca nave que, na televisão, desafiava as leis da física, rugindo ferozmente enquanto cruzava a imensidão de vácuo galáctico, em direcção a uma longínqua bola cor de laranja. Quando se preparava para aterrar numa pantanosa cratera, Joaquim voltou a falar: – Sabe uma coisa? Se calhar, quem tem de mudar sou eu. É isso mesmo! Vai na volta, é mais um problema meu que dela – parou com o batuque e sorriu um sorriso natural. – Isto aqui é o quê?

Os artigos foram registados, colocados dentro de um saco e o troco feito sem que o empregado tivesse descolado o olhar do televisor. Dois monstros peganhentos e cabeludos, lutavam impiedosamente. Joaquim, por seu lado, estava animado e satisfeito com as compras. Enquanto vestia o casaco e colocava o boné, afirmou:


– O senhor é um bom ouvinte, sabe. Nem todas as pessoas que estão a atender outras têm essa capacidade. Há por aí muita falta de pachorra. Muita cera no ouvido. Gostei verdadeiramente de o conhecer. Então, boa noite – quando já estava perto da porta, voltou para trás. – E não posso deixar de lhe agradecer os conselhos que me deu. Muito obrigado. Acho mesmo que é mais um problema meu que outra coisa. Que me está a escapar algo… – tomou a direcção da porta e parou. Hesitou durante uns segundos e regressou de novo ao balcão. – Já agora, uma pergunta. Em vez de desenhos animados, você não devia estar a ver filmes de… – fechou o punho e deu uns quantos socos tímidos no ar – você sabe…

O empregado levantou a cabeça e olhou para Joaquim como se ele fosse louco.

(continua)

boomp3.com

12 comentários:

lélé disse...

Agora perdi-me!... O Joaquim rebobinou ou as primeiras compras (quase) funcionaram?

Rui disse...

lélé,

É o autor que anda há demasiado tempo no reboninanço.
As compras são esclarecidas (????) na parte 15 (!!!!).

sinhã, a. disse...

Ou: a loucura deixou-se olhar. :-)

Leonor disse...

Rui

desculpa, não venho comentar (ainda). não sei se compras o público, mas hopje é oferecido o livro Pintor de Retratos de Luis António de Assis Brasil, que por sinal tb não sei quem é (sou muito ignoranbte em muitas coisas) em que a fotografia é a personagem central de uma hist´+oria de aventuiras. Foi Prémio Machado de aSSIS.
achei que te podia interessar

até logo que estou com pressa

Rui disse...

Leonor,

Desconhecia. Deixa ver se ainda o encontro quando sair daqui.

Obrigado.

Rui Caetano disse...

Um texto para continuar a ler.

un dress disse...

penso que o comportamento adequado para o empregado é bem...

semelhante ao de quem vai a qualquer outra loja,,,

sapataria, mercearia...por aí.

e o joaquim a precisar tanto dum apadrinhamente compreensivo!!

não tem sorte este rapaz...mas esforça-se...lá isso!!

e pronto, e lá veio o olhar da dúvida, o último olhar...:)




beijJo

rosasiventos disse...

queria assim só esta lisura antiga deserta e


vegetal
´

- pois, mas agora não, respondeu ela! :)

karvoeiro disse...

saraba!

Carla disse...

ok...um pequeno intervalo para aguçar ainda mais o apetite
...venha o resto rapidamente
bom fds
beijos

Gi disse...

Lembrei-me que dizem que não há mulheres frígidas ... só homens incompetentes , será o caso do Joaquim? Olha, começo a ficar com pena da Deolinda ... foram precisos 14 estojos :)

Vanda disse...

Essa de publicar precocemente e não avisar devia merecer castigo :)