segunda-feira, abril 21, 2008

O Estojo (13)

Enquanto Deolinda abria a janela da sala, Joaquim foi para a cozinha preparar o jantar. Retirou vários recipientes cobertos com película aderente do frigorífico, abriu a garrafa de vinho – sem acidentes de maior – e passou a travessa Cozinha Velha por água. Depois, separou os pedaços de frango: de um lado, as asas e as pernas (para ela), do outro, o peito (para ele) e levou tudo para a sala. Não deixou que ela se servisse:


– Eu sirvo-te, querida – com um pano de cozinha no ombro e o mais cerimoniosamente que conseguiu, colocou com um garfo, uma asa, uma perna e três rodelas de tomate, num prato. Seguidamente, abriu o pacote de batatas fritas Pála Pála e colocou uma mão-cheia no prato, que passou à mulher. Encheu o copo dela de vinho e repetiu a operação para si próprio, não vendo a careta que Deolinda fez quando, como o dedo, percebeu que a temperatura se tinha escapado por completo da ave. Mordeu o lábio inferior e nada disse.
Não tocaram nos patês nem no pão e nada disseram até só haver ossos nos pratos.


– Gostei de ter dançado… – sem olhar para o marido, Deolinda ia empurrando um osso de frango, com a faca. Joaquim ficou sem reacção. Muito sério, contemplou o osso a rebolar de um lado para o outro no prato da mulher. Depois de uns segundos de silêncio, levantou-se e recolheu os pratos sujos.
– E agora, temos uma sobremesa que é um mimo – afirmou, indo para a cozinha. Regressou com uma taça de mousse e um tupperware cheio de morangos. – Funciona assim, metes o morango na mousse e comes. É um manjar dos deuses.
– O chocolate faz-me borbulhas. Sabes isso.
– Oh, só um bocadinho não pode fazer mal – e encheu os copos com mais vinho.

Enquanto Joaquim levantou a mesa, Deolinda foi conferir o estado do seu espelho de água caseiro. Confirmou as suas piores suspeitas: a água estava turva, cheia de cinza do incenso. Rangia os dentes quando o marido voltou à sala e se dirigiu ao móvel das bebidas. Colocou-se de cócoras e depois, como que accionado por uma mola, ergueu-se com um salto. Tinha na mão um saco e na boca um sorriso dos tais.


– Nem penses – atirou-lhe ela, bruscamente, ao mesmo tempo que saía da sala.
– Hã?
– Estou cheia e ainda quero ver as notícias. E bem podes ir pondo a novela a gravar…
– Vais onde, querida?
– Dar de comer aos peixes e depois à casa de banho, posso?

Programou o gravador, colocou a loiça na máquina, varreu o chão da cozinha e foi por o lixo à rua. Quando Joaquim regressou a casa, deu com Deolinda no meio da sala, hirta e muito vermelha, com uma embalagem na mão. No chão, a seus pés, jazia o saco das compras.


– O que é isto, Quim? – leu o rótulo em voz alta: – Wet n’ Wild, wine grape, sugar free, non staining, flavoured lubricant… – permaneceu quieta, lívida e com a boca escancarada. No olhar, ardia-lhe uma fogueira imensa.

(continua)

boomp3.com

15 comentários:

Baudolino disse...

Continua??? Exige-se o resto!
Abraço
P.

Maria Liberdade disse...

Fogueira... de paixão ou de raiva?

Lyra disse...

Hoje não me apetece comentar..., apetece-me apenas deliciar-me e guardar só para mim todas as imagens que saltam da tua escrita.

Beijinhos e até breve.

Egoísticamente (risos), Lyra

;O)

JPD disse...

É claro que a Deolinda é senhora do seu nariz e, apesar de conhecer esse facto, o Joaquim terá avaliado mal a sua iniciativa.

Ela não aceita os termos da proposta e ele não está seguro da iniciativa nem a dominar a situação.

Era previsível tendo em conta «Os Estojos» anteriores.

Mas o segredo deste «ESTOJO» residirá nesse detalhe: o domínio desnivelado a favor da Deolinda foi desde o início claramente apresentado e mantido.

É claro que o autor terá de «retirar» o Joaquim do beco em que ele se está a encurralar. Como? -- aguardo serenamente.

lélé disse...

Como pergunta a Maria Liberdade, será uma fogueira de raiva ou de paixão? E, já agora, como diz o JPD (ou como eu penso que ele quis dizer), o Joaquim está cada vez mais enterrado. Com estes ingredientes, agora sim, temos um brilhante momento de suspense alfredino...

alice disse...

a vantagem das borbulhas é retardar as rugas :) beijinhos, rui

~pi disse...

bem...digo-te que se eu fosse o joaquim

já tinha feito a deolinda questionar...ou questionarem juntos

qualquer coisa,,,enfim, as origens, por exemplo...

tipo: mas onde se fazem deolindas e joaquins e como se disseminam, afinal?

sim...pois!

onde!? :)


[ ou seremos todos candidatos?
ai jesus nos valha!!

sinhã, a. disse...

Olhos de gelo quente. :-)

Carla disse...

como é que isto vai acabar? qual será a reacção da Deolinda?
venha rápido o resto do estojo
beijos

morfose disse...

Espero pelo resto.

Azul disse...

Olá senhor Rui. Estava atrasada nas noticias, mas já recuperei. Pois então, a coisa não começou nada mal. A dança anima sempre uma mulher, mesmo que o cavalheiro seja um pé de chumbo. lol
Atão, pois claro: se a Deolinda, o que gosta é de frango assado. De-se-lhe frango assado, a ver se ela percebe que o homem anda cheio de fominha dela!

Mas, aqui pra nós, olhe que se ao Joaquim lhe falta qualquer coisa, que a bem dizer, nem sei bem o que será; a doce deolinda é cá uma enjoada que só lhe digo! Benza-os deus, senhores! benza-os deus!!

Beijo. até breve. Azul.

São disse...

Meu Deus, vou ficar sem unhas...
Beijinhos.

Vanda disse...

Ao contrario do Joaquim este autor usa retardante para nos contar a história :)

Isso faz-se Sr. Autor? :)


Vá...vá....vá :)

angela disse...

Vamos Deolinda, que fogueira é essa?

Gi disse...

Estojo 13


Com um número destes como é que o Joaquim podia ter sorte. Tadinho dele :(