sábado, abril 19, 2008

O Estojo (12)

Joaquim veio esperar a mulher à rua.
– Anda, vamos os dois à churrascaria – disse ele, pegando-lhe na mão.
– Já? Não é cedo?
– Não. Há certas coisas que se querem feitas com calma – Deolinda ia lançar-lhe uma farpa, mas susteve a respiração. Com voz pausada, disse:

– Não podes ir comprar o frango sozinho? Estou cansada.
– Cansada? – Joaquim engoliu em seco. – Isso quer dizer que… – foi incapaz de concluir.
– Não tão cansada assim, não te preocupes.
– Ah… ah… boa… ainda bem.
– Vai lá tu ao frango. Quero ir por os pés de molho e rapar os pêlos das pernas.
– Não podes ir para casa, temos que chegar juntos. Preparei umas coisinhas…

À medida que se aproximavam de casa, o sorriso de Joaquim era cada vez mais evidente, comprimindo-lhe as maçãs do rosto contra os olhos. Deolinda sentia-lhe os nervos na mão esquerda, aquela que ele teimava em não largar. Quando entraram no prédio, não se conteve:


– Agora já chega – soltou-se e sacudiu a mão, que estava escura.

Subiram as escadas em silêncio. No último degrau, Joaquim parou e encarou a mulher:


– Tens que ficar aqui um bocado – ela franziu a testa. – Quero que esteja tudo perfeito, quando entrares – ela ia falar, mas Joaquim colocou-lhe o dedo indicador direito nos lábios. – Por favor.

Deixou a porta encostada, enfiou o saco com o frango no forno e levou para a sala o pão e a salada de tomate, que colocou na mesa. Acendeu as velas e o incenso. De volta à cozinha, retirou a garrafa de Raposeira do frigorífico e começo a abri-la, quando a voz de Deolinda se fez ouvir:


– O frango está a arrefecer, Quim – tinha-se aproximado da porta e tentava espreitar pela fresta. – Tu sabes que eu não gosto do frango frio.
– Já vai… – tinha a garrafa presa entre as pernas e puxava pela rolha, que teimava em não sair. – Que porra...
– Que pivete é este?
– É do Fleur
– gritou da cozinha. Vá lá, pá… caraças… abre! Mãezinha do céu…
– O que é que estás a fazer, Quim? – estava agora com a cabeça encostada à porta, tentando enfiar o olhar pela minúscula abertura.
Por fim, com os dentes, Joaquim conseguiu retirar a rolha.


– Fosgasse!... Copos... copos, isto devia beber-se naqueles… bem me tinha que esquecer de alguma coisa… – foi ao móvel da sala, pegou em dois copos long drink e colocou o cd a tocar. Uma voz grave e profunda, encheu o pequeno apartamento.

“I've heard people say that too much of anything

Is not good for you baby

But I don't know about that

As many times as we've loved

Shared love and made love

It doesn't seem to me like it's enough

It's just not enough”


– Quem é que está aí contigo? Que barulheira é esta? – Joaquim apareceu à porta, sorriso rasgado. Estendeu um copo à mulher:
– A uma noite inesquecível.
– Olha os vizinhos… – e entraram. – Isto é o quê? – perguntou ela com o nariz enfiado no copo.
– Espumante.
– Tu sabes que eu não aprecio coisas com gás. Nunca me viste beber Sumol. Faz-me azia….
– Uma vez não pode fazer mal – ele estendeu o copo para um brinde, mas Deolinda já tinha despejado o seu copo, de um trago.
– O frango já deve estar frio. E esta música…
– Anda, vamos para a sala – num movimento rápido, Joaquim pegou na mão da mulher e fê-la rodar, ficando os dois apertados um contra o outro. – Nunca dançámos.
– Por uma boa razão, eu não…
– Só precisas de me seguir.
– Olha lá, este cheirete não vai ficar entranhado nas cortinas?

(continua)

boomp3.com

15 comentários:

Vanda disse...

"I feel love changed"

cantará o Joaquim daí a momentos?

Porque será que a Deolinda não se deixa envolver? :)


Beijo, bom domingo!

PS-Barry White...no Geres, no Alentejo e por fim...longe...algures na Ericeira ;) junto ao mar :)

Graça B. disse...

Estou a acompanhar-te, lendo às postas...

* disse...

acompanho, também.
torço pela libertação da deolinda. do joaquim gosta-se tanto.

Cantinho dos devaneios disse...

Tem de se tirar o chapéu ao Quim!... O homem pode não ter lá muito jeito, mas não lhe falta paciência e persistência... Resta saber se a Deolinda merece...

... resta-me esperar pela próxima "posta"...

Claudia Sousa Dias disse...

Vida a dois é difícil...o Joaquim é querido, mas tem de ser tudo como ele quer...um dia a paciência esgota-se...


CSD

Leonor disse...

realmente tanto esforço, alguma tentativa de sair dos seus próprios cânones e a ardua tarefa de fazer com que a deolinda o acompanhe tem que ter alguma espécie de recompensa...

JPD disse...

Um homem a esforçar-se, a criar ambente, a sofisticar a coisa... e as perguntas assassinas sobre as cortinas...

Rui Caetano disse...

Um texto com vivacidade e sugestivo...

Maria Laura disse...

Mas essa Deolinda tira o entusiasmo a qualquer um... aposto que nem o filmezinho a vai espevitar! :)

Eyes wide open disse...

[que seca de senhora esta Deolinda ;)]


as cenas dos próximos capitulos saxavori...


*

(and thanks for reminding me of this Can't get enough...)

legivel disse...

... sou fã da Deolinda pois não teve sorte nenhuma a coitada!O que lhe havia de sair na rifa: um Joaquim que anda a reboque do comércio porno -a falta de imaginação paga-se com língua de palmo, compra produtos de segunda classe (eu rifava-o logo um homem que para me seduzir, me aparecesse com uma garrafa de Raposeira e me desse frango num jantar romântico) e ainda por cima a dar cabo do odor ambiente com perfumes comprados numa loja dos chineses...
A música? Quê?! essa coisa em inglês?! Está-se mesmo a ver que o Jaquim não percebe nada de horta... Para "aquecer as relações" a música quer-se em francês... Depois dizem que não não têm sorte nenhuma ao amor...

Lili Travessas.

(Cronista da social... security)

segurademim disse...

... é burro todos os dias!!!!

devia ter deixado a mulher arrancar os pelos das pernas

ainda se pica todo no arame farpado...

sinhã, a. disse...

Estou em pulgas de interesse. :-)

un dress disse...

ai mas que missão...pobre joaquim!!

tadinho! ninguém merece!!!:)

Gi disse...

nem com o béri uáite ... costuma ser tiro e queda :)

eu gosto , eu e o mê "jaquim" :))))