terça-feira, maio 13, 2008

A Montanha Vermelha

A montanha vermelha surgiu no desfazer de uma curva apertada. Que coisa estranha, em plena planície, por entre as árvores, uma montanha vermelha e em movimento.
Com os soluços da estrada, ia-se desmoronando à frente deles. Um bocado de vermelho aqui, outro ali. Plaaaf! E outro e outro. Plaaaf! Plaaaf! O alcatrão era uma imensa tela escura, onde manchas de vermelho se iam pintando.

O Fiat 127 tinha vencido cada metro de caminho com esforço e aquele lento compasso de espera, atrás do tractor carregado de tomate, soube bem a todos.
Talvez fosse da noite mal dormida, pela antecipação da viagem, talvez fossem os seus quatro anos condicionados pelas histórias que sempre pedia que lhe contassem, antes de adormecer – fantásticas, com personagens estranhos, em locais longínquos e muito diferentes; sítios que ele, um dia, iria visitar. Ou talvez fosse mesmo uma montanha vermelha que seguia à frente do carro, nas voltas da estrada, sempre ladeadas de frondoso arvoredo.
No banco de trás, quase de pé, João não tirava os olhos de tão incrível acontecimento. Achou que talvez os pais da montanha também lhe contassem histórias de locais fantásticos, antes de adormecer, e ela os fosse agora visitar.
Claro, só podia ser isso.
Ao entrar numa enorme recta, onde o sol chegava filtrado pelos ramos das árvores, o Fiat deu um grande solavanco, fez um barulho rouco e arrastado e depois, num assomo de energia, ganhou velocidade. Pouca mas, ainda assim, suficiente para se colocar lado a lado com as grandes rodas escuras da montanha. O rapaz colou o nariz à janela e bateu no vidro. Gritou:

– Vai mais devagar, estás a cair aos bocados. Assim não chegas lá. Esses sítios são muito longe.


boomp3.com

23 comentários:

Lyra disse...

Hoje estou muito bem disposta, por isso quero apenas partilhar esta emoção deixando aqui um grande beijinho. Quero desejar-te uma excelente semana e agradecer as palavras e amizade que tens depositado no meu...caos.

Até breve!

;O)

Carla disse...

eu também quero uma montanha vermelha...onde chegar em dias de sol rubro
beijos

un dress disse...

música: veludo laminar ~







beijO

sinhã, a. disse...

Os pais da montanha: a,e, e, o, u. :-)

JPD disse...

Belíssima história, Rui.

Fantástica.

lélé disse...

Adorei ver um puto com tanto discernimento!
Sempre ouvi dizer que, quanto mais depressa mais devagar, que não se deve dar um passo maior que a perna, etc.... É um conto a fixar, para contar à minha sobrinha. Gostei imenso.

rosasiventos disse...

smoke gets in your eyes!!!??

legivel disse...

"... uma boa solução para quebrar a monotonia ambiental: montanhas com rodas. E porque não rios com asas ou cidades com pés? E os avós das aldeias, os pais dos continentes, os filhos dos oceanos e os sobrinhos dos regatos?
Ó João! se tu soubesses o que se pode fazer de conta com este planeta...

Cantinho dos devaneios disse...

Como é fantástico o mundo visto pelos olhos de uma criança!...

Maria Liberdade disse...

Há crianças muito atentas e com vontade de chegar... A sítios.

E a musica lembra-me uma viagem de noite, com as sombras a passar, numa estrada longe nos EUA. E chegar sim aquela imensidão de paz: Grand Canyon. é dificil não ter vontade de abrir as asas e sobrevoar.

Maria Liberdade disse...

Há crianças muito atentas e com vontade de chegar... A sítios.

E a musica lembra-me uma viagem de noite, com as sombras a passar, numa estrada longe nos EUA. E chegar sim aquela imensidão de paz: Grand Canyon. é dificil não ter vontade de abrir as asas e sobrevoar.

un dress disse...

golpe de realismo

in esperado

[ pés de montanha em

trânsito transado ~

morfose disse...

Que delícia.

Maria Laura disse...

Li-te e tive vontade de regressar àquele tempo da minha vida em que montanhas vermelhas com rodas era algo normal... :)

Maria Laura disse...

Li-te e tive vontade de regressar àquele tempo da minha vida em que montanhas vermelhas com rodas era algo normal... :)

Nogs disse...

Tão lindo.

O paraíso parece sempre longe. E os sonhos de uma criança sempre revigorantes.

Belo texto. Beijooo

Eu quero o meu mundo inteiro dentro do teu olhar. disse...

Sou novata nestas lides da blogosfera, mas encontrei este cantinho e gostei bastante dos textos! :)
Espero q arranjes um tempinho pa visitar o meu bloguinho (ainda recem-nascido) e deixes a tua opinião! ;)

Bom fim de semana*

Maria disse...

A Gi vai estar ausente do blogue uns tempos devido a "sindroma vertiginoso". Nada de grave, apenas não pode estar frente ao computador.

Obrigada

Leonor disse...

Montanhas vermelhas, com Pais a contar histórias, e rodas para se deslocarem... aqui está um bom ponto de partida para um texto mais "sério" e, sobretudo, ilustrável.
A natureza (a vida, na verdade) e a imaginação não têm limites...

Esta semana publico um post sobre como a pensar morreu um burro. vais perceber a relação...

gosto bastante das tuas selecções musicais

Claudia Sousa Dias disse...

:-)

O último comentário é o remate perfeito...


CSD

Eyes wide open disse...

Lembraste-me do tempo em que não havia IP's, nem IC's, nem A's, e que ir para os meus bué bué longes significava uma viagem loooonga... e muitas vezes tinhamos o azar de apanhar um desses camiões carregados de tomate a 30 à hora em estradas de intermináveis traços contínuos.

:)

*

segurademim disse...

... são longe mas não inatingíveis

a dormir, meio acordado, desperto ou birrente, é sempre fabuloso viajar no banco de trás ... com os pais

em velocidade aceitável, embalando os sonhos e a vontade de chegar

L.Reis disse...

...o que os olhos-meninos não sabiam é que as viagens são todas assim...vamos largando pedaços aqui e ali, talvez na esperança de encontrarmos o caminho de regresso.