domingo, maio 04, 2008

O Pássaro

O topo da folha era o cume íngreme da colina. Dali, o olhar ganhava velocidade e vinha pelas palavras abaixo, aos trambolhões, passando por cima de figuras de estilo, das ideias e do enredo. Tal pressa nada tinha a ver com ela. Mas era-lhe, ali, superior.
A cada página atirada para a esquerda, levantava discretamente os olhos na direcção dele. Dois capítulos e três apeadeiros depois, mantinha-se imperturbável, o olhar atirado para longe, através da janela. Exactamente como ela o encontrara quando, timidamente, se havia sentado à sua frente.
Prosseguíram, durante mais algum tempo, viagem sozinhos, na inerte companhia um do outro, embalados no suave agitar do compartimento. Até...

Ela percebeu-lhe um movimento, ainda assim, não ousou olhar. Não até virar a folha. Tinha sido apenas um estremecimento, mas o suficiente para a deixar curiosa. Despenhou a vista pelos quatro últimos parágrafos e transpôs o olhar por cima do livro.
O homem continuava a olhar pela janela mas, agora, sorria. A expressão era a de alguém que, após uma longa viagem, tinha chegado ao destino. Ela franziu a testa: o comboio estava ainda longe da próxima paragem. Um inusitado solavanco apanhou-a desprevenida e fê-la levar a mão ao parapeito da janela. Nesse instante, o dia tornou-se noite e ela deixou de ver. Abriu muito os olhos, mas tudo era um denso e sufocante negrume. Percebeu que tinham entrado num túnel, sem que as luzes se tivessem acendido.
Sentiu um toque suave na mão, seguido de um arrepio frio. Assustou-se. Sem pensar no que ia dizer, afastou os lábios para falar no preciso momento em que o dia regressou, na mesma pressa com que os tinha deixado. Instintivamente, fechou os olhos. Deixou-se ficar, assim, ainda no escuro, durante algum tempo. Tinha percebido algo, uma sombra, um movimento, uma diferença, uma perturbação. Não conseguiu decifrar o regresso à luz. Talvez não tivesse sido nada.
Quando voltou a abrir os olhos, estava sozinha. A janela – que tinha estado fechada – estava agora entreaberta. No banco, à sua frente, uma pena preta de pássaro.

Levantou o livro e leu: “Hoje era um dia bom. Finalmente, após uma longa e extenuante luta consigo próprio, era livre.”
Aquela passagem do livro não lhe dizia nada. Parecia não fazer sentido com o que tinha lido até aquele momento. Olhou em redor e depois pela janela. Por fim, decidiu voltar três capítulos atrás, retomar o ponto em que ia antes de entrar no comboio. O sentido das coisas estaria, seguramente, ali, algures.

boomp3.com

28 comentários:

sinhã, a. disse...

Isso de ser pássaro tem o que se lhe diga. Tem, tem. :-)

Graça B. disse...

Adorei a ideia de poder ir pelas palavras abaixo aos trambolhões. Deve ser experiência de grande estrondo, verdadeiro desaire. Para nunca mais esquecer, caso se consiga sobreviver.

Boa semana.

* disse...

que bem que se está aqui. finalmente, o pássaro. e finalmente o moan :). uma delícia este texto, e cada pormenor. entende-se que deixe as palpebras cerradas. entende-se tudo. há um iníco de livro que eu gostaria que lesses, e do qual me recordei a ler-te, aqui. vou procurar...
terra de neve, do yasunari kawabata. se te aparecer à frente lê um bocadinho. janela de comboio e reflexos, tão lindo que é.
beijinho

lélé disse...

Tive uma experiência muito parecida com essa!... O túnel nunca mais acabava... não interessa... Nem tudo tem de fazer sentido... Teoricamente...

Eyes wide open disse...

Mistico... bonito... cheio de detalhes subliminares...


... you rule!!


*

legivel disse...

... uma pessoa viaja assim distraida de combóio e nem repara que a seu lado há passageiros fora do comum: um homem alado e uma mulher de leituras apressadas. Só dei por isso no túnel: uma janela que se abria, um bater de asas de quem se sentia cativeiro da CP e a minha mão direita a tocar inadvertidamente na mão esquerda da mulher de leituras apressadas. Logo a seguir a luz do dia regressou à carruagem e ela olhou para mim com comiseração "Parvo! Não queria mais nada que era entrar numa história com o sentido das coisas!" Depois pegou na pena preta, colocou-a entre as páginas vinte e sete e vinte e oito do livro, fechou-o e perguntou ao revisor que passava "Pode informar-me se na próxima estação há passarinhos fritos?"

Maria Liberdade disse...

Ou talvez o sentido fosse não ter simplesmente sentido nenhum... A liberdade é isso não é? Não ter sentido?

rafaela disse...

Foste acorrentado!
=)

Carla disse...

...às vezes as coisas simplesmente não fazem sentido
boa semana
beijos

JPD disse...

Ah, Pois!

Voltar atrás para que o sortilégio se repita, haja uma recidiva, é bem pensado mas raramente ocorre.

Nem sei se alguma vez aconteceu.

Foi pena o toque ter sido tão furtivo.

Havia da parte dela tanta disponibilidade e o companheiro de viagem osou o sinal, a sedução, quando o túnel se ergeu entre ambos e a saída na próxima estação era já a seguir.

Não se faz.

Os afectos são coisa séria.

NÃO SE FAZ!

Gostei do texto.

Cantinho dos devaneios disse...

Fabuloso amigo Rui, fabuloso!...

morfose disse...

Lindo, Rui.
Um beijo.

~pi disse...

lá venho integrar mais um bando!!

ando a voar ando ando!

o´´´

tantas peninhas espalhadas!

o preço da liberdade !! :)

São disse...

Muito bem!
Saudações.

Aline Ahmad disse...

Rui, vocês portugueses escrevem tão bonito que deixam essa brasileira com inveja... risos

Muito obrigada pela visita e por toda doçura que encontrei nestas palavras escritas por você.

Beijos de luz,

Aline***

Aline Ahmad disse...

Rui, vocês portugueses escrevem tão bonito que deixam essa brasileira com inveja... risos

Muito obrigada pela visita e por toda doçura que encontrei nestas palavras escritas por você.

Beijos de luz,

Aline***

rosasiventos disse...

the book of life

Gi disse...

e fará sentido querer saber o sentido de todas as coisas ?

eu gosto do teu surrealismo em pequenas doses

e agora também eu me vou. com as aves .

deixo-te uma pena. a pena de me ir embora :)

beijinhos

Vanda disse...

Muito bem (d)escrito!


Deixas-nos uma receita inteligente: sempre que te julgues perdido...recua tres capitulos e recomeça de novo :)


Mesmo quando os capitulos são densos.


Beijo

un dress disse...

esse momento em que a viagem

em que por inteiro

fulgurante e lenta se

nos inscreve

até agoniar

e se a guarda sem apelo...

li de novo.
mas já tinha lido tudo isto antes.

noutro lugar e tempo a mesma viagem o mesmo apeadeiro:

onde vivo onde morro a farejar o horizonte: sei

sei que um pássaro vem ~






beijO

Vieira Calado disse...

Todos nós almejamos ser pássaros.
De uma maneira ou de outra.
Um abraço

Lyra disse...

Olá,

Venho pedir desculpas por não vir cá há algum tempo, mas a verdade é que o meu filhote esteve doente e, como estive com ele em casa, o trabalho acumulou e agora o tempo é escasso.

Hoje apenas venho agradecer a tua amizade e simpatia e dizer que voltarei brevemente, com mais tempo, para pôr a merecida leitura do teu blog em dia, sim?

Beijinhos e até breve.

;O)

segurademim disse...

... há livros assim : dois capítulos para a frente um para trás

a coisa anda que não anda... e vai ficando por ali

TCHI de Tchivinguiro disse...

Gostei da "imagem" dos «dois capítulos e três apeadeiros depois». Não apenas, mas também.

Magnífico estilo. Apreciada escrita.

Interessantíssimo blog.

Parabéns, RUI.

Leonor disse...

Ah, procurar o sentido das coisas algures entre as letras de um bom livro fará sentido, ou ficamos presos num mar de letras que rodopia e nos afoga antes que cheguemos a bom porto?

e será que, quando iniciamos essa jornada em busca da verdade, o fazemos em liberdade, ou estamos presos ao nosso destino?

na verdade, ela tinha alguma opção? ou era inevitável voltar atrás três capítulos em busca do sentido das coisas?

Azul disse...

Isto é indiscritivelmente fabuloso! Tocou-me profundamente, sem que eu queira dizer muito mais sobre o que li aqui. brigada. Está excelente.

Um abraço. Até breve. Azul.

Gi disse...

não me lembrava do título :-(

pois que já li . oooooohhh 8-(

Claudia Sousa Dias disse...

Já tinha lido este texto por alto, mas agora lido com mais calma é que lhe apreendi totalmente o sentodo. Tal como a personagem...

Também eu ando a dormir pouco...

:-)

Um beijo


CSD