quarta-feira, junho 04, 2008

O Aniversário

Patrícia mordeu o lábio inferior e abriu muito os olhos, como faz sempre que está perante uma dificuldade.
Por momentos, conseguiu abstrair-se da situação difícil em que a filha Joana a tinha colocado. Olhando para ela, reparou como estava diferente, como tinha crescido, desde a primeira vez em que lhe tinha feito uma pergunta a que não sabia muito bem como responder, fazia naquele dia, precisamente, dois anos. Os caracóis tinham-se tornado mais escassos e mais abertos, na exacta proporção em que o cabelo se tinha tornado menos claro; a expressão perdera passividade e os olhos, muito azuis, ganho preponderância no seu rosto redondo e terno.
Quase a completar cinco anos, era um compêndio de dúvidas, exigindo para todas, resposta rápida e convincente.

Após vários meses de luta contra o cancro, o pai de Patrícia morrera e, durante vários dias, Joana fez muitas perguntas sobre o desaparecimento do avô. Havia entre ambos uma relação especial. Viúvo e com apenas aquela neta, coube-lhe, desde cedo, a tarefa de a ir buscar à Creche e entretê-la até que um dos pais a fosse buscar. Foram muitas as histórias que lhe contou, muitos os sítios onde a levou a passear, os lanches que dividiram, as gargalhadas que partilharam. De um dia para o outro, o avô deixou de puder fazer essas coisas, passava o dia deitado num sítio estranho, onde estavam muitas pessoas tristes, e já não a ia buscar, já não lanchavam juntos, nem iam passear. Continuava a contar-lhe histórias, mas também já não ria como antes. E depois, desapareceu.
A mãe falou-lhe do céu, de anjos e de como o avô tinha ido para um lugar melhor, mas isso só lhe aumentou a confusão: se era bom estar no céu, porque não iam para lá, ter com o avô?

Mordendo o lábio e com os olhos arregalados, Patrícia olhou em redor. Não eram muitas as pessoas que tinham vindo propositadamente à missa de celebração do segundo aniversário da morte do pai, mas a igreja estava quase cheia – sobretudo com as paroquianas de sempre, as que, todos os finais de tarde, cumprem o mandamento de Cristo de fazer o que ele mesmo fez na Última Ceia.
Nos últimos dias, tinha tentado explicar à filha o que era uma missa e que esquisita ideia era essa de celebrar o desaparecimento de alguém de quem se gosta. Agora, em plena homilia, era confrontada com o que lhe pareceu ser o seu fracasso.
Os fiéis olhavam para Patrícia. Uns sorriam, outros nem por isso. O padre tinha-se calado e um inusitado silêncio caiu sobre a audiência, como se estivessem todos à espera da sua resposta.
Impaciente, Joana puxou a mão à mãe e repetiu, bem alto, a pergunta:


– Quando é que cantamos os parabéns ao avô?


boomp3.com

22 comentários:

angela disse...

e gosto das fotografias
da ponte-com-pássaros
:)

Gina disse...

Olá amiguito!

Já á muito tempo que n passo por aqui, estás km o vinho do Porto cada vez melhor a escrever.
Um beijinho muito grande para ti.

Maria Liberdade disse...

O Padre Aurélio olhou para o rosto inquiridor da criança. Na primeira fila viu as beatas que se perfilavam com as cabeças na direcção da criança e da mãe. Os rostos eram um misto de incredulidade e de escândalo. Com um gesto leve com a cabeça captou-lhes o olhar, perceberam-se. Afinaram as vozes e ecoaram por toda a igreja:

- PARABÉNS A VOCÊ, NESTA DATA QUERIDA, MUITAS FELICIDADES, MUITOS ANOS DE VIDA...

Joana sorriu. O avô havia de gostar desta festa.

JPD disse...

Belissima pergunta.

Penso muitas vezes que só é possível fazer perguntas assim enquanto se não tem compromissos com ninguém e a liberdade é quase total.

(e não sei determinar em que fase a partir daqual as crianças começam -- e nunca mais acabam -- a imitar os adultos...)

Um abraço

lélé disse...

E que belíssimo final foi colocado pela Maria Liberdade!...

Mas, não concordo que se minta às crianças sobre a morte em geral e em especial da de quem lhes é querido.

scaramouche disse...

obrigado pelo momento de leitura proporcionado.

abraço,
scaramouche.

inBluesY disse...

recordas te a historia da m/mãe... sem saberes.

Lyra disse...

Peço desculpa pela minha ausência...mas às vezes a vida dá voltas inesperadas e o chão parece que nos foge... Torna-se necessário “recolhermo-nos” um pouco, fugir do mundo e fazer uma introspecção profunda. É isso que tenho feito e por isso não te tenho vindo visitar...

A verdade é que me sinto no meio das trevas, onde sorrio à vida, como se conhecesse a fórmula mágica que transforma o mal e a tristeza em claridade e em felicidade. Então, procuro uma razão para esta alegria, não a acho e não posso deixar de rir de mim mesma. Creio que a própria vida é o único segredo...

Quando estiver mais...animada...voltarei aqui...

Beijinhos e desculpa

Azul disse...

...
hesito em escrever o que quer que seja, mas pressinto que, mesmo assim, quero comentar o que escreveu. estranhamente as crianças são nossos mestres em situações como esta. ou, de outra maneira, porque será que não as reconhecemos sempre no seu imenso saber. afinal, não há que inventar nada acerca da morte - para quê negá-la? para quê mentirmos sobre ela? ela apresenta-se como o único lugar onde a espessura interior que lhe procuraamos está enunciada à partida, quando a pronunciamos. e, é cedo, bem cedo que aprendemos a pronunciá-la...

Um abraço para si. Até breve. Azul.

dona tela disse...

Tenho lá um desafio muito giro.

P.S. Então é assim: Como ainda não sinto categoria para comentar, vou deixando o mesmo recado em todos os senhores(as). Certo??


Até logo.

segurademim disse...

os avós deviam ser eternos ou pelo menos durarem o tempo da inocência

legivel disse...

Parabéns a você
nesta data querida
faz hoje dois anos
que você perdeu a vida.

Hoje é dia de festa
cantam as nossas almas
para o avô se apresta
uma salva de palmas.

Descanse em paz lá em cima
nós cá em baixo vamos bem(?!)
com o europeu isto anima
e ao ganharmos(?!) também. *



Desta feita, a maria liberdade fez (e muito bem!) aquilo que eu costumo fazer: "continuar a história". Foi bom, porque por um lado não parti a cabeça a imaginar-me na pele da Patrícia, da Joana ou... dum avô defunto e por outro, permitiu-me ensaiar umas rimas que as minhas netas poderão perfeitamente cantar aquando da missa do segundo aniversário do meu passamento.Estão autorizadas.

Anjo De Cor disse...

Há perguntas tramadas ... em tenras idades ...
Adorei as fotos ;)
Beijinhos com máscara pk hj estou doente ;)
SS

sinhã, a. disse...

Ai como eu gosto de olhos arregalados. :-)

Graça B. disse...

As crianças são encantadoras. E os adultos que não deixaram de ser crianças, também. Como o Padre Aurélio da ML.

dona tela disse...

Andei na passeata. Gostei.

Uma noite descansada.

Leonor disse...

Situações "mal digeridas" pelos adultos que sustentam pequenas confusões nas ciranças... e na verdade, onde nos encontramos?

Leonor disse...

PS - as fotografias estão uma verdadeira passagem

Carla disse...

como eu gosto destas perguntas que dizem o que nós pensamos!
quanto às fotos...adorei
beijos

Vanda disse...

Faço minhas as palavras da Segura.


Mas, se tal não for possivel, que a inocência ganhe sempre, à tristeza e à dor.


Afinal, inspirada pela Joana e pelas tuas fotos, atrevo-me a dizer que a vida é uma passagem, para a outra mrgem...

Gi disse...

Desarmam-nos essa e outras questões.

Encantadora a tua história assim como a continuação dada pela Maria Liberdade.

Um beijo

Cantinho dos devaneios disse...

Mais um texto fantástico Rui! Dos melhores!...

De facto é incrível como os adultos insistem em complicar coisas que deviam permanecer simples...

Um abraço!

PS: gostei da continuação sugerida pela Maria Liberdade.