quinta-feira, abril 24, 2008

O Estojo (15)

Não foi fácil a Joaquim explicar a compra do lubrificante.


– Às vezes pode dar jeito, tu sabes.
– Não, não sei.
– O senhor disse que facilitava, que é natural…
– Tu andas a falar da nossa vida com outras pessoas, Quim?
– Na, na, eu não! Falou-se nisso, mas genericamente... da… do… de não ser fácil, às vezes… tu… eu… – com o dedo indicador a apontar, parecia seguir o voo errante de um qualquer insecto invisível. Depois de um breve silêncio, baixou o braço e os olhos. – Eu não falei com ninguém. Comprei isso porque estava em promoção e… pareceu-me uma boa ideia. Tu sabes que às vezes… não foi por mal.

Deolinda hesitou sobre a reacção a ter. Se por um lado se sentia, de alguma maneira, diminuída por aquilo, por outro, não deixou de achar que podia ser, de facto, útil. Foi sentar-se no sofá e colocou debaixo de cada braço, na vertical, uma almofada. Soprou o cabelo da franja. No olhar, já mal se distinguiam dois pequenos pontos luminosos.


– Põe lá isso a andar.

Joaquim apagou as luzes e colocou o DVD no leitor. Uma luz esverdeada tomou conta do ecrã do televisor, iluminando um rosto sorridente e duro como pedra. Foi sentar-se ao lado da mulher e tentou em vão tirar a almofada que os separava. Resignado, apontou o comando.


– Como é que isto se chama?
– Boa pergunta. Nem vi. Eu posso…
– Deixa estar, não interessa.

Depois de um breve genérico, surgiu em grande plano uma mangueira que a câmera acompanhou até um aspersor que estava desligado. O plano abriu, revelando um relvado e uma estrada de cascalho, que terminava junto à escadaria dum edifício com ar antigo e pesado. Um carro deteve-se junto dos degraus e dele saiu uma rapariga loura, apertando contra si um dossier. Joaquim reconheceu-lhe o uniforme e tossiu. A estudante subiu as escadas e entrou.
A câmera fez então o movimento inverso, terminando no aspersor que, desta vez, projectava grandes golfadas de água em todas as direcções.

Sala de aula. Seis estudantes – uniformizadas na roupa e no físico – escutavam a directora – ar severo, no seu saia-casaco preto e saltos altos. Escola em regime de internato. Primeiro dia de aulas. Sessão de boas vindas, incluindo conjunto de regras – duras – a cumprir. Penalidades para quem prevaricar. Trocam-se olhares. Línguas humedecem lábios. Pernas cruzam-se e descruzam-se como se fosse uma aula de dança.
Sente-se ansiedade na sala. Joaquim mexe-se no sofá. Coloca um braço nas costas do sofá, atrás da mulher.
Quarto. Duas raparigas partilham o exíguo espaço. Apresentam-se. Concordam no ar ameaçador da directora. Uma queixa-se do calor e despe-se. Vai tomar banho. Banho demorado, em que nenhum milímetro de pele é descurado. A colega, na cama, lê um livro. Está nua. “Queres ajudar-me com o top”? Trocam-se elogios à beleza e ao corpo fantástico. Carícias. Beijos. Sexo.


– Passa isso para a frente, Quim.

Fast Forward.

Corredor. Directora bate à porta. Aluna abre. Esqueceu-se de um livro na sala de aula. “Obrigado. Já agora, entre”. Trocam-se elogios à beleza e ao corpo fantástico. Carícias. Beijos. Sexo.


– Passa isso para a frente, Quim.

Fast Forward.

Ginásio. Duas alunas atiram uma bola de basquete uma à outra. Risos histéricos. Comentários sobre mais um ano lectivo que começa. Balneário. Banho. Trocam-se elogios à beleza e ao corpo fantástico. Carícias. Beijos. Sexo.


– Já sei – e Joaquim passou o filme para a frente.
– Onde é que estão os homens, Quim?

(continua)

boomp3.com

16 comentários:

lélé disse...

Esses "fast forward" estão o máximo! Fizeram-me lembrar de um professor meu de português, que era jesuíta e, quando lia Gil Vicente, fazia imensos "fast forwards"...

(a música é bem gira!... agora já se consegue ouvir toda e sem gaguejos, do princípio ao fim... Parabéns. Parece que conseguiste o impossível!)

Cantinho dos devaneios disse...

Pois é, onde é que estão os homens?... deverá a Deolinda concluir que também não precisa de homem?...

sinhã, a. disse...

Carícias, beijos, sexo, mulheres: democracia. :-)

Graça B. disse...

Coitado do Joaquim...é impossível não sentir simpatia por ele, depois de tanto esforço. Mas parece que o universo feminino é para ele uma equação matemática irresolúvel. Ou será que não é? Deolinda também não ajuda nada com tanta má vontade...:) Aguardo para ver como vai ele descalçar esta bota do filme sem homens.
:)))

Perla disse...

Agora é que ele estragou tudo...
Coitado do Joaquim, não tem sorte nenhuma! ahahahahah!!!

Bom fim de semana
Bjs

Lyra disse...

Olá, bom dia,

Passei por aqui só para desejar em excelente fim de semana e deixar um beijinho grande.

Voltarei na segunda-feira para te ler. Até breve.

;O)

daniel disse...

Olá

A história apresenta-se interessante, interessante e actual. Pode ser e é contra natura, mas há que aceitar as opções.

Daniel

un dress disse...

linnnnnnnnnnnnndo!

mysteries! tanto suspense!! :)


fast forward ...................


mas ela tem razão carradas

de razão!!

não havia homens porquê??


...


e lá vai o quim de novo à loja :)








beijO

~pi disse...

as fotos...

é impressão fotográfica ou...

os bad seeds estão menos bad!!?

pra não falar do cave!...




:)

Eyes wide open disse...

Pobre Joaquim... tanto que ele se esforça e não há meio de demover aquela muralha chamada Deolinda.

*

(nice pics)

Gi disse...

no estojo nº 1 disse que cronometrava mas esqueci-me de olhar para o relógio e não me apetece lá voltar :) li todos e escrevi em todos sem fazer "fast forward". No 14 comecei por dar alguma razão à Deolinda e agora dou-lhe ainda mais. Esse Joaquim não tem mesmo jeitinho nenhum. manda-o lá trocar de filme que desses balneários também não gosto :)

Beijinhos e boa semana (e o concerto? o tal. foi bom? )

Leonor disse...

realmente é um bocadinho esquisito, também pergunto: então os homens???como vai a deolinda aprender alguma coisa???

se estas são as fotos possíveis, imagina as impossíveis...

boa semana

Vanda disse...

Também lá estive :) e foi a primeira vez que o ouvi ao vivo :)

E além de ter sido uma grande curte ainda fumei um cigarro lá dentro :) mas sei que não fui a única :)

fast forward e lá vou eu para o próximo....

-ai deolinda deolinda que raio de filme o quim te arranjou :-D

legivel disse...

"- Onde é que estão os homens, Quim?"
Sem o saber, Deolinda acabava de colocar a questão central na ordem do dia. Na verdade, os homens já não eram feitos como dantes pois não tinham a barba rija. A barba e não só.
Joaquim, sentiu-se atingido na sua virilidade com a pergunta mas não quis dar parte de fraco
- Até dá ideia que eu não te chego! Mas se assim é, não tenho qualquer problema em chamar o vizinho de cima, que bem percebi o olhar que lhe deitaste quando subíamos no elevador na quarta-feira. Sabes que sou um gajo moderno e que o que pretendo é ver-te feliz...
- Ó Quim! Isso nem parece teu! Já imaginaste o belo par que faríamos e os ditos do pessoal do bairro? A Deolinda Feliz e o Joaquim Enfeitado... O que eu queria dizer era "onde estavam os homens do filme?" Percebeste?
- E tu achas que eu sei onde é que eles param? O realizador, o guionista, o produtor, o dos efeitos especiais, o do casting, de um filme feito há dez anos -percebe-se logo pelos adereços capilares das jovens e rodado num bairro periférico duma cidade guatemalteca?
- Prontos Quim. Não se fala mais nisso. Passa-me aí os salgados.

Claudia Sousa Dias disse...

Pois...coitado..:!

Se calhar devia era fazer um curso...com a personagem interpretada pela Soraia Chaves em Call Girl!

Se calhar funcionava...


CSD

Carla disse...

eheheheh
sim...já agora:
-Quim, onde é que estão os homens???
então é assim, só os olhos do menino é que se regalam?????
boa semana
bjs