quinta-feira, abril 17, 2008

O Estojo (11)

Não, decididamente, não podia voltar a cometer erros, repetia Joaquim para si mesmo, relembrando os acontecimentos funestos do dia em que viram o filme.
Surpreendentemente, Deolinda até aceitou bem a sugestão. A princípio, mostrou-se chocada, depois, considerou a ideia sem jeito, terminando por ceder, com o argumento que se ele achava que ajudava a relação, estava disposta a fazer o sacrifício – sem confessar que tinha sentido uma desinquietante curiosidade em saber como reagiria ela a outros homens nus; “quem sabe se, imaginando-os”… Marcaram para daí a quatro dias, sábado.
Sem nada dizer à mulher, Joaquim tratou de tornar o dia especial. A ideia de ser só o filme pelo filme, causava-lhe desconforto. Decidiu elaborar “um plano mais vasto”: pediu à mãe parte do serviço Vista Alegre, os talheres Cutipol e um candelabro; comprou velas aromáticas, uma garrafa de vinho tinto – em que gastou quase sete euros – e outra de Raposeira, para aperitivo; aconselhou-se com o amigo Tavares – mais experiente nas coisas do romantismo –, sobre a música ambiente, a entrada e a sobremesa.

Chegado o dia, Deolinda foi almoçar a casa dos pais e Joaquim para a cozinha: retirou os patês La Piara das embalagens e colocou-os num prato (“mais chique”, nas palavras do amigo); fez uma salada de tomate; preparou a mousse de chocolate, certificando-se que a quantidade de água estava absolutamente como dizia no pacote (“parte umas nozes e põe por cima, tem mais pinta”); lavou os morangos, com que iriam acompanhar a mousse e partiu-os aos quartos (“uma sobremesa que é um sainete”); colocou o vinho e o espumante no frigorífico; pôs a mesa na sala; colocou o cd emprestado de Barry White a jeito (“elas ficam passadas com a voz do gajo”); as velas no candelabro, certificou-se que tinha fósforos e partiu pão. Dirigiu-se depois ao móvel da sala onde guardava algumas bebidas alcoólicas para oferecer às visitas – todas por abrir – e, de detrás delas, puxou o saco de plástico onde guardava as compras que fez na sex-shop. Retirou um dos três objectos e voltou a guardar o saco. Sorriu quando leu a embalagem: Fleur d’Amour – Incenso Afrodisíaco.


– Oh diabo, então isto é em palitos? Onde é que eu agora vou espetar isto?! – interrogou-se, coçando a cabeça. Acabou por colocar dois paus de incenso na pequena sereia que tinham na sala.

Tinha sido o presente de casamento dos avós: uma coluna com quase um metro e meio, encimada por uma jovem sereia em loiça que, posta em sossego num rochedo, entornava um cântaro. Enchido o depósito e ligada a electricidade, um motor punha a água a circular, fazendo-a cair do cântaro para uns degraus, terminando num pequeno charco, no qual a rapariga perdia o olhar.
Agora, para além do recipiente, a sereia amparava em cada braço uma espécie de lanças do amor.

(continua)

boomp3.com

14 comentários:

Rui disse...

Reparo que o link para a música não está a funcionar como pretendido: tão depressa só se ouvem 90 segundos das miúdas, como 10. O certo é que não me está a chegar completa - apesar de estar lá toda. Quem quiser ouvir, tem de ir tentando.

Maria Liberdade disse...

Opaaa... logo esta que gosto tanto!!!

Maria Liberdade disse...

E sabes que mais gosto deste Joaquim tem iniciativa...

sinhã, a. disse...

Belíssimas, as tuas sereias. :-)

mixtu disse...

morangos e compras na sex-shop
ummm
isto promete

abrazo serrano

Vanda disse...

Caramba!!! O Joaquim é mesmo pro-activo!!

Quem diria hein?? :)

As sereias a deitar fumo não ficarão tipo pescadinhas de rabo na boca??? :)

Modo "pause" ate ao próximo :)

JPD disse...

Irá esforço do Joaquim ser reconhecido e compensado?

Desespero por saber.

lélé disse...

Não se pode negar que o Joaquim é um tipo esforçado e com iniciativa! Não desiste facilmente e com esse empenho todo é mesmo capaz de fazer ressuscitar mortos!... (oxalá que não ressuscite indesejados...)

Azul disse...

Ora até que enfim, temos notícias do jovem casal! Sabe que isto é meio viciante? estava quase a ressacar como ía a cena conjugal! Sabe ainda, que a dita da serei que se fica a aolhar para o lago, de repente remeteu-me para Narcíso, mas em melhor, está claro!
Quanto á ementa escolhida pelo amigo Joaquim, já não sei se poderei aceitá-la, na medida em que, se é menino de famílias com poder finaceiro e finos gostos percebe-se pelas porcelanas e respectivo faqueiro), talevz tenha tido acesso a outras formas mais sofisticadas de preparar jantares romãnticos, ou estarei enganada?
É uma enorme salganhada, com imensa piada Rui. Aguardo cenas dos proximos capítulos e dou cursinhos de preparação de jantares on-line, caso queira aprimorar-se, pode ser???

Lol

beijos caro amigo. até breve. azul.

Cantinho dos devaneios disse...

Isto está a aquecer!... vamos lá ver que mais sai do saco de compras...

legivel disse...

... do "Estojo 10" para "11" fiquei com a nítida sensação que houve um corte sequencial neste série em série. Como se desembaraçou Joaquim do comprido e rugoso pénis que lhe baloiçava na mão? Levou-o para o emprego ou para casa? Vendeu-o na Feira da Ladra por meia-dúzia de euros? Se fosse o caso da acção se desenrolar nos tempos do lápis azul ainda se entendia... O autor, ao fazer tábua rasa da lógica argumentativa, amputou despoduradamente, aquela que poderia ser a peça-chave do estojo em estojo até à cena final. Comercialmente percebe-se a ideia: a mize-em-séne aqui utilizada, é chamativa e resulta,mas o produto artístico perde com isso. Imagine-se o impacto de Joaquim chegar a casa com o artigo fálico e gritar para a mulher "Querida, tenho uma prótese!". Desnecessário se tornaria Bérri Uáite, o serviço de Fazer Vista e o insenso Flaure d`Amure...
A informação do autor sobre a banda sonora, não colhe pela insuficiência: "noventa por cento das miudas" corresponde a que partes anatómicas das miudas? e que "a música está lá toda"? Lá, onde? Na Fnac do Chiado?!

Legível Boa-Vida,

Crítico de folhetins blogosféricos.

São disse...

Fico esperando ...

Bom final de semana.

Carla disse...

a coisa promete...vamos ver o resultado, merece que o Fleur d'amour funcione
bom fim de semana
beijos

Gi disse...

Como tu sabes esss coisas do Barry White ... :)


Esforçado o Joaquim. Comprou o enrugadinho ou devolveu-o à prateleira? Vou para o próximo estojo