domingo, dezembro 11, 2005

É Natal

- Estou?

- Sim, quem fala?

- Sou eu, pá, o Pai Natal.

- Ah, olá Pai Natal. Deixe-me aqui tirar o som ao televisor…

- Estavas a ver o quê?

- Nada de especial, estava a ver a Arlinda a abandonar a Base.

- Também vês essas merdas, pá?

- Naaa, estava a fazer zapping quando vi a Arlinda a bater continência a um gajo de microfone na mão. Fiquei a ver. Mas deixe lá isso, conte-me como vão as coisas por aí.

- Mal, pá. Vão mal.

- Então, que se passa?

- Ora, o que é que se havia de passar, estamos no Natal!

- Pois, imagino que deva estar caótico.

- Caótico é em Agosto quando chego da praia, nesta altura nem há palavras para descrever isto, pá.

- Maldita invenção esta do natal.

- Podes crer, se eu soubesse que ia dar nisto, nunca tinha aceite esta brincadeira.

- Mas você não tem aí muita ajuda?

- Sabes lá o que é ser ajudado por Duendes, Elfos e Gnomos… estes gajos não se gramam uns aos outros, é só chatices, só queixas, só lamentações, pá. Os Elfos não podem ver os Gnomos, estes boicotam o trabalho dos Duendes, e estes só sabem é chatear as Renas. É de dar em doido, pá.

- E você não dá um murro na mesa?

- Eu atirei foi com a mesa ao ar! Ameacei-os com despedimento colectivo. Eles que vão trabalhar para Holywood, que fiquem lá à espera de mais filmes em que os da raça deles entrem. Mas que esperem sentados! Lá porque houve uns filmes em que entraram, devem pensar que todos os anos há mais. Eu bem lhes disse que aqui, pelo menos, era garantido: Natal há todos os anos, já filmes…

- E eles?

- Os sacanas na altura não disseram nada, meteram as orelhongas nos barretes e deram meia volta. No dia seguinte aparecem-me aqui uns quantos, auto-intitulados “comissão de trabalhadores” e ameaçaram que iam criar um sindicato! Tu já viste isto, pá?

- Um sindicato?

- Um sindicato, pá. Já tinham nome e tudo. Esta malta das criaturas dos contos de fadas não bate bem, tu repara nisto: Sindicato dos Técnicos Operadores de Natal E Diversos. Nem dá para acreditar.

- Você tem que ter calma, olhe a sua tensão. Você já não é novo.

- Qual tensão, pá. Esta cambada dá é cabo da cabeça de um santo.

(em fundo, ouve-se uma música: “eu sou e serei, coração, coração sem dono… não me quero prender a ninguém, ainda é cedo para me entregar, quero viver o que a vida tem, um dia mais tarde se verá… quero o peito livre pra voar e a mente solta pra curtir, o meu coração a palpitar, durante muitos anos sempre assim… porque eu sou e serei, coração, coração sem dono…”)

- Que música é essa, pá?

- É a TVI, a Ruth Marlene está a cantar.

- A Ruth… no outro dia via-a a fazer flexões. Deixa cá ver se ela já pediu alguma coisa ao Pai Natal…

- Veja lá.

- Não tenho cá nada em nome de Ruth… ou de Rute Marlene.

- Ainda não teve tempo, anda muito ocupada na guerra.

- Mas olha que os portugueses são quase sempre os primeiros a pedir. Logo em Outubro recebi daí os primeiros pedidos.

- Gente ansiosa, por certo.

- Pareciam, sim. Bom, os quatro primeiros, pelo menos.

- Pediram o quê?

- O primeiro pedido a chegar foi do menino Mário, explicava-me que já não tinha idade para escrever ao Pai Natal, mas que o fazia porque não pedia só para ele, que o que queria era para o bem comum, etc. Enfim, uma ladainha para me pedir um Tacho. Achei muito estranho tanta coisa por causa de um simples Tacho.

- Não é um tacho qualquer, Pai Natal, é um Tacho muito apetecível.

- Percebi isso nos dias seguintes, pá. Então não é que o menino Manuel, logo no dia seguinte, me escreve a pedir desculpa por já não me escrever há muito tempo, mas que tem escrito outras coisas e que depois não tem tempo nem para uma carta. Pedia ainda que, caso eu já tivesse recebido um pedido igual do seu grande ex-amigo Mário, o ignorasse, porque era ele, menino Manuel que tinha direito a o Tacho, que o Mário já tinha tido o dele.

- São piores que as crianças…

- Depois foi o menino Chico a pedir-me o Tacho. Que me achava um bocado capitalista e ao serviço do grande capital e por isso não me tem escrito, mas que, este ano, excepcionalmente, contava comigo, com a minha reflexão ponderada de homem vivido para me passar para o lado dos oprimidos, dos que têm pouco, das vitimas dos barões que controlam esse tal capital. Que eu podia começar por lhe dar acesso ao Tacho.

- Não me diga que o menino Jerónimo também lhe escreveu.

- Escreveu, pá! Que era a primeira vez que o fazia, que antes os seus camaradas lhe confiscavam o selo e a carta para o Pai Natal e que por isso nunca tinha conseguido. Mas que sempre me achou piada, vestido assim de vermelho, a viver no meio da neve; que isso o lembrava da Sibéria, dos trabalhadores que para lá iam trabalhar para o bem dos outros camaradas. Que no fundo eu era um símbolo do operariado. Concluía dizendo que também ele queria ajudar os outros, mas que para isso precisava do tacho. Vou-te contar, pá, já mandei investigar que raio de Tacho é esse que eu também o quero oferecer à Mãe Natal.

- Não recebeu nenhum pedido do menino Aníbal?

- Aníbal? Não me recordo, mas deixa-me consultar a base de dados.

- Veja lá isso, agora estou curioso.

- De facto, há aqui uma carta do menino Aníbal, mas não pede nada ao Pai Natal. São só duas linhas, diz ele que não quer escrever muito para não se prejudicar, que o ano lhe correu bem e que vai acabar melhor, que não tem nada para me pedir, que o Tacho já é dele. Despede-se desejando-me um bom Natal.

- O menino Aníbal é muito sabido. Tem o Bolo Rei na barriga, é o que é.

- Parece que isso anda muito animado por aí neste Natal.

- Nem queira saber. É a corrida ao Tacho, às compras e foi também a abertura da época de transferências religiosas.

- Hã, que é isso, pá?

- É muito parecido com a reabertura do mercado futebolístico agora em Janeiro. É a altura em que se volta a poder negociar o passe dos jogadores entre clubes. Neste caso, tem a ver com a mudança de paróquia por parte de alguns padres. Há sempre polémica com a decisão de algum bispo iluminado que, quando percebe que a população local gosta do padre e até vai à missa, trata logo de o transferir. Cá para mim, os bispos são como os empresários de futebol, devem ganhar à comissão com as transferências que fazem.

- O que passará pela ideia dessa gente…

- É mistério insondável, mas este ano a transferência do padre Luís António de Ranhados para Sendim, deu mais que falar que a transferência do Figo do Barcelona para o Real Madrid.

- E como acabou isso?

- Ora, no fim-de-semana passado não houve missa nem em Ranhados nem em Sendim. Parece que ficaram todos a perder.

- É sempre o mesmo… pá, agora tenho de ir, a Mãe Natal está a chamar-me. Vai começar o AB… Sexo.

- Grandes malucos que vocês são.

- Curiosidade cientifica, apenas.

- Sim, claro. Pai Natal…

- Diz lá depressa.

- Cuidado com a distribuição de prendas este ano, não vá o trenó ser confundido com uma avião da CIA. E feliz Natal para si também.

segunda-feira, novembro 28, 2005

Interrupção Forçada

Assaltaram-me o carro! Uma das poucas coisas que levaram foram vários textos, entre eles a continuação do que está a meio.
Vou ter que o voltar a escrever, mas já não vai ser o mesmo. Estou desanimado.

sexta-feira, novembro 18, 2005

As Tuas Mãos

Estás agora muito próximo

tenho as tuas mãos no meu pescoço

Sinto a tua respiração, o teu bafo

tenho as tuas mãos no meu pescoço

Subitamente, o ar ficou frio

tenho as tuas mãos no meu pescoço

Não te senti aproximar, coisa que nunca tinha acontecido

tenho as tuas mãos no meu pescoço

Nos teus olhos reconheço aquele olhar

tenho as tuas mãos no meu pescoço

Não lhes vejo vida, estão cegos

tenho as tuas mãos no meu pescoço

Tento falar mas não consigo

tenho as tuas mãos no meu pescoço

Agarro-me a ti mas não tenho força, não me sentes

tenho as tuas mãos no meu pescoço

Quem és tu? Não te conheço

tenho as tuas mãos no meu pescoço

Onde está o homem por quem me apaixonei?

tenho as tuas mãos no meu pescoço

Quando começaram as tuas palavras a ficarem ocas?

tenho as tuas mãos no meu pescoço

Quando começou a minha vida a ficar vazia?

tenho as tuas mãos no meu pescoço

Quando foi que te afastaste de mim?

tenho as tuas mãos no meu pescoço

Tentei falar contigo, não deixaste

tenho as tuas mãos no meu pescoço

Quando foi que te perdi?

tenho as tuas mãos no meu pescoço

Em que pensas, o que sentes?

tenho as tuas mãos no meu pescoço

O que fiz eu?

tenho as tuas mãos no meu pescoço

O que não fiz eu?

tenho as tuas mãos no meu pescoço

Porquê?

tenho as tuas mãos no meu pescoço

Que loucura é essa que eu vejo no teu rosto?

tenho as tuas mãos no meu pescoço

Rosto que se desvanece

tenho as tuas mãos no meu pescoço

A luz que se turva

tenho as tuas mãos no meu pescoço

Já só há sombras nas paredes

tenho as tuas mãos no meu pescoço

Os sons tornam-se eco

tenho as tuas mãos no meu pescoço

Abro mais os olhos mas vejo menos

tenho as tuas mãos no meu pescoço

Estás agora longe

tenho as tuas mãos no meu pescoço

Pairo por cima de ti

Já não tenho as tuas mãos no meu pescoço

segunda-feira, novembro 14, 2005

Luka

O meu nome é Luka. Vivia no segundo andar. Por cima de ti. Nunca soube se apenas me vias passar, ou se alguma vez reparaste em mim.

Certamente deves ter ouvido por mais de uma vez o barulho que vinha de minha casa. Aqueles apartamentos não eram famosos pelo isolamento sonoro, pois não?
Aquele som característico de discussão, os gritos impacientes, as palavras não ditas mas vociferadas, a ira, o ódio. Muitas vezes pensava em como seriam esses sons depois de filtrados pelas paredes, em como chegariam aos teus ouvidos; ao teu cérebro, que entendimento farias deles, se é que fazias algum.
Muitas vezes eram sons de luta. Devem ter-te feito pensar, por certo. Não imaginas as vezes que desejei que te fizessem actuar, subir aquelas escadas, arrombar a porta e salvar-me. Ingenuidade minha, eu sei, mas pouco mais tinha que a minha ingenuidade, na altura.

Numa das piores fases da minha vida, há muitos anos, escrevi-te. Era um misto de explicação e desabafo. Também era um lamento. Sempre escrevi muito porque sempre falei pouco. Guardava tudo para mim. O papel era (ainda é) o meu fiel confidente.
Nunca tive coragem de te fazer chegar o texto, claro, mas ajudou-me muito na altura. Era uma coisa simples, apenas os sentimentos de um jovem em relação à sua vida; um pouco também em relação a alguém que não conhecia mas de quem gostava. Tu.

Sim, gostava de ti. À minha maneira. Nunca falámos, nem sei se alguma vez nos cruzámos na escada. Não me lembro sequer de alguma vez o teu olhar ter cruzado o meu, mas eu gostava de ti. Observava-te ao longe e pensava em como eras bonita. (Se tivesse sentimentos dentro de mim para além de pena e tristeza, diria que te amava).
Na minha imaginação, a partir de certa altura, substitui o papel por ti como minha confidente. Passou a ser a ti que eu contava as minhas dúvidas, as minhas incapacidades, os meus medos, as minhas falhas… os problemas que tinha em casa.
A primeira vez que te escrevi, percebo-o agora, foi uma tentativa de explicação daquilo que tu ouvias, e da ideia que isso te poderia fazer ter em relação a mim. Não queria que tivesses má opinião sobre mim, sobre a minha família. É que tinha uma estúpida esperança de que pudéssemos vir a ser amigos, que pudesses passar de confidente imaginada a confidente materializada. Foi a última esperança que tive durante muitos anos.

Foi uma fase muito má da minha vida. Muitos problemas em casa, muitos problemas comigo próprio. Anulei-me, reduzi-me a pouco mais que o estritamente necessário para sobreviver. Fiz tudo isso inconscientemente. Pura e simplesmente convenci-me de que era assim que as coisas tinham que ser.
Esse convencimento da inevitabilidade dos maus-tratos, da falta de amor, do não ser desejado, fizeram com que interiorizasse que nada estava errado comigo ou com a minha vida e comecei a negar a evidência. Desde logo a mim próprio.
Hoje, quase me custa a crer tudo isto. Vê bem que desenvolvi um pensamento unidimensional e convergente em que nada era questionado, tudo era aceite porque sim. Convenci-me mesmo de que o melhor que me podia acontecer era ficar sozinho para o resto da vida, de que nunca ninguém ia querer saber de mim que não fosse para me magoar. Para sofrer, antes estar sozinho. Isolei-me, fechei-me dentro de mim.

Demorei muitos anos a perceber o isolamento em que vivia, o automatismo, a rotina em que estava transformada a minha vida e, acima de tudo, a perceber que não tinha de ser assim, que havia mais vida para ser vivida, que não tinha que me limitar a sobreviver, a chegar ao dia seguinte. A perder o medo de voltar a sofrer, que em grande medida acho que era isso.
Quando percebi que conseguia voltar a lidar com o sofrimento, com a perda, acho que voltei a viver - sim, estou convencido que não se vive sem sofrimento e que temos que aprender a lidar com isso.
É claro que todos esses anos marcam uma pessoa. Eu hoje sou também quem fui nesses anos em que fomos vizinhos. Sendo diferente, tenho esses anos bem presentes, fazem parte de mim.

(Há uma descoberta minha que é muito recente e que me tem dado que pensar: se, apesar de tudo, não foi esse isolamento, esse fechar para o mundo que me salvou, que me permitiu chegar aqui, hoje. Mas isso fica para outra altura).

Entretanto, voltei a escrever muito. Nunca mais tinha era escrito para ti. Lembrei-me hoje de o fazer. Porquê, não sei, ou melhor, talvez por ter percebido que da última vez em que o fiz, terminava dizendo-te para não me perguntares como eu estava; hoje escrevo-te para te dizer que já não tenho medo dessa pergunta, nem da resposta… já não preciso mentir!
Hoje consigo falar do que ficou para trás, do que me aconteceu, de quem eu era. Mas também só se for preciso, só a ti. Interessa-me muito mais o futuro, o que falta viver, não o que foi (sobre)vivido.
Hoje já não quero estar sozinho. Apesar de não ter nenhuma relação de momento, sou relativamente feliz, acima de tudo, tenho esperança, sabes? Foi essa a minha maior conquista: recuperar a esperança. Agora tenho razões para sair da cama todas as manhãs, tenho uma ocupação, tenho vontade de ser feliz.

Espero que esteja tudo bem contigo. Let me ask you: how are you?

PS – Um óbvio agradecimento à Suzanne Vega pela música… por todas as músicas.

quarta-feira, novembro 09, 2005

Das Relações Entre as Pessoas

Querido diário,

Tenho estado ausente, eu sei, mas nesta altura do ano é sempre assim, para mais com a minha relação com o Sérgio no estado em que está.
A última coisa que partilhei contigo foi a angustia que sentia por mais um aniversário que se aproximava. Todos os anos a mesma coisa: esta sensação de finitude que se aproxima. Agora que já fiz os malditos 60 anos, a angustia continua.

Tal como eu temia, o jantar de aniversário foi muito difícil para mim. Cada vez era mais complicado fingir que tudo estava bem. Nessa noite, depois de todos terem ido embora, reuni todas as minhas forças e coloquei a questão ao Sérgio.
Falámos por meias palavras, como tem sido habitual nos últimos anos, mas falámos. Decidimos que, entre nós, para já, vamos deixar de fingir que ainda temos uma relação. Vamos continuar a viver juntos, a partilhar a mesma casa, mas estamos já a ocupar quartos diferentes.
O divórcio está fora de questão. Para os amigos vamos manter uma aparência de normalidade, mas à Beatriz e à Ana já dissemos. O Sérgio ainda tentou convencer-me que não lhes devíamos contar, mas já me custa bastante fazer isto com as outras pessoas, não o conseguiria fazer com as minhas filhas.

Os primeiros dias foram difíceis, afinal, andamos os dois aqui por casa quase sem nos falarmos, como se fossemos estranhos. O Sérgio é como um fantasma que eu vejo mas com o qual não consigo comunicar (nem quero, bem vistas as coisas).
Tenho perguntado muitas vezes a mim mesma se havia necessidade desta tentativa desesperada (?) de manter as aparências, se não era melhor a separação, ponto final.
Chorei muito (ainda choro). Tem sido também por isso que não tenho escrito, não quero encher páginas e páginas só com angústias, dúvidas, tristezas, lágrimas.

Estive hoje com os meus netos e estou mais animada. Acho que vou conseguir fazer isto funcionar. A verdade, por muito que me custe admitir, é que ainda sinto algo por ele. Algo forte, mesmo depois de tudo o que ele me fez, de todas as traições, de todas as mentiras. A diferença é que enquanto nos últimos anos eu preferia enganar-me a mim própria, agora não, consegui encontrar algum amor próprio dentro de mim e não abdico dele. Não vou deixar que me magoe mais!
Pelo menos, não vou deixar que ele perceba que ainda sofro um pouco. Faz-me muita confusão como é que a minha mágoa nunca o afectou, nunca o fez ter uma palavra para comigo, lhe provocou uma alteração de comportamento, por pequena que fosse. Não quero crer que nunca o tenha percebido, como me disse no dia em que falámos. Isso seria bem pior, seria a confirmação das minhas piores suspeitas: que para ele, eu já não existo há muito tempo… há tempo demais.

Neste últimos dias tenho dado por mim a pensar várias vezes no porquê desta coisa das relações entre pessoas ser tão difícil, tão complicada. Se não seria melhor não haver sentimentos desse tipo por um parceiro.
Não seria preferível, querido diário, se tudo se resumisse a sexo, como em quase todo o reino animal? Sexo, só e apenas, sem qualquer tipo de ligação afectiva.
Não me interpretes mal, não estou a defender uma mudança de comportamento, estou apenas a divagar sobre como teria o mundo evoluído se, no inicio do desenvolvimento da espécie humana, não se tivesse gerado esta necessidade de estabelecer ligações que acabaram por originar a Família tal como a conhecemos hoje.
Se fosse como com quase todos os animais, haveria sexo para reprodução e algum por prazer (que não se trata de uma posição puritana). Amor, que é um sentimento importante, tinha-se pelos filhos, não pelos parceiros.
Os filhos ficariam ao encargo de um dos progenitores. Cresceriam sem o amor do casal, é certo, mas quantos não são os casos de sucesso em que isso acontece nos nossos dias? E depois, amizades continuaria a haver, continuaríamos a dar-nos com outras pessoas, a conviver em grupo. Apenas não haveria o Casal.

Este meu “protesto” é contra o casal, contra o potencial de sofrimento que o conceito encerra quando a coisa não corre bem – e que pode ser muito superior a tudo de bom que também contém -, não é contra a sociedade, contra o grupo, contra a amizade. Tudo isso seria fundamental.
E só mais uma coisa: a criança nunca sentiria falta do outro; isto porque nunca teria havido outro e nós só podemos sentir falta do que conhecemos, do que perdemos, se não sabemos que existe, não o poderemos lamentar (se nunca tivesse existido televisão, alguém ia sentir falta dela?).

Certamente isto teria originado uma sociedade muito diferente da que temos hoje, mas seria pior? Quero crer que a ideia tem algum mérito e merece alguma reflexão, que não é só alguém magoado pelo amor a desabafar.
Parece-me um exercício intelectual válido, apenas isso. Até porque não advogo esta mudança, agora seria impossível: todos sabemos o que é uma família feliz e devemos aspirar a ela; é nossa obrigação tentar consegui-la, devemos isso a nós próprios. Isso torna impossível o que disse antes.

Agora que já me libertei de algum deste peso no peito que me aflige, vou fazer uma canja (espero que o desgraçado do frango não tenha estado constipado, que esta estória da gripe das aves também me tem afligido).
Até à próxima.

PS – a canja é só para mim, se ele quiser que a vá fazer!

domingo, novembro 06, 2005

Voltaremos a ver-nos (final)

Menin, 19 Setembro 1917

Querida Lea,

Não imaginas a felicidade com que recebi a notícia da tua gravidez. Devolveu-me alguma da fé que tenho perdido a cada dia que aqui passo. As coisas de que o ser humano é capaz de fazer, não imaginas.

Preciso tanto de ti. Depois de amanhã nada vai voltar a ser como era. Amanhã vou entrar em combate.
Se há coisa que me assusta mais do que a ideia de não te voltar a ver, é recear que esta maldita guerra me torne um homem diferente daquele pelo qual te apaixonaste. Me torne numa pessoa pior.
Sinto-me muitas vezes possuído por sentimentos terríveis. Dou por mim a odiar tudo e todos. Sinto raiva e, por vezes, mesmo fúria. Tudo isto é novidade para mim, desconhecia-me capaz de tais coisas e assusto-me.

Por outro lado, sei que não me posso deixar dominar por sentimentos negativos e ideias pessimistas. Sei também que não é altura para filosofias. Chegou a hora da acção. Amanhã tenho que estar à altura do que me é exigido.
A tua gravidez deu-me a confiança de que necessitava.

Escrevo estas linhas e olho para o teu retrato no relógio que me ofereceste. Não me separei ainda dele e não vou separar nunca. É como se fosse uma parte de ti.
Meu Deus, como és linda. Amo-te muito.

Não vejo a hora de voltar para junto de ti.

quarta-feira, novembro 02, 2005

Voltaremos a ver-nos (parte 3)

Francisco Mata nunca tinha pensado muito no seu nome até ter sido incorporado no Corpo Expedicionário Português. Nos últimos meses era no que mais pensava.
Estava ali para matar, era para isso que o queriam. A espingarda e as munições que carregava não o deixavam esquecer.
Não sabia se já tinha morto alguém, gostava de pensar que não, que todos aqueles tiros disparados tivessem errado o alvo. Esperava nunca vir a ter resposta para dúvida.
Uma outra coisa em que Francisco pensava constantemente era em comida. Era disso que andava à procura quando me encontrou.
Por vezes conseguia-se obter algumas rações de combate alemãs no campo de batalha. Eram até mais apreciadas que as do exército britânico.
Nesse dia, Francisco e os seus camaradas tiveram sorte. Pouco depois de me encontrar, um seu companheiro encontrou um cavalo ferido. Há mais de um mês que não comiam carne.

Não me sabendo verdadeiramente apreciar, Francisco sempre teve todos os cuidados comigo. Ainda hoje não consigo perceber como conseguimos ambos sair ilesos dos confrontos em que nos vimos envolvidos – da batalha de La Lys guardarei sempre memória do extremo a que pode chegar o ser humano, do horror.
A verdade é que cheguei em razoável estado ao fim da guerra. E foi assim que me vi transportado para Portugal.
Francisco era alentejano, vivia numa pequena aldeia do Alto Alentejo, Alcáçovas. Trabalhava no campo, no arranque da cortiça quando era tempo dela e a guardar vacas e porcos para um grande proprietário local.
Ironia do destino, ali estava eu, peça suprema de relojoaria do início do século XX, passando os dias no meio dos animais.
Para Francisco, homem simples que tinha visto muita coisa que não tinha desejado, eu era apenas uma coisa bonita que tinha trazido de um sítio feio. “Muito feio, tenebroso, negro”, como dizia, quando contava histórias da guerra, à sombra das Azinheiras. E mostrava-me, para espanto e admiração dos seus companheiros de trabalho.

Antes regressar vindo de França, Francisco tinha retirado a foto de Frau Lea. Penso que para evitar problemas em casa. Nunca cheguei a saber o que fez com a foto, apenas achei estranho não ter colocado uma de Joaquina, sua mulher.
Teve 6 filhas. Quando deixou de trabalhar devido a idade avançada, um dos seus passatempos favoritos continuou a ser contar histórias da guerra, agora aos seus netos. Pegava em mim e falava sobre o “senhor importante” a quem me tinha retirado. Falava com respeito do capitão Maximilian, apesar de desconhecer tudo sobre ele. Dizia Francisco que eu preservava a memória de uma pessoa e que isso devia ser respeitado, afinal, eu tinha sido a última coisa a que aquele homem se tinha agarrado. Que eu devia ser importante para ele e isso era tudo o que importava.

De facto, Francisco nunca me tratou como dono, apenas como guardião. Penso que dessa memória que ele sentia encerrada em mim.
Dizia sempre a quem ouvia as suas histórias que não queria ser dono de nenhum relógio, porque eram, a seguir às armas, a mais terrível invenção do ser humano. Imaginem como fiquei a primeira vez que ouvi tal coisa.
Na sua sabedoria de homem do campo, afirmava que nós, os relógios, éramos terríveis porque lembrávamos constantemente ao Homem que o fim se aproximava. “Tic, tac, tic, tac… já falta menos para tudo acabar”, dizia.
Chamava-nos máquinas ditatoriais, que escravizava-mos as pessoas: “agora tudo tem hora marcada, sempre a correr… então nas cidades é do pior, olha-se para o relógio e entra-se em pânico; todos dizem que não têm tempo para nada… qualquer dia vai ser cá no campo assim também, vocês vão ver… tudo culpa dos relógios”.
Francisco chamava ignorantes às pessoas, viviam sem consciência da vida que levavam, do quanto estavam escravizadas por aquele pequeno objecto que carregavam.
A quem lhe perguntava porque andava então ele comigo, respondia que era porque precisava de saber a que horas tomar o xarope para a tosse. Depois ria muito.
Nunca percebi esta sua atitude, julgo que são coisas normais dos homens do campo em Portugal.

Era um homem bom, muito querido de todos. Teve uma vida longa. Em Março de 1990, com 96 anos, um princípio de pneumonia debilitou-o muito e ficou acamado.
Contou ainda muitas histórias às filhas e netos que estavam sempre por perto. Já todos as conheciam de cor, mas mostravam sempre grande interesse em as ouvir novamente.
Um dia pediu a atenção de todos, queria fazer um último pedido. Perante alguma incredulidade de todos, contou mais uma vez como me tinha encontrado, mas desta vez acrescentou alguns detalhes: que nos últimos dias estava a ter um sonho recorrente e que nele uma voz lhe dizia que era chegada a altura de devolver o relógio ao seu dono. Ao fim de tantos anos tinha-se esquecido de que eu não era dele, que apenas tinha ficado encarregue de o conservar até ao dia em que descobriria como o fazer regressar ao seu dono.
Quando lhe perguntaram como seria isso possível ao fim de 73 anos, Francisco chamou até si o neto João.
- João, escuta-me, vais ser tu a cumprir esta tarefa.
- Diga-me como avô.
- Tenho no banco, em Évora, uma caixa guardada no cofre. Lá dentro vais encontrar o que precisas para devolver o relógio ao seu dono.

Dois dias depois Francisco morreu durante o sono. Tratados os aspectos legais, João levou-me até ao banco. A curiosidade e ansiedade faziam-se sentir.
A caixa que lhe foi entregue não pesava quase nada, João pensou se não estaria vazia. Sentou-se a uma mesa e esteve vários minutos sem se mexer. Por fim, decidiu-se e abriu-a.
Continha duas coisas: uma foto muito antiga de uma jovem rapariga e um envelope fechado, amarelecido e algo amarrotado. Estava endereçado a Frau Lea Abendroth Ludendorff.
João pegou-lhe como se estivesse a pegar na coisa mais preciosa. Ali estava, agora tinha uma morada, uma ajuda para cumprir a tarefa a si atribuída por seu avô. A sua ultima vontade.

Após alguns telefonemas para um primo que tinha em Estugarda, conseguiu saber através dele que a morada já não existia, a rua tinha mudado de nome, mas que, naquele número lhe tinham dado a morada da família Abendroth.
Partiria para a Alemanha.

Frau Lea estava deitada, semi-erguida, encostada a duas grandes almofadas. Parecia dormir quando entrámos no seu quarto: eu, João, o seu primo Augusto e Anne, filha de Frau Lea.
Apesar dos seus quase 93 anos, conseguia perceber-se a beleza que eu recordava dela. Não fosse eu um simples relógio, ter-me-ia emocionado por certo.

- Mãe?
Frau Lea abriu os olhos e compôs-se na cama com a ajuda de Anne. A voz saiu-lhe sumida mas perceptível para quem estava próximo.
- Sim?
- São os senhores de que lhe falei.
Augusto traduzia para o seu primo.
Uma lágrima rolou pela face de Frau Lea.
João aproximou-se e falou. – Dá-me licença que lhe segure na mão?

Durante uma hora contou, pausadamente e com todos os detalhes, a minha história conforme a tinha ouvido contar centenas de vezes a seu avô. Falou-lhe sobre Francisco e em como este o tinha encarregue há algumas semanas de encontrar a pessoa a quem eu pertencia. Pediu desculpa, em nome do avô, por tantos anos de atraso.
- Onde está o relógio? – perguntou Frau Lea.
João pegou em mim e entregou-me. O seu toque era frágil. As saudades que eu tinha daquele toque. Frau Lea emocionou-se bastante. Pediu à filha que me abrisse. A sua foto lá estava.
- Custo a crer Anne, o relógio que ofereci ao teu pai. Foi a última vez que o vi… que os vi. Não sabia naquela altura que estava grávida de ti. Nunca soube se a noticia chegou a teu pai.
- Eu sei mãe.
- As saudades que tenho dele… mas tive-te a ti, não é verdade?

Após alguns minutos de silêncio em que mãe e filha ficaram de mão dada a contemplar-me, João interrompeu.
- Há ainda mais uma coisa. Este sobrescrito que meu avô conservou.
Frau Lea reconheceu a caligrafia do marido. Era a carta que ele lhe tinha escrito na noite anterior à sua morte.

Faz hoje um ano que regressei a casa. Aqui estou, junto a uma foto de Herr Maximilian Ludendorff e Frau Lea Abendroth Ludendorff, dentro de uma bonita caixa transparente, no jazigo da família.
Velo pelo corpo de Frau Lea e pela memória de Herr Maximilian.
Julgo que cumpri bem o meu dever. Agora é altura de também eu descansar. Não o queria fazer sem contar a minha história.
São 12h00.

domingo, outubro 30, 2005

Voltaremos a ver-nos (parte 2)

Região de Ypres, Flandres Belga. As piores chuvas dos últimos 30 anos tinham tornado a vida nas trincheiras quase insuportável. As condições de vida eram péssimas, havia falta de mantimentos, as instalações que serviam de aquartelamento deixavam entrar água por todo o lado. Tudo estava húmido e a apodrecer. À noite, o frio fazia-se já sentir, e deixava adivinhar um Inverno muito penoso.

A Companhia de Herr Maximilian L. estava colocada na ponte da estrada de Menin. Era este o acesso à localidade de Passchendaele, local estratégico para o controlo da região.
Estávamos em meados de Setembro. A tensão entre os militares aumentava a cada hora. Sabia-se que o exército Aliado se aproximava.
A ofensiva iniciada a 31 de Julho, a terceira Batalha de Ypres e primeira de iniciativa Aliada, tinha encontrado resistência feroz por parte das tropas alemãs, mas era agora inevitável o confronto. Seria o baptismo de fogo de Max.
Nunca lhe vi medo. Aos homens do pelotão que comandava aparecia sempre confiante e determinado, a mensagem que passava era a de que aquilo para que tinham sido chamados estava perante eles: a defesa da pátria. E isso passava pela conservação daquela ponte.

Desde a partida de Munique não mais o Capitão Ludendorff se separou de mim. Apesar das condições mais que adversas, da muita lama, da humidade constante, Max tinha todos os cuidados comigo. Conseguiu sempre preservar-me de qualquer dano.
Apenas nos separávamos fisicamente à noite. Colocava-me, aberto, em cima de uma pequena mesa junto ao beliche que ocupava. Ficava vários minutos a contemplar-me à luz da vela, na verdade, a foto de Frau Lea, a recordar momentos passados a dois.
Por vezes rezava. Por esta altura, mais que uma vez por dia. Pedia protecção para si e para a sua mulher. E escrevia-lhe também. Contava-lhe os vários aspectos da vida nas trincheiras, sempre de um ponto de vista optimista, omitindo tudo o que pudesse realmente preocupar Lea. Sentia-se algo ingénuo com o que escrevia, no fundo, sabia que Lea percebia isso, mas achava melhor assim.

A 19 de Setembro, ao amanhecer, os primeiros obuses do dia caíram bem mais perto das posições que ocupavam, do que nos dias anteriores. O exército alemão recuava e espalhava-se por uma enorme frente de batalha. Não poderiam contar com muita ajuda.
À tarde as ordens chegaram e não podiam ser mais simples: resistir a todo o custo, em último caso, dinamitar a ponte.
O pelotão que Herr Maximilian L. comandava foi colocado a 500 metros da ponte, numa segunda linha de defesa.
Era agora, iria combater. Teve medo. Nessa noite escreveu a Lea. Rezou muito. Beijou a foto, coisa que nunca tinha feito e dormiu agarrado a mim… pelo menos tentou, mas nunca conseguiu.
O dia 20 começou com a habitual alvorada de obuses. Às 9h00 a primeira linha de defesa caiu. Os (poucos) soldados que conseguiram chegar até nós não ficavam: “recuem, não temos qualquer hipótese… são muito mais que nós… temos que atravessar a ponte, dinamitá-la e suster o avanço inimigo na outra margem…”.
Max hesitou. O coração dizia-lhe que era a única coisa sensata a fazer, que devia recuar; mas a razão dizia-lhe que fixasse, não poderia recuar na primeira vez que entrava em combate, não poderia viver com a sua consciência se o fizesse. Ficaram.

Os morteiros massacravam as suas posições. Começaram a ser atingidos por tiros de metralhadora e espingarda. Responderam como puderam. Tiveram as primeiras baixas.
Quando os tiros de morteiro cessaram, Max percebeu que as tropas aliadas iriam avançar. Gritou ordens e incentivos aos seus homens sem sequer saber se estava a ser ouvido. Tinha agora a clara sensação de que cada homem estava por si, desorientado, perdido. Nada o havia preparado para aquilo. Pensou mais uma vez se seria desonra recuar.
Rudolf Schell, soldado encarregue do rádio e que sempre acompanhava o Capitão, caiu desamparado para o lado. Tinha sido atingido na cabeça. Granadas começaram a explodir bem perto, projectando terra por todo o lado.
“Retirar, retirar”- gritou Herr Maximilian L.

Confesso que não sei exactamente como aconteceu. O barulho era intenso, eu, ora era comprimido contra o chão, ora violentamente abanado enquanto Max corria. A certa altura ouviu-se um som diferente, seco, muito próximo de mim. Fui mais uma vez pressionado contra o chão. Desta vez não se seguiu o chocalhar violento.
Com dificuldade, Max conseguiu virar-se de barriga para cima. Um liquido espesso e quente começou a invadir o bolso onde eu me encontrava. Tinha sido atingido no estômago.
A primeira coisa que senti no jovem Capitão foi incredulidade, como se tudo aquilo não estivesse a acontecer. Tentou levantar-se, mas em vão. Não conseguiu sequer arrastar-se.
Gritou então mais uma vez, “retirar…”, mas as cordas vocais traíram-no e apenas um fio de voz que ninguém ouviu para além de mim lhe escapou por entre os lábios secos.
Quando finalmente Max percebeu, procurou-me. Com a mão ensanguentada e enlameada, apertou-me com quanta força lhe restava.
Ainda murmurou “Lea...” e, sem que tenha disparado um único tiro, morreu.

Seguramente, a coisa de que guardo uma memória mais intensa desta minha longa existência, é das horas ali passadas na mão de Max, de ver as nuvens passar, da chuva, do fumo negro, do barulho ensurdecedor, da correria louca dos soldados, dos seus gritos; e depois do silêncio… de como algo tão brutal tinha dado, aos poucos, lugar a um silêncio profundo.
Acima de tudo, guardo memória de como o calor daquela mão me foi abandonando, de como se foi esvaindo para a terra.
A força do aperto, essa nunca se perdeu. Max manteve-me sempre apertado, como se eu fizesse, agora, parte dele.

No dia seguinte, a meio da manhã, o sol rompeu por entre as nuvens. Senti os seus raios tocarem-me por entre os dedos de Max. Apesar de muito sujo, consegui reflectir parte desses raios.
Foi certamente isso que atraiu até mim um soldado. Parou e fitou o corpo de Max durante uns segundos. Retirou o capacete e benzeu-se. De cabeça baixa, fez uma breve oração.
Lembro-me de ter pensado no quão estranho era aquele comportamento, em como sentimentos daqueles pareciam deslocados num campo de batalha.
A custo, retirou-me da mão do capitão. Percebi então que era um soldado Aliado, do Corpo Expedicionário Português.
Preparava-se para seguir o seu caminho quando viu algo no corpo de Max que lhe chamou a atenção. Baixou-se, retirou o que quer que fosse e guardou no seu casaco.

A mim não ligou muito, abriu-me e fechou-me sem que a sua expressão se alterasse. Ou não percebia nada de relógios ou, por eu estar sujo, não reconheceu o valor que tinha em sua posse. Guardou-me no bolso e avançou.

NA – Obviamente, esta história é ficção. Apesar disso, tentei que o enquadramento histórico fosse o mais próximo possível da realidade.
Apesar disso, cometi um erro: nos apontamentos que tomei, troquei o ano da terceira batalha de Ypres, que ocorreu em 1917 e não em 1916. Assim, o ano da primeira parte teve que ser alterado.
Podem encontrar aqui informação sobre essa batalha e aqui sobre o Corpo Expedicionário Português.

sexta-feira, outubro 28, 2005

Voltaremos a ver-nos (parte 1)

Sirvo para uma coisa muito simples. Apesar disso, não sou simples, antes pelo contrário, sou o resultado de uma complicada mas harmoniosa conjugação de dezenas de peças, muitas delas móveis.
Sou fruto da inspiração de uma mulher apaixonada e da habilidade de um homem, também ele apaixonado.

Assinalo a passagem do tempo, sou um relógio.

Fui criado em Genebra, em 1917, resultado da habilidade – do génio – de Mr. Adrien Philippe, mestre relojoeiro de excepção, homem apaixonado pelo seu oficio.
A inspiração deu-a Frau Lea Abendroth que, por ser de uma família abastada de Munique com contactos em vários países, conseguiu chegar até ao sogro de Mr. Philippe, pedindo-lhe que intercedesse a seu favor junto do mestre relojoeiro, o mais conceituado do seu tempo.

Adrien Philippe hesitou, afinal, sempre tinha sido ele o criador das suas peças, sempre tinha feito questão disso, era a parte do processo que mais prazer lhe dava. De espírito criativo, procurava sempre inovar, introduzindo novidades a cada novo modelo produzido.
Ao ler as indicações de Frau Abendroth, considerou-as um desafio e aceitou a encomenda.
Eram muito simples de enumerar e difíceis de concretizar: seria um relógio de bolso em prata, com tampa, em que nesta fosse gravado uma runa simbolizando a boa sorte
e que, no seu interior fosse colocado o encaixe para uma foto; para além das horas, o relógio deveria ter cronómetro, regulação fina e bússola; deveria ter também um mostrador onde fosse indicado o nascer e o por do sol; por último, na parte detrás, deveria ser gravada a frase “Meine Traueme Mit Dir Traueme”.
Sem querer abusar demais da boa vontade do mestre, Frau Abendroth pedia alguma urgência. Dinheiro não seria problema.

Mr. Adrien Philippe saiu-se maravilhosamente. Utilizando os melhores materiais e os melhores artífices, produziu uma peça verdadeiramente magnífica. Um relógio único.
Sim, sou vaidoso. Mas tenho razões para isso, no meu tempo fui do melhor que a relojoaria Suiça produziu e, ainda hoje, continuo a ser admirado com reverência por conhecedores e olhado com espanto por leigos.

Com 19 anos feitos há pouco tempo e casada à menos de um ano, Lea Abendroth viu-se no início de 1917 na eminência de se separar do marido. Promovido a Capitão do exército imperial alemão antes dos 21 anos, Herr Maximilian Schenk Ludendorff partiria em breve. A Alemanha estava em guerra.
As boas relações quer da sua família, quer da do marido junto da corte tinham, até então, adiado a partida de Maximilian, mas a situação pouco favorável vivida pelas tropas alemãs na frente de batalha e o recente apelo do Kaiser para a união da pátria, tinham tornado inevitável a sua convocação dentro de pouco tempo.
Sabendo do gosto de Max, como o tratava carinhosamente mas apenas em privado, por relógios, Frau Abendroth tinha decidido há já algum tempo oferecer-lhe um modelo exclusivo pelo seu aniversário em Novembro. Quando a família foi avisada que Maximilian seria convocado em Março, não perdeu mais tempo, queria ter o relógio em sua posse quando o marido fosse chamado a cumprir o seu dever pela pátria.
A 3 de Março chegou o telegrama, partiria de Munique dia 28 próximo, iria ser colocado na Flandres.

É impossível esquecer uma cena daquelas. Pouco passava das 7h00, uma leve neblina levantava-se empurrada pelos primeiros raios de sol. A Marienplatz estava apinhada, uma multidão convergia à Hauptbahnof, a estação central de Munique.
Centenas de pessoas despediam-se dos seus filhos, netos, maridos, pais, tios… Os soldados partiriam às 8h00 para Berlim, primeira etapa do trajecto que os levaria até à frente de batalha.
A pátria esperava o melhor deles. Sentia-se orgulho nas suas expressões. Alguns conseguiam disfarçar menos bem o medo que sentiam.
Apesar de tanta gente concentrada num mesmo local, o ambiente era estranhamente calmo. A Lea, tinha-lhe parecido o ambiente de um funeral quando chegou. Estremeceu mas afastou imediatamente todos os pensamentos negativos do seu espírito.
Apenas ela tinha insistido em se vir despedir à estação. Maximilian tinha preferido despedir-se de todos em casa, algo sobre não querer parecer “muito humano” aos olhos dos homens que ia comandar. Lea tinha-o repreendido e impôs a sua presença.

- Max…
- Amor.
- Queria que aceitasse esta lembrança.
- Lea… mas… é magnifico… estou sem palavras. A assinatura, Adrien Philippe… não sei…
- Diga só que gostou.
- Lea, adorei, é lindo. O símbolo…
Meine Traueme Mit Dir Traueme…
- Lembra-se?
- Como poderia não lembrar. O seu poema… estou deveras tocado.
- No interior… coloquei uma foto minha, do dia do nosso casamento. Assim vai poder ver-me sempre. Tem também uma bússola, para que saiba encontrar o caminho de casa, até mim; tem um mostrador indicando o nascer e o por do sol, a esperança no dia que começa e a fé para o dia seguinte. As outras características poder-lhe-ão ser úteis na batalha, mas prefiro não pensar nisso.

Herr Ludendorff estava visivelmente emocionado. Ali ficaram os dois, de mão dada, em silêncio.
O comboio apitou com um silvo estridente e prolongado. O vapor libertado encheu a estação, dando-lhe um ar lúgubre e um pouco irreal. Maximilian beijou Lea nos lábios.


- Amo-o muito.
- Eu também a amo muito.
- Boa sorte.
- Voltaremos a ver-nos.

quarta-feira, outubro 26, 2005

Nota do Autor

Apenas para dizer que completei um pouco melhor o “meu perfil” e que alterei a descrição do Blog, onde antes se podia ler “um blog a leste de sitio nenhum”, pode agora ler-se… bom, basta olharem para baixo do titulo.

Fiz isto porque tenho percebido pelos comentários (que muito me sensibilizam e agradeço) que, pelo menos quem cá vem pela primeira vez, tem tendência para tomar os textos um pouco literalmente demais. Sinto que posso estar, ainda que inadvertidamente, a induzir alguém em erro.
A este propósito, deixo AQUI o link para um texto recente onde falo sobre isso mesmo.

Mais uma vez, obrigado a todos.

terça-feira, outubro 25, 2005

O Frio de Sábado à Noite

As minhas noites de sábado sempre foram muito angustiantes. São as noites por excelência para se sair com os amigos em busca de diversão. Pelo menos, este é o objectivo declarado, porque o implícito, para quem tem 18 anos como eu e não namora, é encontrar uma relação.
Nunca ninguém me disse que é assim, nunca o li em lado nenhum mas, na minha cabeça, é assim. Coloco uma grande pressão sobre mim e isso angustia-me, deixa-me nervoso. E não é tanto pela parte da busca da relação, daquele jogo de sedução com uma rapariga, coisa para a qual eu nunca tive jeito, digo-o já, é por não ter muitos amigos. Chega sábado à noite e eu não tenho com quem sair.
Os poucos amigos que tenho estão noutra, andamos numa fase em que não partilhamos muito os mesmos interesses. É essa a razão porque eles não me convidam para sair com eles. Não por não me quererem no grupo, apenas sabem que eu estou noutra.
E é verdade, não estou na deles, mas também não estou na de outros, simplesmente não estou na de ninguém. Nem sequer na minha.
Se eles me convidassem eu até era capaz de aceitar. Não por convicção, apenas por não ter mais nada para fazer.

Eu também não me ajudo nada. Nunca dou parte fraca, nunca falo. Eu sou aquele para quem está sempre tudo bem, sei fingir uma vida social relativamente ocupada e sempre sem precisar de mentir – o que também não seria capaz de fazer -, basta-me falar de alguns sítios que estão a dar, de pessoas que eu conheço mas eles não e, nas suas cabeças a ligação é feita: “ele tem para onde ir e com quem ir, porreiro”. É assim tão fácil, acreditem.
A malta é jovem, não há grande preocupação em fazer muitas perguntas, vive-se depressa. Se o outro diz que está bem, se aparenta estar bem, é porque está bem.
Não me ajudo ao nunca me fazer convidado. Podia dizer que naquele sábado até ia com eles e tenho a certeza que, depois de ouvir duas ou três exclamações de espanto, ninguém mais ia pensar nisso e eu seria muito bem-vindo.
Não lhes digo nada porque se eu fosse com eles era para sítios que não têm nada a ver comigo, com aquilo que sou neste momento, e, para mais, como conheço bem apenas poucas pessoas do grupo e não as quero prender a mim, acabava por ficar por ali calado (com os outros não seria capaz de conversar sobre nada devido a uma enorme incapacidade minha de me relacionar, se querem saber), ou seja, iria passar a noite sozinho de qualquer maneira.
Mesmo assim não sei se faço bem. Será melhor passar a noite sozinho, ou sentindo-se sozinho no meio de muitas pessoas? Às vezes parece-me que no meio de um grupo é ainda pior. Ver de perto as pessoas a confraternizar, a relacionarem-se e eu ali, calado, a um canto. Acho que realça de uma maneira insuportável a tristeza de vida que tenho. Se passar a noite mesmo sozinho, parece que sinto menos pena de mim próprio.

E é assim que sábado se torna na noite mais solitária da semana.
É um drama sempre renovado. Apesar de todos os sábados serem iguais – pelo menos a esmagadora maioria -, em casa não consigo ficar, apesar de não ter para onde ir.
Não consigo ficar porque vejo nos olhos dos meus pais o que lhes vai no pensamento: “olhem só para este rapaz, com 18 anos e não sai num sábado à noite”. Nunca me o disseram nas vezes em que não saí, mas eu sinto-o. E por isso, saio. Não quero que eles pensem que não tenho para onde ir, com quem ir. Saio.
Tantas pessoas com o drama de os pais não os deixarem sair e eu com dramas destes…

Depois de algumas noites verdadeiramente complicadas, em que me vi aflito sem saber o que fazer, para onde ir, encontrei uma rotina que tem servido o propósito de queimar 3 a 4 horas: apanho o autocarro e depois o comboio, vou até à Baixa (por vezes ainda apanho o Metro e vou até outras partes da cidade). Levo o Walkman, claro, e ando por aí, sem destino, por zonas da cidade que aos sábados à noite estão quase desertas.
Ao escrever isto quase me senti bem, se eu soubesse o que era isso, diria que senti mesmo felicidade. Chegou a parecer-me um belo programa de sábado à noite. A verdade, porém, é que são 3 a 4 horas em que pouco mais faço do que sentir pena da minha existência.
Sei perfeitamente que não devia, mas é mais forte do que eu. O saber que podia ser bem pior, que há pessoas doentes e que lutam sem se queixarem, que têm vidas bem piores que a minha, não me ajuda em nada. Só damos valor às coisas quando as perdemos e, neste momento, não dou grande valor ao que tenho.

No meio de tudo isto, consigo vislumbrar algo positivo, é que tenho perfeita consciência de quem sou e de como sou. Sei que tenho que mudar, que assim não vou a lado nenhum, que isto não é vida para ninguém. Sei também que se pedir ajuda, se conseguir falar com alguém, tudo será mais fácil. Ainda não o consigo fazer, mas vou tentar, um dia. Até lá, resta-me andar por aí aos sábados à noite, sozinho, na triste esperança de que alguém meta conversa comigo, nem que seja para perguntar se aquele comboio pára em Algueirão. Até agora ainda não aconteceu.

Vai começar o Inverno. Os dias de chuva são os piores. O frio já se nota. Lá fora e cá dentro.

sexta-feira, outubro 21, 2005

Em Roda Viva

- Estou? Mafalda?
- Sim… quem fala?
- É o Jorge.
- Ah, olá Jorge, desculpa, estou a ouvir muito mal… falta de rede.
- Olha, podes ir tomar café comigo esta tarde?
- Posso… quero. Nas Docas, às 17h00?
- Lá estarei, olhando o rio, procurando por ti…
- Sempre o mesmo… até logo.

- O Sr. desculpe, mas viu por aqui um rapaz jeitoso, boa pessoa, com ar triste e abandonado?
- Deixe ver, ar abandonado… sim, lembra-me alguém, mas jeitoso? Não sei…
- Palerma! Estás bom?
- Estou óptimo, recomendo-me. E tu, como estás?
- Vamos indo…
- Li o teu mail, foi por isso que te liguei. Anda, vamo-nos sentar.
- Gosto muito de aqui vir durante a tarde, apreciar esta calma, ver o rio. Sentir a antecipação da confusão em que isto se torna durante a noite.
- Sim, estes finais de tarde de Outono, com o sol a entrar no mar, são magníficos. Lembras-te que viemos aqui na noite em que nos conhecemos?
- Claro que sim, como poderia esquecer.

- Boa tarde, o que vão tomar?
- Boa tarde. Para mim um Mazagrand.
- Dois, obrigado.

- Não me pareceste muito animada naquele mail. Depois de uma ausência tão grande, não esperava sentir tristeza nas tuas palavras.
- E eu que escrevi precisamente de maneira a não deixar perceber nenhuma tristeza. Como é que fazes isso? Às vezes acho que entras dentro da minha cabeça sempre que queres.
- Não te sei explicar, apenas sinto as coisas. Devemos ter uma ligação especial mas, de onde vem isso, ou sequer o que isso é, como funciona, não me perguntes que eu não te sei dizer.
- E sentiste o quê exactamente no meu mail?
- Senti que esse coração anda, mais uma vez, numa roda viva.

- Peço desculpa, aqui têm as vossas bebidas.
- Pagamos já?
- Não, podem pagar quando forem embora; à noite é que fazemos questão de cobrar imediatamente.

- Tens razão, mais uma vez acertaste, o meu coração anda numa roda viva, como tu dizes.
- Pensava que tu e o Miguel… que estava tudo bem, que finalmente tinhas encontrado a pessoa certa. Há mais alguém?
- Há… e não há. Eu gosto muito do Miguel e está tudo bem entre nós, não podíamos estar melhor. Eu é que não estou bem comigo própria…

(silêncio)

- …há uns dias apareceu-me uma daquelas personagens do passado, sem mais nem menos. Daquelas que tinham mexido comigo mas que estavam já esquecidas… Descobri que mexe ainda comigo. Acreditas nisto?
- Claro que sim.
- Sabes o que é termos estado horas a conversar e ter parecido que foram 5 minutos? O que te vou dizer vai parecer-te uma barbaridade, mas sabes quando sentes que aquela pessoa é tudo quanto sempre sonhaste, que é o tal, aquele que ri das mesmas coisas que tu, que percebe o que queres dizer sem que tu tenhas que terminar sequer as frases, que gosta das mesmas coisas improváveis que tu… ovos estrelados a meio da noite, que partilha os mesmos ódios de estimação? Que diabo, isto não é normal.
- Essas pessoas não existem! Desculpa a brutalidade da revelação, mas o que existe é momentos assim, momentos em que tudo parece conjugar-se, em que vês as peças encaixarem-se perfeitamente, tudo a ir ao seu lugar. No final, até ouves o clic, o sinal que tudo está perfeito.
- Achas? Sempre acreditei que cada pessoa que chega à tua vida te traz algo que possas aprender, que nada acontece por acaso.
- Eu percebo isso, e sim, quanto à primeira parte é verdade, podemos e devemos aprender sempre com quem nos cruzamos, nem que seja aprender a como não fazer as coisas; mas quanto à segunda parte, já tenho muitas dúvidas, se calhar passamos imenso tempo a procurar dar sentido às coisas que nos acontecem para depois perceber, no fim, que afinal mandam os acasos, as coincidências.
- Acreditas em coincidências?
- Por vezes parece-me que tudo isto não passa de uma sucessão de coincidências, umas concretizadas outras falhadas.
- Como assim?
- Coincidências concretizadas são as nossas vidas. O que nos acontece não é mais que uma série de acasos que levam a outros acasos. As coincidências não concretizadas são uma espécie de universo paralelo, um conjunto de possibilidades de acompanham as outras, mas que não acontecem. É uma espécie de cara e coroa, duas faces de uma mesma moeda que vão alternando. Por exemplo, lembras-te no mês passado do acidente que tive? Do tipo que não parou no vermelho e me acertou em cheio?
- Sim…
- Pois bem, isso foi uma coincidência concretizada. Mas bastava eu ter demorado mais 5 minutos a tomar banho nessa manhã, para ter chegado ao cruzamento depois do tipo passar o vermelho. Se isso não tivesse acontecido, passaria a valer um outro conjunto de coincidências que eu nunca vou conhecer… coincidências não concretizadas.
- Podias no próximo semáforo ser abalroado por um outro tipo e com consequências muito piores…
- Exactamente, é um exemplo. Mas isso nunca vamos saber. Se calhar aquele acidente livrou-me de um maior, mas por não o saber, vou sempre amaldiçoar aquele momento e não perder tempo a pensar, “e se…”. Isto tudo para te dizer que não sei se fazes bem em colocar a tua relação com esse rapaz nesses termos: pensamos o mesmo, gostamos das mesmas coisas, odiamos as mesmas coisas… uau, é um sinal dos deuses, é o tal! Não chega para colocar tudo em causa, a relação que tens com o Miguel. É que pode não passar de uma simples coincidência.
- Não se me estás a ajudar, pelo menos não me sinto melhor.
- Tu desculpa-me, estou a ser um pouco insensível. É este meu maldito racionalismo empedernido. Por vezes pareço um gajo sem coração, sem emoções, não é?
- Não me faças perguntas difíceis agora, estou baralhada.
- É verdade, eu sei que sim. É uma defesa minha, tento decompor tudo em pequenas partes para melhor as assimilar. Tudo tem que ter uma explicação plausível, quase cientifica e estas coisas do coração não se compadecem com isso.
- Mas tu alguma coisa deves estar a fazer bem, afinal, tens uma relação estável.
- … agora ia dizer que isso não passava de uma coincidência.
- Palerma…

(silêncio)

- O que pensas fazer, Mafalda?
- Juntar todos os acasos e tentar que façam sentido. Eu gosto muito do Miguel, nós damo-nos tão bem que até chateia e é isso que me perturba, que me angustia, então porquê sentir-me assim? Porquê dar tanta importância e este tipo? Se calhar é só mesmo pelo jogo de sedução, pela conquista, por ser uma espécie de desafio. Sim, pode ser só isso, ver se ainda sou capaz de interessar a alguém, ou conquistar alguém… olha, não sei.
- Quando descobrires a resposta Às tuas dúvidas vais encontrar o sossego, mas até lá é algo com o qual vais ter de viver. Fingir que não existe é que não é solução.

- Eu sei… vês aquele veleiro a dirigir-se para o mar?.. apesar disso, queria ir lá, deixar tudo isto para trás.

terça-feira, outubro 18, 2005

La Folie

Vejo-a frequentemente. Ali está, de novo. Parece estar a olhar para mim, mas não. Não me vê.
Está irritada. Está sempre. Os braços não param. Sempre em constantes movimentos frenéticos. São movimentos de aviso, intimidatórios, afirmativos, como que para não deixar dúvidas quanto à justiça das suas queixas.
Acompanha os movimentos constantes com palavras duras, quase gritadas, imperceptíveis. São palavras de indignação mas, ao mesmo tempo, parecem de súplica, como que a pedir que a deixem em paz.

Tem já muita idade, aparenta, pelo menos, uns 80 anos. Pelo rosto percebe-se que não teve uma vida fácil.
Apesar da baixa estatura e de uma magreza quase esquelética, não aparenta fraqueza. O vigor com que protesta indica o contrário, que sempre foi uma mulher forte, que nunca virou a cara à luta, que enfrentou as dificuldades sem hesitar.
Mas algo falhou. Agora parece enfrentar-se a si própria. Algures, no seu percurso, algo correu mal. Se assim não fosse não estava ali, sozinha.
Parece que a vida lhe ganhou. Não que ela tenha perdido, nada disso, apenas que a vida lhe ganhou.

Está louca. Apesar de todos os seus gritos, de todos os seus gestos, ela protesta sozinha, ninguém a ouve, ninguém lhe liga. Pelo menos ninguém do mundo dos sãos, porque na sua cabeça algo está muito presente, algo a que ela dirige a sua ira.
E já deve ser assim há muito tempo uma vez que eu nunca vi ninguém interessar-se por ela, nem mesmo os miúdos para a gozarem. Devem estar todos tão habituados que nem dão pela sua presença, preferiram esquecê-la. Ou então pressentem qualquer coisa nela e têm-lhe um estranho respeito. Talvez vejam também essa sua força.

Sim, ela não está sozinha, o seu mundo é habitado. No entanto, julgo que ela preferiria que o não fosse, que não houvesse ninguém.
É que com os habitantes do seu mundo ela está sempre em conflito. Nunca a vi falar, está sempre a protestar, a esbracejar, a dar murros no ar, a gritar.
Pergunto-me, se ela pudesse escolher, optaria pela loucura na companhia de tão desagradáveis presenças, ou por uma solidão consciente?
O que será pior, viver com a consciência da solidão, de não termos ninguém, ou viver sem ter a consciência de nada do que nos rodeia?

O que escolheria eu?


Et si parfois l'on fait des confessions
A qui les raconter - meme le bon dieu nous a laisse tomber

(Stanglers)

sexta-feira, outubro 14, 2005

A Primeira Pessoa

A primeira pessoa sou eu. Não fiquem já a pensar que é egocentrismo ou mania das grandezas da minha parte, trata-se, tão somente, do tempo verbal. Eu. Primeira pessoa do singular.

Preciso falar do Eu. Não de mim, do Eu.

Neste Blog tenho misturado sem grandes preocupações a realidade com a ficção. O Eu com o Ele. Eu com o narrador. Por vezes no mesmo texto.
Estou com isto porque por vezes dou por mim, a meio da escrita, a pensar se quem vai ler o texto consegue fazer a distinção entre, precisamente, a realidade e a ficção. É que eu tenho a teoria (não comprovada), de que quem lê um texto acaba sempre por se interrogar, conscientemente ou não, se aquilo que o autor colocou perante si é verdade ou não, ou melhor, que parte daquilo é realidade e que parte é ficção.
Coloco-me a questão: devo fazer alguma para separar inequivocamente as águas, ou nem por isso?
Se calhar isto para a maioria das pessoas não interessa nada, mas a verdade é que tem sido uma coisa mais ou menos recorrente para mim desde que comecei a publicar este Blog. Penso e penso e, após pensar mais um bocadinho, encontro-me exactamente no ponto de onde parti.

Nesta minha volta completa sobre o circulo que constitui o meu pensamento sobre o assunto, sensivelmente por volta do grau 280, quando começo a avistar a casa-partida*, acho sempre que a falta de resposta significa que não vale a pena perder mais tempo com o assunto, que tenho de deixar as coisas como elas estão – pelo menos por agora, o que não quer dizer que daqui a uns tempos não se faça luz e eu encontre uma solução.
Assim sendo, as coisas vão continuar como estão; escrevo conforme sair. Caberá pois ao estimado leitor (e estimada leitora, está bom de ver), preocupar-se com isso se tiver pachorra: se quando uso a primeira pessoa sou mesmo eu, a realidade, ou se uma coisa não implica a outra.
Façam vocês esse caminho. Espero, sinceramente, que não seja circular. Se ao fim de algum tempo derem por vocês no mesmo sitio, recebam a massa na casa-partida e abandonem o exercício. Não vale a pena, eu só o faço por entretenimento (ou será por hábito? Hábito de estar sempre a pensar, de ter que ter sempre algo que me mantenha o espírito ocupado? Pelo sim pelo não, acho que vou comprar um livro do Su Doku, pode ser que me distraia).

Constato agora que voltou a acontecer. Começo a falar de uma coisa e acabo longe. Olho para trás e não vejo como aqui cheguei. Para a próxima vou atar um fio no titulo e não o vou largar.

E é isto que vos queria dizer. Terá sido realidade ou ficção? Decidam vocês.


Nota final
: quando eu era rapaz novo, tive um período da minha vida em que joguei muito ao Monopólio com o meu amigo Daniel. Lembro-me que me fazia espécie o raio do sitio de onde se partia chamar-se casa-partida. Se todas as outras estavam inteiras, porque diabo era aquela partida? Nunca tinha confessado esta minha parvoíce, nem mesmo aquelas pessoas que só em adultos descobriram que aquela ladainha das crianças que lança uma corrida é “partida, LARGADA, fugida” e não “partida, LAGARTA, fugida”. Confessem lá, também eram desses que metiam ali uma lagarta a despropósito e nunca tinham pensado nisso?

(esta nota final é assumidamente realidade)!

terça-feira, outubro 11, 2005

A Culpa é d' Os Anjos

Lembro-me bem da primeira vez que entrei numa sala de chat. Foi no início da década de 90, nos primeiros tempos do IRC. A Internet ainda era uma coisa pouco divulgada por cá, mas um amigo meu que trabalhava com computadores e que tinha tempo e interesse nessas coisas, levou um grupo de amigos uma noite à empresa onde trabalhava (era filho do dono, o que também ajudava), para vermos as potencialidades dessa maravilha que despontava.
Uma das coisas que nos mostrou foi, precisamente, a possibilidade de falar com pessoas de todo o mundo em tempo real (a bem da facilidade de expressão vou usar o termo “falar”). Naquela altura só se conseguia falar em português com brasileiros, era muito raro encontrar alguém de cá. No entanto, achava o máximo poder falar com japoneses, libaneses, australianos, sul-africanos, etc.

Por não ter Internet (penso que na altura nem computador tinha), estive algum tempo sem voltar a uma sala de chat, mas em 1998, já com computador e Internet ao dispor, voltei. E gostei.
Gostei porque tive a sorte de ir parar a locais frequentados por algumas pessoas interessantes, com quem se podia ter uma conversa minimamente inteligente, fosse ela séria ou em tom de brincadeira. E, mais uma vez, pela possibilidade de com o IRC se poder falar com pessoas de todo o mundo (no meu caso, através da Undernet).
Isto pode parecer cliché mas é mesmo assim: permitiu-me, para além de treinar o inglês, conhecer muitas pessoas diferentes, com maneiras diferentes de ver as coisas, de pensar (recordo com um sorriso as “investidas” junto dos indonésios na altura critica do problema de Timor; das tentativas deles em me fazer ver que se estava a falar apenas de mais uma província indonésia e nas minhas de lhes explicar de que não era nada disso).
Entre períodos de maior e menor assiduidade, a verdade é que fui ficando durante uns anos. Até que um dia acabou. Deixei misturar muito o “virtual” com o “real” e as razões que me tinham lá levado e mantido, deixaram de fazer sentido. Pura e simplesmente, deixei de ir.
Desse tempo conservo apenas um contacto. Nem sei explicar como, mas a verdade é que, talvez por falarmos muito pouco, ainda hoje nos vamos “vendo” de longe a longe (Ana, aceitam-se explicações).

Às vezes gosto de correr alguns riscos. Controlados, claro, que a minha saúde é frágil mas, ainda assim, riscos.
Só assim se explica que há um ano atrás por esta altura e num dia em que, por qualquer razão, almocei cedo, eu tenha ido ao site da TVI ver o noticiário das 13h00.
Lembro-me que estava algo aborrecido, adivinhava-se uma tarde monótona e os bocejos eram já muitos. Quando às 13h15 desisti das notícias, rendido a mais um drama de faca e alguidar, colocou-se a questão: “e agora”?
Ali estava eu, com o site à minha frente e um aborrecimento potencialmente fatal para combater. “E agora, e agora…”?
Foi então que reparei no link para o site d’ Os Anjos… sim, esses, os da banda dos boys. Fui ver.
Curioso, porque se não tivesse ido, não estava agora a escrever isto e, pour cause, vocês não o estavam a ler.
O site pouco tinha que ver, não era ali que me ia entreter. Preparava-me para sair quando reparei que havia uma sala de chat. A ideia de poder falar um pouco com um(a) fã d’ Os Anjos durante a hora de almoço, agradou-me. Afinal de contas, tínhamos algo em comum: uma hora de almoço pouco entusiasmante.
Estavam 3 ou 4 pessoas. Meti conversa, o nick era “Arcanjo”. Que sim, que era fã d’ Os Anjos; musica favorita? desconversei; se os tinha visto no outro dia na tv? eu lá perco uma aparição deles… ia a conversa neste registo pouco excitante quando decidi largar a bomba atómica: tinha estado a falar com eles ali na sala nessa manhã e tinham ficado de voltar à tarde. A loucura é agora total, não me largam, “mas isso é verdade”?, “o que disseram”?, “a que horas chegam”?... e eu vá de inventar.
Que mania de me levarem a sério! Eu estava a brincar e ninguém percebeu. Já estava cheio de remorsos, coitadas das miúdas. Safei-me da situação a custo.
Ainda voltei no dia seguinte, mas aquilo não dava para muito: eu não sabia nada sobre Os Anjos e as outras pessoas pareciam não saber nada sobre outras coisas.
Já me preparava para me despedir até sempre quando me convidaram para ir a outra sala. Alguém tinha percebido que eu não tinha nada a ver com aquilo.

Esta coisa dos chats faz confusão a muita gente, não conseguem perceber o que é que se vê num sítio onde se juntam várias pessoas, sem se verem, sem saberem nada umas das outras, só para trocarem alguns “disparates”. Explicar também não fácil; a melhor reposta que encontro é: “precisamente por isso”. O que para uns não se entende, para outros é suficiente para os fazer ir aparecendo.
Não sei se sou capaz de concretizar melhor algumas das razões porque tenho frequentado salas de chat. Acho que tem a ver com o facto de sempre ter tido muitas coisas para dizer e poucas pessoas a quem as dizer. A sala de chat acabou por ser um bom local para fazer isso. Vencida a barreira do contacto pessoal, ali cada um vale pelo que diz, só e apenas. Nessas condições é-me mais fácil ser.

Quando deixei o chat da primeira vez achei que era para sempre. Aqueles dois dias com Os Anjos não tinham contado e agora, nesta nova sala, ia só espreitar, a ideia nunca foi ficar. Não procurava isso.
Mas só espreitar, ficar ali sem dizer nada, não tem piada e acabei por participar também. Disse meia dúzia de parvoíces e as pessoas foram-me respondendo. Como tinha alguma disponibilidade de tempo, fui voltando. Um pouco sem dar por isso, fui ficando. Faz agora um ano.
Passou depressa.

Só fiquei, mais uma vez, porque tive a sorte de lá ter encontrado algumas pessoas com quem se pode falar; pessoas que me fizeram rir e também pensar. Umas vezes falou-se a sério, muitas a brincar, mas (quase) sempre com respeito pela diferença… o “quase” tem a ver com algumas personagens que por lá vão aparecendo e com quem a maioria gosta de embirrar um pouco (merecidamente, diga-se).
Foi por lá que encontrei a motivação que faltava para começar a escrever um pouco mais a sério, a não ser só uns rascunhos que acabam, por se perder – daí me estarem agora a ler.

Se não fosse assim, como é que se ia encontrar num mesmo espaço uma papoila dos montes (que foi mãe entretanto); milho doce com incontinência verbal e pouca paciência; o sol (que vai dar à luz em breve); um guerreiro nórdico obcecado com a etiqueta e as boas maneiras; um traço fininho mas muito curioso e de observações certeiras; um guerreiro vindo do mundo virtual que trabalha a vinho carrascão e entremeadas; uma safada assumida que foge sempre que pode para uma ilha; uma ex-rapariga grande, agora desasada e, por vezes em tons de marisco; uma representante tuga no centro da Europa que não deixa escapar nenhum jogador de futebol; um entendido em moda feminina, sempre preocupado em saber se as miúdas estão confortáveis com as roupas que usam; uma vidente, que sabe ler Tarôt e interpretar as bolas de cristal; uma jovem avó que comunica com seres de outros mundos; boavisteiras fanáticas com a bola; Anas com muitos enes; Joaquinas especialistas em confucionismo; tipos que se acham os melhores rockers, outros os melhores pasteleiros de bolos de noz; flores com espinhos; flores que afinal até gostam de umas palmadas; uns sem nick, outros com caras e olhos inchados; iniciais próprias e dos rebentos que habitam as longínquas terras dos kukos; animais felinos, que rugem muito mas mordem pouco; atados e atadas que se metem em apertos; cactos com muitos espinhos… e sempre eriçados; pessoas que parecem não estar nem aí mas que lá vão gargalhando; e claro, abutres mansos… Acho que em mais lado nenhum.

Não sei se vou continuar a aparecer por muito mais tempo, mas vou recordar algumas coisas que lá vivi para sempre. Por estranho que possa parecer a muita gente, conseguem-se estabelecer alguns laços de amizade nestas circunstâncias e isso é que me interessa.
Como diz o Sérgio,
"É que hoje fiz um amigo e coisa mais preciosa no mundo não há" (vá, deixem-me ser uma pouco lamechas também).

E tudo por culpa d’ Os Anjos.

quinta-feira, outubro 06, 2005

A Linha (conclusão)

O sol ainda não tinha rompido o cume das montanhas que dominavam o horizonte, mas sentia-se no ar a promessa de mais um dia quente.
Sentado junto à enorme janela que dominava a fachada do Kathy’s Café, Luís fazia rodar um conjunto de pequenos painéis onde constavam todas as músicas e respectivos códigos que podiam ser encontradas na enorme Juke-Box ao fundo da sala.
Era como se estivesse a folhear as páginas da sua memória, em especial das últimas semanas.

Amarillo, Texas. Meio do caminho. Para trás tinha ficado o passado.
Não tinha ainda a certeza absoluta, mas sentia ter encontrado o pequeno espaço dentro de si onde arrumar as razões da sua partida. Não era um local onde essas razões ficassem esquecidas. Era apenas um local que lhe permitia lidar melhor com a situação.
Sempre que algo viesse ao de cima, lidaria com as memórias, com os sentimentos. Recordaria. Afinal de contas, sentia ainda a tal linha. Depois, tranquilamente, voltaria a fechar a caixa e a guardá-la. Na sua cabeça isto fazia sentido.
Tentar esquecer não era opção… tal como não tinha sido calar.

Daqui para a frente, até ao Pacifico, o futuro.

- Olá querido, então o que vai ser?
- Café e panquecas, por favor.
- Deixa-me adivinhar, Maple Syrup.
- hmmmmmmm… desta vez, Aunt Jemima.