terça-feira, outubro 11, 2005

A Culpa é d' Os Anjos

Lembro-me bem da primeira vez que entrei numa sala de chat. Foi no início da década de 90, nos primeiros tempos do IRC. A Internet ainda era uma coisa pouco divulgada por cá, mas um amigo meu que trabalhava com computadores e que tinha tempo e interesse nessas coisas, levou um grupo de amigos uma noite à empresa onde trabalhava (era filho do dono, o que também ajudava), para vermos as potencialidades dessa maravilha que despontava.
Uma das coisas que nos mostrou foi, precisamente, a possibilidade de falar com pessoas de todo o mundo em tempo real (a bem da facilidade de expressão vou usar o termo “falar”). Naquela altura só se conseguia falar em português com brasileiros, era muito raro encontrar alguém de cá. No entanto, achava o máximo poder falar com japoneses, libaneses, australianos, sul-africanos, etc.

Por não ter Internet (penso que na altura nem computador tinha), estive algum tempo sem voltar a uma sala de chat, mas em 1998, já com computador e Internet ao dispor, voltei. E gostei.
Gostei porque tive a sorte de ir parar a locais frequentados por algumas pessoas interessantes, com quem se podia ter uma conversa minimamente inteligente, fosse ela séria ou em tom de brincadeira. E, mais uma vez, pela possibilidade de com o IRC se poder falar com pessoas de todo o mundo (no meu caso, através da Undernet).
Isto pode parecer cliché mas é mesmo assim: permitiu-me, para além de treinar o inglês, conhecer muitas pessoas diferentes, com maneiras diferentes de ver as coisas, de pensar (recordo com um sorriso as “investidas” junto dos indonésios na altura critica do problema de Timor; das tentativas deles em me fazer ver que se estava a falar apenas de mais uma província indonésia e nas minhas de lhes explicar de que não era nada disso).
Entre períodos de maior e menor assiduidade, a verdade é que fui ficando durante uns anos. Até que um dia acabou. Deixei misturar muito o “virtual” com o “real” e as razões que me tinham lá levado e mantido, deixaram de fazer sentido. Pura e simplesmente, deixei de ir.
Desse tempo conservo apenas um contacto. Nem sei explicar como, mas a verdade é que, talvez por falarmos muito pouco, ainda hoje nos vamos “vendo” de longe a longe (Ana, aceitam-se explicações).

Às vezes gosto de correr alguns riscos. Controlados, claro, que a minha saúde é frágil mas, ainda assim, riscos.
Só assim se explica que há um ano atrás por esta altura e num dia em que, por qualquer razão, almocei cedo, eu tenha ido ao site da TVI ver o noticiário das 13h00.
Lembro-me que estava algo aborrecido, adivinhava-se uma tarde monótona e os bocejos eram já muitos. Quando às 13h15 desisti das notícias, rendido a mais um drama de faca e alguidar, colocou-se a questão: “e agora”?
Ali estava eu, com o site à minha frente e um aborrecimento potencialmente fatal para combater. “E agora, e agora…”?
Foi então que reparei no link para o site d’ Os Anjos… sim, esses, os da banda dos boys. Fui ver.
Curioso, porque se não tivesse ido, não estava agora a escrever isto e, pour cause, vocês não o estavam a ler.
O site pouco tinha que ver, não era ali que me ia entreter. Preparava-me para sair quando reparei que havia uma sala de chat. A ideia de poder falar um pouco com um(a) fã d’ Os Anjos durante a hora de almoço, agradou-me. Afinal de contas, tínhamos algo em comum: uma hora de almoço pouco entusiasmante.
Estavam 3 ou 4 pessoas. Meti conversa, o nick era “Arcanjo”. Que sim, que era fã d’ Os Anjos; musica favorita? desconversei; se os tinha visto no outro dia na tv? eu lá perco uma aparição deles… ia a conversa neste registo pouco excitante quando decidi largar a bomba atómica: tinha estado a falar com eles ali na sala nessa manhã e tinham ficado de voltar à tarde. A loucura é agora total, não me largam, “mas isso é verdade”?, “o que disseram”?, “a que horas chegam”?... e eu vá de inventar.
Que mania de me levarem a sério! Eu estava a brincar e ninguém percebeu. Já estava cheio de remorsos, coitadas das miúdas. Safei-me da situação a custo.
Ainda voltei no dia seguinte, mas aquilo não dava para muito: eu não sabia nada sobre Os Anjos e as outras pessoas pareciam não saber nada sobre outras coisas.
Já me preparava para me despedir até sempre quando me convidaram para ir a outra sala. Alguém tinha percebido que eu não tinha nada a ver com aquilo.

Esta coisa dos chats faz confusão a muita gente, não conseguem perceber o que é que se vê num sítio onde se juntam várias pessoas, sem se verem, sem saberem nada umas das outras, só para trocarem alguns “disparates”. Explicar também não fácil; a melhor reposta que encontro é: “precisamente por isso”. O que para uns não se entende, para outros é suficiente para os fazer ir aparecendo.
Não sei se sou capaz de concretizar melhor algumas das razões porque tenho frequentado salas de chat. Acho que tem a ver com o facto de sempre ter tido muitas coisas para dizer e poucas pessoas a quem as dizer. A sala de chat acabou por ser um bom local para fazer isso. Vencida a barreira do contacto pessoal, ali cada um vale pelo que diz, só e apenas. Nessas condições é-me mais fácil ser.

Quando deixei o chat da primeira vez achei que era para sempre. Aqueles dois dias com Os Anjos não tinham contado e agora, nesta nova sala, ia só espreitar, a ideia nunca foi ficar. Não procurava isso.
Mas só espreitar, ficar ali sem dizer nada, não tem piada e acabei por participar também. Disse meia dúzia de parvoíces e as pessoas foram-me respondendo. Como tinha alguma disponibilidade de tempo, fui voltando. Um pouco sem dar por isso, fui ficando. Faz agora um ano.
Passou depressa.

Só fiquei, mais uma vez, porque tive a sorte de lá ter encontrado algumas pessoas com quem se pode falar; pessoas que me fizeram rir e também pensar. Umas vezes falou-se a sério, muitas a brincar, mas (quase) sempre com respeito pela diferença… o “quase” tem a ver com algumas personagens que por lá vão aparecendo e com quem a maioria gosta de embirrar um pouco (merecidamente, diga-se).
Foi por lá que encontrei a motivação que faltava para começar a escrever um pouco mais a sério, a não ser só uns rascunhos que acabam, por se perder – daí me estarem agora a ler.

Se não fosse assim, como é que se ia encontrar num mesmo espaço uma papoila dos montes (que foi mãe entretanto); milho doce com incontinência verbal e pouca paciência; o sol (que vai dar à luz em breve); um guerreiro nórdico obcecado com a etiqueta e as boas maneiras; um traço fininho mas muito curioso e de observações certeiras; um guerreiro vindo do mundo virtual que trabalha a vinho carrascão e entremeadas; uma safada assumida que foge sempre que pode para uma ilha; uma ex-rapariga grande, agora desasada e, por vezes em tons de marisco; uma representante tuga no centro da Europa que não deixa escapar nenhum jogador de futebol; um entendido em moda feminina, sempre preocupado em saber se as miúdas estão confortáveis com as roupas que usam; uma vidente, que sabe ler Tarôt e interpretar as bolas de cristal; uma jovem avó que comunica com seres de outros mundos; boavisteiras fanáticas com a bola; Anas com muitos enes; Joaquinas especialistas em confucionismo; tipos que se acham os melhores rockers, outros os melhores pasteleiros de bolos de noz; flores com espinhos; flores que afinal até gostam de umas palmadas; uns sem nick, outros com caras e olhos inchados; iniciais próprias e dos rebentos que habitam as longínquas terras dos kukos; animais felinos, que rugem muito mas mordem pouco; atados e atadas que se metem em apertos; cactos com muitos espinhos… e sempre eriçados; pessoas que parecem não estar nem aí mas que lá vão gargalhando; e claro, abutres mansos… Acho que em mais lado nenhum.

Não sei se vou continuar a aparecer por muito mais tempo, mas vou recordar algumas coisas que lá vivi para sempre. Por estranho que possa parecer a muita gente, conseguem-se estabelecer alguns laços de amizade nestas circunstâncias e isso é que me interessa.
Como diz o Sérgio,
"É que hoje fiz um amigo e coisa mais preciosa no mundo não há" (vá, deixem-me ser uma pouco lamechas também).

E tudo por culpa d’ Os Anjos.

12 comentários:

Anónimo disse...

Tens uma forma maravilhosa de colocar as coisas, de as explicar, de as dizer.É verdade que se conhecem pessoas fantasticas e amigos no chat. Ainda bem que tropeçaste na boavisteira.
Beijocas e continua sempre a escrever.

ss

virilão disse...

quando os "artistas" são bons,tudo melhora.
Gosto de te ler!
anota-me aí na tua lista de fãs "arcanjo"
Um abraço
PS: desculpa a ousadia do nick...mas há coisas que nem eu sei explicar muito bem.
aquele abraço

Anónimo disse...

Esta Vó ke consideras jovem que fala com ET´s e ke lhes ker mt bem, deseja-te toda a felicidades do "outro munto" e QUERO-te ler por mt tempo, tão só proke gostei.
Beijo interespacial.
Vó-Vi

Anónimo disse...

Com que então...traço fininho curioso e com tiradas certeiras....muito bem...mas e o resto? deslumbrante e sexy e fabulástica????
Hum???????????
Ai ai o menino....
ehehhehehehehehehehe

Marta disse...

e por vezes é nos sitios onde menos se espera q encontramos quem menos esperamos e quem mais precisamos.
transformaste um acto banal e rotineiro numa espécie de mundo à parte, onde todos são iguais mesmo sendo diferentes. bjs***

Anónimo disse...

Flores com espinhos!!! bahhhhh

(adoro ler-te... sabes isso. por favor, n desistas!)

Pico de Rosa :p

Å®t_Øf_£övë disse...

Rui,
Ainda bem que passaste pelo meu blog. Foi uma forma de te descobrir. Estive a ler e gostei bastante, principalmente deste ultimo post, a tua reflexão está fantástica e muito bem escrita.
Abraço.

Francisco ( X ) disse...

Pois pois mas o gajo que trabalha a carrascão e entremeadas...

Um abraço

Anónimo disse...

Da fama de confucia não me livro, hehehehheheh :-) fico lisonjeada de fazer parte da tua lista.
Escreves muito bem, gosto de te leer, continua... Bjs da Jaqui.

Anónimo disse...

É simplesmente lindo! ainda bem q te lembras q existe um sol, pk eu tb me lembro sempre dos amigos, nunca te eskeças disso.
Pois e é verdade o sol vai dar á luz a quando uma certa personna nes verda! Xau jokas grandes e força continua. E ainda bem q faço parte da tua lista!

zahira disse...

Acho que só entende "estes mundos" quem por cá anda ou andou

Também por lá andei na undernet e por acaso lembro-me muito bem dos "pseudo-ataques" que eram feitos aos servidores indónesios por essa altura .....

Conheci algumas pessoas interessantes e passei muitas noites na galhofa com algumas pessoas que ainda hoje me questiono o que é feito delas...
MAs infelizmente a facilidade com que fazemos os conhecimentos é a mesma com que nos esquecemos de manter os contactos...

MAs é um mundo engraçado :)

Anónimo disse...

Afinal ainda te vim ler hoje...

(estás a ver aquela minha expressão, a olhar para o ecrã?? ;) foi o que estive a fazer nas ultimas duas horas ehehehe)

Viajar contigo é muito bom... :))

Aqui esta atadinha tem orgulho desta "coisa" preciosa... ;))

Inês