sexta-feira, outubro 21, 2005

Em Roda Viva

- Estou? Mafalda?
- Sim… quem fala?
- É o Jorge.
- Ah, olá Jorge, desculpa, estou a ouvir muito mal… falta de rede.
- Olha, podes ir tomar café comigo esta tarde?
- Posso… quero. Nas Docas, às 17h00?
- Lá estarei, olhando o rio, procurando por ti…
- Sempre o mesmo… até logo.

- O Sr. desculpe, mas viu por aqui um rapaz jeitoso, boa pessoa, com ar triste e abandonado?
- Deixe ver, ar abandonado… sim, lembra-me alguém, mas jeitoso? Não sei…
- Palerma! Estás bom?
- Estou óptimo, recomendo-me. E tu, como estás?
- Vamos indo…
- Li o teu mail, foi por isso que te liguei. Anda, vamo-nos sentar.
- Gosto muito de aqui vir durante a tarde, apreciar esta calma, ver o rio. Sentir a antecipação da confusão em que isto se torna durante a noite.
- Sim, estes finais de tarde de Outono, com o sol a entrar no mar, são magníficos. Lembras-te que viemos aqui na noite em que nos conhecemos?
- Claro que sim, como poderia esquecer.

- Boa tarde, o que vão tomar?
- Boa tarde. Para mim um Mazagrand.
- Dois, obrigado.

- Não me pareceste muito animada naquele mail. Depois de uma ausência tão grande, não esperava sentir tristeza nas tuas palavras.
- E eu que escrevi precisamente de maneira a não deixar perceber nenhuma tristeza. Como é que fazes isso? Às vezes acho que entras dentro da minha cabeça sempre que queres.
- Não te sei explicar, apenas sinto as coisas. Devemos ter uma ligação especial mas, de onde vem isso, ou sequer o que isso é, como funciona, não me perguntes que eu não te sei dizer.
- E sentiste o quê exactamente no meu mail?
- Senti que esse coração anda, mais uma vez, numa roda viva.

- Peço desculpa, aqui têm as vossas bebidas.
- Pagamos já?
- Não, podem pagar quando forem embora; à noite é que fazemos questão de cobrar imediatamente.

- Tens razão, mais uma vez acertaste, o meu coração anda numa roda viva, como tu dizes.
- Pensava que tu e o Miguel… que estava tudo bem, que finalmente tinhas encontrado a pessoa certa. Há mais alguém?
- Há… e não há. Eu gosto muito do Miguel e está tudo bem entre nós, não podíamos estar melhor. Eu é que não estou bem comigo própria…

(silêncio)

- …há uns dias apareceu-me uma daquelas personagens do passado, sem mais nem menos. Daquelas que tinham mexido comigo mas que estavam já esquecidas… Descobri que mexe ainda comigo. Acreditas nisto?
- Claro que sim.
- Sabes o que é termos estado horas a conversar e ter parecido que foram 5 minutos? O que te vou dizer vai parecer-te uma barbaridade, mas sabes quando sentes que aquela pessoa é tudo quanto sempre sonhaste, que é o tal, aquele que ri das mesmas coisas que tu, que percebe o que queres dizer sem que tu tenhas que terminar sequer as frases, que gosta das mesmas coisas improváveis que tu… ovos estrelados a meio da noite, que partilha os mesmos ódios de estimação? Que diabo, isto não é normal.
- Essas pessoas não existem! Desculpa a brutalidade da revelação, mas o que existe é momentos assim, momentos em que tudo parece conjugar-se, em que vês as peças encaixarem-se perfeitamente, tudo a ir ao seu lugar. No final, até ouves o clic, o sinal que tudo está perfeito.
- Achas? Sempre acreditei que cada pessoa que chega à tua vida te traz algo que possas aprender, que nada acontece por acaso.
- Eu percebo isso, e sim, quanto à primeira parte é verdade, podemos e devemos aprender sempre com quem nos cruzamos, nem que seja aprender a como não fazer as coisas; mas quanto à segunda parte, já tenho muitas dúvidas, se calhar passamos imenso tempo a procurar dar sentido às coisas que nos acontecem para depois perceber, no fim, que afinal mandam os acasos, as coincidências.
- Acreditas em coincidências?
- Por vezes parece-me que tudo isto não passa de uma sucessão de coincidências, umas concretizadas outras falhadas.
- Como assim?
- Coincidências concretizadas são as nossas vidas. O que nos acontece não é mais que uma série de acasos que levam a outros acasos. As coincidências não concretizadas são uma espécie de universo paralelo, um conjunto de possibilidades de acompanham as outras, mas que não acontecem. É uma espécie de cara e coroa, duas faces de uma mesma moeda que vão alternando. Por exemplo, lembras-te no mês passado do acidente que tive? Do tipo que não parou no vermelho e me acertou em cheio?
- Sim…
- Pois bem, isso foi uma coincidência concretizada. Mas bastava eu ter demorado mais 5 minutos a tomar banho nessa manhã, para ter chegado ao cruzamento depois do tipo passar o vermelho. Se isso não tivesse acontecido, passaria a valer um outro conjunto de coincidências que eu nunca vou conhecer… coincidências não concretizadas.
- Podias no próximo semáforo ser abalroado por um outro tipo e com consequências muito piores…
- Exactamente, é um exemplo. Mas isso nunca vamos saber. Se calhar aquele acidente livrou-me de um maior, mas por não o saber, vou sempre amaldiçoar aquele momento e não perder tempo a pensar, “e se…”. Isto tudo para te dizer que não sei se fazes bem em colocar a tua relação com esse rapaz nesses termos: pensamos o mesmo, gostamos das mesmas coisas, odiamos as mesmas coisas… uau, é um sinal dos deuses, é o tal! Não chega para colocar tudo em causa, a relação que tens com o Miguel. É que pode não passar de uma simples coincidência.
- Não se me estás a ajudar, pelo menos não me sinto melhor.
- Tu desculpa-me, estou a ser um pouco insensível. É este meu maldito racionalismo empedernido. Por vezes pareço um gajo sem coração, sem emoções, não é?
- Não me faças perguntas difíceis agora, estou baralhada.
- É verdade, eu sei que sim. É uma defesa minha, tento decompor tudo em pequenas partes para melhor as assimilar. Tudo tem que ter uma explicação plausível, quase cientifica e estas coisas do coração não se compadecem com isso.
- Mas tu alguma coisa deves estar a fazer bem, afinal, tens uma relação estável.
- … agora ia dizer que isso não passava de uma coincidência.
- Palerma…

(silêncio)

- O que pensas fazer, Mafalda?
- Juntar todos os acasos e tentar que façam sentido. Eu gosto muito do Miguel, nós damo-nos tão bem que até chateia e é isso que me perturba, que me angustia, então porquê sentir-me assim? Porquê dar tanta importância e este tipo? Se calhar é só mesmo pelo jogo de sedução, pela conquista, por ser uma espécie de desafio. Sim, pode ser só isso, ver se ainda sou capaz de interessar a alguém, ou conquistar alguém… olha, não sei.
- Quando descobrires a resposta Às tuas dúvidas vais encontrar o sossego, mas até lá é algo com o qual vais ter de viver. Fingir que não existe é que não é solução.

- Eu sei… vês aquele veleiro a dirigir-se para o mar?.. apesar disso, queria ir lá, deixar tudo isto para trás.

22 comentários:

Margarida Atheling disse...

Estás um mestre da Alma!

Anónimo disse...

..."Sempre acreditei que cada pessoa que chega à tua vida te traz algo que possas aprender, que nada acontece por acaso"... gostei desta frase Rui ;-) Beijinho da Jaqui.

Anónimo disse...

Diz-me uma coisa, Qual o teu segredo para conheceres tão bem a alma femenina? Os teus textos fazem-me sempre pensar. Acho que ja te tinha dito, mas aprendo sempre algo ctg. Por isso é verdade quando dizes que cada pessoa que chega traz algo para que possas aprender. E acredita que tenho aprendido muito ctg. Até a conhecer-me melhor! Só ainda nao percebo como o fazes, como fazes isso, o de me ajudar a descobrir a mim mesma. Definitivamente tens um DOM!
Beijos e continua assim, ainda tenho muito que aprender! ;)

Rui disse...

Querem ver que tenho o meu lado feminino muito desenvolvido? Fico contente por gostarem. Obrigado.

Silvia disse...

Gostei dos diálogos. Achei que os melhoraste desde a ultima história.

Ricardo Kiko disse...

Gostei da historia....mas não terá um pouco de Realidade???
Mas gostei mesmo a sério...
Voltarei cá de certeza
Abrs.

Vampiria disse...

Oh Rui.. aqui para nos qe nao nos conhecemos...isso aconteceu e durante MUITO tempo... relaçao estavel a e tal, mas sempre aquela maldita lembrança do passado... é como u sitio de que gostamos de maneira dif. nao vivemos la, masa estar sempre em nos, nao acredito que essa personagem nao ame o namorado e que goste de outro. Mass as coisas tocam nos de modo diferente, é so isso!
beijos

Martuxa disse...

Txi... Extremamente parecido cmg, demasiado até, daí k ñ tnh resistido a comentar. Fica um sorriso =D e uns bjinhos.
Está fantástico, falando de coincidências... ñ sei se as haverá ou ñ, só sei uma coisa, estamos smp onde devemos estar passando smp por akilo k temos de passar.
Continua a sorrir...

Raquel V. disse...

Uma das maiores dificuldades que encontro nos blogs: comprimento da história, diálogos e conseguir que a pessoa que abre o blog leia tudo sem ser aos saltos...



Gostei bastante do ritmo e entendi muito bem a frase final...

Anónimo disse...

Como a margarida atheling escreveu, "estás um mestre da Alma" :)
Adorei a do mundo paralelo... Deve existir algo assim, onde vivem as nossas incertezas, as coincidências, as fantasias, os "se's" da vida... Acredito que os se's nos fazem andar "em roda viva"... Acredito que o 'espinho' do passado pode viver feliz nesse mundo alternativo... Eu acredito em coincidências! Não fora elas e não tinha conhecido a pessoa fantástica q conheci.

Vivam as coincidências!!!

LD

segurademim disse...

... muito interessante este diálogo!
mostra que ainda é possível encontrar alguém com quem falarmos e sermos acompanhados nas dúvidas e raciocinios, que temos e fazemos - sermos ouvidos ...
é de facto uma história de um acto não falhado na comunicação entre duas pessoas!!
bem escrito, gostei muito!! :)

Francisco ( X ) disse...

SE...

Naquele dia...
Quando tudo começou e o mundo acabou

Se me tens dito com um simples olhar
Que o mundo ia acabar
Eu dizia-te que vale a pena sofrer
Que vale a pena amar

Agora que a terra se entranha
Por esses lábios que nunca beijei
Vou tentar viver e sofrer
Com as palavras que nunca te direi

Talvez um dia escreva
Num vidro embaciado
As palavras que nunca te direi
As palavras são o meu fado

Um abraço

Vanessa disse...

Ainda no Sábado fui a um casamento em que durante a cerimónia, o padre dizia repetidamente e com graça (era uma figura caricata) para os Noivos "Atenção aos sinais!!! Muito cuidado com eles..."

Eu não tenho religião e não sou fã de padres mas este esteve bem...pareceu-me sensato.

A estória lembrou-me as palavras dele. Não só mas também.

Jinhitos da baía :)

PS:mais uma vez, estiveste bem X ;)
(para quando um blog teu???)

Anónimo disse...

Sim X....para quando um blog teu?
hum?

_____________________

Rui disse...

Já lhe perguntei o mesmo, até porque ele tem coisas escritas que eu sei.

Anónimo disse...

Ai sim?????
Faço questão de ver/ler isso..
Ó Xzinho lindinho fofinho...anda lá,
faz lá um blogzinho para nós lermos...
Pleaseeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee

_________________________

Anónimo disse...

Martini man... amei!!!

Bj enorme

LD

Paula Raposo disse...

Logo à noite vou ler melhor o teu blog todo. Este texto está óptimo, escreves muito bem. Beijinhos

Anónimo disse...

Olha... mais uma com o hábito do "palerma", lol ;)

Ver o Rio, num final de tarde, a tomar um Mazagrand... parece-me muito bem!
Há dias em que apetece, mesmo, deixar tudo para trás...



"... cada pessoa que chega à tua vida (...)traz algo que possas aprender..." - So true... :)

Um Beijoo

Inês

ISA disse...

N acredito nas coincidências mas acredito no destino. acredito que vives o que estás a precisar de viver, mesmo que n o percebas, mesmo que n faça sentido aparentemente. e precisamente, é sempre para aprendermos qq coisa, seja lá o que for. mesmo que cometamos os mesmos erros uma vida inteira. há alguns que n voltamos a cometer e so por isso vale a pena.

gostei mto do diálogo.

Beijos, e nunca deixes de rir! ;-)

Desconhecida disse...

Esta última parte é extremamente interessante, pois há coisas que nos acontecem na vida que simplesmente não têm explicação, mesmo que saibamos que parecem irreais...eu que o diga!

Cleopatra disse...

O Malvado do Clic!