quarta-feira, novembro 02, 2005

Voltaremos a ver-nos (parte 3)

Francisco Mata nunca tinha pensado muito no seu nome até ter sido incorporado no Corpo Expedicionário Português. Nos últimos meses era no que mais pensava.
Estava ali para matar, era para isso que o queriam. A espingarda e as munições que carregava não o deixavam esquecer.
Não sabia se já tinha morto alguém, gostava de pensar que não, que todos aqueles tiros disparados tivessem errado o alvo. Esperava nunca vir a ter resposta para dúvida.
Uma outra coisa em que Francisco pensava constantemente era em comida. Era disso que andava à procura quando me encontrou.
Por vezes conseguia-se obter algumas rações de combate alemãs no campo de batalha. Eram até mais apreciadas que as do exército britânico.
Nesse dia, Francisco e os seus camaradas tiveram sorte. Pouco depois de me encontrar, um seu companheiro encontrou um cavalo ferido. Há mais de um mês que não comiam carne.

Não me sabendo verdadeiramente apreciar, Francisco sempre teve todos os cuidados comigo. Ainda hoje não consigo perceber como conseguimos ambos sair ilesos dos confrontos em que nos vimos envolvidos – da batalha de La Lys guardarei sempre memória do extremo a que pode chegar o ser humano, do horror.
A verdade é que cheguei em razoável estado ao fim da guerra. E foi assim que me vi transportado para Portugal.
Francisco era alentejano, vivia numa pequena aldeia do Alto Alentejo, Alcáçovas. Trabalhava no campo, no arranque da cortiça quando era tempo dela e a guardar vacas e porcos para um grande proprietário local.
Ironia do destino, ali estava eu, peça suprema de relojoaria do início do século XX, passando os dias no meio dos animais.
Para Francisco, homem simples que tinha visto muita coisa que não tinha desejado, eu era apenas uma coisa bonita que tinha trazido de um sítio feio. “Muito feio, tenebroso, negro”, como dizia, quando contava histórias da guerra, à sombra das Azinheiras. E mostrava-me, para espanto e admiração dos seus companheiros de trabalho.

Antes regressar vindo de França, Francisco tinha retirado a foto de Frau Lea. Penso que para evitar problemas em casa. Nunca cheguei a saber o que fez com a foto, apenas achei estranho não ter colocado uma de Joaquina, sua mulher.
Teve 6 filhas. Quando deixou de trabalhar devido a idade avançada, um dos seus passatempos favoritos continuou a ser contar histórias da guerra, agora aos seus netos. Pegava em mim e falava sobre o “senhor importante” a quem me tinha retirado. Falava com respeito do capitão Maximilian, apesar de desconhecer tudo sobre ele. Dizia Francisco que eu preservava a memória de uma pessoa e que isso devia ser respeitado, afinal, eu tinha sido a última coisa a que aquele homem se tinha agarrado. Que eu devia ser importante para ele e isso era tudo o que importava.

De facto, Francisco nunca me tratou como dono, apenas como guardião. Penso que dessa memória que ele sentia encerrada em mim.
Dizia sempre a quem ouvia as suas histórias que não queria ser dono de nenhum relógio, porque eram, a seguir às armas, a mais terrível invenção do ser humano. Imaginem como fiquei a primeira vez que ouvi tal coisa.
Na sua sabedoria de homem do campo, afirmava que nós, os relógios, éramos terríveis porque lembrávamos constantemente ao Homem que o fim se aproximava. “Tic, tac, tic, tac… já falta menos para tudo acabar”, dizia.
Chamava-nos máquinas ditatoriais, que escravizava-mos as pessoas: “agora tudo tem hora marcada, sempre a correr… então nas cidades é do pior, olha-se para o relógio e entra-se em pânico; todos dizem que não têm tempo para nada… qualquer dia vai ser cá no campo assim também, vocês vão ver… tudo culpa dos relógios”.
Francisco chamava ignorantes às pessoas, viviam sem consciência da vida que levavam, do quanto estavam escravizadas por aquele pequeno objecto que carregavam.
A quem lhe perguntava porque andava então ele comigo, respondia que era porque precisava de saber a que horas tomar o xarope para a tosse. Depois ria muito.
Nunca percebi esta sua atitude, julgo que são coisas normais dos homens do campo em Portugal.

Era um homem bom, muito querido de todos. Teve uma vida longa. Em Março de 1990, com 96 anos, um princípio de pneumonia debilitou-o muito e ficou acamado.
Contou ainda muitas histórias às filhas e netos que estavam sempre por perto. Já todos as conheciam de cor, mas mostravam sempre grande interesse em as ouvir novamente.
Um dia pediu a atenção de todos, queria fazer um último pedido. Perante alguma incredulidade de todos, contou mais uma vez como me tinha encontrado, mas desta vez acrescentou alguns detalhes: que nos últimos dias estava a ter um sonho recorrente e que nele uma voz lhe dizia que era chegada a altura de devolver o relógio ao seu dono. Ao fim de tantos anos tinha-se esquecido de que eu não era dele, que apenas tinha ficado encarregue de o conservar até ao dia em que descobriria como o fazer regressar ao seu dono.
Quando lhe perguntaram como seria isso possível ao fim de 73 anos, Francisco chamou até si o neto João.
- João, escuta-me, vais ser tu a cumprir esta tarefa.
- Diga-me como avô.
- Tenho no banco, em Évora, uma caixa guardada no cofre. Lá dentro vais encontrar o que precisas para devolver o relógio ao seu dono.

Dois dias depois Francisco morreu durante o sono. Tratados os aspectos legais, João levou-me até ao banco. A curiosidade e ansiedade faziam-se sentir.
A caixa que lhe foi entregue não pesava quase nada, João pensou se não estaria vazia. Sentou-se a uma mesa e esteve vários minutos sem se mexer. Por fim, decidiu-se e abriu-a.
Continha duas coisas: uma foto muito antiga de uma jovem rapariga e um envelope fechado, amarelecido e algo amarrotado. Estava endereçado a Frau Lea Abendroth Ludendorff.
João pegou-lhe como se estivesse a pegar na coisa mais preciosa. Ali estava, agora tinha uma morada, uma ajuda para cumprir a tarefa a si atribuída por seu avô. A sua ultima vontade.

Após alguns telefonemas para um primo que tinha em Estugarda, conseguiu saber através dele que a morada já não existia, a rua tinha mudado de nome, mas que, naquele número lhe tinham dado a morada da família Abendroth.
Partiria para a Alemanha.

Frau Lea estava deitada, semi-erguida, encostada a duas grandes almofadas. Parecia dormir quando entrámos no seu quarto: eu, João, o seu primo Augusto e Anne, filha de Frau Lea.
Apesar dos seus quase 93 anos, conseguia perceber-se a beleza que eu recordava dela. Não fosse eu um simples relógio, ter-me-ia emocionado por certo.

- Mãe?
Frau Lea abriu os olhos e compôs-se na cama com a ajuda de Anne. A voz saiu-lhe sumida mas perceptível para quem estava próximo.
- Sim?
- São os senhores de que lhe falei.
Augusto traduzia para o seu primo.
Uma lágrima rolou pela face de Frau Lea.
João aproximou-se e falou. – Dá-me licença que lhe segure na mão?

Durante uma hora contou, pausadamente e com todos os detalhes, a minha história conforme a tinha ouvido contar centenas de vezes a seu avô. Falou-lhe sobre Francisco e em como este o tinha encarregue há algumas semanas de encontrar a pessoa a quem eu pertencia. Pediu desculpa, em nome do avô, por tantos anos de atraso.
- Onde está o relógio? – perguntou Frau Lea.
João pegou em mim e entregou-me. O seu toque era frágil. As saudades que eu tinha daquele toque. Frau Lea emocionou-se bastante. Pediu à filha que me abrisse. A sua foto lá estava.
- Custo a crer Anne, o relógio que ofereci ao teu pai. Foi a última vez que o vi… que os vi. Não sabia naquela altura que estava grávida de ti. Nunca soube se a noticia chegou a teu pai.
- Eu sei mãe.
- As saudades que tenho dele… mas tive-te a ti, não é verdade?

Após alguns minutos de silêncio em que mãe e filha ficaram de mão dada a contemplar-me, João interrompeu.
- Há ainda mais uma coisa. Este sobrescrito que meu avô conservou.
Frau Lea reconheceu a caligrafia do marido. Era a carta que ele lhe tinha escrito na noite anterior à sua morte.

Faz hoje um ano que regressei a casa. Aqui estou, junto a uma foto de Herr Maximilian Ludendorff e Frau Lea Abendroth Ludendorff, dentro de uma bonita caixa transparente, no jazigo da família.
Velo pelo corpo de Frau Lea e pela memória de Herr Maximilian.
Julgo que cumpri bem o meu dever. Agora é altura de também eu descansar. Não o queria fazer sem contar a minha história.
São 12h00.

17 comentários:

Anónimo disse...

Rui, tou sem palavras, acredita!!!!!

Muito bom, muito bom mesmo!

Obrigado por estas pequenas partilhas de ti!

beijos ss

Anónimo disse...

Que história bonita.
É tudo éfemero e até o relógio deixa de fazer tic tac...
Deu-me vontade de chorar baixinho.

_____________________________

Inês Salgado disse...

Ainda estou arrepiada...
Brilhante!

Beijoo :)

Inês

Sara MM disse...

Comovente... a sério!

BJs

PS-não uso relógio... só para que
saibas!

PS2- costumo dizer que tenho "desvio padrão" de 5 minutos: sei quase sempre as horas (com erro de mais ou menos 5 minutos) sem ter de olhar p o relógio... mas ainda não sei se isso é bom ou mau!

Silvia disse...

Está excelente. Gostei muito da maneira como nos transmites ambientes tão diferentes. O requinte da nobreza alemã, o romantismo, a crueza da guerra, o alentejo trabalhador composto de homens pobres, mas honrados...

Acho que deves pensar em aprofundar cada uma das tuas histórias pois cada personagem pede um desenvolvimento e uma história, que num blog é impossivel de conferir. Devias pegar nestes "esqueletos" e escrever um livro.

Marta disse...

regressei e encontrei aqui uma nova história...arrepiante :)
bjs

Anónimo disse...

Sou mulher, logo sou piegas... Será?! Naaaa... Tinha acabado de ouvir MM no seu melhor, qdo dou por mim toda emocionada com a sensibilidade q conseguiste imprimir àquela cena... a toda a história. Parabéns! Ficou soberba!

LD

Anónimo disse...

Adorei... E eu que normalmente sou acusada de ser fria e insesível até tenho uma lágrima a querer saltar...
Excelente articulação entre os momentos, descrições preciosas... Grande evolução como escritor...

Beijo,

a menina das asas de borboleta

Francisco ( X ) disse...

Muito bom, muito bom mesmo,ainda me arrepiei na cena do reencontro da Frau com o relogio, muito bem escrito.

Um abraço

Neith disse...

Excelente texto...uma escrita inteligente. Parabéns! Beijinhos :)

vero disse...

Que história comovente... venho agradecer a visita lá no meu blog! És sempre bem-vindo!
Beijinhos***

Margarida Atheling disse...

Para ler o teu blog é preciso tempo, mas vale sempre a pena!

Anónimo disse...

Já terminou a história???
Não vamos saber o que dizia a carta? nem se ele chegou a saber da filha antes de morrer? Gostei muito da história, mas acabou tão depressa ... talvez ainda lhe pegues?!

LUA DE LOBOS disse...

Olá Rui
Apanhaste-me ao virar da esquina de uma fase em que a vida me está a ser madrasta e chorei, chorei muito com o teu texto e olha que não sou de chorar... adorei e vou ler o teu blog de fio a pavio:)
xi
maria

Porquê? disse...

Olá,
venho agradecer-te a visita ao meu cantinho.
Pelo que vi, muito a correr, percebi que tenho que dedicar um tempinho para ler esta maravilha.
Prometo que voltarei com mais calma.
Até breve

segurademim disse...

... mas voltaram-se a ver a lea e o narrador (relógio); muito bem descritos os diversos ambientes e personagens!
Voltaremos a ver-nos?
Bom fim-de-semana :)

Porquê? disse...

Esta história está brutal!
não encontro outras palavras para a descrever.
Já algum dia pensaste em publicar as tuas histórias? Olha que terias muito sucesso....
Parabéns, prometo voltar, gostei do teu canto!
até breve