terça-feira, outubro 25, 2005

O Frio de Sábado à Noite

As minhas noites de sábado sempre foram muito angustiantes. São as noites por excelência para se sair com os amigos em busca de diversão. Pelo menos, este é o objectivo declarado, porque o implícito, para quem tem 18 anos como eu e não namora, é encontrar uma relação.
Nunca ninguém me disse que é assim, nunca o li em lado nenhum mas, na minha cabeça, é assim. Coloco uma grande pressão sobre mim e isso angustia-me, deixa-me nervoso. E não é tanto pela parte da busca da relação, daquele jogo de sedução com uma rapariga, coisa para a qual eu nunca tive jeito, digo-o já, é por não ter muitos amigos. Chega sábado à noite e eu não tenho com quem sair.
Os poucos amigos que tenho estão noutra, andamos numa fase em que não partilhamos muito os mesmos interesses. É essa a razão porque eles não me convidam para sair com eles. Não por não me quererem no grupo, apenas sabem que eu estou noutra.
E é verdade, não estou na deles, mas também não estou na de outros, simplesmente não estou na de ninguém. Nem sequer na minha.
Se eles me convidassem eu até era capaz de aceitar. Não por convicção, apenas por não ter mais nada para fazer.

Eu também não me ajudo nada. Nunca dou parte fraca, nunca falo. Eu sou aquele para quem está sempre tudo bem, sei fingir uma vida social relativamente ocupada e sempre sem precisar de mentir – o que também não seria capaz de fazer -, basta-me falar de alguns sítios que estão a dar, de pessoas que eu conheço mas eles não e, nas suas cabeças a ligação é feita: “ele tem para onde ir e com quem ir, porreiro”. É assim tão fácil, acreditem.
A malta é jovem, não há grande preocupação em fazer muitas perguntas, vive-se depressa. Se o outro diz que está bem, se aparenta estar bem, é porque está bem.
Não me ajudo ao nunca me fazer convidado. Podia dizer que naquele sábado até ia com eles e tenho a certeza que, depois de ouvir duas ou três exclamações de espanto, ninguém mais ia pensar nisso e eu seria muito bem-vindo.
Não lhes digo nada porque se eu fosse com eles era para sítios que não têm nada a ver comigo, com aquilo que sou neste momento, e, para mais, como conheço bem apenas poucas pessoas do grupo e não as quero prender a mim, acabava por ficar por ali calado (com os outros não seria capaz de conversar sobre nada devido a uma enorme incapacidade minha de me relacionar, se querem saber), ou seja, iria passar a noite sozinho de qualquer maneira.
Mesmo assim não sei se faço bem. Será melhor passar a noite sozinho, ou sentindo-se sozinho no meio de muitas pessoas? Às vezes parece-me que no meio de um grupo é ainda pior. Ver de perto as pessoas a confraternizar, a relacionarem-se e eu ali, calado, a um canto. Acho que realça de uma maneira insuportável a tristeza de vida que tenho. Se passar a noite mesmo sozinho, parece que sinto menos pena de mim próprio.

E é assim que sábado se torna na noite mais solitária da semana.
É um drama sempre renovado. Apesar de todos os sábados serem iguais – pelo menos a esmagadora maioria -, em casa não consigo ficar, apesar de não ter para onde ir.
Não consigo ficar porque vejo nos olhos dos meus pais o que lhes vai no pensamento: “olhem só para este rapaz, com 18 anos e não sai num sábado à noite”. Nunca me o disseram nas vezes em que não saí, mas eu sinto-o. E por isso, saio. Não quero que eles pensem que não tenho para onde ir, com quem ir. Saio.
Tantas pessoas com o drama de os pais não os deixarem sair e eu com dramas destes…

Depois de algumas noites verdadeiramente complicadas, em que me vi aflito sem saber o que fazer, para onde ir, encontrei uma rotina que tem servido o propósito de queimar 3 a 4 horas: apanho o autocarro e depois o comboio, vou até à Baixa (por vezes ainda apanho o Metro e vou até outras partes da cidade). Levo o Walkman, claro, e ando por aí, sem destino, por zonas da cidade que aos sábados à noite estão quase desertas.
Ao escrever isto quase me senti bem, se eu soubesse o que era isso, diria que senti mesmo felicidade. Chegou a parecer-me um belo programa de sábado à noite. A verdade, porém, é que são 3 a 4 horas em que pouco mais faço do que sentir pena da minha existência.
Sei perfeitamente que não devia, mas é mais forte do que eu. O saber que podia ser bem pior, que há pessoas doentes e que lutam sem se queixarem, que têm vidas bem piores que a minha, não me ajuda em nada. Só damos valor às coisas quando as perdemos e, neste momento, não dou grande valor ao que tenho.

No meio de tudo isto, consigo vislumbrar algo positivo, é que tenho perfeita consciência de quem sou e de como sou. Sei que tenho que mudar, que assim não vou a lado nenhum, que isto não é vida para ninguém. Sei também que se pedir ajuda, se conseguir falar com alguém, tudo será mais fácil. Ainda não o consigo fazer, mas vou tentar, um dia. Até lá, resta-me andar por aí aos sábados à noite, sozinho, na triste esperança de que alguém meta conversa comigo, nem que seja para perguntar se aquele comboio pára em Algueirão. Até agora ainda não aconteceu.

Vai começar o Inverno. Os dias de chuva são os piores. O frio já se nota. Lá fora e cá dentro.

17 comentários:

Anónimo disse...

Os dramas da adolescencia. E que grandes dramas Rui!!! Já alguma vez te disse que achava que vivemos sempre "fora" do tempo? É o q eu acho. Deixamos de fazer tantas coisas por vergonha ou pequenos tabus, que agora dizemos "se eu soubesse tinha sido tudo muito diferente e tinha feito tudo diferente".
Dançamos?

beijos SS

Anónimo disse...

... hum... esta história até me parece familiar, hehehehe :-)acho que todos passamos um pouquito por esta fase, 1s mais outros menos, eu passei e só começei a mudar qd a vida quiz :-) faz parte da nossa evolução como pessoa. Beijinho da Jaqui.

Anónimo disse...

Anda...vamos comer um gelado, ver as estrelas,e dizer disparates.

Beijos

_________________________

Silvia disse...

Acho que toda a gente passa por situações idênticas... A diferença é que alguns preferem passar por isto sozinhos e outros vão e passam a noite a pensar que nada têm a ver com aquelas pessoas e com aqueles sítios. Ou sentir eternamente (infelizmente para além da adolescência) que não pertencemos...

Acredito que temos nas N/ mãos a possibilidade de alterar este sentimento de solidão e desenquadramento e sermos pelo menos um bocadinho FELIZES.

Qt ao teu conto, gostava apenas de te dizer que gostava de ter estado lá e quem sabe poder fazer a diferença.

Paula Raposo disse...

Gostei muito do comentário que deixaste no meu blog. Não sabia que também tinhas este espaço. Podes contar comigo para conversar, quem sabe para beber um copo num sábado à noite??! Ainda bem que gostaste de ler a minha última prosa. Beijinhos, quinta encontro-te nas aulas.

Martuxa disse...

A famosa fase da adolescência... Eu k tnh 20 anos ando às turras com o meu pai para poder ir passear, tomar café, sair à noite... Passeia, vê o céu, ouve música, sente a magia da noite, vai à praia... Sente-te livre... Vive cm keres! O silêncio faz bem, a calma faz bem... Ouve o teu coração e sente a vida...
Um sorriso =D e uns bjinhos

Mipo disse...

não existem soluções feitas para esse tipo de sentimentos e acho que, por vezes, todos os temos, adolescentes ou não.

A única coisa que te posso dizer (não te conhecendo) é que às vezes é melhor "forçar" um bocadinho; sair com amigos, mesmo que aparentemente eles andem noutra. Excesso de isolamento é mau - ajuda a pensamentos "pescadinha de rabo na boca".

E não sejas tão duro contigo mesmo...

Angela disse...

Uns querem sair e não deixam. Outros, queriam ficar em casa e são mal-vistos. Os desajustes do dia-a-dia. Aprendi, ao longo dos anos, a deixar de dar assim tanta importância à opinião dos outros. Os outros, são os outros. E muitas vezes parecem felizes e não são mesmo nada. As ilusões das aparências. Ser diferente, não é ser pior ou melhor. É ser diferente. Como tu, deve haver milhares de tímidos. Mas, como são tímidos e não têm um blog, não desabafam. Também o tempo me ensinou a desviar a timidez. Nada melhor do que um sorriso, uma música alegre, um chocolate e uma certeza: de que tudo passa e a vida, no seu equilíbrio, é feita de pedacinhos pretos que se alternam, naturalmete, com pedacinhos brancos. O tempo vai reduzir dramas a boas aprendizagens. E o que é teu, a ti virá. Não é preciso andares a correr atrás. Está guardao para ti. Confia nisso.

Anónimo disse...

Parece-me a mim que o Rui cria personagens...
E tenta colocar-se na sua pele e dar-nos a conhecer a vida dessas personagens.
Não confundir.
Há que não nos limitarmos pelas nossas realidades e pelos nossos julgamentos de valor...
São Estórias

E muito boas

Mas apenas Estórias

E não..o Rui não tem 18 anos
ehehehheehhehehheheheeheh

Anónimo disse...

"...I walked alone
Through the blackest night
I felt the cold
I felt the bite
I took the high road
But it ain't right
It's just the low road
In disguise

I'm going through changes
Ah yes
Everything's gonna be alright..."

(Achei engraçado a qtd de músicas q revi na minha cabeça ao longo do teu post...)

LD

Diario de uma universitaria disse...

Estou apaixonada pela tua escrita... apaixonada pela capacidade interior que tens em sentir... simplesmente apaixonada!


até quando quiseres, Marisela

Sara MM disse...

Oi!
Não estava à espera de nada... pois Rui só sabia que era desconhecido... mas foi uma bela surpresa! Tens aí textos espectaculares!

Qt ao que falas aqui... posso comentar muita coisa:
- As relações encontram-se qd não se procuram... falo por mim que sempre as procurei e dei com o nariz na porta, e encontrei-a num amigo onde e qd não procurava (eu tava ocupada, achava eu)
- sei mto bem o que é estar noutra... pelo menos para sair à noite... saí sempre mto e de repente deixei de gostar, e pronto! Bem podiam insistir q eu não ía nem vou!
- mas se alguma vez te apetecer, diz só, "tb vou" e pronto, tá?
- Há uma desculpa melhor que ir para outros lados sozinho e dizer que se sai com sei lá quem... aproveita o dia em vez de aproveitares a noite! Surf, escalada, btt... encontras aí centenas de people que não sai à noite (como eu)
- somos dois... os meus pais tb sempre me deixaram sair! sorte ou às vezes azar !?!?
- não tens de mudar assim tanto...!!!?!

BJs
PS- desculpa se pareceu um cadinho maternal, mas até tenho mais 10 anos que tu :o( aaiiiiiiiiiiii heeelllpppp! eu sim, tenho problemas, vês?!

Rosario Andrade disse...

Ola!
... onde é que eu já li isto?... ah, sim, foi nos meus escritos. Não mudes só porque achas que tens de te adaptar aos outros. Encontrar o equilíbrio entre aquilo que somos e o que nos rodeia não é fácil. Mas eventualmente acontece. Um dia acontece, acordamos e estamos bem com o mundo e bem em nós. Posso contar-te um segredo? O mais importante é não ceder e aprendermos a gostar de nós proprios, tal como somos... quando gostamos de nós próprios há qualquer coisa que é transmitida aos outros, energia, aura, charme, chama-llhe o que quiseres, mas o que é facto é que nos tornamos... atraentes!
Tem paciência contigo próprio...
Vou aparecer mais vezes...
Abracicos!

GNM disse...

Muito obrigado pela tua visita que me troxe até aqui!

Gostei muito de conhecer o teu blog! Os teus posts são bem criativos...

Fica bem...

ISA disse...

hoje e sabado a noite, tás sozinho? eu tb!

@ disse...

Gostei imenso do texto vou voltar cá no futuro...

Fiquei sem palvras para comentar

:-)

Cleopatra disse...

Gostei
GOSTEI! GOSTEI!!!!!!!!!!!!!!!