quarta-feira, novembro 09, 2005

Das Relações Entre as Pessoas

Querido diário,

Tenho estado ausente, eu sei, mas nesta altura do ano é sempre assim, para mais com a minha relação com o Sérgio no estado em que está.
A última coisa que partilhei contigo foi a angustia que sentia por mais um aniversário que se aproximava. Todos os anos a mesma coisa: esta sensação de finitude que se aproxima. Agora que já fiz os malditos 60 anos, a angustia continua.

Tal como eu temia, o jantar de aniversário foi muito difícil para mim. Cada vez era mais complicado fingir que tudo estava bem. Nessa noite, depois de todos terem ido embora, reuni todas as minhas forças e coloquei a questão ao Sérgio.
Falámos por meias palavras, como tem sido habitual nos últimos anos, mas falámos. Decidimos que, entre nós, para já, vamos deixar de fingir que ainda temos uma relação. Vamos continuar a viver juntos, a partilhar a mesma casa, mas estamos já a ocupar quartos diferentes.
O divórcio está fora de questão. Para os amigos vamos manter uma aparência de normalidade, mas à Beatriz e à Ana já dissemos. O Sérgio ainda tentou convencer-me que não lhes devíamos contar, mas já me custa bastante fazer isto com as outras pessoas, não o conseguiria fazer com as minhas filhas.

Os primeiros dias foram difíceis, afinal, andamos os dois aqui por casa quase sem nos falarmos, como se fossemos estranhos. O Sérgio é como um fantasma que eu vejo mas com o qual não consigo comunicar (nem quero, bem vistas as coisas).
Tenho perguntado muitas vezes a mim mesma se havia necessidade desta tentativa desesperada (?) de manter as aparências, se não era melhor a separação, ponto final.
Chorei muito (ainda choro). Tem sido também por isso que não tenho escrito, não quero encher páginas e páginas só com angústias, dúvidas, tristezas, lágrimas.

Estive hoje com os meus netos e estou mais animada. Acho que vou conseguir fazer isto funcionar. A verdade, por muito que me custe admitir, é que ainda sinto algo por ele. Algo forte, mesmo depois de tudo o que ele me fez, de todas as traições, de todas as mentiras. A diferença é que enquanto nos últimos anos eu preferia enganar-me a mim própria, agora não, consegui encontrar algum amor próprio dentro de mim e não abdico dele. Não vou deixar que me magoe mais!
Pelo menos, não vou deixar que ele perceba que ainda sofro um pouco. Faz-me muita confusão como é que a minha mágoa nunca o afectou, nunca o fez ter uma palavra para comigo, lhe provocou uma alteração de comportamento, por pequena que fosse. Não quero crer que nunca o tenha percebido, como me disse no dia em que falámos. Isso seria bem pior, seria a confirmação das minhas piores suspeitas: que para ele, eu já não existo há muito tempo… há tempo demais.

Neste últimos dias tenho dado por mim a pensar várias vezes no porquê desta coisa das relações entre pessoas ser tão difícil, tão complicada. Se não seria melhor não haver sentimentos desse tipo por um parceiro.
Não seria preferível, querido diário, se tudo se resumisse a sexo, como em quase todo o reino animal? Sexo, só e apenas, sem qualquer tipo de ligação afectiva.
Não me interpretes mal, não estou a defender uma mudança de comportamento, estou apenas a divagar sobre como teria o mundo evoluído se, no inicio do desenvolvimento da espécie humana, não se tivesse gerado esta necessidade de estabelecer ligações que acabaram por originar a Família tal como a conhecemos hoje.
Se fosse como com quase todos os animais, haveria sexo para reprodução e algum por prazer (que não se trata de uma posição puritana). Amor, que é um sentimento importante, tinha-se pelos filhos, não pelos parceiros.
Os filhos ficariam ao encargo de um dos progenitores. Cresceriam sem o amor do casal, é certo, mas quantos não são os casos de sucesso em que isso acontece nos nossos dias? E depois, amizades continuaria a haver, continuaríamos a dar-nos com outras pessoas, a conviver em grupo. Apenas não haveria o Casal.

Este meu “protesto” é contra o casal, contra o potencial de sofrimento que o conceito encerra quando a coisa não corre bem – e que pode ser muito superior a tudo de bom que também contém -, não é contra a sociedade, contra o grupo, contra a amizade. Tudo isso seria fundamental.
E só mais uma coisa: a criança nunca sentiria falta do outro; isto porque nunca teria havido outro e nós só podemos sentir falta do que conhecemos, do que perdemos, se não sabemos que existe, não o poderemos lamentar (se nunca tivesse existido televisão, alguém ia sentir falta dela?).

Certamente isto teria originado uma sociedade muito diferente da que temos hoje, mas seria pior? Quero crer que a ideia tem algum mérito e merece alguma reflexão, que não é só alguém magoado pelo amor a desabafar.
Parece-me um exercício intelectual válido, apenas isso. Até porque não advogo esta mudança, agora seria impossível: todos sabemos o que é uma família feliz e devemos aspirar a ela; é nossa obrigação tentar consegui-la, devemos isso a nós próprios. Isso torna impossível o que disse antes.

Agora que já me libertei de algum deste peso no peito que me aflige, vou fazer uma canja (espero que o desgraçado do frango não tenha estado constipado, que esta estória da gripe das aves também me tem afligido).
Até à próxima.

PS – a canja é só para mim, se ele quiser que a vá fazer!

23 comentários:

Martuxa disse...

Muito bonito, mas será k ñ valia a pena parar antes de xegar ao k xegou? A vida é para ser vivida, ñ para ser empatada em algo k nos deixa infeliz. Mm k haja razões fortes para o fazer, temos de pensar em nós, nd justifica o k ela se sujeitou.
Sorrisos e beijinhos

Desconhecida disse...

Sabes que ao mesmo tempo este Post deu-me vontade de rir...os meus pais com mais ou menos a vossa idade estão exactamente na mesma situação...poderia até ser a mãe a escrever este texto...é a vida!

@ disse...

A esperança é a última a morrer, e o desapego a ordem do dia.
Porque nada é realmente nosso.

Sara MM disse...

Esquece lá as aparências!
Faz-te à vida, aproveita os tempos modernos, que se baseiam num política de divórcio (entre casais e entre tudo)!

Divorcia-te dele, e dando a noticia aproveita a divorciar-te da familia de seca, das amigas falsas, de tudo o que sofreste em 60 anos!

Resta pouco para seres feliz, mas mais que nunca podes e deves sê-lo!!!
Com sexo, ou sem sexo, com amor (mesmo que seja por ele) ou não, mas contigo e os verdadeiros amigos em 1º lugar (e tb os netos e filhos, talvez?!)!

BJs
PS-Então bom apetite.

Porquê? disse...

Infelizmente, a situação que descreves neste texto é cada vez mais vulgar nos dias de hoje, e muitos desses casos nem imaginamos...
A solução seria mesmo o amor sem compromisso, sem contratos, sem hipocrisias...

BloodyMary disse...

Gostei da carga irónica que utilizaste no final.
Uma história que relata tantas outras que se vêem por aí. Uma questão interessante e que exige sem dúvida um momento mais ou menos intenso de reflexão mais ou menos profunda.

Penso que a aspiração para ter uma família feliz não passa tanto por a devermos a nós próprios mas sim à sociedade em que nos inserimos e que ambicionados fazer parte. Não precisamos de ter propriamente uma família feliz para nos realizarmos como indivíduo, embora seja importante!...

Também não precisamos de um microondas para sermos felizes e em muitos casos não se prescinde dele!

Enfim...podia deixar aqui uma infinidade de exemplos, mas o que importa mesmo é que ela não se engasgue com a canja! ;)

Silvia disse...

Permite-me discordar bloodymary, mas acho que é mesmo um problema nosso e não da sociedade.

A sociedade aceitar-nos-á sempre. Até porque há uma infinidade de campos em que podemos ser bons e brilhar e que nos trarão um lugar na sociedade.

O problema mesmo - e acho que não é tanto uma família que necessitamos - é querermos alguem que nos ame acima de tudo.

Acredito que o marido dela a ame, ou provavelmente já se teria ido embora, a questão é não a amou como ela ambicionou e merecia.

ApenasAlguém disse...

Relato fantástico de pensamentos tão reais. Quantas e quantas são as famílias onde isto se passa. Mas, ainda valerá a pena? Penso que os "mais novos" já não conseguem viver assim e vão-se dando novas oportunidades de ser felizes.
Bj

segurademim disse...

Concordo com a Silvia, o problema são as expectativas que criamos, muitas vezes achamos que deve ser assim e não assado o amor do outro!!

Também acho que só somos violentos porque fomos violentados! viver na mesma casa sem água vai?, sem uma canjinha? tenham santa paciência!!!

E há modelos de familia em que casal não é um ele e uma ela, pode ser um ele e várias elas, uma ela e mais que um ele, pode ser um ele e mais um ele, uma ela e várias elas!! sei lá... depende do hemisfério que habitamos...

Talvez ajude ir ao cinema, tirar um curso, uma pós-graduação, sei lá... aos 60 já se deve ter sabedoria suficiente para ultrapassar crises existenciais, não ??!!

Bom, embarquei no conteúdo desta págima de diário, que de tão bem escrita até parece real...
Beijo

Anónimo disse...

Lá estas tu outra vez a por-me a pensar. Ela tem razao, em
tudo o q disse mas entao porque é q é tao dificil de se por isso em práctica? Será pelo que ela diz de que no fundo lhe custa admitir que ainda sente algo muito forte? Nem que seja só magoa pelo que ele a fez passar? E nao significa isso que ela ainda o ama? Xiiiiiiii complicado isto dos sentimentos ne Rui?
Mas obrigado por me fazeres mais uma vez pensar. E pensar em coisas tão uteis!

bjs ss

Rui disse...

Isto é apenas uma especulação minha, mas não imagino que não seja fácil para uma pessoa separar-se ao fim de tantos anos de vida em comum (especialemnte para uma mulher?). Pondo de parte a questão afectiva e emocional, se pensarmos na parte económica da coisa percebe-se que não é fácil. Poderá não ter os recursos para ficar a viver sozinha. Ir para casa de uma das filhas? Há uma série de questões que têm que ser tomadas em conta neste tipo de situações para além do sentimento.
Digo eu, não sei se concordam.

Marta disse...

acho q o q dificulta esta separação é a existência de um sentimento por parte dela. chega uma altura na vida em q uma pessoa se cansa de remar contra a maré mas deixa-se ficar a vaguear no mar. n se pode recriminar a sua escolha mas só de ler a primeira parte de uma história q promete já fiquei com uma raiva ao sérgio q n te digo nada ;).
bjs***

Silvia disse...

Concordo com a ladyinblack. Não me parece que sejam dificuldades económicas que a façam ficar ali junto dele. Acho que sinceramente ainda não consegiu matar totalmente o amor que sentia por ele e a separação total ainda lhe traria sofrimento.

Hoje em dia com as mulheres a trabalhar activamente, penso que as dificuldades econónicas põe-se para os dois lados. E posso afirmar por experiência profissional que as mulheres actualmente tomam mais a inciativa de se divorciarem do que os homens.

Anónimo disse...

Concerteza que as questões de ordem prática são importantes para uma tomada de decisão nesta matéria.

No entanto, penso que os condicionalismos culturais são mais fortes. Desde muito novos que somos esculpidos para agirmos de dederminada forma. Às meninas dá-se bonecas, para que treinem a ser mães...às meninas é-lhes ensinado a cozinhar e a ser prendadas, para poderem "servir" bem o marido. Aos meninos é-lhes pedido que sejam o ganha-pão e que protejam a familia.
(é claro que os tempos mudam e as coisas estão um pouco diferentes, mas foram séculos e séculos de construção de um modelo familiar, dos papeis do homem e da mulher, que ainda hoje tem as suas influências).

Provavelmente, esta mulher de 60 anos (que teve uma educação diferente da actual), desde muito nova foi "ensinada" que o seu objectivo principal na vida era casar, ter filhos e ser uma boa mulher.

No entanto, as coisas não correram como ela estava à espera e depois há a resignação...o deixar andar...o não termos de assumir perante nós próprios e os outros, que fracassamos. Sim, porque o divórcio é sempre um fracasso, investe-se numa relação que pensamos ser para o resto da vida, convidamos os amigos e familiares para pressenciarem esse compromisso e depois, por motivos diversos e muitas vezes, legitimos, as coisas correm mal.
Um divórcio é sempre uma crise na vida de uma pessoa. Mas, muitas vezes, é atráves da crise que crescemos.

Enfim...cada caso é um caso e é sempre dificil generalizar nestas questões.

Mas se, por um lado, temos a obrigação de fazer tudo o que está ao nosso alcance para que uma relação corra bem, por outro lado, temos a obrigação de tentarmos ser felizes, e ter a clara percepção de que, quando as coisas não resultam mais, é preciso ter a coragem para dar tudo por terminado e (re)começar, sozinhos ou não.

No entanto, se isto, pode ser lógico para uma mulher de 30 anos, talvez não o seja para uma mulher de 60 anos. Talvez porque sabe que a vida já não tem muito mais para lhe oferecer, que as forças escasseiem para esse confronto emocional tão forte e talvez sinta ainda que o amor dos filhos e dos netos seja suficiente para a preencher (?)

Eu sei lá..

______________________

Neith disse...

Um texto profundo que convida à reflexão...afinal, mais não é do que o retrato da vida de muita gente. Gostei bastante de o ler :) Beijinhos

Rui disse...

Esta texto não tem continuação, é apenas uma página de um diário. O que lhes aconteceu depois eu também não sei.

Anónimo disse...

Infelizmente ao leer este texto deparei com a história diária de muita gente, homens ou mulheres com 60, 50, 40, 30 ou até 20 anos que vivem de faxada, ... não sabemos porque, mas vivem, será por comodidade, por necessidade, por medo ... isso é uma resposta que cabe responder a cada um... é pena que assim seja.
Beijinhos da Jaqui.

Anónimo disse...

... é verdade Traçinha, qd uma porta se fecha há sempre algures uma janela aberta, só que nem sempre temos a capacidade de ver isso logo, e enquanto a pestana não abre aparece o sofrimento que nós faz crescer... e procurar... e fazer encher os pulmões para a próxima ... Beijinho _______ da Jaqui :-)

Anónimo disse...

Jaqui:

Que se te abram muitas janelas pela vida fora, que tenhas sempre os pulmões cheios de ar e que conserves sempre essa tua jovialidade referescante.

Um beijinho scottex para ti

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Anónimo disse...

Infelizmente tb reconheço a história (desculpa, mas ainda n enveredei pela 'estória'). É este tipo de reflexão que me faz lembrar sempre, trintona como já sou, que podemos e devemos amar alguém sem nunca nos esquecermos de nós mesmas. Sem esquecermos a nossa auto-estima, a nossa aparência, a nossa carreira, os nossos filhos. Hoje, tenho plena consciência que tal como me sinto bem na pele dos 34, no que já vivi e no que me falta viver, vou continuar a aprender a viver esta pele até aos 60.
No entanto (para n fugir ao assunto), não deixo de acreditar no amor, nas coisas boas que ele nos dá... Quem tem filhos, acha q as noites mal dormidas, as corridas ao hospital, as dores de cabeça com as notas da escola e o género de amigos q têm, são motivo suficiente para abdicar de todos os prazeres q esse amor vos proporciona? Hmmmm... n me parece. Qualquer que seja o tipo de amor tem as suas dores. Nunca seria amor se n houvesse dor, pq o ser humano contrapõe um estado máximo (felicidade) perante um estado mínimo (infelicidade). O amor é um sentimento do qual n abdicaria nunca... a felicidade q se sente quando se ama é tão única e preciosa, q me sentiria menos Eu se n a tivesse vivido. (Por mta dor q me possa ter causado.)

LD

LUA DE LOBOS disse...

tenho 62 anos e como entendi essa mulher... mas esta geração, a nossa, é uma geração de fiambre no meio de duas fatias de pão. Ficámos entre os nossos pais que nos domesticaram até ao limite, e os nossos filhos que têm uma distancia de geração equivalente talvez a 3 das nossas.
Mas fomos moldados mas também apanhamos o embate da liberdade e isso desenvolveu-nos uma base de dureza e sobrevivencia que é muito pouco detetável mas que em crise salta como um gato assanhado.
Está perfeitamente definido - ele se quiser que vá fazer a canja.
Assim a seco e a frio.

Belissimo texto, aliás como sempre.

E obrigada por teres focado este problema poruqe ele existe e é muito mais comum do que se pensa.
xi
maria

Anónimo disse...

heheheh ______ :-) Bjs pra ti!

th disse...

Olá Rui: foste à minha Sebenta e eu vim dar uma espreitadela no teu blog. Não é que o estilo é semelhante....lol. A propósito de separação sempre te digo que é uma decisão muito difícil, mas depois de tomada há só que ir em frente. em 74 peguei numa maleta com meia duzia de coisas, disse que ia passar um fim-de-semana fora e NÃO VOLTEI!