quarta-feira, abril 02, 2008

O Estojo (6)

A assinatura do contrato processou-se sem atribulações de maior e foi já com um sorriso menos evidente, mas mais natural, que Joaquim entrou no restaurante onde ia decorrer o copo-de-água com a mulher pelo braço.
O almoço foi ali para os lados das Amoreiras, na Valenciana que, segundo Joaquim, “tinha uma sala ampla e arejada”, não contando que os fossem sentar próximo do grelhador, nem que a extracção de fumos não desse resposta a tanto fumo.

Deolinda não conhecia o sítio, mas aceitou prontamente quando a vizinha Celeste lhe disse que o restaurante tinha fama nos frangos assados.
Foi, portanto, com manifesto desagrado que ouviu da boca do empregado a ementa:


– Temos canja de galinha, bacalhau no forno com batata a murro e febras na brasa. A sobremesa pode ser…
– Psst, psst… – o avô de Joaquim puxou o empregado pelas calças. – Oiça lá, e para molhar o gógó?
– Para beber, há tinto da casa, sumos e águas – sem ter conseguido ouvir, a mulher repetiu-lhe as opções ao ouvido.
– Esse tinto é de onde? – gritou o idoso.
– Da zona de Aveiras… e para sobremesa, pudim, leite-creme ou mousse de chocolate – e foi-se embora, apressado.
– Então, mas eu… pensava que… – Deolinda tentou articular uma frase coerente, mas as ideias atropelavam-se. Olhava para o marido, mas não o via. – Tu… tu não…

– Dois pratos, hã!? Carne e peixe! O senhor não disse, mas o café e um chiripiti no fim, também estão incluídos – afirmou ele, com manifesto agrado.
– O teu avô não consegue roer as febras, que não tem dentes – a avó, do outro lado da mesa, franzia o olho direito na direcção do neto. – E eu é coisa que também não aprecio, que a carne fica sempre seca e rija.
– Comam frango, prontos! Eu peço ao senhor para trocar.
– Eu
também quero frango – as palavras saíram de dentro de Deolinda arrastadas e cortantes, como se fossem feitas de ferro demoradamente afiado.

Entretanto, a sua cabeleira sucumbira ao fumo dos grelhados e tinha-lhe caído para os ombros e para os olhos. A sentir um calor cada vez mais insuportável a subir dentro de si, soprava a franja com evidente má cara, quando o avô berrou sem destinatário definido:


– Em Aveiras também há vinho?

(continua)

boomp3.com

20 comentários:

un dress disse...

tragam já uns dentes ao avô!! :)

ai... aveiras...?

foi na auto estrada ou na valenciana!!? pois, percebia, se fosse na auto estrada...

lugar ideal para festas de casamento

muito à mão, sempre em trânsito!...





cá me fico ...também quero frango!! no caso, por princípio,

um princípio inventado agora mesmo...





beijO

~pi disse...

eu já vou adiantando:

como serão as criancinhas...? :)

Rui Caetano disse...

Uma bela história que ficou inacabada, por hoje...

Lyra disse...

Beeeeeeeeem, tamb�m estou curiosa para saber como ser�o os futuros rebentos (risos)

Beijinhos e at� breve

;O)

Maria Laura disse...

O que me espanta é como nenhum deles começou logo ali a planear o divórcio... Credo, só o vinho de Aveiras era razão bastante! :)

rosasiventos disse...

- o meu único para sempre

Tita - Uma mulher, Um blog, algumas palavras disse...

:-)

Deixo um beijo e uma enorme vontade de ler o próximo"episódio"

Maria disse...

Deu para sentir o cheiro, o fumo.. continua muito bom ;)

JPD disse...

A refeição promete.

Essa de «...e para molhar o gógó?»

é das boas!

Cantinho dos devaneios disse...

Continuo, suspenso, à espera da próxima "posta"...

PS: Genial a missiva que entregaste em resposta à minha carta!

Leonor disse...

quanto mais tempo é que nos vais fazer sofrer, vamos lá a saber???

bom, isto para ementa de casório tem que se lhe diga, claro, mas frango? e a asae já fiscalizou aquele fumo todo?
quanto à dentadura, o mais que podia acontecer era ficar presa nas febras... uma vez mandaram-me um daqueles pps que passeiam nos mails precisamente com uma cena dessas. ficava bem aqui eheheh

legivel disse...

.. eu todo satisfeito que afinal sempre tinha chegado a tempo do repasto (aqueles sanitários estavam intransitáveis! tive de ir ao Alvaláxia... ) e sai-me disto!bacalhau e febras?! então onde pára o leitão de que falavas?? Ná, há aqui qualquer coisa que não engrena... mas isto é um casamente ou uma excursão à Senhora do Sameiro?!
Razão tem o avô em se sentir ludibriado: na zona demarcada de Aveiras só se fôr o combustível super ou sem chumbo...

legivel disse...

... vá lá, vá lá: ainda apareceram as Supremes a cantar às prestações. Cachet pago em doze meses não?

Rui disse...

Legível,

Fiz com a Diana Ross um trato: eu escrevia às postas, ela cantava às postas. Pedi-lhe o encarecido favor de não cantar postas de pescada.

Vanda disse...

...era grande o movimento da Valenciana naquele dia, até os clientes habituais, todos inscritos nos passeios promovidos pela junta de fregresia para a 3ª idade, estranharam ... mais propriamente no "Alto de Campolide" (sem querer fazer inveja à Alta de Lisboa),o restaurante, tem paredes meias com uma barraquita de jogos onde se reuniam os larápios da zona...para melhor estudarem o golpe seguinte, entre bolas de matraquilhos e carteiras de incautos...facto, de todo desconhecido pelo noivo...

...já de olho no colar de pérolas da noiva, Manel Maluco, morador ja antigo na General Taborda, foi-se aproximando do balcão fumarento de aço inoxidável com a deixa de meia dose de esparregado...

Assusta-se a noiva com semelhante visão, desmaia sobre o vinho do avô, manchando de uva martelada a madrepérola das vestes...


Beijo de uma Lisboa conhecida por dentro :)

lélé disse...

Bolas! Este casamento está a deixar-me com azia... É que... aproxima-se um casamento, para o qual me fizeram o "desfavor" de convidar e esta mania de antecipar mais a leitura deste relato... Não pressinto bons augúrios!...

São disse...

Como gostei da sua estória sobre as moscas de Legível, decidi passar por cá : não me arrependi!
Feliz semana.

segurademim disse...

... essa do gógó é que eu não conhecia!!!...

tou quase a pedir o velho em casamento ahahahahah

* disse...

chiripiti conheço eu bem, é corrente lá na terra e em âmbito mais ou menos familiar. mas o gogó, junto-me aqui à seguradesi...

Gi disse...

A frase nem o pai morre nem a gente almoça, não sei porquê acho
que ficava aqui bem :)
venha o frango, será que é desta que a Deolinda fica com o osso entalado? Mas que coisa, ainda não descobri porque é que ela se casou descalça

Li mal? Doiam-lhe os pés ou importou a ideia da Sandie Show (acho que esta não é definitivamente do teu tempo .... cantou descalça creio que num festival da canção)

vou ao próximo