terça-feira, julho 18, 2006

Urgência

Tinha urgência Adelaide.
Não consciente da triagem automóvel à entrada do Hospital, fez a curva em excesso de ambição e quase passou a ferro os calos do jovem Segurança.
Mil desculpas, que a sua melhor amiga tinha a filha mais nova tomada pelas convulsões, como se poderia facilmente constatar, fizesse o Sr. Segurança o favor de olhar para o banco de trás do utilitário.

Deixadas mãe e filha enleadas na burocracia dos doentes e aparcado o carro – tarefa que lhe consumiu uns bons vinte minutos e alguma sola de sapato -, sentou-se Adelaide desconfortavelmente na sala de espera. Das amigas nem sinal.
A sala estava cheia de tosse e catarro, de caras jovens mas mal encaradas, cinzentas. Ao fundo, cinco cadeiras vazias. Não estranhou, antes, avançou decidida e posou os ossos na do meio.
Cedo percebeu que estava mesmo por baixo do altifalante minarete, foi quando um muezzin chamou a Natacha Andreia para a sala 1, quase lhe arrancando os tímpanos.
Levantou-se de um pulo e o ar pesado da sala aliviou um pouco, com os sorrisos que aconteceram.

Veio Adelaide para a rua encostar-se a um muro ainda não tomado pelo sol. Sopra a franja e repara pelo canto do olho que ele reparava nela. Ignora-o Adelaide, mas não resiste mais que um minuto e retribui-lhe o olhar. Ele sorri-lhe o sorriso dos confiantes.
Alto e magro, pele curtida pelo sol, cabelo em desalinho, barba por fazer e sorriso níveo. Adelaide sentiu urgência e um balanço de mar.
Aproxima-se dela e cantou-lhe ao ouvido uma cantiga aprendida com as sereias. Disse-lhe o nome e que percebia agora o porquê do seu sobrinho ter engolido uma moeda de dois euros: proporcionar aquele encontro.
Fingiu Adelaide o arrepio que sentiu e pousou os olhos no avião que levantava voo, furando as nuvens por cima das suas cabeças.

- Sou marinheiro. – Acrescentou ele, sendo já desnecessária aquela estocada.

Julgou-se feliz Adelaide. Não quis saber de mais nada. Atracaram nos dias em que ele não levantou ferro. Julgou-se apaixonada Adelaide. E contou a toda a gente. Julgou-se encantada Adelaide. E deram as mãos em terra firme. Julgou-se em paz Adelaide. E deram os lábios quando no mar.

Mas era ele marinheiro com hábitos de marinheiro. Era gente que se compromete a prazo. Lança amarra mas não aperta o nó.
Percebeu isso tarde Adelaide, quando já se pensava porto de abrigo. Levantou ele ferro e ficou ela a ver o mar.

Sofria. Tinha urgência de ser amada Adelaide.

quarta-feira, julho 12, 2006

Hoje é Dia de Festa

Aproximou-se até os dedos dos pés não terem onde se apoiar. Estava descalço, o que era estranho. Algumas pedras deslizaram e, por um segundo, sentiu que o chão lhe fugia. Olhou a medo para baixo mas não conseguia ver onde terminava o precipício. Na verdade, olhando em frente também não conseguia ver onde terminava, uma neblina espessa impedia a visão após não mais que três metros.
Sabia que terminava algures, visto do seu lado esquerdo estar preso um cabo de arame, que se estendia depois neblina afora.
Não sabia como ali tinha chegado nem como de lá sair, sentia apenas que o caminho só podia ser em frente. Mas em frente, só através daquele cabo e, se havia coisa que ele soubesse acerca de si, era que não tinha jeito para equilíbrios.
Após uns minutos de hesitação, colocou um pé no cabo. Reparou que era composto por dezenas de finos fios de aço entrelaçados. Estava gelado.
Uma brisa levantou-se e teve a certeza que iria cair.
Depois, nada.

É incrível a quantidade de tempo que se sobrevive sem termos nada, sem que alguém sinta algo por nós.

Evaristo teve consciência de si. Uma coisa ténue, a principio, quase irreal. Aquele primeiro pensamento do dia não prometia nada de bom.
Manteve os olhos fechados e desejou que não fosse verdade, mas todos os outros sentidos não demoraram a confirmar-lhe as suspeitas: estava acordado.
Recusou ceder à evidência: enquanto não abrisse os olhos, o sol não tinha já nascido, e não lhe entrava no quarto pelas frinchas da janela.
Ignorou a sensação dos lençóis de flanela que há muito deviam ter sido substituídos e a voz da vizinha do lado que, filtrada pela parede, lhe chagava cantando com particular desafino a “Tourada”, do Fernando Tordo.
Virou-se sobre o ombro esquerdo, iria voltar a dormir.

Coçou a perna direita e depois a esquerda. Depois coçou o pescoço e o nariz. Pareceu-lhe ouvir o zumbido de uma melga… detestava melgas. Coçou a cabeça e virou-se sobre o ombro direito. Sentiu comichão num pé, mas não se coçou, já era demais.
Não gostava daquele dia. Aquele em particular. Nunca como naquele dia se sentia à beira do precipício. Não queria sair da cama. Queria dormir.
O gosto ao feijão enlatado com salsichas do jantar da véspera assaltou-lhe o paladar. Incomodou-se.
Fechou os olhos com força. Olhou para dentro de si, tentando ver o seu mecanismo de funcionamento, as engrenagens que o faziam ser quem era e encontrou alguém portador do não-resolvido, cheio de questões irresolúveis. Como poderia alguém sentir algo por ele?
Estava agora a ter pensamentos aleatórios inexplicáveis.

O despertador ligou-se. Surpreendido, abriu os olhos. O sol entrava pelas frinchas da janela e fazia desenhos no tecto.

- Bom diaaaa, são oito horas, nesta linda manhã de 12 de Julho… - anunciou cheio de energia fingida o radialista de serviço.

Evaristo fechou os olhos, detestava que o lembrassem do dia do seu aniversário.

Este Blog faz hoje um ano. Obrigado a todos.

sexta-feira, julho 07, 2006

Tudo Isto Existe

Este texto começou por ser um comentário deixado a um post (ler aqui) no Papel de Fantasia. Vai daí, acabou por ser um post aqui. A desinspiração tem destas coisas.

Arsénio concluiu a recruta na Marinha com distinção. Foi mesmo o vencedor do Troféu Pirolito, atribuído ao instruendo que menos cloro subtraiu à água do tanque em que treinavam os mergulhos de cabeça.
Em véspera de embarcar, estava no Bairro Alto, à porta de uma taberna de mau aspecto. Era o nome do antro que o trazia especado: Fatum. Aquela palavra mal pintada numa tábua sebosa, atraia-o. Ajeitou a mochila que trazia pendurada no ombro e entrou.
A um canto, na penumbra, envoltos numa nuvem de partículas suspensas, dois velhos de ar bolorento, esfolavam as cordas de duas guitarras decadentes e os ouvidos de Arsénio. No meio deles, um terceiro velhote esforçava-se por arrancar às amígdalas o catarro que nelas tinha agarrado.
O trio era insuportável e esteve quase a rodar os calcanhares dali para fora, não fosse uma voz bagacenta vinda detrás do balcão o ter chamado.

- Oh piqueno, o que é que a Hermínia te pode servir? – Era uma mulher castiça quem lhe dirigia aquelas palavras. De caracóis desfeitos numa permanente mal amanhada, tinha cabelos escuros como carvão e a cara com rugas em forma de lamentos.
- O que é que aconselha a um pobre marinheiro, dedicado companheiro, para quem o Tejo é sempre novo?
- Aconselho-te a não levantar ferro, a não soltar amarra. Quem embarca nunca mais volta inteiro. – Aquelas palavras pareceram fazer o chão debaixo dos pés de Arsénio inclinar a bombordo.
- Ora, é disso que eu preciso. – Respondeu ele, pouco seguro.
- Então, toma lá este copito de vinho branco, que é uma especialidade. – Hermínia encheu um copo de três e entornou no balcão as partes quatro e cinco.
Era uma zurrapa inqualificável, mas Arsénio suportou-a sem dar parte fraca, não fosse ele o dono do Troféu Pirolito.

- Oh Alfredo. – Gritou a mulher, mão na anca, na direcção de uma mesa onde um homem parecia dormir. Não obteve resposta. – Alfredo!!! Rais’parta o homem que é duro de ouvido…
Alfredo levantou a sua cabeça redonda, encimada por um cabelo preto-olex muito bem penteado. Tinha uns óculos com lentes fundo de garrafa verde, e um lenço ao peito.
- Ca foi, mariquinhas? – Perguntou ele com voz de rouxinol constipado.
- Mas atão, quando é que tu m’acabas os armários da cozinha? Olha que marceneiros é o que há mais por aí… - A ameaça vã não provocou qualquer reacção a Alfredo, que sabia o que valia.
- Sabes que isso é mentira.
- Ai, mentira. Conheço um bem jeitoso, que nem mora muito longe, o Carlos.
- O do Príncipe Real?
- O do Carmo.
- Não sejas tonta… trago-tos prá semana, mocita dos caracóis.
- Cantigas…

Os dois velhotes do canto pararam de dar às unhas e o companheiro calou-se. Não teve sucesso, daquela garganta ressequida só saiu barulho. Após breves segundos, em que aproveitou para ajeitar a boina, achou por bem voltar a tentar e, a um gesto de cabeça, os tocadores voltaram a dar às falangetas.
Arsénio, que já estava por tudo, pediu reforço líquido. Estava Hermínia a entornar o vinho no balcão, quando entra uma mulher de rompante, cabelo em desalinho, blusa branca de alças que mais parece uma combinação interior, saia vermelha enxovalhada.

- Que cara severa é essa, mulher? – Atirou-lhe Hermínia.
- Viste o Malhoa?
- O Zé?
- Não, o dos pincéis.
- Ah, esse. Ainda hoje não passou por cá.
- Se o vires, diz-lhe que estou farta de estar sentada de esguelha naquela mesa à espera dele, que me doem as cruzes e que estou farta do bigodes a fazer cócegas à guitarra. Se ele não aparece depressa, piro-me para o retiro. – E sem esperar resposta, saiu, levando com ela alguma da penumbra do sitio.

Entretanto, o velhote dos gargarejos conseguiu escarrar uma coisa verde e peganhenta que veio aterrar aos pés de Arsénio. Os clientes rebentaram num aplauso eufórico que durou três segundos, alguns levantaram-se mesmo para retirar as ceroulas de onde elas se tinham metido.

- Obrigado. - Disse o idoso, quase afónico.

Arsénio, ia por esta altura já no terceiro copo de três. O soalho virou a estibordo e ele teve que se apoiar no balcão.

- Camane, Camane… - Repetia um miúdo à soleira da porta. Tinha uns olhos claros, muito vivos, e fazia gestos a alguém na rua. – Between, between…
Atrás dele, entrou um grupo de japoneses, muito sorridentes, apesar das evidentes dores de pescoço que os faziam estar sempre a curvar as suas pequenas cabeças. Em cada cabeça um panamá níveo e a palavra Sanyo.

- Camane, camane, between. – Continuava o rapazito a dizer, tentando que eles se sentassem.
- Ai este miúdo, com a mania que sabe falar inglês… - Hermínia saiu do balcão para por um grupo de velhotes, que estava preso às cadeiras por teias de aranha, a mexer dali para fora. Havia que dar prioridade ao turista. - Vá, todos para casa, já se acabou o tremoço… xô, xô…
- Oh Dona Mina, posso ir cantar? – O miúdo olhava com sofreguidão para a taberneira.
- Vai-te já daqui, que ainda não é a tua vez. Cresce e aparece. Toma lá estas moedas pelo serviço e vai mas é brincar com a tua vizinha, aquela miudita do cabelo às ondas do mar.

Serviu ginja aos nipónicos e um bagaço aos velhotes das guitarras. Só me falta convencer a outra, segredou-lhes. Passando por Arsénio, benzeu-se e desapareceu por uma porta.

- Maria, preciso que vás ali cantar para uns camones? – Disse ela a uma das raparigas que liam em silêncio.
- Ai madrinha, eu tenho vergonha… - Respondeu Maria.
- Vou eu, eu canto. – Afirmou a outra, levantando-se espevitada.
- Tu não, ela é que precisa treinar. Vá, anda.
- Mas eu… não sei cantar bem, como ela…
- Disparate, sabes muito bem, só tens de acreditar mais em ti e em Deus, ele não te vai deixar ficar mal.
- Está a falar do quê, madrinha?
- Oh Maria, da Fé…
- Vais cantar com este xaile que te empresto. Chegas lá e só tens que fechar os olhos e cantar aquela dos espanhóis, espanholinhos, dos caracóis, caracolinhos, que é sempre sucesso garantido… - A outra rapariga tentava animar Maria. – Depois abres os braços, mexes muito os dedos e dizes obrigado, obrigado… resulta sempre!

Regressaram as duas à sala para dar com os velhotes a tocar que nem doidos e um japonês a cantar o fado do 31 à desgarrada. Os clientes, como que com as baterias recarregadas, batiam palmas a compasso.

Já na rua, ia Arsénio a navegar e de pé junto à proa, viu ou julgou sonhar, que os braços do Cristo-Rei, estavam a abraçar Lisboa.

terça-feira, junho 27, 2006

O Blog e os Motores de Busca

Não ando aqui para enganar ninguém! Quem me lê há algum tempo sabe disso. Mas, confesso, algumas pessoas que aqui vêm têm-se sentido enganadas. A culpa não é minha, juro.
É dos motores de busca.
Como devem calcular, são feitas por dia milhões de buscas nos referidos motores – mesmo em português – e algumas dessas buscas acabam por vir ter a este blog. Infelizmente para quem as faz, uma vez que aqui não há respostas, apenas perguntas. Muitas.
Ainda ninguém protestou mas, estou certo disso, já houve pessoas a sentirem-se frustradas quando, usando o link, aqui chegam para apenas constatar o que isto é.

Tendo o nome que tem, muitas dessas pessoas que cá vêm ao engano, procuram os malefícios das mais diversas coisas: tatuagens, maquilhagem, pó, água (!), doces, cerveja (tem?), ganja (não acredito que tenha), da pratica de exercício e, por estranho que pareça, do reino animal.
A felicidade também cá traz algumas pessoas, mas menos… pudera: tentou novamente porta felicidade, felicidade como estado espírito de 1990 a…, felicidade mini orgia, papel parede felicidade (ou papel parede do dia das mães, já agora), sucesso felicidade, são só alguns exemplos. Pergunto eu: o que será uma mini orgia? Para gente pequena? Se alguém tiver uma ideia…
Mas há outras buscas mais ou menos estranhas (quem sou eu para as classificar), que aqui desaguam. Alguns exemplos: “mãos nos testículos” (com esta grafia e, já agora, o que procurará quem faz uma busca destas, uma maneira revolucionária de sentir os dito cujos?, de os coçar? Também não sei se quero saber); síndrome da criança desajeitada (apesar de o link para o blog apenas aparecer na página 10 do google), chave lavatório (mais uma vez, o que procurará a pessoa?), se você conduzir autocarro (pode usar o claxson e assustar muita gente?), bar porcarias Bragança (gostava de poder ajudar esta pessoa, mas não conheço nenhum bar destes em Bragança), bebida mais alcoólica (busca meritória mas que neste blog não tem resposta – para mim cerveja é mais do que suficiente), como tirar curso instrutor spinning (não tenho pedalada para tanto), sites com jogos de inventar super-herois para crianças (as preocupações de certas pessoas), típica mulher holandesa (como se eu soubesse…), nudismo Ílhavo (pelos vistos existe, tenho que averiguar), fisioterapia em traumatismo craniano (sic), Zé Malhoa (esse grande maluco… se procurar Ana Malhoa também cá vem ter), mensagem de aniversário de namoro esquecido (está tramado este), montagem de baloiço (recomendo Ikea), prostituição Amesterdão (vê-se muita, mas isso não faz de uma pessoa um especialista…), como lidar com um hipertenso (sou mau exemplo, a não ser que se queira ficar a saber o que não fazer) e desmaiar frente ao altar (seria algum noivo com receio de lhe acontecer).

Também a nível culinário este blog engana algumas pessoas, senão veja-se os seguintes exemplos: natas do céu, feijoada de lingueirão, fritar congelados e como retirar nódoa óleo fritar. Mais uma vez, pedimos desculpa pelo tempo perdido.
Em termos de decoração os enganos mais frequentes têm a ver com candeeiro ventoinha suspensa, decorar quarto rectangular comprido e estante suspensa do tecto (tudo coisas que eu desconheço, para mim é ciência oculta).

Aproveito a oportunidade para pedir desculpa ao Dr. Alberto Calvo, por lhe desviar alguma clientela, mas juro que é sem intenção. E de dizer a quem recorreu a este blog através do Altavista para saber como se dá um beijo, que tem que ser mais especifico (no rosto? com língua? Homem em Mulher? Homem em Homem? Mulher em Mulher? Beijo de amizade ou outro?... não é que perceba do assunto mas, quem sabe, não me ocorra alguma sugestão interessante; para inventar estou cá eu).

Geograficamente, fora de Portugal, é no Brasil que mais gente este blog tem enganado, mas também na restante América do Sul (e Central) – na que fala castelhano, portanto – umas quantas pessoas têm vindo ao engano, especialmente quem quer saber mais sobre taxismos, que parece ser algo importante para aquelas bandas.
No Brasil, parece haver grande interesse por bijus, seja biju de felto, cor principal de bijou para verão 2006 ou como ser vendedor ambulante de bijou (!!), o que me parece ser uma profissão com muito que se lhe diga.

E é assim, sem querer, lá ando a desencaminhar algumas pessoas. É sem intenção, repito.

* * *

Este post é para ganhar tempo. Ando a fugir um pouco às minhas estórias mas, os acontecimentos mais recentes, têm-me retirado algo de que preciso para juntar as ideias (e sim, eu sei que posso demorar o tempo que for preciso e tal. É isso que estou a fazer).

terça-feira, junho 20, 2006

Uma Luz Que Se Apaga

Centro Comercial Amoreiras. Ao almoço, fala-se de como andamos cansados, das pequenas rotinas da vida, das intrigas parvas do escritório. No final, temos o estômago cheio mas não percebemos o vazio.
Procura-se o elevador que nos trouxe até ali, mas perdemo-nos no labirinto de corredores. Dizemos mal do arquitecto que riscou tal coisa, sem querer saber que, o mais certo, o defeito é nosso, que não nos sabemos orientar em centros comerciais.
Encontra-se o elevador e amaldiçoam-se as pessoas que não têm mais nada que fazer que é andar em centros comerciais aquela hora e que fazem com que o elevador demore a chegar… não dando importância ao facto de, também nós, lá estarmos aquela hora.
Descemos ao piso -2 e procura-se a maquina onde pagar o estacionamento. Nada, será possível? Puxa-se pela memória e chega-se à conclusão que nas Amoreiras, as máquinas estão no centro comercial propriamente dito e não no estacionamento.
Sentimo-nos ferver e dizemos a quem nos queira ouvir que somos as pessoas mais azaradas do mundo, que não merecemos nada daquilo.
Volta-se atrás mas, da máquina, nem sinal. Oh vida desgraçada… Interjeições não reproduzíveis são gritadas em silêncio.

- Suba as escadas, à porta do cinema há umas máquinas.

Já estamos no piso 2, quatro pisos distante da viatura! Finalmente, a máquina. Moedas não temos e a nota que temos não parece estar em condições de ser aceite. Entre dentes, mandamos tudo e todos para os piores sítios que conseguimos imaginar. Já não somos os mais azarados do mundo, somos sim, do universo.
Pago o estacionamento, faz-se o caminho de volta. À porta do banco milenar, toca o telemóvel. É o Luís.

- Tudo bem, pá?
- Más noticias…
- Então?
- A Sandra, morreu.

Silêncio, falham-nos as palavras.

- Mas ainda há três semanas falei com ela, parecia bem…
- Piorou nos últimos tempos, o cancro tomou conta dela e não lhe deu hipótese.
- Como é que eu não percebi?!
- Não percebemos.
- Tão nova, 35 anos… Nem sei o que te diga.
- Não digas nada. Telefonei-te não para te estragar a tarde mas para te dizer para aproveitares o resto do dia… de todos os dias. Valemos pouco.
- Somos muito frágeis.

Chegamos ao estacionamento, de um momento para o outro, sinto aquele espaço convergir para mim, apertando-me por dentro. Todas as queixas, todos os lamentos de há uns minutos, amolgam-me o coração. Sinto vergonha.

quarta-feira, junho 14, 2006

Uma Vida Demorada (15)

Gosto de ver Lisboa. Não apenas olhar para ela, mas vê-la! Talvez seja essa a razão porque a fotografo tanto, é que o que a câmera retém é diferente daquilo que os olhos vêem. Há na fotografia, no momento perpetuado, sempre algo de novo à espera de ser descoberto, basta saber encontrá-lo. Foi a sempre presente tentativa de descobrir esse ângulo diferente para as coisas, especialmente as do dia-a-dia, as mais evidentes, que me levou a ser fotografo.
Gosto, especialmente, de ver Lisboa a partir dos seus miradouros, a cidade estendida do cimo da colina até ao rio. Tento percebê-la através da lente, encontrar uma lógica naquilo que nos surge, à partida, como uma paisagem caótica, um labirinto impossível de decifrar.
Terá sido essa a razão pela qual, na primeira vez que saí com Leonor, a tivesse levado a Santa Catarina, conseguindo surpreendê-la.

Foi também lá que combinei encontrar-me com ela, desta vez. Telefonei-lhe, inseguro da sua reacção. Não a deixei falar até lhe ter dito que tinha encontrado a minha mãe e que precisava falar com ela, explicar-lhe algumas coisas. Ela pouco falou, limitando-se a aceder a um encontro ao final do dia seguinte, uma sexta-feira, e a perguntar como eu estava, o que me pareceu, na altura, um bom indicio.
Tirei a tarde de sexta para mim, queria ir cedo para o Chiado. Deixaria o carro em Telheiras e iria de Metro, queria aproveitar o caminho até Santa Catarina para fazer umas fotos, especialmente no Elevador da Bica. Imaginava um portfolio com os Elevadores de Lisboa. Falhadas que tinham sido as fotos no Lavra, não iria falhar o da Bica. E depois, tinha esperança que as fotografias me ajudassem a descobrir as palavras certas que eu precisava dizer a Leonor. Não podia voltar a falhar com ela, e as palavras nunca tinham sido o meu forte. Antes pelo contrário.

Não acredito no destino, não consigo conceber que está escrito, algures, como vai ser. Quero acreditar que essas páginas escrevemo-las nós, ao ritmo de cada batida do coração. Mas, por vezes, não tenho a certeza que seja só azar.
Na plataforma da estação de Metro de Telheiras, procedia-se à substituição de algumas lâmpadas dos placares que anunciam, entre outras coisas, a aproximação dos comboios. Todo aquele aparato feito de placares esventrados e de pequenas lâmpadas interessou-me e decidi tirar algumas fotos. Em má hora o fiz. O Segurança da estação vê-me e manda-me parar, que não posso fotografar na estação, que tenho que lhe entregar o rolo.

- Mas são fotos digitais, não há rolo.
- Ah, isso não me interessa, não pode fotografar aqui, vai ter que me dar as fotos.
- Eu mostro-lhe as fotos, vai ver que nem se percebe sequer o local…

Passaram quatro comboios enquanto discutia com o rapaz que, por fim, me deixou seguir.
Na estação Roma, uma paragem anormalmente longa. Alguma impaciência e nervosismo começam a instalar-se. Sinto um gosto amargo na boca. Ao fim de uns minutos, saída da instalação sonora da carruagem, uma voz metálica dá as más noticias: em virtude das obras no acesso norte da estação, parte de uma cofragem caiu à passagem do último comboio e está a obstruir a via; a circulação na linha verde estava suspensa.
Antevejo o pior e corro para a superfície. A Avenida de Roma parece um circo romano dos tempos modernos: reina o caos no trânsito e várias pessoas atropelam-se, tentando conseguir um transporte alternativo - afinal, é já hora de ponta e logo de uma sexta-feira. Desafiando a má sorte, consigo um táxi rapidamente.

- Chiado, depressa… por favor! - O taxista ri-se.
- É nestas alturas que o taxista até é um gajo porreiro, verdade? - Atira-me ele. – Amigo, a esta hora, com este trânsito… que trajecto prefere?
- Não sei, o mais rápido…

Fez o melhor que pôde, mas podia pouco. Praça de Londres, Avenida do México, Calçada de Arroios – opção arriscada, fugindo ao mais que previsível congestionamento da Avenida da República -, Rua dos Anjos, Rua da Palma, Martim Moniz, Praça da Figueira.
Entre semáforos e filas de automóveis, o tempo escoa-se. À hora combinada, entramos na Rua dos Fanqueiros. Ligo para Leonor, nada, tem o telemóvel desligado. Mais uma paragem. Sem ar condicionado, entre dois autocarros da Carris, o ar dentro do carro torna-se quase irrespirável. Passam vários minutos e não nos mexemos.

- Oh meu, que se passa, pá? – Fora do carro, o taxista tenta perceber o que se passa. A resposta não podia ser pior: - Você está com azar, amigo. Um Eléctrico está parado ao fundo da rua, não consegue passar, um caramelo qualquer estacionou em cima da linha.
- Saio aqui!
- Mas ainda é longe.
- Arrisco. – Atirei uma nota de 10€ para o banco da frente, meti a mochila às costas e desatei a correr pela Rua da Vitória.

No cruzamento com a Rua Augusta, uma rapariga de bloco na mão, faz-me sinal para parar.

- O senhor trabalha dentro ou fora de Lisb… ei, tenha lá cuidado…

Sou obrigado a fintar dezenas de pessoas que seguem em todas as direcções. Corri poucas centenas de metros mas sinto o baço quase a rebentar. Agarrado ao corrimão, subo as escadas para a Rua Nova do Almada, as forças começam a faltar-me, já mal sinto as pernas. Vários anos de imobilismo, fazem-se sentir com um efeito devastador. Ao cimo da Rua Garrett, desisto, não consigo dar mais um passo. Encosto-me ao Pessoa, sinto o coração parar.
Desesperado, concentrei-me nos rostos de quem passava, de quem estava sentado nas esplanadas, como que esperando ver Leonor passar, depois de ter desistido de esperar. Naquele momento, senti algo que nunca tinha sentido antes: medo de a perder. E esse medo tomou conta de mim, só que, desta vez, ajudando-me a focar a atenção, as energias que restavam. Mais do que nunca, tive a certeza daquilo que eu queria. Aquele encontro era mais importante que qualquer busca. Leonor era a pessoa que eu mais precisava voltar a encontrar.
Soube exactamente o que precisava fazer e o que lhe iria dizer.
Ergui-me. A Leonor que eu conheço não é mulher de desistir, sei-o bem. Não, ela ainda lá está à minha espera.

Quase sou atropelado a atravessar para a Praça Luís de Camões e, na Rua do Loreto, choco com uma turista, que quase faço cair. Deixo um excuse me e continuo a correr. Suo por todos os poros.
Passo pelo Elevador da Bica e nem olho para ele, ainda não é desta… talvez começando pelo da Glória. Dobro a esquina da Rua Marechal Saldanha, estou a chegar.

Diz a lenda que a expressão “ficar a ver navios”, teve origem neste local. Que, aquando das invasões francesas, em 1807, Junot chegou Santa Catarina ainda a tempo de ver a frota em que o príncipe regente D. João e a corte portuguesa embarcaram para o Brasil, sair a barra do Tejo, ficando a ver os navios.
Eu cheguei a Santa Catarina e não vi nada. Não vi os Cacilheiros a riscar o Tejo; não vi as chaminés que se erguem ao longe, no Barreiro; não vi o castelo de Palmela; não vi a grua em Cacilhas indicando onde foi outrora a Lisnave; não vi o Mar da Palha; não vi os telhados em vermelho esbatido, estendendo-se até ao rio; não vi o Adamastor, de cabelo soprado por uma brisa imaginada; não vi as pessoas sentadas na esplanada, apreciando a paisagem; não vi o Cristo-Rei a abraçar o lado de cá; não vi a Ponte, cordão umbilical que liga os dois lados do rio; não vi a luz difusa do final de tarde, nem as sombras que se alongam vagarosamente, anunciando o fim de mais um dia de verão. Não vi nada disto, mas sei que estava tudo lá.
Vi a Leonor, de perfil, sentada num dos bancos de jardim. Usava um lenço na cabeça e óculos escuros. Lia um livro.
Não me viu ela até me sentar a seu lado, ofegante e sem forças.

- Demorei muito…

Ela retirou os óculos, pegou-me na mão direita e colocou-a no seu ventre, a sua mão por cima da minha, apertando-a ligeiramente. Olhou-me profundamente durante algum tempo e sorriu o mais lindo sorriso.

- Demoraste o tempo que foi preciso.

Fim

quarta-feira, junho 07, 2006

Uma Vida Demorada (14)

Recordando tudo o que aconteceu desde que ouvi a reportagem da TSF, há uns meses atrás, não consigo evitar um sorriso. Não é exactamente um sorriso de alegria, é mais uma reacção não controlada, uma manifestação exterior que acompanha a recordação de tudo o que aconteceu. E nem tudo foi bom. Não podia ter sido.
Parti à procura de algo sobre a minha mãe mas, na verdade, havia era muito a descobrir sobre mim, nisso a Leonor teve razão desde o primeiro minuto. Hoje, sei muitas coisas sobre ela, mas sei, sobretudo, mais sobre mim. Desde logo, que há ainda algumas facetas a descobrir e outras para perceber melhor; que tenho também de aprender a lidar comigo mesmo, para depois saber lidar com os outros.

Naquela noite, tentei por tudo agarrar-me à restea de consciência que senti ainda possuir. Recordo a urgência de perceber se tudo aquilo não era mais do que um delírio fruto da minha ébria imaginação ou, se pelo contrário, ela estava ali mesmo à minha frente.
Em vão, a principio. Sentia a mão dela pousada no meu braço, ouvi-a falar – embora não percebendo o que dizia – mas, naquele momento, sonhava o mesmo sonho de sempre, desta vez, acordado. Percebi, então, o que era aquela sombra que vinha da superfície: uma grossa corda que serpenteava na minha direcção.
Estiquei o braço para a agarrar, toquei-lhe mas deixei-a escapar. A cada nova tentativa, novo falhanço. Cada vez que a corda se aproximava e eu me convencia que seria desta vez que a conseguiria agarrar, a mão que me levava para baixo puxava-me. Comecei a ser tomado por algum pânico, afogava-me.
Num derradeiro esforço, reuni todas as minhas forças e impulsionei-me para cima. Consegui agarrar-me. Senti imediatamente que subia. A superfície aproximava-se.

- João, estás bem?
- Agora estou…

Parti à procura de algo sobre a minha mãe mas, quando já tinha desistido, foi ela que me encontrou.
Percorri um caminho que não levou a lado nenhum. Desesperei com isso mas, percebo-o agora, foi o trilho que deixei na minha busca que a conduziu até mim.
O que aconteceu explica-se facilmente: de facto, ela tinha sido mesmo membro do Partido Comunista mas, descrente com o rumo dos acontecimentos, entregou o cartão de militante em meados dos anos 90, mantendo, no entanto, contacto com várias pessoas. Uma dessas pessoas – uma amizade que supera as convicções politicas -, é Maria dos Prazeres, a mulher do ramo de flores, com quem eu choquei quando me puseram fora da sede do partido. Inteirando-se do que se estava a passar, contou à minha mãe e ambas decidiram investigar tão estranho pedido.
Pouco sabiam mas, como eu tinha mencionado o Museu de Ílhavo*, começaram por aí. Conseguiram falar com Alberto Cosme e, a partir desse momento, a minha mãe sabia quem eu era.
O problema foi Alberto apenas ter o meu contacto telefónico e de mail, uma vez que eu estava sem telemóvel e nunca ter ido ver o correio electrónico nos últimos dias.
Contactos do partido permitiram, pelo meu nome, chegar ao jornal para o qual trabalho e, através deles, obter a minha morada.

O que aconteceu a ela, também se conta rapidamente: presa pela PIDE, separaram-na de mim. Esteve presa em Lisboa até ao dia 26 de Abril de 1974 e todas as buscas que fez no sentido de me recuperar, foram infrutíferas. Conjugando as duas histórias, percebemos o que se passou. O chefe da brigada que a prendeu - Júlio Lucas - entregou-me ao seu grande amigo e colega de partido, o meu pai adoptivo, que ele sabia ter grande desgosto por não conseguir ter filhos (conheci-o bastante bem, era visita frequente lá em casa e ambas as famílias chegaram a passar férias juntos. Fugiu para o Brasil, onde viria a falecer). Usando da sua influência, Júlio conseguiu alterar registos e apagar todos os vestígios que pudessem conduzir até mim.
Ainda em 74 a minha mãe foi à Fuzeta, anonimamente - uma vez que a incerteza quanto ao futuro era grande e podia haver vantagem em ser dada como morta -, mas sem conseguir saber algo sobre o meu paradeiro.

Entretanto refez a sua vida, casou de novo e tem um filho. Dirige uma Unidade de Inserção na Vida Activa, onde ajuda pessoas carenciadas a obter formação e a capacitação necessária para uma eficaz procura de emprego. Canta fado uma vez por semana, num restaurante em Alfama!

- Gostava que lá aparecesses.
- Irei com certeza. Mas antes há algo que preciso fazer. Há ainda uma pessoa que tenho que encontrar.

Ficámos toda a noite a conversar. A espaços, dava por mim a duvidar de tudo aquilo, seria mesmo verdade?
À despedida, deu-me um cartão onde escreveu a morada do Restaurante: Beco Armazéns Linho, 1 – Alfama. O nome do restaurante fez-me dar uma gargalhada, “Bacalhau de Molho”.

Nessa noite pouco dormi, mas sei que não sonhei.

* Era a referência ao Museu Marítimo de Ílhavo que tinha falhado no post anterior.

Este post está longe do que eu queria, saiu muito esquemático, uma coisa a despachar, mas os acontecimentos da última semana varreram a inspiração, aquilo que eu precisava para escrever o que tinha em mente. A história ainda não terminou.

Depois de uns primeiros dias agitados e nada descansados, a calma parece estar a instalar-se. Mãe e filhos estão bons.

quarta-feira, maio 31, 2006

Uma Vida Nova

Não é uma nova história, é apenas o partilhar com vocês uma ocasião feliz.
Fui, esta madrugada, pai pela segunda vez.
Foram13 longas e cansativas horas de trabalho de parto, mas correu tudo pelo melhor. A mãe e o Miguel estão bem.
É grande e pesado: 3,750Kg. É, também, o bebé mais lindo do mundo (empatado com o irmão, claro). :)
O pai assistiu a tudo e portou-se lindamente, não se foi abaixo nas canetas. Uma emoção que só visto.

Obrigado a todos.

A novela trágico-marítima "Uma Vida Demorada" regressa assim que possível, tentei tê-la pronta antes do nascimento, mas não consegui.

segunda-feira, maio 29, 2006

Uma Vida Demorada (13)

Penso que para a maioria das pessoas, o conceito de “ocasião especial” encerra algo de positivo, de festivo.
Por exemplo, guarda-se uma garrafa para abrir numa celebração, para, nesse momento, partilhar a alegria que se sente usando, simbolicamente, uma bebida particularmente boa (e cara, de preferência, não tivéssemos nós a mania de que o que é caro é que é bom).
Sem nunca ter dado importância a isso, a ponto de guardar uma bebida para uma “ocasião especial”, a verdade é que tinha em casa um bom whisky há uns quatro anos sem que lhe tivesse tocado. Apesar de, por vezes, a tentação ter sido alguma, nunca fui capaz. Achava que para cumprir o objectivo porque bebia, qualquer whisky servia. E a garrafa lá foi acumulando pó - o objectivo, esse, era a inconsciência cognitiva.

Sobre uma outra expressão, posso assegurar - com a certeza que só o conhecimento de causa nos dá - que é absolutamente verdadeira: “beber para esquecer”.
Comecei a beber porque percebi que, após três ou quatro copos, deixava de pensar nas pequenas coisas do dia-a-dia, tudo saía da devida perspectiva, passava a ser relativizado, deixava de ser realmente importante – tudo o que é mau e tudo o que é bom, bem sei, mas quando o negativo supera em muito o que positivo, é um preço que se paga de bom grado.
Foi assim que perdi o controlo da bebida durante parte importante da minha vida adulta. É que, a partir de uma certo ponto, já não se bebe para esquecer, bebe-se porque já não nos lembramos de como se vive sem a bebida. Passamos a viver em estado alcoólico.

No final da tarde em que se deram os acontecimentos na sede do Partido Comunista, ao chegar a casa, dei por mim a debater comigo mesmo o conceito de “ocasião especial”.
Porque razão devia ser só em ocasiões alegres, festivas? Não é nas alturas menos boas, tristes, que mais precisamos de uma bebida? Foi assim que abri, finalmente, a garrafa de Clontarf Reserve Irish Whisky e quase a despejei nessa noite.
O estômago, já destreinado destas coisas das bebidas destiladas, pegou fogo, protestou e, na manhã seguinte, parecia estar carbonizado, reduzido a carvão. Nada que me tivesse feito pensar duas vezes sobre se devia continuar a beber ou não. Sentia-me mal comigo mesmo, com o mundo. A criança dentro de mim – pois era uma criancice, sei-o agora – sentia-se magoada, abandonada, precisava de compaixão e, à falta de alguém que cumprisse essa tarefa, o álcool teria de servir. Passei pelo supermercado e abasteci a garrafeira lá de casa.

Passaram-se cinco dias de que não guardo muitas recordações. Consegui fazer uma avaliação do que se terá passado pelo estado do apartamento.
Terei sonhado o sonho de sempre: o naufrágio; eu a observar e, depois, a ser levado para o fundo; uma luz, depois uma sombra. Mais nada.
No quinto dia, uma terça-feira, a minha consciência apanhou-me desprevenido. Num momento de inusitada coragem, decidi tomar banho e fazer a barba. Foi na banheira, debaixo de água fria, que ela me apanhou à traição. Inevitavelmente, conclui algumas coisas sobre a minha situação da altura: estava a ser um grandessíssimo idiota e um refinado cretino; conclui também que seria de todo conveniente dar sinal de vida para o jornal, isto se quisesse continuar a ter trabalho. Seria essa a prioridade, lidaria depois com a idiotice/cretinice.
Apesar de ter uma cabine telefónica à porta de casa, achei melhor telefonar do café vizinho: não quis ser visto a telefonar de uma cabine, era coisa que já não se usava! Com certeza, quem por ali passasse ia reparar em mim, e isso não podia ser.
O Sr. Dias, do café, foi muito compreensivo com o facto de eu ter deixado cair o telemóvel e este se ter partido, logo ele, que ainda nessa manhã tinha deixado cair uma garrafa de leite com chocolate – eu estava de novo a inventar, lembrei-me de Leonor.
As notícias vindas do jornal eram as piores, cinco dias sem lhes dizer nada tinha-os deixado furiosos. Talvez no início da próxima época futebolística tivessem trabalho para mim. Isso significava que ia ter muito tempo para mim. Pelo sim, pelo não, bebi uma bagaceira logo ali.
Deveria ligar a Leonor? Mais uma bagaceira.
As entranhas pareceram desistir e querer sair. Não me lembrava da última vez que tinha ingerido algo sólido. Comi um rissol e um croquete.
Entrei no Metro. Próximo destino, o Colombo. Precisava de um telemóvel e saber se o cartão do anterior ainda estava em condições.

Vinte sete pessoas à frente na loja da TMN! Espantei-me como, em pleno dia útil, havia tanta gente num centro comercial. Fui à FNAC fazer tempo.
Passei os olhos pelas novidades musicais e espreitei os modelos mais recentes de câmeras digitais. Nos livros, uma capa chamou-me à atenção. Era um volume grosso, com um desenho na capa, apenas o contorno de uma cabeça, um rosto sumariamente desenhado. Era Álvaro Cunhal. O livro, o segundo volume da sua biografia não autorizada, escrita por Pacheco Pereira.
Não me perturbou particularmente ter o mais comunista dos comunistas ali, à minha frente, houve antes algo que me interessou. Não sendo uma obra autorizada, como teria o autor conseguido tanta informação? Se fosse ele a procurar algo sobre a minha mãe, como faria? Tive uma ideia: conhecia o blog do Pacheco Pereira, poderia contactá-lo através dele, expor-lhe a situação, talvez me pudesse dar algumas indicações do que fazer a seguir.
Mas valeria a pena, então não era um assunto encerrado?
Um conjunto de fotografias no livro chamou-me a atenção. Eram as fotos de Álvaro Cunhal feitas pela PIDE aquando da sua prisão. Na legenda, uma referência ao arquivo da antiga policia politica, guardado na Torre do Tombo.
Num impulso, larguei o livro e apanhei um táxi para a Alameda das Universidades.

O pessimista devia saber que as boas ideias não surgem subitamente. Tudo o que parte de impulsos está condenado ao fracasso.
Talvez até aquele momento eu não fosse um verdadeiro pessimista, se fosse não me teria entusiasmado.
Bastava ter pensado um pouco para perceber que não seria possível consultar o processo de uma pessoa no arquivo de uma polícia politica. Só o próprio ou alguém por ele autorizado pode consultar a sua ficha.
Se existia uma em nome de uma tal Alda das Dores Saraiva, eu jamais o iria saber.
Deixei a Torre do Tombo e rumei a um sítio onde não ia há algum tempo, o Antigo Retiro Quebra Bilhas, no Campo Grande, podia lá ir beber qualquer coisa. Podia se a casa não fosse agora um restaurante que não atende potenciais bêbados durante a tarde. Valeu a existência de alguns estabelecimentos atabernados por perto.
Antes de comer os três pastéis de bacalhau regados com o carrascão do Cartaxo que figura como vinho da casa, tive o cuidado de escrever a morada de minha casa num guardanapo. Mais tarde, para voltar para casa, iria dar muito jeito, senti-o.

Não sei que horas eram, nas estava já escuro quando o taxista me abriu a porta do carro para eu sair. Escuro como não era habitual à porta de casa, a iluminação pública estava apagada.
Lembro-me que havia vento, uma série de fortes rajadas dificultaram-me a chegada à porta do prédio – pelo menos assim pareceu.
A primeira sensação que tive foi a que tinha um sem-abrigo a dormir à porta. Alguém estava nos degraus.
Peguei nas chaves, tentando perceber qual era a da porta da rua. O candeeiro deu sinal de vida, piscando algumas vezes. O vulto saiu da escada e aproximou-se de mim. Dei dois passos atrás, o candeeiro piscou outra vez em vários tons amarelados, dando um ar algo sinistro à cena. Senti o coração disparar, a adrenalina a fazer-se sentir. Coloquei os braços em posição defensiva, não estava em condições de lutar, mas não ia ser assaltado sem resistir.
A luz acendeu-se definitivamente. Era uma mulher que estava perante mim.

- João…
- Quem é?
- Sou eu, a tua mãe.


Nota: O autor falhou! Só agora reparei que, no texto anterior, deixei escapar cinco palavras. Estão no diálogo entre o João e o Evaristo, na sede do PC, para quem tiver paciência de as procurar. Por tal facto já me penitenciei à boa maneira dos albinos da Opus Dei. Desculpem.

sexta-feira, maio 26, 2006

Uma Vida Demorada (12)

Enquanto esperava por ela, contei seis. Reflectidos nas janelas azuis escuras, cruzavam o edifício numa diagonal descendente, aparecendo e desaparecendo ao longo da fachada.
Entre cada passagem naquele gigantesco espelho azul, eu observava o piso térreo do edifício vizinho, composto por uma porta de vidro - cruzada por barras de ferro branco, metade na vertical, metade na diagonal -, centenas de azulejos dos mais variados feitios e algumas formas em relevo.
Os azulejos, de todas as cores, formam várias imagens em que homens mulheres e crianças estão envolvidos em várias actividades: agrícolas, industriais ou simplesmente a ler. São várias as pombas brancas que esvoaçam pelo mural e os arco-íris que brilham. A mensagem era óbvia.

O sétimo avião ouviu-se ao longe. Virei-me para o edifício azul para ver passar o seu reflexo, Leonor estava ao meu lado. Estremeci.

- Então, entramos? – Perguntou-me ela, sorrindo.

Estávamos os dois em frente à sede do Partido Comunista Português, na Rua Soeiro Pereira Gomes. A fantástica ideia de Leonor era simples: segundo ela, o meu pai tinha sido comunista e a minha mãe também, logo, existia uma ficha de inscrição de cada um deles nos arquivos; no caso da minha mãe estar viva, com dados actualizados.
Desta vez não protestei, não a contrariei, guardei para mim os muitos argumentos que tornavam aquela ideia em algo muito próximo do disparate.
Bebi uns whiskys a seguir ao almoço para me anestesiar um pouco mas, tudo o que consegui, foi ficar indiferente ao objectivo que ali nos trazia e propenso a implicar com tudo e com todos. Sentia-me preparado para o confronto.

- Vamos a eles. – Respondi-lhe.

A porta estava fechada. Empurrei uma segunda vez e um som estridente e contínuo ouviu-se. Alguém a tinha destrancado.
Uma lufada de ar fresco enlatado fez-se imediatamente sentir, contrastando com o ar quente do exterior. Leonor agarrou-me pelo pulso: - Não vai ser fácil, mas tenho esperança que se comovam com a tua história.
- Nem penses que lhes vais falar da minha vida, não te atrevas; deixa que eu sei bem o que lhes vou dizer.

Atrás de uma secretária, à esquerda, uma mulher anafada e detentora de uma expressão forjada a chumbo, observava-nos.
- Bem vindos à União Soviética. - Murmurei para Leonor, que me mandou calar.
Aproximamo-nos. Em cima da secretária, apenas um telefone e as mãos gorduchas da mulher: a esquerda em cima da direita.

- Boa tarde. – Leonor fez o seu melhor sorriso.
- Boa tarde. – Respondeu a mulher praticamente sem mexer os lábios.
- Nós pretendíamos…
- Se não te importas, falo eu. – Calei Leonor, que ficou mais vermelha que a bandeira do partido que esvoaça na varanda do último andar do prédio. – Com quem é que nós podemos falar sobre um dos membros do vosso partido?
- Qual é o assunto em concreto? – Era espantosa a capacidade daquela mulher em falar sem, aparentemente, mover um músculo da face.
- É consigo que se tratam os assuntos relativos a membros?
- Não, mas…
- Então chame lá o controleiro que trata desses assuntos. – Disse eu o mais rispidamente que fui capaz.
- João…
- Calas-te, sim? – Leonor engoliu em seco e fez um esforço por se controlar. A situação, essa, caminhava para o descontrolo.

A estátua mexeu-se, por fim. Marcou três números no telefone e disse qualquer coisa imperceptível.
- É favor aguardarem, o meu camarada vem já falar com os senhores. – Indicou-nos umas cadeiras, perto da porta.

- Tu não te podes descontrolar assim. – Leonor falava baixo e procurava os meus olhos. Desviei-os. – Anda, senta-te.
- Não, estou bem de pé. Esta malta complica-me os nervos, o que queres? - Ela ia dizer o que queria, mas calou-se. Percebeu que não ia adiantar.

Passaram-se cinco minutos e nada aconteceu. Nenhum dos três se mexeu, ninguém entrou, ninguém saiu. Apenas um ligeiro zumbido vindo do ar condicionado se fazia ouvir. Sentia os nervos em franja.
Foi Leonor quem quebrou o silêncio.

- Sabes quem foi Soeiro Pereira Gomes?
- Algum comuna, só pode.
- Sim, foi membro do Comité Central, nos anos quarenta. Apesar da pouca obra publicada, ficou conhecido como escritor. Foi um dos fundadores do neo-realismo em Portugal.
- As coisas que tu sabes.
- Morreu novo, na clandestinidade, com tuberculose.
- Olha que pena.
- João!
- Sim, está bem.
- Não leste o Esteiros?
- Não sou muito dado a livros, sabes isso, especialmente de autores… - Calei-me.
- Devias ler. O livro é dedicado “aos filhos dos homens que nunca foram meninos”. Conta a história de um grupo de miúdos pobres que têm de trocar a escola pelo trabalho numa fábrica de tijolos. Relata a violência do sistema social, a exploração dos trabalhadores, a falta de compaixão. Revela como o ser humano cria uma armadura para sobreviver. É muito contundente o livro. – Fez uma pausa na esperança que eu dissesse algo. – Não te lembra nada, a história?

Fez-me lembrar o meu pai, mas não o disse. Ia antes dizer que a brilhante advogada, com casa na Expo e carro todo catita, se estava a revelar uma profunda conhecedora das amarguras do proletariado, esmagado pelo capitalismo que ela tão bem representava, mas uma figura que surgiu ao fundo do corredor, em contra-luz, impediu-me de o fazer.
Era um homem, magro, que tinha uma farta cabeleira e caminhava lentamente. Só quando chegou perto de nós lhe pude ver a expressão. Aparentava uns setenta anos, tinha a pele do rosto macilenta e, por baixo do queixo, uma prega de pele balançava. Tinha o cabelo todo branco e uns olhos de um azul ainda vivo, como que reflectindo o azul do céu no fundo de um poço, de tal maneira estavam enterrados na sua cara.
Calçava uns sapatos de camurça castanha e vestia calças de bombasine, também castanhas. Tinha uma camisa de flanela cinzenta e, pendurados num fio, uns óculos pendiam-lhe no peito. Deve estar a morrer de calor, pensei.
Era, no mínimo, uma figura esquisita.
Trocou um breve olhar com a recepcionista e dirigiu-nos a palavra, estendendo-me, ao mesmo tempo, a mão: - Boa tarde, o meu nome é Evaristo Cordeiro.
- João, Leonor. – Disse eu, surpreendendo-me com a firmeza do aperto de mão do velho.
- Em que os podemos ajudar? – Pelos vistos, a nossa conversa ia decorrer ali mesmo.
- É o seguinte, eu sou jornalista e… er… somos jornalistas… estamos a investigar a pesca do bacalhau, antigamente… a fazer um estudo… isto é, uma reportagem,
juntamente com o Museu Marítimo de Ílhavo, sobre os pescadores que iam para a Terra Nova. – A boca secara-me num instante. Leonor mordia o lábio inferior e não tirava os olhos de mim. – Descobrimos que um desses pescadores, da Fuzeta, no Algarve, era do Partido… seu camarada… mas já morreu… o que nós queríamos era saber da mulher dele, se também era… queríamos encontra-la, falar com ela.
- Não sei se entendi.
- Queremos saber se uma tal de Alda das Dores Saraiva é, ou foi, membro do Partido.
- Trabalham para que órgão de comunicação?
- Er… para o jornal A… Público.
- Posso ver a vossa identificação? - Saquei da carteira e mostrei rapidamente o cartão que me dá acesso aos recintos desportivos. – Bom, os arquivos do partido, como devem calcular, são reservados, nós não podemos…
- Eu sei, eu sei… - A impaciência tomava conta de mim. – Nós só queremos saber se a Alda das Dores Saraiva é membro, falar com ela. Pode dizer-me isso?
- Eu não lhe sei responder e a militância partidária é algo que só a própria pessoa pode revelar.
- Ouça… - Inconscientemente, coloquei as mãos nos ombros do velhote, que deu dois passos atrás. A recepcionista ergueu-se como se tivesse uma mola.
- João, por favor. – Senti a mão de Leonor no braço.
- Eu só lhe peço que me diga se essa mulher existe.
- Mas como quer que eu faça isso?
- Quero que vá procurar aos arquivos, agora. – Larguei o homem, mas ele, apoiado que estava em mim, não se aguentou de pé e caiu. A recepcionista e Leonor precipitaram-se imediatamente para o homem, ajudando-o a levantar. Eu tentava perceber o que tinha acontecido, quando dois homens surgiram não sei de onde e me agarraram.

- Vou ter que lhe pedir que saia. – Disse-me um deles, arrastando-me para a porta.
- Eu não tinha intenção…
- Lá para fora.
- Deixe-me explicar. – Uma mulher entrava nesse momento, trazendo um enorme ramo de flores. Fui contra ela, quase fazendo-a cair.
- Fora! – Fui posto porta fora. Leonor saiu atrás de mim, desculpando-se às pessoas. Chorava.
- Tens que acreditar em mim, eu não queria…
- Deixa-me João, por favor. – Passou sem olhar para mim.
- Foi sem querer, acredita.
- Também foi sem querer que contaste aquelas mentiras? – Tinha-se voltado para trás. Grossas lágrimas caiam-lhe pela face. – Explica-me como é que pensas chegar à verdade através da mentira, és capaz?
- Como é que querias que nos deixassem ver o arquivo, bastava aqui chegar e estendiam-nos a passadeira? Logo esta gente…
- Não, explicávamos-lhes a situação, pedíamos que, caso existissem dados sobre a tua mãe, nos dessem o contacto dela. – Um táxi apareceu no início da rua, Leonor fez-lhe sinal e abriu a porta.
- Desde o início que isto sempre foi a tua busca, não a minha. Eu nunca acreditei que encontrássemos a minha mãe. Não acho que haja alguém para encontrar.
- O livro de que te falei há pouco, lembras-te? Os miúdos tinham a vida mais difícil que possas imaginar, mas uma coisa nunca lhes conseguiram tirar. – Olhava-me intensamente. – A capacidade de sonhar. – Entrou no táxi e partiu.

Desta vez eu tinha conseguido magoá-la a sério. Um enorme vazio abriu-se dentro de mim.
O telemóvel tocou, era do jornal. Não atendi, com quanta força tinha, atirei-o à parede. Mil pedaços saltaram.
À porta, Evaristo Cordeiro e uma mulher segurando um enorme ramo de flores, olhavam para mim. Havia pena no seu olhar.

terça-feira, maio 23, 2006

Uma Vida Demorada (11)

O nome alterado pelos meus pais adoptivos! O João Carlos Saraiva Vicente tinha dado lugar ao João Vicente Medeiros Antunes. Isso quereria dizer alguma coisa ou revelava apenas o desejo dos meus pais, quando me adoptaram, em me dar o seu nome? A lei permite-o. A verdade é que, pensando agora nisso, nunca fui por eles habituado a usar o meu nome completo.
O balanço que eu conseguia fazer da visita à Fuzeta não era brilhante: neto do Corneta, filho do Pirola, ambos comunistas empedernidos, o nome mudado. Mais uma vez, foi Leonor quem colocou as coisas em perspectiva para mim.

- Começa a fazer sentido aquela mensagem da tua mãe. Quando falava do tempo estava a avisar o teu pai, ela deve ter sabido de alguma coisa. E essa história do nome, hmmm, não sei. - Estávamos no carro, à porta de minha casa, acabados de chegar do Algarve. Sem qualquer interesse em continuar aquela conversa, tentei despedir-me, o cansaço pedia-me um banho demorado, sozinho, mas Leonor insistiu em subir.

Não me saía da cabeça o facto de descender de uma família de arruaceiros inconformados, de uns revolucionários de meia-tijela que sempre se tinham oposto à lei e à ordem. A minha mãe incluída.
Um pensamento recorrente apoderou-se de mim: teria valido a pena ter-me metido nisto? Sentia-me confuso, a minha origem parecia em tudo contradizer a educação que tive e aquilo em que me tornei. A consciência de que, caso tivesse continuado a viver com a minha mãe biológica, me teria tornado, certamente, numa outra pessoa, muito diferente do que era hoje, perturbava-me seriamente.
É que uma das poucas certezas que eu tinha até há bem pouco tempo, era daquilo que eu era, das coisas em que acreditava; e ser revolucionário, contra a ordem estabelecida e instigador de conflitos, não era, definitivamente, uma dessas coisas.
Estaria eu a trair a minha génese? Estaria aí a origem para o meu comportamento conflituoso, a minha dificuldade de adaptação a outras pessoas? Ou, antes pelo contrário, era o meu passado que me atraiçoava agora, depois de tantos anos?
Fosse o que fosse, todas estas dúvidas, o conflito interno, era derivado das minhas atitudes, da procura de respostas. Concluí que há coisas nas quais não se deve mexer.

- … abri a caixa de Pandora, Leonor. Agora pago as consequências disso. Não fiquei a saber nada que contribua para a minha felicidade, antes pelo contrário.
- Que disparate, João. Não sejas tão dramático. Sempre a lamentares-te. Não consegues ver o mais óbvio? – Continuou sem esperar por uma resposta. – Não percebeste ainda o mais importante, algo que pode fazer com que tudo isto valha a pena.
- Confesso que não…
- Que a tua mãe pode estar viva!?

De facto, podia. Tudo o que se soubemos apontava nesse sentido, ou melhor, nada descobrimos que validasse a morte dela.

- Aposto que tens alguma ideia sobre o que fazer a seguir. – Disse eu sem grande convicção, prostrado no sofá da sala. – Mas digo-te já que não sei se quero avançar, tenho receio de que possamos ter sucesso.
- Não viemos até aqui para parar agora. – A expressão dela não deixava dúvidas, parecia estar a apresentar um caso complicado a um júri colectivo, em tribunal. – É algo que vamos fazer juntos. O que houver para enfrentar será enfrentado pelos dois.

Acenei que sim com a cabeça, tinha cada poro do meu corpo a pedir água, deixando-me sem forças para a contrariar.
Ela explicou-me o que iríamos fazer: a) procurar o nome da minha mãe na lista telefónica; b) usar um contacto dela na Direcção Geral de Viação; c) em último caso, ela falaria com alguém que, por sua vez, tem um contacto na Policia Judiciária - Arquivo de Identificação. Simples.

- Eu procuro no Google. – Disse eu, estupidamente. Leonor não gostou e saiu sem se despedir.

Os dias passaram e as “buscas” revelaram-se infrutíferas, nenhuma Alda das Dores Saraiva tinha telefone em seu nome, ou carta de condução – ainda telefonámos para algumas senhoras com nomes parecidos, uma delas a viver em Olhão, mas nenhuma era a minha mãe.
O contacto na PJ revelou-se um daqueles casos em que o amigo bem colocado, que está sempre a disponibilizar ajuda quando ela não é necessária, afinal se vem a saber não ser assim tão amigo, na hora da verdade. Pelos vistos o contacto, era um inspector que tinha sido transferido.
Mais duas semanas passaram e outros assuntos foram ocupando as nossas vidas. Perdi a pouca esperança que tinha e desmotivei.
Continuava a sonhar todas as noites com o naufrágio, com aquela luz que aparecia. Dormia pouco e a cada dia sentia-me mais cansado, agoniado e oprimido. As horas pareciam dias e o apelo do álcool voltou a fazer-se sentir.
Este período coincidiu com a paragem dos campeonatos desportivos e o consequente decréscimo de trabalho. Fiquei com mais tempo para mim, o que foi péssimo.

- Tiramos a primeira quinzena de férias, vamos para o Algarve. – Leonor tentava animar-me. – Vai ser bom, vais ver.
- O Algarve é caríssimo nesta altura do ano, sabes isso, eu não tenho hipótese…
- Não te preocupes, o Afonso já me ofereceu o apartamento dele em Vilamoura, ele vai estar nos Estados Unidos.
- Não sei como é que foste encalhar num tipo como eu, merecias melhor.
- Recuso-me a ter esta conversa contigo. Ultimamente, fazes-me lembrar o João de há uns meses. Ficas a saber que não tenho saudades nenhumas dele. Liga-me quando mudares de atitude.

Estivemos dois dias sem falarmos. Acabou por ser ela a ligar-me.
Comi um caldo verde e uma bifana no Beira-Gare, junto ao Rossio, tendo regado tudo com três imperiais pretas e tomei a direcção do Largo da Anunciada, objectivo, fotografar o Elevador do Lavra, o mais antigo de Lisboa, e sentar-me a uma sombra no Jardim do Torel.
Dobrei a esquina junto ao Solar dos Presuntos, um miúdo correu para o Elevador que estava prestes a partir. Tirei a câmera da mochila e fiz várias fotos. A luz daquele início de tarde não era a melhor. Preparava-me para entrar na carruagem quando o telemóvel tocou, era Leonor.

- João… - Estava ofegante, parou para recuperar o fôlego. – Nem sei como não me lembrei disto antes…
- Calma miúda, fala mais devagar.
- Acabei de subir ao quinto andar do Tribunal Criminal… pelas escadas… os elevadores estão avariados… - Nova pausa. – Mas valeu a pena, foi agora mesmo que me lembrei de uma coisa…
- Estou com medo.
- A tua mãe… já sei como a vamos encontrar.

Uma campainha fez-se ouvir. O Elevador chiou nos carris e deu um pequeno solavanco para a frente.
Fiquei imóvel, de telemóvel colado ao ouvido, vi-o iniciar mais uma lenta subida da colina. Sem mim.

domingo, maio 21, 2006

Uma Vida Demorada (10)

Senti uma gota de suor formar-se na têmpora direita; desceu alguns milímetros e depois, maior, escorregou pela face, suspendendo-se no maxilar. Quis limpá-la mas não fui capaz de me mexer.
O tempo parecia ter parado para mim. Percebia que Maria, a velhota, protestava com o marido, certamente dizia-lhe que não devia dizer disparates. Leonor falava comigo, olhava na minha direcção e vi-a mexer os lábios, talvez me perguntasse se eu estava bem. Mas eu não os ouvia, dentro da minha cabeça, mil pensamentos entrechocavam-se, como se todos quisessem fazer sentido ao mesmo tempo. Os primeiros indícios de uma dor de cabeça fizeram-se sentir.

- Como é que o senhor pode dizer uma coisa dessas? – Leonor tinha-se virado para o homem e interrogava-o. Foi a pergunta dela que me devolveu aquela sala.
- Vocês não lhe liguem. – Maria, sentada num banco que trouxera da cozinha, implorava-me com o olhar que acreditasse nela.
- Cala-te, mulher! – Manuel fez um gesto de desprezo com a mão. – És pior que eles todos, cambada de cobardes.
- Eles quem? – Era Leonor quem continuava a fazer perguntas. Estava visivelmente interessada no que o homem tinha para dizer. Pela minha parte, continuava a tentar ordenar as ideias.
- Eles todos! Vocês não sabem mas eu vou contar-vos: o teu pai era muito comunista, a tua mãe não sei, mas o teu pai era. Aliás, aqui nesta zona, era ele o maioral, o chefe, quem decidia o que se fazia. E o teu avô também foi. Um dos primeiros. – Manuel despejou mais um copo de água. – Era assunto de que não se falava, mas toda a gente daqui o sabia. Era ele que mobilizava a malta contra o Grémio e que passava uns papéis entre quem sabia ler, que eram poucos, mas esses liam aos outros e era assim que se fazia naquela altura. Esteve algumas vezes preso, levavam-no para Faro e voltava uns dias depois um bocado amassado. É mentira, Maria? – Ela nada disse, limitou-se a baixar a cabeça. – Mais nada. Oiça amigo, a PIDE andava aí em força quando ele ficou no mar, dizia-se que o vinham buscar e que desta vez ia para Lisboa… um incêndio uns meses antes num barco que furou uma greve…
- Mas e a minha mãe, não percebo o que isto tem a ver com o facto de ela poder estar viva. – Por fim, consegui falar.
- O meu filho. – Fez uma pausa. – Foi há uns anos para a América, um dia chegou a casa e disse que se ia embora, que estava farto da vida do mar, fez a mala e só deixou esses livros que aí vêem. Nunca mais soubemos nada dele… eu já quis fazer uma fogueira com eles, mas não me deixam. – Olhou para a mulher, que se levantou e desapareceu na cozinha. – Bom, era ele mocito pequeno, uns anos mais velho que tu, entrou por essa porta todo esbaforido, a gritar por mim, dizia ele que uns homens que vieram de carro te tinham levado a ti e à tua mãe.
- Quem eram eles?
- E como vou eu saber? Cá para mim eram uns capangas da PIDE, ou da GNR, mas e se o miúdo estava a mentir? O que é certo é que depois desse dia, nunca mais ninguém os viu, a ela ou a ti. – Leonor olhava para mim com os olhos muito abertos. – Uns dias depois, um desses reles do Grémio apareceu aí com a noticia de que tinham encontrado a tua mãe pendurada numa árvore, num monte qualquer, e tu numa alcofa. – Maria apareceu com outro copo de água que entregou ao marido. – O médico diz-me que tenho que beber muita água… e eu bebo, é mais barata que a botica.
- O senhor não acreditou em nada disso.
- Eu conhecia muito bem a tua mãe, a tua mãe lá era pessoa de se matar, alguma vez… e deixar-te numa alcofa… - O homem abanava a cabeça. - Ainda fiz umas perguntas, mas ninguém quis saber, tinham todos medo. Fui avisado muitas vezes para não mexer no assunto… os cobardes…. Agora diz-me tu: dá para acreditar numa história destas?

Eu não sabia responder à pergunta. Tinha vindo à procura de respostas e ia regressar a casa com mais perguntas.
Manuel “Gato” não tinha nada de concreto que nos pudesse ajudar, apenas uma desconfiança de quase quarenta anos.

Despedimo-nos, já na rua, com alguma emoção. O céu estava limpo e o sol tinha já desaparecido atrás das casas. Uma brisa fresca vinda do mar, fazia-se sentir.
Os velhotes tinham ficado muito emocionados com o meu inesperado regresso. Prometemos voltar ainda nesse verão para os visitar.

- O senhor desculpe, mas queria fazer-lhe ainda uma pergunta. - Disse Leonor.
- Diga lá menina.
- Afinal, como é que se dobram os fósforos?
O homem esboçou um sorriso, a única vez que tal aconteceu: - Ora, é fácil, basta deixá-los uns tempos dentro de água, assim ficam moles e podemos dobrá-los, depois secam na posição que queremos.
- Eu também tenho uma pergunta para lhe fazer. – Tinha-me lembrado de algo. - De onde lhe vem essa alcunha de “Gato”?
- Porque dizem que tenho sete vidas, como os gatos. Aos dezasseis anos já tinha partido as duas pernas, os dois braços, a cabeça e umas costelas. Tudo a trabalhar. Outro teria morrido, mas eu só parti ossos.

Acenámos e preparávamo-nos para regressar à pensão, quando o homem acrescentou: - Tu ainda eras muito novo para ter uma alcunha, eras só o João Carlos do Pirola.

Foi como se tivesse batido numa parede. A custo, virei-me para o casal.

- Mas eu não me chamo João Carlos.

quinta-feira, maio 18, 2006

Uma Vida Demorada (9)

Entrámos para uma sala escassamente mobilada; dois sofás individuais, uma estante com livros amarelecidos e uma televisão em cima de uma pequena mesa redonda, era tudo o que havia. Nas paredes, dois quadros com reproduções de barcos antigos, uma moldura enquadrando vários pequenos nós de marinheiro e, numa prateleira pregada à parede, um veleiro feito com fósforos.
Os dois velhotes foram para a cozinha preparar um chá quem nem eu nem Leonor queríamos. Enquanto eu admirava o barco de fósforos, Leonor mirava os livros existentes.

- Já viste isto? – Disse ela em voz baixa, aproximando-se de mim. – Têm ali pelo menos três livros da Anais Nin. Um deles é uma versão ilustrada.
- Que tarados. – Respondi eu. Ficámos a rir baixinho.

- Fui eu que o construí, há muitos anos. – O velhote tinha entrado na sala sem que tivéssemos percebido. Por um momento receei que ele tivesse ouvido o nosso comentário. – Quando tinha paciência e as mãos não me tremiam. Agora nem acender um consigo.
- Está muito bonito, parabéns.
- Sabe como é que se dobram os fósforos? – Perguntou o homem, enquanto se sentava a custo. Era notória a dificuldade em se mexer.

Voltei a olhar para o barco. De facto, havia várias dezenas de fósforos dobrados. Como diabo faria ele aquilo?
A mulher entrou com uma bandeja nas mãos.

- Aqui está o chá, é de camomila, espero que gostem.
- Chá… com um calor destes a quem é que apetece chá?
- Ora, cala-te, um chá cai sempre bem.
- Claro que sim, vai-me saber bem um chá. – Disse Leonor, tirando a bandeja das mãos da mulher para ela colocar uma pequena mesa articulada que retirou detrás de um dos sofás.
- O senhor desculpe-me… não sei o seu nome.
- Manel “Gato”.
- Senhor Gat… Manuel, eu…
- Gato não é apelido, é alcunha. Aqui, os pescadores têm todos alcunhas. Ninguém usa os nomes, ou os apelidos. Se tu vieres à Fuzeta e perguntares pelo Manuel Muchacho, poucos te podem ajudar, mas se perguntares pelo Manel “Gato”, não tarda nada estás a bater-me à porta. – O velhote recusou o chá. Eu e Leonor trocámos um olhar: alcunhas…
- Deixe-me adivinhar, o nome que me chamou…
- Uma alcunha. – O homem olhou para a rua através do postigo da porta. – De um rapaz que eu conheci, morreu novo, no mar. – E virando-se para mim: - Tu tens o olhar dele, mais mortiço, mas são os mesmos olhos, reconhecia-os em qualquer lugar.

Aquelas palavras secaram-me a boca. Quis falar mas os lábios estavam colados. A chávena que tinha na mão chocou com o pires e entornei algum do chá.

- O meu pai era daqui, chamava-se Celso João Vicente. Eu não o conheci, quer dizer, ele morreu novo e depois a minha mãe… eu fui adoptado. Ando à procura de algo sobre eles.

A mulher posou a chávena e colocou uma mão no peito e outra na boca. Abanou a cabeça várias vezes enquanto me olhava. Manuel “Gato” baixou os olhos, segurando a bengala, bateu com ela suavemente no soalho, como se estivesse a calcar algo.

- Eu sempre te disse Maria, não disse? – A mulher não respondeu. – Fazes-me falar de coisas que estão caladas há muito tempo, recordar tempos de tristeza, de sofrimento. O tempo mais difícil da nossa terra. Muita miséria. – Após limpar a testa a um lenço que tirou do bolso das calças, Manuel prosseguiu. – Traz-me um copo de água, mulher, que me seca a boca, lembra-me o sal… você tem ideia do que é ir daqui para a Terra Nova, enfrentar aquele mar, num veleiro? Eram temporadas de seis meses em que se trabalhava como um escravo. Eram vidas demoradas, se havia vento, andava-se, mas se não havia…
- Imagino. – Não consegui dizer mais nada.
- Eu só fiz uma campanha com o teu pai, era bom pescador, um primeira linha, havias de um ver num dóri, a pescar… - Bebeu um gole de água. – Mas aquele sangue dele, fervia-lhe nas veias, ia contra tudo e contra todos e depois, claro, o Grémio passava-o logo para a lista de dispensas.
- Como assim?
- O Grémio era uma cambada de filhos da mãe, o que julgas? Eram todos do partido do regime, tinham o poder e mantinham-no pela repressão. O teu pai revoltava-se contra eles, barafustava, batia-lhes o pé e sofria por isso. Funcionava assim, se te portavas bem, tinhas navio onde trabalhar, mas se te portasses mal ias logo para a lista de dispensas. Podias estar uns meses sem trabalhar e não te subiam de categoria. O teu pai foi muitos anos partidor de cabeças, não o deixavam passar dali.
- Partidor de cabeças? – Perguntei eu.
- Já viste algum bacalhau à venda com a cabeça? Então, alguém tinha que lha tirar… e o fígado também. Era das categorias mais baixas. Saía ao teu avô.
- Esse conheci eu bem, éramos muito amigos. A alcunha dele era o Corneta.

Leonor não conseguiu evitar uma gargalhada. Depois ficou muito vermelha e quase se afundou no sofá.

- Em 37 houve aqui uma grande revolta contra o Grémio, com o teu avô à cabeça. A malta recusou-se a inscrever. Sabes o que eles faziam? Enquanto um homem estava no mar iam adiantando dinheiro às mulheres… pudera, ganhava-se uma miséria e os tostões não davam para nada. Passava-se fome. Bom, quando a gente chegava e ia receber, eles descontavam logo o dinheiro adiantado… ficávamos logo sem nada. Era assim que nos controlavam, percebes? – O homem transpirava abundantemente, era visível a perturbação em que estava. – Um dia a malta fez-lhes frente. Foi o bom e o bonito aqui, veio para aí GNR a montes, de cavalo, cercaram isto. Muitos tiveram que fugir para a serra. Um deles, a cavalo, devia ser o chefe… tinha uma corneta e andava sempre a soprar naquilo enquanto os outros nos davam porrada. O teu avô foi-se a ele e quase o matava de porrada com a dita da corneta. Está bem de ver que a partir daquele dia ficou o corneta.
- Mas ele morreu no mar, não foi?
- Desgraçado… foi torpedeado em 42 por um submarino, no tempo da guerra. Estava a bordo do Maria da Glória. Perderam-se 36 homens, 12 aqui da Fuzeta. – O homem acabou com a água. – Traz-me mais Maria. Sabe, eu devia de estar a bordo daquele barco… mas tinha partido uma perna a descarregar peixe uns tempos antes… coisas da vida… o teu pai saía a ele…
- Então conheceu a minha mãe, a Alda. – Interrompi eu, sentando-me na ponta do sofá.
- Esteve nesta sala muitas vezes. – Quem respondeu foi a velhota. Olhava para mim com os olhos húmidos.

A minha mãe, ali, naquela sala onde eu agora estava. Finalmente, algo de palpável em relação a ela, uma espécie de prova física que a tornava real. Talvez fosse disso que eu andava à procura, algo que me convencesse definitivamente de que tinha tido uma mãe biológica – a minha existência nunca me tinha chegado (não sabia explicar melhor esta sensação na altura dos acontecimentos, e continuo sem saber explicar hoje).
Naquele momento, tendo diante de mim duas pessoas que a tinham conhecido, estando num sítio onde ela estivera, senti que a minha busca tinha chegado ao fim.

– E tu também estiveste, segurei-te muitas vezes nestes braços. – A mulher estendeu-os para mim.
- E se queres que te diga, nunca acreditei que ela tivesse morrido. – Manuel “Gato” tinha a bengala apontada à minha cara. Eu senti um grande enjoo.

segunda-feira, maio 15, 2006

Uma Vida Demorada (8)

Fiz um esforço para não levantar a cabeça, não queria enfrentar aquele olhar.
Acabei por ceder e a imagem que me foi devolvida era a de um homem cansado. Com o rosto macilento, o cabelo em total desalinho e os olhos raiados de vermelho, não havia dúvidas: aquela tinha sido mais uma noite mal dormida.
Reparei como, em poucas semanas, tinha muitos mais cabelos brancos. A pele estava amarelada, fosse por causa da luz da casa de banho me chegar filtrada por um plástico opaco, fosse por estar a ficar doente.
Lavei a cara com força, como que tentando apagar esses traços do meu rosto e fiz a barba o mais rapidamente que pude.

Tinha, mais uma vez, acordado em sobressalto, a ser puxado para o fundo por aquela mão grande e forte.
Na banheira, debaixo de água tépida que caía sem força, recordava pela enésima aquela sensação de afogamento. E foi então que me lembrei de algo: na noite passada o sonho não tinha terminado aí, a última imagem já não era a da mão agarrada ao meu tornozelo desaparecendo nas profundezas do oceano, desta vez eu levantava a cabeça e olhava para a superfície. Conseguia ver uma luz forte, como se o sol, entretanto, tivesse conseguido vencer a tempestade e brilhasse no céu. Parecia mostrar-me o caminho mas eu continuava a ser levado para o fundo. Algo que entra na água, vejo uma sombra à superfície… mas mais nada.
Saí do banho, no quarto a primeira luz do dia rompia por entre o cortinado mal fechado. Um fio de luz foi pousar no rosto adormecido de Leonor.
Peguei na câmera fotográfica, precisava ver se tinha alguma fotografia da noite passada ou se tudo também não teria passado de um sonho. Liguei-a e ali estavam, fotos do fogo, sombras, vultos escuros que pareciam pairar sobre as chamas. Tudo aquilo tinha acontecido. Ainda bem, precisava de alguma realidade, por estranha que fosse. No meio de tanto sonho, de tantas suposições, de tantas dúvidas, necessitava de algo concreto.

- Bom dia, lindinho. – Leonor tinha acordado mas apenas conseguia manter um olho aberto.
- Olá jeitosa.
- Dormiste bem?
- Não e tu?
- Sonhei bastante…

Tomámos o pequeno-almoço numa pastelaria junto à Ria Formosa, o dia prometia ser quente. Leonor tinha vestida uma blusa azul, sem mangas. Peguei na câmera e tirei-lhe uma foto ao ombro. Gostava dos ombros dela, dos pequenos sinais que o povoavam, era uma espécie de território a ser conquistado.
Ela observava distraidamente as duas fichas de inscrição de pescadores que Alberto me tinha enviado. Tinha conseguido identificar dois homens que tinham feito parte da mesma tripulação que o meu pai. Caso fossem vivos, teriam hoje mais de 80 anos. Eram a nossa única pista.

- Tens algum plano? – Perguntei eu.
- Tenho. – Levantou-se e dirigiu-se ao balcão, onde uma rapariga ainda nova e com aparelho nos dentes ajeitava uns croissants num tabuleiro.
- Conhece estas pessoas, os nomes? – Leonor estendeu as fichas à rapariga.
- Uh… não… não conheço. Quem são?
- Antigos pescadores aqui da Fuzeta. Estamos à procura deles.
- Ah, então deviam perguntar no porto de pesca.

O olhar que troquei com Leonor dizia tudo: claro!

A meio da manhã, o porto de pesca tinha já pouco movimento. Os barcos tinham chegado bem cedo, o peixe descarregado e vendido na lota.
Dirigimo-nos a um homem de meia-idade, cigarro ao canto dos lábios, que lavava o chão com uma mangueira.

- Não conheço ninguém, mas eu não sou de cá. Vocês têm de cá vir ao fim da tarde, quando a malta estiver aí a preparar as artes, antes de embarcarem. Agora está tudo a dormir. Mas olhe, até lá, o que podem fazer é ir aos cafés, no bairro dos pescadores, há sempre por lá uns velhotes sentados, esses é que lhe podem valer.

Agradecemos-lhe a informação e o refresco: com a mangueira sempre a deitar água, tinha-nos salpicado as pernas todas.

- Isto faz-me lembrar uma qualquer aldeia alentejana. – Leonor referia-se à parte mais antiga da Fuzeta, habitada predominantemente por pescadores. Era um vasto conjunto de casas pintadas de branco, de piso único ou, quando muito com dois pisos.
Percorremos vários cafés, mas sem sucesso, ninguém conhecia aqueles homens. Um velhote ainda nos disse que um dos nomes lhe era familiar, mas que nada sabia que nos pudesse ajudar.
Acabamos por almoçar no Café Sport Lisboa e Fuzeta. O nome fez-me pensar no trabalho, nas oportunidades que estaria a perder, mas o Arroz de Marisco foi o consolo de que precisava.

- Acabou de entrar alguém que o pode ajudar. – O empregado de mesa falava-me quase ao ouvido, como se me estivesse a dizer um segredo. – É um antigo pescador, se alguém conhece essas pessoas, é ele. Está sentado na outra sala, à entrada.
Agradeci e dirigi-me ao velhote, que estava sentado numa mesa junto à porta do café. De cabeça baixa e boina enterrada na cabeça, parecia dormir.

- O senhor desculpe, posso dar-lhe uma palavra? – O homem não se mexeu. Voltei a insistir, mas nada.
- Vai ter que falar alto, ele está muito surdo e… – O empregado, no balcão, girou o indicador direito várias vezes junto à têmpora.

Ofereci-lhe uma bebida, gritei e mostrei-lhe as fichas de inscrição. Falava a custo e muitas vezes sem nexo; claramente, a saúde mental do homem já não era a melhor.
Falou-me da pesca, do mar, das dificuldades da vida de pescador. Por fim, disse-me que conhecia os dois muito bem, que tinham sido bons pescadores, bons homens, que tinham morrido há uns anos.

- E o Celso Vicente, conheceu-o? – Estive quase a agarrar no velhote para lhe sacudir a resposta.
- As ondas… grandes, aquilo metia medo a qualquer pessoa, digo-lhe eu…
- Sim, eu sei, mas e o Celso Vicente?
- Também morreu, esse.
- Sabe alguma coisa da mulher dele, da Alda?
- Era teso, ele… vidas muito tristes as nossas, digo-lhe eu… muito mar, era mar a mais…
- A Alda, sabe alguma coisa dela?
- Morreu, não morreu? Não vou à beira mar há anos, farto do mar…

Acabei por desistir. No dia seguinte iríamos embora e não tínhamos conseguido nada. Tinha sido uma má ideia ter ido à Fuzeta, aliás, todo aquele projecto de recuperação do passado revelava-se uma má ideia.
Saímos do café e o tempo tinha mudado abruptamente. Continuava abafado mas o céu estava coberto por aquilo que parecia ser uma única nuvem. Não se lhe via principio nem fim. Havia algum vento.
Uma estranha luminosidade emprestava um ar algo surreal às ruas do bairro.

- Para onde fica o mar, sabes? – Leonor olhava em redor, com o cabelo esvoaçando levado pelo vento. – Estamos perdidos?!
- Isto é pequeno demais para nos perdermos, anda, é por aqui. Não tinha a certeza, mas sentia que o caminho era naquela direcção.

Ao dobrar a esquina, vimos uma senhora de idade sentada à soleira da porta. Tinha o que pareceu ser uma colcha por cima das pernas.
Leonor aproximou-se, eu fiquei a fotografar algumas portas e janelas que achei curiosas.

- … chama-se renda de gancho. – A mulher explicava o que fazia a Leonor que, de cócoras, apreciava o trabalho. – É um tipo de renda aqui da região, mas em desuso, a mocidade não lhe pega, não tem paciência.

Eu tirava algumas fotos às duas, que pareciam não dar pela minha presença. A porta entreabriu-se e um velho apareceu. Estava vestido com uma camisa de xadrez, típico dos pescadores. Apoiava-se numa bengala.
Desceu vagarosamente os dois degraus e aproximou-se de mim.

- Esses olhos são do Pirola. – Disse-me ele.