segunda-feira, maio 15, 2006

Uma Vida Demorada (8)

Fiz um esforço para não levantar a cabeça, não queria enfrentar aquele olhar.
Acabei por ceder e a imagem que me foi devolvida era a de um homem cansado. Com o rosto macilento, o cabelo em total desalinho e os olhos raiados de vermelho, não havia dúvidas: aquela tinha sido mais uma noite mal dormida.
Reparei como, em poucas semanas, tinha muitos mais cabelos brancos. A pele estava amarelada, fosse por causa da luz da casa de banho me chegar filtrada por um plástico opaco, fosse por estar a ficar doente.
Lavei a cara com força, como que tentando apagar esses traços do meu rosto e fiz a barba o mais rapidamente que pude.

Tinha, mais uma vez, acordado em sobressalto, a ser puxado para o fundo por aquela mão grande e forte.
Na banheira, debaixo de água tépida que caía sem força, recordava pela enésima aquela sensação de afogamento. E foi então que me lembrei de algo: na noite passada o sonho não tinha terminado aí, a última imagem já não era a da mão agarrada ao meu tornozelo desaparecendo nas profundezas do oceano, desta vez eu levantava a cabeça e olhava para a superfície. Conseguia ver uma luz forte, como se o sol, entretanto, tivesse conseguido vencer a tempestade e brilhasse no céu. Parecia mostrar-me o caminho mas eu continuava a ser levado para o fundo. Algo que entra na água, vejo uma sombra à superfície… mas mais nada.
Saí do banho, no quarto a primeira luz do dia rompia por entre o cortinado mal fechado. Um fio de luz foi pousar no rosto adormecido de Leonor.
Peguei na câmera fotográfica, precisava ver se tinha alguma fotografia da noite passada ou se tudo também não teria passado de um sonho. Liguei-a e ali estavam, fotos do fogo, sombras, vultos escuros que pareciam pairar sobre as chamas. Tudo aquilo tinha acontecido. Ainda bem, precisava de alguma realidade, por estranha que fosse. No meio de tanto sonho, de tantas suposições, de tantas dúvidas, necessitava de algo concreto.

- Bom dia, lindinho. – Leonor tinha acordado mas apenas conseguia manter um olho aberto.
- Olá jeitosa.
- Dormiste bem?
- Não e tu?
- Sonhei bastante…

Tomámos o pequeno-almoço numa pastelaria junto à Ria Formosa, o dia prometia ser quente. Leonor tinha vestida uma blusa azul, sem mangas. Peguei na câmera e tirei-lhe uma foto ao ombro. Gostava dos ombros dela, dos pequenos sinais que o povoavam, era uma espécie de território a ser conquistado.
Ela observava distraidamente as duas fichas de inscrição de pescadores que Alberto me tinha enviado. Tinha conseguido identificar dois homens que tinham feito parte da mesma tripulação que o meu pai. Caso fossem vivos, teriam hoje mais de 80 anos. Eram a nossa única pista.

- Tens algum plano? – Perguntei eu.
- Tenho. – Levantou-se e dirigiu-se ao balcão, onde uma rapariga ainda nova e com aparelho nos dentes ajeitava uns croissants num tabuleiro.
- Conhece estas pessoas, os nomes? – Leonor estendeu as fichas à rapariga.
- Uh… não… não conheço. Quem são?
- Antigos pescadores aqui da Fuzeta. Estamos à procura deles.
- Ah, então deviam perguntar no porto de pesca.

O olhar que troquei com Leonor dizia tudo: claro!

A meio da manhã, o porto de pesca tinha já pouco movimento. Os barcos tinham chegado bem cedo, o peixe descarregado e vendido na lota.
Dirigimo-nos a um homem de meia-idade, cigarro ao canto dos lábios, que lavava o chão com uma mangueira.

- Não conheço ninguém, mas eu não sou de cá. Vocês têm de cá vir ao fim da tarde, quando a malta estiver aí a preparar as artes, antes de embarcarem. Agora está tudo a dormir. Mas olhe, até lá, o que podem fazer é ir aos cafés, no bairro dos pescadores, há sempre por lá uns velhotes sentados, esses é que lhe podem valer.

Agradecemos-lhe a informação e o refresco: com a mangueira sempre a deitar água, tinha-nos salpicado as pernas todas.

- Isto faz-me lembrar uma qualquer aldeia alentejana. – Leonor referia-se à parte mais antiga da Fuzeta, habitada predominantemente por pescadores. Era um vasto conjunto de casas pintadas de branco, de piso único ou, quando muito com dois pisos.
Percorremos vários cafés, mas sem sucesso, ninguém conhecia aqueles homens. Um velhote ainda nos disse que um dos nomes lhe era familiar, mas que nada sabia que nos pudesse ajudar.
Acabamos por almoçar no Café Sport Lisboa e Fuzeta. O nome fez-me pensar no trabalho, nas oportunidades que estaria a perder, mas o Arroz de Marisco foi o consolo de que precisava.

- Acabou de entrar alguém que o pode ajudar. – O empregado de mesa falava-me quase ao ouvido, como se me estivesse a dizer um segredo. – É um antigo pescador, se alguém conhece essas pessoas, é ele. Está sentado na outra sala, à entrada.
Agradeci e dirigi-me ao velhote, que estava sentado numa mesa junto à porta do café. De cabeça baixa e boina enterrada na cabeça, parecia dormir.

- O senhor desculpe, posso dar-lhe uma palavra? – O homem não se mexeu. Voltei a insistir, mas nada.
- Vai ter que falar alto, ele está muito surdo e… – O empregado, no balcão, girou o indicador direito várias vezes junto à têmpora.

Ofereci-lhe uma bebida, gritei e mostrei-lhe as fichas de inscrição. Falava a custo e muitas vezes sem nexo; claramente, a saúde mental do homem já não era a melhor.
Falou-me da pesca, do mar, das dificuldades da vida de pescador. Por fim, disse-me que conhecia os dois muito bem, que tinham sido bons pescadores, bons homens, que tinham morrido há uns anos.

- E o Celso Vicente, conheceu-o? – Estive quase a agarrar no velhote para lhe sacudir a resposta.
- As ondas… grandes, aquilo metia medo a qualquer pessoa, digo-lhe eu…
- Sim, eu sei, mas e o Celso Vicente?
- Também morreu, esse.
- Sabe alguma coisa da mulher dele, da Alda?
- Era teso, ele… vidas muito tristes as nossas, digo-lhe eu… muito mar, era mar a mais…
- A Alda, sabe alguma coisa dela?
- Morreu, não morreu? Não vou à beira mar há anos, farto do mar…

Acabei por desistir. No dia seguinte iríamos embora e não tínhamos conseguido nada. Tinha sido uma má ideia ter ido à Fuzeta, aliás, todo aquele projecto de recuperação do passado revelava-se uma má ideia.
Saímos do café e o tempo tinha mudado abruptamente. Continuava abafado mas o céu estava coberto por aquilo que parecia ser uma única nuvem. Não se lhe via principio nem fim. Havia algum vento.
Uma estranha luminosidade emprestava um ar algo surreal às ruas do bairro.

- Para onde fica o mar, sabes? – Leonor olhava em redor, com o cabelo esvoaçando levado pelo vento. – Estamos perdidos?!
- Isto é pequeno demais para nos perdermos, anda, é por aqui. Não tinha a certeza, mas sentia que o caminho era naquela direcção.

Ao dobrar a esquina, vimos uma senhora de idade sentada à soleira da porta. Tinha o que pareceu ser uma colcha por cima das pernas.
Leonor aproximou-se, eu fiquei a fotografar algumas portas e janelas que achei curiosas.

- … chama-se renda de gancho. – A mulher explicava o que fazia a Leonor que, de cócoras, apreciava o trabalho. – É um tipo de renda aqui da região, mas em desuso, a mocidade não lhe pega, não tem paciência.

Eu tirava algumas fotos às duas, que pareciam não dar pela minha presença. A porta entreabriu-se e um velho apareceu. Estava vestido com uma camisa de xadrez, típico dos pescadores. Apoiava-se numa bengala.
Desceu vagarosamente os dois degraus e aproximou-se de mim.

- Esses olhos são do Pirola. – Disse-me ele.

29 comentários:

Sofia disse...

Ai Rui que emoçao! Nao vejo a hora de ele encontrar a mae. Ele encontra-a nao é?

bj

Mourinho disse...

oxalá consiga ao que se propôs

parabéns pela sua criatividade
e um beijo para a Leonor.

Paty disse...

Que suspense! Lá tá ele...:D
Então e a maratona? Hmmm...
Inscrevi-me no p&b lolololo vamos ver a bela cagada artistica que sairá dali :)
E tu? terei concorrente à altura???
Beijos

ISA disse...

ai rui por amor de deus... mas quem é o pirola agora??????

Sea disse...

hum... um reencontro... ainda que não o saibam... (já estou a fazer comments e não devia!)
:D

lélé disse...

nã, nã... esses olhinhos são mesmo do João, Sr Velho!... mas, já agora, conte lá a história do Pirola, se faz favor!...

sonia r. disse...

Tenho que ler o que está para trás. Agora deixo um bom dia.

Paixão disse...

O Pirola é o papá dele?
Ai Rui... tu deves ter um gozo brutal em nos deixar pendurados nas últimas palavras de cada capítulo!

Mas eu aguento... ai aguento, sim!
A história continua muito boa, cada vez melhor:)

Beijo

Mipo disse...

Pirola é óptimo! :-) Não me digas que esta história é como a do Marco... Ele encontra a mãe, não encontra? E ela ainda está na Fuzeta? Estou desejosa de ler este homem feliz!

rafaela disse...

Lindissimo, ternurento, e a fotografia pelo meio.
Espero pelo proximo.

=)

Gina disse...

Amigo!

Nada do ke te possa dizer, não é novidade tás fartinho de ler elogios... só posso dizer-te ke fiko aki ansiosa á espera não ke termines mas ke continues para ke eu me possa sentir neste bokadinho enm ke te leio kom a mente ocupada kontigo e não kmg.
Isto não é egocentrismo e tu sabes.
Beijinhos

longedemais disse...

Mas que escrita tão deliciosa! Parabéns e muito obrigada por partilhar! Agora que o descobri, vou voltar para ler mais...

zeni disse...

Ainda estou a gostar mais desta história do que a outra que li, da Arminda!

Jaqui disse...

... Esses olhos são do Pirola...
Ficou-me! é engraçado como os anos, as rugas tudo nos vai transformando, mas há sempre algo que permanece ;-) Bjinho Rui e aguardo ansiosa continuação.

Dani disse...

Que belo encontro! :)

nuno marujo disse...

olá Rui,
será que poderás me dar uma ajudinha ?!
vai a:
http://tunaoexistes.blogspot.com/
verá um blog inteiramente dedicado à publicação do meu novo livro
parti nesta aventura - por sugestão de alguns amigos - de o dar a conhecer sem qq contrapartida
gostaria que resultasse
se puderes ajudar, fico-te muito grato!
(como podes ajudar?: é fácil, se pderes fazer um post que o anunciasse, seria divinal, dado o nº de leitores que o teu blog tem
além disso,
a tua própria opinião seria MUITO IMPORTANTE)

obrigado!

alice disse...

querido rui,

foi a melhor forma de terminar o meu dia de trabalho, passar por aqui e ler-te

espero que estejas bem,

um grande beijinho,

alice

Luna disse...

Continua quero saber mais
beijos

Sininho disse...

Passe...li...e adorei...vou voltar kero continuar a ler páginas de vida tão bem escritas....

Vanda Baltazar disse...

bom :) aquele comentario sobre a disciplina estava o maximo! :) ri-me feita maluca, até porque me lembro bem do teu conto :)

quanto ao homem do mergulho, não sei o que lhe aconteceu, depois daquilo a ambulancia levou-o e conforme nunca o tinha visto antes, nunca o vi depois...

e agora vou-te ler :) como é sempre um momento especial, trouxe o café da medusa e já acendi um cigarro....

Vanda Baltazar disse...

pronto. e mais dois dias agonizantes à espera de mais:)

gostei muito, mas isso já é habitual:)

um beijo

Van

Vanda Baltazar disse...

Rui :)) acredito que não comprasses as Brumas, mas terias comido com natas, os cogumelos dos Druidas????? :))))

ahahahahah:)

voces os dois......oh lálá ;))

inBluesY disse...

e aqui continuarei deliciada a ler-te :))

e tenho bolinhos para todos desta vez heim!

jinhos

legivel disse...

... prosseguir a leitura desta investigação muito bem concebida, é o que vou continuar a fazer... com prazer.

Rui disse...

S, e ofereceres aqui à malta?

:)

Sara MM disse...

beeeeeeeeeeeemmm... depois de tanto esforço.. bastou um velhinho para atirar a matar!!!!!

são incríveis os velhotes, não são?! seremos assim um dia? duvido!
(bem, isto foi mais um aparte, mas foi o que saíu!)

Sara MM disse...

beeeeeeeeeeeemmm... depois de tanto esforço.. bastou um velhinho para atirar a matar!!!!!

são incríveis os velhotes, não são?! seremos assim um dia? duvido!
(bem, isto foi mais um aparte, mas foi o que saíu!)

segurademim disse...

... que bonito! os olhos são um elemento identificador muito especial!!!

que bom, finalmente... um link

beijo

Afrodite disse...

Os olhos... ;))
Muito lindo... já li até aqui.. eheh
Logo volto.

Deixo-te um sopro
cheio de *calor*