quinta-feira, maio 18, 2006

Uma Vida Demorada (9)

Entrámos para uma sala escassamente mobilada; dois sofás individuais, uma estante com livros amarelecidos e uma televisão em cima de uma pequena mesa redonda, era tudo o que havia. Nas paredes, dois quadros com reproduções de barcos antigos, uma moldura enquadrando vários pequenos nós de marinheiro e, numa prateleira pregada à parede, um veleiro feito com fósforos.
Os dois velhotes foram para a cozinha preparar um chá quem nem eu nem Leonor queríamos. Enquanto eu admirava o barco de fósforos, Leonor mirava os livros existentes.

- Já viste isto? – Disse ela em voz baixa, aproximando-se de mim. – Têm ali pelo menos três livros da Anais Nin. Um deles é uma versão ilustrada.
- Que tarados. – Respondi eu. Ficámos a rir baixinho.

- Fui eu que o construí, há muitos anos. – O velhote tinha entrado na sala sem que tivéssemos percebido. Por um momento receei que ele tivesse ouvido o nosso comentário. – Quando tinha paciência e as mãos não me tremiam. Agora nem acender um consigo.
- Está muito bonito, parabéns.
- Sabe como é que se dobram os fósforos? – Perguntou o homem, enquanto se sentava a custo. Era notória a dificuldade em se mexer.

Voltei a olhar para o barco. De facto, havia várias dezenas de fósforos dobrados. Como diabo faria ele aquilo?
A mulher entrou com uma bandeja nas mãos.

- Aqui está o chá, é de camomila, espero que gostem.
- Chá… com um calor destes a quem é que apetece chá?
- Ora, cala-te, um chá cai sempre bem.
- Claro que sim, vai-me saber bem um chá. – Disse Leonor, tirando a bandeja das mãos da mulher para ela colocar uma pequena mesa articulada que retirou detrás de um dos sofás.
- O senhor desculpe-me… não sei o seu nome.
- Manel “Gato”.
- Senhor Gat… Manuel, eu…
- Gato não é apelido, é alcunha. Aqui, os pescadores têm todos alcunhas. Ninguém usa os nomes, ou os apelidos. Se tu vieres à Fuzeta e perguntares pelo Manuel Muchacho, poucos te podem ajudar, mas se perguntares pelo Manel “Gato”, não tarda nada estás a bater-me à porta. – O velhote recusou o chá. Eu e Leonor trocámos um olhar: alcunhas…
- Deixe-me adivinhar, o nome que me chamou…
- Uma alcunha. – O homem olhou para a rua através do postigo da porta. – De um rapaz que eu conheci, morreu novo, no mar. – E virando-se para mim: - Tu tens o olhar dele, mais mortiço, mas são os mesmos olhos, reconhecia-os em qualquer lugar.

Aquelas palavras secaram-me a boca. Quis falar mas os lábios estavam colados. A chávena que tinha na mão chocou com o pires e entornei algum do chá.

- O meu pai era daqui, chamava-se Celso João Vicente. Eu não o conheci, quer dizer, ele morreu novo e depois a minha mãe… eu fui adoptado. Ando à procura de algo sobre eles.

A mulher posou a chávena e colocou uma mão no peito e outra na boca. Abanou a cabeça várias vezes enquanto me olhava. Manuel “Gato” baixou os olhos, segurando a bengala, bateu com ela suavemente no soalho, como se estivesse a calcar algo.

- Eu sempre te disse Maria, não disse? – A mulher não respondeu. – Fazes-me falar de coisas que estão caladas há muito tempo, recordar tempos de tristeza, de sofrimento. O tempo mais difícil da nossa terra. Muita miséria. – Após limpar a testa a um lenço que tirou do bolso das calças, Manuel prosseguiu. – Traz-me um copo de água, mulher, que me seca a boca, lembra-me o sal… você tem ideia do que é ir daqui para a Terra Nova, enfrentar aquele mar, num veleiro? Eram temporadas de seis meses em que se trabalhava como um escravo. Eram vidas demoradas, se havia vento, andava-se, mas se não havia…
- Imagino. – Não consegui dizer mais nada.
- Eu só fiz uma campanha com o teu pai, era bom pescador, um primeira linha, havias de um ver num dóri, a pescar… - Bebeu um gole de água. – Mas aquele sangue dele, fervia-lhe nas veias, ia contra tudo e contra todos e depois, claro, o Grémio passava-o logo para a lista de dispensas.
- Como assim?
- O Grémio era uma cambada de filhos da mãe, o que julgas? Eram todos do partido do regime, tinham o poder e mantinham-no pela repressão. O teu pai revoltava-se contra eles, barafustava, batia-lhes o pé e sofria por isso. Funcionava assim, se te portavas bem, tinhas navio onde trabalhar, mas se te portasses mal ias logo para a lista de dispensas. Podias estar uns meses sem trabalhar e não te subiam de categoria. O teu pai foi muitos anos partidor de cabeças, não o deixavam passar dali.
- Partidor de cabeças? – Perguntei eu.
- Já viste algum bacalhau à venda com a cabeça? Então, alguém tinha que lha tirar… e o fígado também. Era das categorias mais baixas. Saía ao teu avô.
- Esse conheci eu bem, éramos muito amigos. A alcunha dele era o Corneta.

Leonor não conseguiu evitar uma gargalhada. Depois ficou muito vermelha e quase se afundou no sofá.

- Em 37 houve aqui uma grande revolta contra o Grémio, com o teu avô à cabeça. A malta recusou-se a inscrever. Sabes o que eles faziam? Enquanto um homem estava no mar iam adiantando dinheiro às mulheres… pudera, ganhava-se uma miséria e os tostões não davam para nada. Passava-se fome. Bom, quando a gente chegava e ia receber, eles descontavam logo o dinheiro adiantado… ficávamos logo sem nada. Era assim que nos controlavam, percebes? – O homem transpirava abundantemente, era visível a perturbação em que estava. – Um dia a malta fez-lhes frente. Foi o bom e o bonito aqui, veio para aí GNR a montes, de cavalo, cercaram isto. Muitos tiveram que fugir para a serra. Um deles, a cavalo, devia ser o chefe… tinha uma corneta e andava sempre a soprar naquilo enquanto os outros nos davam porrada. O teu avô foi-se a ele e quase o matava de porrada com a dita da corneta. Está bem de ver que a partir daquele dia ficou o corneta.
- Mas ele morreu no mar, não foi?
- Desgraçado… foi torpedeado em 42 por um submarino, no tempo da guerra. Estava a bordo do Maria da Glória. Perderam-se 36 homens, 12 aqui da Fuzeta. – O homem acabou com a água. – Traz-me mais Maria. Sabe, eu devia de estar a bordo daquele barco… mas tinha partido uma perna a descarregar peixe uns tempos antes… coisas da vida… o teu pai saía a ele…
- Então conheceu a minha mãe, a Alda. – Interrompi eu, sentando-me na ponta do sofá.
- Esteve nesta sala muitas vezes. – Quem respondeu foi a velhota. Olhava para mim com os olhos húmidos.

A minha mãe, ali, naquela sala onde eu agora estava. Finalmente, algo de palpável em relação a ela, uma espécie de prova física que a tornava real. Talvez fosse disso que eu andava à procura, algo que me convencesse definitivamente de que tinha tido uma mãe biológica – a minha existência nunca me tinha chegado (não sabia explicar melhor esta sensação na altura dos acontecimentos, e continuo sem saber explicar hoje).
Naquele momento, tendo diante de mim duas pessoas que a tinham conhecido, estando num sítio onde ela estivera, senti que a minha busca tinha chegado ao fim.

– E tu também estiveste, segurei-te muitas vezes nestes braços. – A mulher estendeu-os para mim.
- E se queres que te diga, nunca acreditei que ela tivesse morrido. – Manuel “Gato” tinha a bengala apontada à minha cara. Eu senti um grande enjoo.

35 comentários:

longedemais disse...

Vim espreitar, pela segunda vez esta noite, se havia mais coisas bonitas para ler... Delicioso! :)

lélé disse...

boa!... já tenho leitura garantida para amanhã...

Akasha disse...

Cada vez melhor... não é só escrita por escrita, é rigor, análise, pesquisa... muto bom mesmo! O tempo voa ao ler-te :)

Bjnhs

Vanda Baltazar disse...

cada vez mais...forte!

Gostei muito.

Um beijo. Para o Gato e para o Corneta tb :)

Van

Dani disse...

Acho que daqui a umas quatro semanitas, vou à procura do Gato!

Sofia disse...

Continuas a encantar-me com atua escrita!!!!! Fantástico.

um bj enorme

alísios disse...

Cada vez melhor...
pq será que não encontro escritores com este rigor e qualidade nas estantes das livrarias?
O que será preciso fazer para que alguém olhe para os "grandes" escritores que por aí andam, escondidos pelas sombras dos pseudointelectuais "tio" e "tias" da linha?

Mais uma vez, os meus parabéns, está excelente e com grande qualidade literária.

rafaela disse...

hum, continua arrepiante e combina com miles davis.

Lindissima esta narrativa.

=)

Paty disse...

Ai que grande confusão...
E agora, o que vai acontecer?? Lá terei eu que esperar...
Beijos

Sea disse...

e, depois do enjoo.....????

Salvador disse...

E agora? vá escreve, escreve...
1 abraço

zeni disse...

Adorei a entrada do avô, na história . Ir buscar os "grémios" é de génio! Estás a instruir o pessoal,Rui! Parabéns!

Paixão disse...

Ah... muito bom:)
Fora a bengala na cara, realmente desnecessária:)))

Então a mãezinha anda por aí...
Vou esperar para saber mais... como sempre.

Muito bom, Rui.
Excelentes descrições, suspense na medida certa...
Beijinhos

Wisper disse...

e mais... e mais??? é entusiamante ler-te... fantástico!

ISA disse...

olha e eu senti um arrepio pela espinha acima com esta última frase da mulher e da bengalaa qque nem te digo nada... ai meu deus, e mais, e mais??' (podes crer whisper) e maaaaaisssss?????? bjs

sofyatzi disse...

Quero mais, muito mais...

Adorei!!!

Obrigado pela tua passagem no meu cantinho ;)

alice disse...

;)

beijinho, rui

e obrigada

sempre

Sara MM disse...

BOLAS! Uma autêntica chuvada de coisas boas e más ao mesmo tempo!!Enjoado é pouco....

Bjss

as velas ardem ate ao fim disse...

vim te espreitar e amei!

Sininho disse...

Obrigado pela passagem pelo meu canto, nada k se compare a este. Estou a ficar cada vez mais entusiasmada, verdadeiro génio literário, venho todos os dias

lélé disse...

como já aqui foi referido nos comentários, o teu trabalho de pesquisa está super bem enquadrado neste conto... é de facto um pedaço de História de Portugal, que nos trazes!... bem, mas agora estou curiosa!... será que o João vai aprender a gostar de bacalhau?

sonia r. disse...

Só hoje é que tive tempo para ler. Como sempre gostei muito e estou ansiosa por mais. Um bom dia Rui.

segurademim disse...

... quem procura sempre acha! agora ficamos em suspense será que a mãe está viva e ele vai ter oportunidade de abraçar finalmente?

mas estes dois velhotes foram um achado! e a renda de gancho também, excelente!!!!

beijo, bom fim-de-semana

Martuxa disse...

E mais e mais??!!
Sorrisos e beijos

Maria Pedro disse...

E por que é que a felicidade teria malefícios?

alyia disse...

Um texto mesmo bom

GNM disse...

Rui,
Deixo-te um convite no
EXTRANUMERÁRIO.
Gostaria imenso que
aceitasses!

Passa um excelente fds!

alfinete de peito disse...

Conseguiste criar uma teia bastante envolvente ;)

Abraço dos Alfinetes!

Vanda Baltazar disse...

"então pá"???? ;)

demora muito ou faz-se tarde??? :)

ja não tenho mais unhas para roer :)

Van

legivel disse...

Parece que se está a fazer luz ao fundo do túnel nesta viagem às origens. Tudo indica nesse sentido... a menos que o autor nos surpreenda com mais um episódio recambolesco com que é fértil em nos brindar.
Já nada me espanta nesta história cheia de estórias.

Bom fim de semana!

Luna disse...

Deixas-nos sempre com agua na boca
beijinhos

Sea disse...

um bom fim de semana Rui :)

poca disse...

às vezes, é difícil perceber... outras, é difícl aceitar...
mas, deixar ir o que gostamos... custa sempre!

Medusa Azul disse...

Rui,

estou a estender as minhas asas e a testá-las..amanhã vou voar e aterrar no Éden. assim, espero, claro.. :)
...as férias bem que podiam ser demoradas, como as vidas nestas bandas ;)

até breve!

Vanda Baltazar disse...

Deve ser originado pela utopia e sonho de Gaudí...afinal em que outra cidade poderias tu dizer isso e eu, que fiz malabarismos com uma garrafa na cabeça e dancei com um palhaço? :) Barcelona é um sitio único :)

e agora um bom domingo :)

beijinho

Van