terça-feira, julho 18, 2006

Urgência

Tinha urgência Adelaide.
Não consciente da triagem automóvel à entrada do Hospital, fez a curva em excesso de ambição e quase passou a ferro os calos do jovem Segurança.
Mil desculpas, que a sua melhor amiga tinha a filha mais nova tomada pelas convulsões, como se poderia facilmente constatar, fizesse o Sr. Segurança o favor de olhar para o banco de trás do utilitário.

Deixadas mãe e filha enleadas na burocracia dos doentes e aparcado o carro – tarefa que lhe consumiu uns bons vinte minutos e alguma sola de sapato -, sentou-se Adelaide desconfortavelmente na sala de espera. Das amigas nem sinal.
A sala estava cheia de tosse e catarro, de caras jovens mas mal encaradas, cinzentas. Ao fundo, cinco cadeiras vazias. Não estranhou, antes, avançou decidida e posou os ossos na do meio.
Cedo percebeu que estava mesmo por baixo do altifalante minarete, foi quando um muezzin chamou a Natacha Andreia para a sala 1, quase lhe arrancando os tímpanos.
Levantou-se de um pulo e o ar pesado da sala aliviou um pouco, com os sorrisos que aconteceram.

Veio Adelaide para a rua encostar-se a um muro ainda não tomado pelo sol. Sopra a franja e repara pelo canto do olho que ele reparava nela. Ignora-o Adelaide, mas não resiste mais que um minuto e retribui-lhe o olhar. Ele sorri-lhe o sorriso dos confiantes.
Alto e magro, pele curtida pelo sol, cabelo em desalinho, barba por fazer e sorriso níveo. Adelaide sentiu urgência e um balanço de mar.
Aproxima-se dela e cantou-lhe ao ouvido uma cantiga aprendida com as sereias. Disse-lhe o nome e que percebia agora o porquê do seu sobrinho ter engolido uma moeda de dois euros: proporcionar aquele encontro.
Fingiu Adelaide o arrepio que sentiu e pousou os olhos no avião que levantava voo, furando as nuvens por cima das suas cabeças.

- Sou marinheiro. – Acrescentou ele, sendo já desnecessária aquela estocada.

Julgou-se feliz Adelaide. Não quis saber de mais nada. Atracaram nos dias em que ele não levantou ferro. Julgou-se apaixonada Adelaide. E contou a toda a gente. Julgou-se encantada Adelaide. E deram as mãos em terra firme. Julgou-se em paz Adelaide. E deram os lábios quando no mar.

Mas era ele marinheiro com hábitos de marinheiro. Era gente que se compromete a prazo. Lança amarra mas não aperta o nó.
Percebeu isso tarde Adelaide, quando já se pensava porto de abrigo. Levantou ele ferro e ficou ela a ver o mar.

Sofria. Tinha urgência de ser amada Adelaide.

60 comentários:

Vanda Baltazar disse...

E ficou a ver navios.

Acontece e volta a contecer, entre ferros e amarras...

Um beijo antes da partida.

Adorei este teu conto!!! :))

Sabes a que cheiram os ventos alisios???

Eu depois conto :))

Van

Dani disse...

A tristeza de quem tenta prender quem apenas se perde no horizonte...

Um abraço

Macambúzia Jubilosa disse...

Bolas pá...lindo, lindo, lindo.

Todo o texto...

Mas há frases que...

"Adelaide sentiu urgência e um balanço de mar"...

A poesia em forma de prosa sempre foi a minha preferida e tu andas a ficar exímio nela...

E quase que te imagino a escrever este texto nas margens duma reportagem da Única :)

Tons Pastel disse...

mais um post muito bonito. Tu também tens o dom de cativar e oxalá não levantes ferro tão cedo. Marinheiro sempre assim foi, uma mulher em cada porto diziam, não acreditamos que todos o tivessem sido, mas o mar desperta o desejo da aventura. Tem esse dom que para uns é bom e para outros é mau.
beijos marinheiro. Continua. Barco parado não faz viagem

inBluesY disse...

bom, hoje não era um bom dia, quer dizer era um dia lindo, mas não o dia para aqui estar, bem rectifico para lêr certas urgências.

Hoje que seja e tenha sido um Lindo Dia.
1 BJ*

Lord of Erewhon disse...

Viva o mar! :)

Llyrnion disse...

A ilusão tem destas coisas. Principalmente pa quem passa uma vida nas urgências.

Um abraço.

Sofia disse...

Já tinha saudades das tuas historias.

Beijos

alice disse...

querido rui,

e como é deveras urgente o amor, na frase do poeta mais sábio!

a adelaide e a sofia não são só personagens tuas, são pessoas como nós, profundamente humanas

beijinhos grandes

alice

Polly Jean disse...

Adelaide, que bonito nome para dizer: mulher.

Paty disse...

Ruizito,
It's good to have U back!!! :D
Como já foi dito, estas são personagens humanas como nós, são personagens de todos os dias, com quem nos cruzamos a cada rua, a cada esquina...
E é tão triste encontrar alguém que se ame e não poder concretizar esse amor...
Cada dia me Parece mais vulgar mais comum...
Fico esprando o proximo capitulo!
Beijos

p.s. Espero que o pequenote esteja melhor e que corra tudo bem! beijos

Teresa Durães disse...

Adorei esta história. Está linda!!!!!

E há tantas Adelaides que acertam em marinheiros....

A. disse...

simplesmente...doce e triste.simplesmente...uma urgencia,sempre esta mesma urgência sentida.a de Adelaide.
por lá...é assim que ele viaja...ele,o meu marinheiro de Sal.

um beijo enorme.

alfazema disse...

...e quem não tem urgência de ser amada? O mundo não é mais bonito quando amamos? Não tem outras cores? outro brilho?
Que todas as Adelaides, Marias, teresas...sejam bem amadas!
Um beijo

Claudia Perotti disse...

Pois é ... todos carregamos essa mesma urgência!
Beijinhosssss

segurademim disse...

... bancos e urgências, palavras pouco auspiciosas para sonhos... os romances, habitualmente têm outros pontos de partida...

Adelaide, apesar da perda, sentiu-se recompensada, foi bom enquanto durou, como todo o bom porto de abrigo, tinha consciência, que há barcos apenas de passagem...

sofria... passaria a frequentar as esplanadas junto ao rio

segurademim disse...

(agora é tempo de preparativos para levantar ferro... ahahah)

pois voltarei à adega da gravata... sem urgência! gostei da latada

beijo Rui, tudo bem, né?

hum... mudaste para 35? + 1 bj

:)

Sea disse...

ai essas urgências :)

pequenita (quando o teu corpo e o meu) disse...

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.
Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.

bjinhus c carinho...

Jaqui disse...

... urgência é uma palavra que nunca me agradou muito...
Bjs grandes ;-)

rafaela disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
rafaela disse...

Eu perguntaria a Adelaide, apesar dos pesares, se não teria vivido esse amor mais plenamente ainda, se não soubesse já o seu fim marcado.

E o que estava ela a espera de um marinheiro?

Lindissima esta história. =)

zeni disse...

Belo começo. O nome Adelaide está muito bem escolhido...

legivel disse...

"... e ficou ela a ver o mar."
Não perdeu muito tempo a contemplar as vagas que se abatiam contra os rochedos do Cabo da Roca; tornava-se um espectáculo monótono e Adelaide durante muito tempo faria os possíveis e impossíveis para evitar tudo o que se relacionasse com o elemento líquido. Até pôr o carro em marcha o calor era insuportável; por isso bebeu quase de um golo uma garrafa de água. Em Lisboa, foi buscar a filha ao Oceanário. Depois atravessou a Ponte sobre o rio Tejo e quando chegou a casa tomou um retemperador duche. Logo a seguir atendeu uma chamada; era o pai, capitão-de-fragata na reserva, da Marinha de Guerra. Exausta, adormeceu num confortável colchão de água.
Sonhou inevitavelmente com o marinheiro...

maria da rosa disse...

Existem amores que apenas sobrevivem na ausência ... não na urgência e provavelmente com paciência.

Gostei

vida de vidro disse...

És um notável contador de estórias! A urgência de ser amada provavelmente levaria Adelaide a outro marinheiro de passagem. Quando a lembrança deste marinheiro já se perdesse no mar... **

Velutha disse...

O amor, ai o amor, a força motriz da vida, para a Adelaide e para todos nós.
com marinheiro, com pescador, com pastor...é preciso é amar.
Beijinhos

G disse...

Sou Adelaide!

alice disse...

querido rui,

vim reler-te e desejar-te um óptimo fim de semana

um grande beijinho para ti,

alice

Vida disse...

O amor, sempre o amor que nos faz felizes e tanto sofrer. Eu sempre ouvi que amar um marinheiro é sempre um risco, o marinheiro não tem porto.

Gostei do seu blog. Beijinhos.

Akasha disse...

Há tantos marinheiros e tantas Adelaides por aí... Viveram o momento e durante esse momento ela sentiu-se feliz. Terá valido a pena? Só cada um é que sabe se vale a pena arriscar por instantes de felicidade ou se prefere manter-se em constante tristeza...

As usual, belo post :)

Bjnhs

mayda disse...

Pois é marinheiros é complicado mas li e gostei...bigada pla visita


jocas

alfazema disse...

e o Azinhal a que eu me referia é exactamente esse, a caminho de Guerreiros do Rio e Alcoutim. Se moraste lá perto e conheces bem , então faz uma história sobre essas gentes e pode meter um bailarico com moço de fora e moçoila algarvia. Seria giro!

J disse...

Linkei seu blog na minha página. Desculpe, nem te perguntei antes... Mas se tiver algum problema eu tiro, sem problemas.
Um beijo

mixtu disse...

adelaide vai-se apaixonar por marinheiro... pior seria se fosse por um poeta da blog... menos mal...
e essa moeda de dois euros, saiu ou está no "mealheiro"...

cumprimentos monárquicos

Silvia disse...

As coisas que acontecem a quem fica do lado de fora das urgências. Triste sina a minha que vou sempre lá para dentro, onde não existem marinheiros, apenas médigos em estágio... Por isso, a minha urgência é sempre vir embora. Bonito texto.

OvelhaNegra disse...

Tal como muitas Adelaides, nas salas da urgência da vida, acham que uma piscadela de olho, uma canção do bandido, as fez encontrar o porto de abrigo.
Mas marinheiros são mesmo assim: Quando as águas começam a ficar calmas e turvas..é sinal para zarpar.
Há outras Adelaides carentes, à porta das urgências, prontas a serem embaladas pela canção do bandido. Oppss ... do marinheiro. Esses tais que lançam amarras mas não sabem dar nós.
Como anda a nossa Marinha!
Já nem os marinheiros aprendem a fazer nós!. Risos.
Um bom-fim-de-semana.
Beijo*

Sininho disse...

E essa urgência é nossa, kual de nós não a carrega, "urgência de ser amada", urgência de um carinho, de uma festa, de uma palavra de conforto, de um ombro apaixonado, de um corpo à nossa espera.... Bom fim de semana Rui, e continua

lélé disse...

urgente, sim, muito urgente... mas a água ameaça afogar e coração de marinheiro é que está a dar...

lazuli disse...

gaivotas em terra, marinheiros no mar, qualquer coisa assim me lembrou. A Adelaide no fim das frases, a Adelaide no princípio de sabe-se lá o quê. Forma interessante de escrever, a tua. Novidade não é, mas é sempre um prazer renovado.

Teresa Durães disse...

(não, legível, não!!!)

"... e ficou ela a ver o mar."
Bebeu uma garrafa de tequila, apanhou um avião para uma ilha paradisíaca, esqueceu marinheiros e paixões, pensou que a vida tinha de ser sentida, percorreu praias e lugares de sonho, conheu as gentes e costumes, dançou novas músicas e quando a alma ficou refeita, fez-se moça, fez-se nova, fez-se à vida.

Voltou. Voltou conhecedora de si, do que queria. Não houve mais marinheiros de portos nem companheiros. Não houve mais desamoros porque Alice passou a amar almas. E as almas amam outras almas.

E delas não fogem.

Isa&Luis disse...

Lá chega uma ocasião na vida de qualquer um de nós em que ficamos a ver o mar...
Muito interessante o teu texto!
Um abraço
Luis

Sara MM disse...

UHAU!!! até já é costume... mas este texto está mesmo muuuuuuuuuuuito bem escrito! Adorei!!

Qt à estória... deu-me vontade de ir ouvir um música do Sérgio Godinho... sabes qual ? :o)


BJss

manhã disse...

E não temos todos?

Teresa Durães disse...

Vou de férias. De net também. Boas histórias e um beijo para quem fica.

Essa caneta que continue a escrever pois escreve muito bem. A minha cabeça está a precisar de ser lubrificada :)

Tons Pastel disse...

Adelaide não te apaixones nunca por marinheiro. eles são aventureiros e em cada porto têm uma. Leva-os à mamã.
bjokas

alice disse...

querido rui,

tenho sentido a tua ausência

espero que esteja tudo bem contigo

fica com os meus melhores pensamentos

um grande beijinho

alice

Teresa Durães disse...

(eu sei, eu sei, ninguém acredita em mim,mas estou no Voando... de novo....)

Teresa Durães disse...

... a poluir o mar com garrafas!

Salvador disse...

Eu fui marinheiro...

:)

1 abraço

Carla disse...

tantas sao as noites que tenho passado assim nas urgencias e tantas utras em que tenho urgencia do que foi e ja nao volta

Spiritman aka Bacardiman disse...

Para alguns o altifalante funcionar já é um consolo, antítese do anseio, alto e engraçado pegou nela e foram dar um passeio... Lool lool!!!

Cumprimentos mixed by Jameson 12 anos!!!!

Velutha disse...

Adelaide espera novo amor e eu espero, tu sabes Rui, um post novo, quando te apetecer,porque escreves tão bem e deixas-me encantada e a sonhar.
beijos

mixtu disse...

E continua a ser amada...
abraços monarquicos

bomba disse...

Adorei.

bomba disse...

Estava a brincar...
Detestei.
Neurótico?

alice disse...

querido rui,

espero que esteja tudo bem contigo

houve algo e tudo mudou de novo!

mas estou aqui sempre como antes

votos de bom fim de semana

um grande beijinho

alice

Vanda Baltazar disse...

Em Tozeur o vento falou-me de liberdade :) em Douz o cheiro forte do camelo nem me permitiu sentir o outro, o dos óasis encontrados, em Matmata o vento pediu-me para voltar, para fazer as pazes com o Dromedário...

Venho dividida, como sempre acontece, quando algo me toca profundamente: adorei :)


Um grande beijo e boas ferias!

Van

( NoCaS ) disse...

Uma brisa leve, num monótono dia de verão. *

Sea disse...

Um beijo, sem urgência :)