Um fio de voz fez-se ouvir do outro lado. – Diz-me o que vês.
Não conseguiu responder. Afastou o auscultador do ouvido e fitou-o. Olhou à sua volta. Ninguém parecia interessado nela. Ao encostar de novo o auscultador, ouviu de novo, diz-me o que vês.
- Quem fala?
- Por favor, não desligues. Diz-me o que vês. – A voz chegava-lhe em surdina, como se estivesse muito longe. Pareceu-lhe a voz de uma criança.
- Como assim, o que vejo?
- O que vês à tua volta, conta-me.
Olhou novamente em todas as direcções. Não viu nada suspeito.
- Isto é uma brincadeira, não é? Estás a falar de um telemóvel, aqui perto, a observar-me…
- Não, juro que não. Não sei sequer para onde estou a ligar. – A voz parecia-lhe agora um lamento.
- Estou confusa. Ajudava se me explicasses o que se está a passar.
- Eu só queria saber onde estás, o que está aí a acontecer, o que vês.
- Mas para quê, que interesse tem isso?
- Não tenho mais nada…
Pareceu-lhe ter alguém atrás de si. Virou-se instintivamente mas não havia ninguém, apenas o movimento habitual de pessoas indiferentes umas às outras. Indiferentes para com ela.
Sentiu um vazio no peito que lhe subiu pela garganta e se alojou no cérebro. Vou desmaiar, pensou. Apenas teve tempo de se apoiar com uma mão à parede.
- Não te vás embora. Diz-me o que vês. – Desta vez a voz saiu nítida, próxima. Foi como se a tivesse segurado.
- Estou num Centro Comercial. Num telefone público. Junto a um repuxo e a umas escadas rolantes. Lojas… muitas pessoas. – Perguntava a si própria o porquê de estar a ter aquela conversa com alguém que não conhecia, ao telefone.
- Fala-me das pessoas.
Ia protestar, recusar dizer fosse o que fosse, ia desligar, mas algo naquela voz a prendeu. Sentia naquele murmúrio algum desespero.
- Vejo o Segurança da loja aqui ao lado a olhar para as pernas de uma miúda que passa. Vejo um grupo de homens… que estranho, três deles levam acordeons, um leva um bombo, outro umas massas… vão vestidos normalmente, bem vestidos, quem serão, o que estarão aqui a fazer? – Pensava alto.
- Como é o olhar das pessoas?
- Distante. Cansado… parecem todas muito concentradas nelas próprias. Não procuram nada, sabem todas para onde vão. – Fez-se silêncio por alguns segundos. – Não vejo ninguém sozinho, mas parece-me ver solidão… vão todos absorvidos com as suas coisas, com as suas vidas. Ninguém quer saber, ninguém se preocupa.
- Estás a falar de ti…
Virou as costas à multidão que passava e procurou concentrar-se naquele estranho diálogo. – Agora diz-me tu o que vês.
- Nada, não vejo nada.
- Como assim, não vês nada?
- Há pouco mais de um ano sofri uma grave acidente de viação, fiquei muito mal tratada, sofri um forte traumatismo craniano e estive sete meses em coma. – Falava pausadamente, como que procurando as palavras. – Recuperei a consciência mas não a visão. Ceguei, não vejo. É por isso que peço o olhar emprestado.
- Eu não podia imaginar… - balbuciou.
- Não fiques assim. Sabes, também ainda não recuperei a mobilidade. Faço duas horas diárias de fisioterapia e o resto do tempo, passo-o deitada. Não me resta muito mais que ouvir música, digitar números de telefone ao calhas e pedir a quem me atende que me diga o que está a ver.
- Foi a maneira que encontraste de sair daí.
- Sim, é isso. Fico aqui a imaginar os sítios que me descrevem, as pessoas que passam, as pessoas com quem falo. A tentar perceber as entrelinhas do que dizem. Mas é muito difícil conseguir falar com alguém, a maioria desliga logo. Eu percebo, claro, se calhar fazia o mesmo.
- Achas que se diz muito nas entrelinhas?
- Acho que as pessoas profundas, como tu, não se conseguem exprimir com clareza são, muitas vezes, as entrelinhas. Quando se sentem incompreendidas, cobram isso das pessoas. Ao mesmo tempo que querem ser vistas, não se mostram totalmente.
Aquelas palavras tinham muito a ver consigo. Olhou por cima do ombro, não conseguia afastar a ideia de que estava a ser observada. De que aquela pessoa com quem falava a conhecia. Mas desligar já não era uma opção.
- Há pouco, disseste que eu estava a falar de mim. Tinhas razão, o cansaço que vejo nos outros é o meu, a solidão que vejo é a que sinto, o olhar distante não é das outras pessoas. Mas tudo isto é momentâneo, daqui a pouco já passou. Tem que passar. Há quem precise muito de mim, da minha força.
- Ele deixou-te sozinha. – A frase não saiu como uma interrogação, antes como uma certeza.
- Não, deixou-me com dois filhos! – Exclamou. – Que eu tinha mudado, que a nossa relação já não era a mesma, que não conseguia comunicar comigo, não me entendia… que eu estava muito concentrada nos filhos e não queria saber dele. Que agora ele tinha novas experiências para viver, novos interesses. Disse-me isto assim. Dá para acreditar? – Não esperou pela resposta. – O filho da mãe! Doze anos de relação…
- Seria que, no fundo, tu precisavas de continuar a ser descoberta e ele se fartou dessa procura?
- Há mal nisso? Eu não acho que haja. Ele nunca me disse nada, nunca! Se algo estava mal, porque não falou comigo?
- Deu cabo do teu mundo.
- Quero crer que da mesma maneira que o acidente deu cabo do teu…
- Sim, calculo que sim.
- É verdade… fez com que eu pusesse tudo em causa. Me pusesse em causa. Em boa medida, deixou-me sem nada em que acreditar acerca de mim. E eu preciso de algo em que acreditar.
- Sabes que és boa mãe.
- Sim, sou. Foi aos meus filhos que fui buscar forças para continuar. Precisamos de algo a que nos agarrar, não precisamos?
- Sem dúvida. Ambas temos que aprender a lidar com a mudança que ocorreu nas nossas vidas.
- Tens conseguido?
- Todos os dias um bocadinho. Vais ver que um dia nos vamos rir de tudo isto. Quando formos leves e transparentes.
- Tu não sabes mas eu vou dizer-te: transparente não sei se consigo ser, sempre fui muito opaca, mas leve quero acreditar que vou conseguir. – Ao dizer aquilo, não conseguiu evitar achar que, de alguma maneira, quem estava do outro lado sabia isso bem.
Pela primeira vez desde o divórcio tinha tocado na ferida que a trazia dorida. Na fonte da dor.
