segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Empresta-me o Teu Olhar (conclusão)

Um fio de voz fez-se ouvir do outro lado. – Diz-me o que vês.
Não conseguiu responder. Afastou o auscultador do ouvido e fitou-o. Olhou à sua volta. Ninguém parecia interessado nela. Ao encostar de novo o auscultador, ouviu de novo, diz-me o que vês.
- Quem fala?
- Por favor, não desligues. Diz-me o que vês. – A voz chegava-lhe em surdina, como se estivesse muito longe. Pareceu-lhe a voz de uma criança.
- Como assim, o que vejo?
- O que vês à tua volta, conta-me.
Olhou novamente em todas as direcções. Não viu nada suspeito.
- Isto é uma brincadeira, não é? Estás a falar de um telemóvel, aqui perto, a observar-me…
- Não, juro que não. Não sei sequer para onde estou a ligar. – A voz parecia-lhe agora um lamento.
- Estou confusa. Ajudava se me explicasses o que se está a passar.
- Eu só queria saber onde estás, o que está aí a acontecer, o que vês.
- Mas para quê, que interesse tem isso?
- Não tenho mais nada…
Pareceu-lhe ter alguém atrás de si. Virou-se instintivamente mas não havia ninguém, apenas o movimento habitual de pessoas indiferentes umas às outras. Indiferentes para com ela.
Sentiu um vazio no peito que lhe subiu pela garganta e se alojou no cérebro. Vou desmaiar, pensou. Apenas teve tempo de se apoiar com uma mão à parede.
- Não te vás embora. Diz-me o que vês. – Desta vez a voz saiu nítida, próxima. Foi como se a tivesse segurado.
- Estou num Centro Comercial. Num telefone público. Junto a um repuxo e a umas escadas rolantes. Lojas… muitas pessoas. – Perguntava a si própria o porquê de estar a ter aquela conversa com alguém que não conhecia, ao telefone.
- Fala-me das pessoas.
Ia protestar, recusar dizer fosse o que fosse, ia desligar, mas algo naquela voz a prendeu. Sentia naquele murmúrio algum desespero.
- Vejo o Segurança da loja aqui ao lado a olhar para as pernas de uma miúda que passa. Vejo um grupo de homens… que estranho, três deles levam acordeons, um leva um bombo, outro umas massas… vão vestidos normalmente, bem vestidos, quem serão, o que estarão aqui a fazer? – Pensava alto.
- Como é o olhar das pessoas?
- Distante. Cansado… parecem todas muito concentradas nelas próprias. Não procuram nada, sabem todas para onde vão. – Fez-se silêncio por alguns segundos. – Não vejo ninguém sozinho, mas parece-me ver solidão… vão todos absorvidos com as suas coisas, com as suas vidas. Ninguém quer saber, ninguém se preocupa.
- Estás a falar de ti…
Virou as costas à multidão que passava e procurou concentrar-se naquele estranho diálogo. – Agora diz-me tu o que vês.
- Nada, não vejo nada.
- Como assim, não vês nada?
- Há pouco mais de um ano sofri uma grave acidente de viação, fiquei muito mal tratada, sofri um forte traumatismo craniano e estive sete meses em coma. – Falava pausadamente, como que procurando as palavras. – Recuperei a consciência mas não a visão. Ceguei, não vejo. É por isso que peço o olhar emprestado.
- Eu não podia imaginar… - balbuciou.
- Não fiques assim. Sabes, também ainda não recuperei a mobilidade. Faço duas horas diárias de fisioterapia e o resto do tempo, passo-o deitada. Não me resta muito mais que ouvir música, digitar números de telefone ao calhas e pedir a quem me atende que me diga o que está a ver.
- Foi a maneira que encontraste de sair daí.
- Sim, é isso. Fico aqui a imaginar os sítios que me descrevem, as pessoas que passam, as pessoas com quem falo. A tentar perceber as entrelinhas do que dizem. Mas é muito difícil conseguir falar com alguém, a maioria desliga logo. Eu percebo, claro, se calhar fazia o mesmo.
- Achas que se diz muito nas entrelinhas?
- Acho que as pessoas profundas, como tu, não se conseguem exprimir com clareza são, muitas vezes, as entrelinhas. Quando se sentem incompreendidas, cobram isso das pessoas. Ao mesmo tempo que querem ser vistas, não se mostram totalmente.
Aquelas palavras tinham muito a ver consigo. Olhou por cima do ombro, não conseguia afastar a ideia de que estava a ser observada. De que aquela pessoa com quem falava a conhecia. Mas desligar já não era uma opção.
- Há pouco, disseste que eu estava a falar de mim. Tinhas razão, o cansaço que vejo nos outros é o meu, a solidão que vejo é a que sinto, o olhar distante não é das outras pessoas. Mas tudo isto é momentâneo, daqui a pouco já passou. Tem que passar. Há quem precise muito de mim, da minha força.
- Ele deixou-te sozinha. – A frase não saiu como uma interrogação, antes como uma certeza.
- Não, deixou-me com dois filhos! – Exclamou. – Que eu tinha mudado, que a nossa relação já não era a mesma, que não conseguia comunicar comigo, não me entendia… que eu estava muito concentrada nos filhos e não queria saber dele. Que agora ele tinha novas experiências para viver, novos interesses. Disse-me isto assim. Dá para acreditar? – Não esperou pela resposta. – O filho da mãe! Doze anos de relação…
- Seria que, no fundo, tu precisavas de continuar a ser descoberta e ele se fartou dessa procura?
- Há mal nisso? Eu não acho que haja. Ele nunca me disse nada, nunca! Se algo estava mal, porque não falou comigo?
- Deu cabo do teu mundo.
- Quero crer que da mesma maneira que o acidente deu cabo do teu…
- Sim, calculo que sim.
- É verdade… fez com que eu pusesse tudo em causa. Me pusesse em causa. Em boa medida, deixou-me sem nada em que acreditar acerca de mim. E eu preciso de algo em que acreditar.
- Sabes que és boa mãe.
- Sim, sou. Foi aos meus filhos que fui buscar forças para continuar. Precisamos de algo a que nos agarrar, não precisamos?
- Sem dúvida. Ambas temos que aprender a lidar com a mudança que ocorreu nas nossas vidas.
- Tens conseguido?
- Todos os dias um bocadinho. Vais ver que um dia nos vamos rir de tudo isto. Quando formos leves e transparentes.
- Tu não sabes mas eu vou dizer-te: transparente não sei se consigo ser, sempre fui muito opaca, mas leve quero acreditar que vou conseguir. – Ao dizer aquilo, não conseguiu evitar achar que, de alguma maneira, quem estava do outro lado sabia isso bem.

Pouco depois despediram-se. Desligaram sem mais nada saber uma da outra.

Pousou o auscultador mas não se mexeu durante algum tempo. Ao virar-se, viu o repuxo e duas crianças que apontavam para água. Tudo lhe parecia em câmera lenta.
Pela primeira vez desde o divórcio tinha tocado na ferida que a trazia dorida. Na fonte da dor.

Ao entrar no Continente sorriu. De facto, sentia-se mais leve.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Empresta-me o Teu Olhar (parte 1)

Sentia-se exausta. Depois de um dia de trabalho em que poucas coisas tinham corrido bem, ainda tinha que ir às compras.
Sentada no carro, ponderou pela décima vez na última hora se poderia passar sem as fazer. Não se sentia com cabeça para andar às voltas no hiper-mercado.
Lembrou-se do último pedaço de queijo, comido nessa manhã. O fiambre há muito que tinha terminado. Já só restava um resto de manteiga para pôr no pão. Ainda assim, ponderou se a manteiga daria até ao dia seguinte.
Só se convenceu que tinha mesmo de ir às compras quando se lembrou que a sopa para os miúdos também já tinha terminado há dois dias, que não tinha legumes para fazer outra e que, depois de hambúrgueres e pizzas comidos fora, ela e os filhos mereciam uma refeição caseira.
Suspirou e sentiu as forças abandonarem-na quando percebeu que, depois das compras, ainda tinha que preparar o jantar. Tinha saído mais cedo do emprego para tentar descansar um pouco, mas ainda não ia ser nessa noite.

Estava na zona azul do parque de estacionamento do Centro Comercial Colombo. Apesar de não ser ali que fazia as compras habituais, ia ao Continente para aproveitar um talão de desconto, gentilmente oferecido numa gasolineira. Sanguessugas, pensou ela enquanto memorizava o local onde tinha estacionado. Já não era a primeira vez que ali se perdia.
Tinha tido um dia péssimo. Subia as escadas rolantes e fazia um resumo mental do que tinha acontecido. Não conseguiu lembrar-se de nada positivo. Aliás, acabava de se lembrar de mais uma coisa que tinha corrido mal: a zona azul do estacionamento ficava longe do Continente e, com acesso por escadas rolantes, só poderia levar o carro das compras até onde tinha estacionado se fosse dar uma volta que desconhecia e que, calculava, deveria ser enorme. Teria de resumir as compras ao essencial, algo que pudesse carregar… e teria de voltar em breve às compras.

Ao sair das escadas rolantes sentiu uma tontura e quase caía, não fosse um velhote que vinha atrás dela a ampará-la.
- Você está bem?
- Sim, obrigado, agora estou – respondeu. Mais uma queda de tensão, pensou. Nas últimas semanas era a terceira vez que lhe acontecia. Não podia continuar a ignorar. Ficar doente não era uma opção, mas tinha que ir ffalar com o médico da sua empresa sobre estas tonturas que começavam a ser recorrentes.
Sentou-se no bordo do repuxo que fica em frente às escadas rolantes. Precisava recuperar a totalidade da consciência.
Ali sentada podia ver o intenso movimento junto à entrada do Continente. Mais uma vez, ponderou o adiamento das compras. Não posso, agora que aqui estou, tenho mesmo que ir, pensou para si. Fechou os olhos e o som da água que corria no repuxo parece acalmá-la.
Pensou em férias na praia, viu-se deitada numa espreguiçadeira debaixo de uma palmeira, diante de si, um mar azul-turquesa. Sentia a areia branca, finíssima, nos seus pés.
E depois ouviu um telefone a tocar, ao longe. Telefone, não… férias… O som de um jacto de água lançado a grande pressão na direcção do tecto do Centro comercial, fê-la abrir os olhos. Tinha passado por um estado de vigília, quase tinha adormecido. Olhou em redor e viu um mar azul-turquesa, muitas palmeiras e um casal de mão dada que passeava à beira mar.
Tudo isto se passava num enorme televisor que estava em exposição na entrada da Worten. Passou as mãos pelo rosto. Precisava voltar rapidamente à realidade.
E então, ouviu novamente o telefone. Olhou para a sua mala, mas o telemóvel não era. Estarei ainda a sonhar? Outro toque. Apurou os sentidos e aguardou que tocasse novamente.
Apesar do ruído e do muito movimento à sua volta, conseguiu perceber de onde vinha o som, era de um dos telefones públicos que ficavam junto às escadas rolantes.
Continuava a tocar, perante a indiferença de quem passava. Serei a única pessoa a ouvir? Levantou-se e aproximou-se do telefone. Precisava ter a certeza.
Tocou de novo e assustou-se, deu um passo atrás e olhou à sua volta. Ninguém parecia interessado nela ou no telefone. Deu por si a pensar se aquela chamada seria para si. Que estupidez… mas se tocar novamente, atendo.
Trimmmmmmmmmm. Fixou o olhar no auscultador durante breves segundos e levantou-o.
- Estou?

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Aquela Coisa dos Cinco Hábitos Estranhos

Desafiado recentemente pela M.M do Arte & Lingua e, ainda hoje, pela Ana das Laliscadas, a não quebrar a corrente que assola o universo bloguistico nacional – arriscando-me a sofrer inenarráveis tragédias -, achei por bem participar no relato de alguns hábitos estranhos que eu tenho (não que eu acredite nisso, que esse hábito estranho não tenho eu). Aqui vai disto:


1 – Tenho o estranho hábito de guardar os bilhetes de cinema dos filmes a que assisto. Sei que muita gente guarda os bilhetes dos concertos, e esses eu também guardo, mas também fico com os dos filmes que vou ver.
Não é coisa de agora, o mais antigo que conservo é do Natal de 1984, do já defunto Cine Plaza – hoje conhecido com Recreios da Amadora, recuperado que foi de um mais ou menos longo período de abandono; ocasionalmente passa, outra vez, filmes.

O filme, esse, é de culto (!?), “Conan, o Bárbaro”, com o Arnold Schwarzenegger em início de carreira. Lembro-me que fui com o meu primo Tó e de ele, após o final do filme, ter ficado a pensar o que havia de fazer comigo… sendo eu uns anos mais novo que ele. Custou 100$ o bilhete.

São, portanto, 21 anos a juntar bilhetes. Muitos dos cinemas já não existem: Éden, Odeon, Condes, Politeama (nessas funções), Roxy, Alvalade, Alfa, Nimas e mais alguns. Todos locais que só cumpriam essa função, ao contrário de hoje em que ou se está no centro comercial ou se está tramado.

Também os próprios bilhetes mudaram muito. Se antes os havia impressos para cada sessão de cada dia, hoje, o bilhete é impresso no momento, com o nome do filme (muitas vezes abreviado) e sem lugar marcado. É um tipo de bilhete que deu cabo da minha colecção, visto a impressão e o papel serem reles e, ao fim de um tempo, já pouco ou nada se notar. Tenho pena.

2 – Tenho o estranho hábito de fazer caretas quando fotografo. Nas fotos em que apareço é certo e sabido que fico sempre com um ar estranho. É coisa de que não gosto, ficar nas fotografias. Mas só recentemente percebi que também quando estou atrás da câmera faço as mais estranhas caretas.

Sempre deve ter sido assim, mas ao ver há pouco tempo algumas fotos que me tiraram enquanto eu fotografava, é que percebi a dimensão da coisa. Lá estou eu, de taxa arreganhada, com um esgar que mais parece de dor.

Agora, dou por mim com mais essa preocupação, não bastava o enquadramento, a exposição, a obturação e afins, tenho que me preocupar em não fazer figuras tristes. É necessária muita concentração, acabo por me distrair e surpreendo-me muitas vezes a fazer as tais caretas.

3 – Tenho o estranho hábito de ler livros. E revistas também – disse isto assim só para provocar, porque estranho mesmo é andar pelas livrarias a folhear os livros e ter o hábito de ler os primeiros parágrafos.

E isto mesmo dos livros que não me interessam nada. Não consigo resistir a saber como é que começa, por exemplo, um livro como o da Alexandra Solnado, “Este Jesus Cristo Que Vos Fala”, em que se relatam as conversas tidas entra a autora e Jesus. Deve ter a ver com aquele famoso sentimento conhecido como síndrome da página em branco, aquele algo inatingível e inexplicável que não nos deixa escrever, nem sequer começar. No fundo, tenho curiosidade em saber como é que os outros resolveram essa questão, a do inicio.

4 – Tenho o estranho hábito de andar a pé. Saio de casa – da cama – com o único propósito de andar! É verdade, vou andar, sem destino, às voltas. E sempre a um passo razoável, não propriamente de passeio.

Como dizem que faz bem à saúde e eu até sou um bocado hiper-tenso, eu lá vou. Aos fins-de-semana, cedo, vou andar para os poucos locais onde isso se pode fazer com alguma tranquilidade em Lisboa. Durante a semana é mais complicado, mas aproveito as horas de almoço para dar uma volta ao quarteirão.

Às sexta, como fico liberto dos compromissos laborais às 15h00, aproveito para andar um pouco pela cidade: vou ver montras para a Av. De Roma, Praça de Londres e Rua Guerra Junqueiro. Gosto de observar as novas tendências da moda – imprescindível deitar um olhar à montra da Fátima Lopes -, gosto de observar com quem me cruzo, de procurar umas fotos.

5 – Tenho o estranho hábito de escrever muito e falar pouco. Por exemplo, se me tivessem pedido oralmente para eu falar de cinco hábitos estranhos, tinha despachado a coisa em menos de um fósforo, mas como é por escrito, acabo sempre por inventar uma série de coisas desnecessárias – até do meu primo Tó eu já aqui falei!

Já li vários blogs onde consta esta coisa dos cinco hábitos e, em todos, as pessoas limitaram-se a algumas linhas, pronto, já está… mas eu não, tenho que me alongar sempre. Alguns de vocês já sabem disso, basta ler alguns dos meus posts anteriores, que são extensos demais para o nível de atenção com que se lê blogs.

O que talvez não saibam é que o que é publicado, muitas vezes, é uma versão condensada de textos mais longos.

6 – Tenho o estranho hábito de ser distraído. Ai esperem, são só cinco, já está, já chega. Sorte a vossa.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Assunto: Um Pedido

De: Diogo Melo [diogo.m@***.pt] Enviada: qui 01-02-2006 10:52

Para: Artur.Valença@*****.pt

Cc:

Assunto: Um pedido.

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Artur,

Imagino que ao veres o meu nome na pasta dos mails recebidos, deves ter sentido um calafrio. Só podem ser chatices, pensaste tu.
Como não sou pessoa de defraudar expectativas, fica sabendo que sim, são chatices. Tu desculpa-me isto mas, não sendo nós sequer os melhores amigos nem tendo grande intimidade, não consigo lembrar-me de melhor pessoa a quem recorrer, com quem desabafar um pouco. Preciso da tua calma analítica, do teu conselho ponderado. Nunca te disse isto, mas aprecio a tua opinião.
Ainda pensei em nos encontrarmos, mas percebi que não seria capaz de falar tão bem quanto sou capaz de escrever. Ia, automaticamente, defender-me, procurar palavras menos dramáticas, no fundo, não ia dizer aquilo que quero, que preciso, pelo menos não tão cruamente, tão abertamente. E neste momento o que eu preciso é de ser sincero e absolutamente franco.

Muito estranho isto, não achas? O senso comum diria que falar seria o ideal para se dizer o que realmente nos vai na alma, que a escrita, por ser mais pensada, seria óptima para disfarçar, para nos escondermos nas entrelinhas.
Comigo é ao contrário. Se eu puder pensar, reflectir sobre aquilo que quero realmente dizer, sai-me a verdade, mostro-me tal qual sou. Acho que isto é assim porque, ao longo dos anos, consegui desenvolver uma técnica que me tornou um tangas. Não é à toa que sou um bom Comercial.
Como vendedor vou directo ao assunto, não perco tempo nem faço os clientes perderem – é algo que muito apreciam. Se estivéssemos a falar, já tinha feito um resumo rápido – portanto, resumido demais – do que me tinha feito falar contigo. Por escrito não, aqui consigo fazer introduções, preparar o terreno com explicações prévias, fazer apartes.

E aqui chego ao que me levou a escrever-te. Até há bem pouco tempo eu não era apartes, introduções e explicações prévias. Como que descobri um novo eu e tenho-me assustado.

Começou tudo há não muito tempo, quando a Joana me disse que estava farta. Que eu parecia mais ausente de dia para dia, cada vez mais desprovido de sentimentos. Que ela se sentia uma cliente e não minha mulher. Que eu estava irreconhecível e que o nosso casamento já não era o mesmo do inicio. Assim, sem mais nem menos.
Foi como se tivesse levado uns murros no estômago. Nem sei de onde eles vieram, fui apanhado desprevenido. Um autentico choque para mim. A minha primeira reacção foi não querer saber, achar que era mais uma das coisas dela.
Preparava-me para não lhe ligar, como faço habitualmente. Ela fala, queixa-se, barafusta e eu vou acenando com a cabeça mas sem a estar a ouvir. Desde que ela não se ponha à frente da televisão, para mim é só ruído de fundo. “Toma um Xanax que isso passa”, digo-lhe eu às vezes. Ela fica danada, até deita fumo, mas é o suficiente para se calar.
Uma besta, eu sei.

Desta vez não, vi-lhe no olhar, na expressão, que era diferente. Não era a Joana dos outros amuos, se alguma vez ela tinha falado a sério, era desta vez.
Na altura a coisa ficou por ali mas nunca mais deixei de pensar nisso, nas causas de tudo aquilo. Se eu teria mudado assim tanto.
As conclusões a que tenho chegado têm-me deixado assustado e triste; não fosse uma pequena esperança que possa estar enganado, e já tinha entrado em séria depressão – preciso que me digas com toda a sinceridade se, daquilo que me conheces, que nos conheces, o que achas e o que devo fazer.

Digo isto porque acho que não mudei assim tanto e, ao mesmo tempo, a Joana tem razão. Tenho sido um egoísta que não tem conseguido ver para além de si. Dei como garantidas uma série de coisas e não me preocupei mais com isso. Pelos vistos, isto das relações implica um recomeço constante, uma reconquista quase diária da outra parte. Um esforço que não fiz porque não sabia que era necessário.
Na verdade, e isto é terrível, não sei se a amo. Pior, não sei se alguma vez amei algo ou alguém! Não sei sequer o que é isso de amar.
Um dado tenho por adquirido: não a soube amar.

O que é amar, sabes me dizer? Como se identifica o amor?

Quase a fazer 40 anos, dou por mim a debater-me pela primeira vez com estas questões. E isso não é normal, se nunca foram temas importantes para mim, porquê agora? Será isto a famosa crise de meia-idade?
De um momento para o outro, vejo-me a olhar para dentro, à procura do meu mecanismo de funcionamento, preocupado em saber como se mexem as engrenagens que fazem de mim aquilo que sou. E assusto-me. Mais ainda quando percebo que sou portador do não resolvido, de incertezas.
Eu não era assim. Este tipo de interrogações sim, são em mim uma mudança, não o que levou a Joana a confrontar-me. É que, até recentemente, só havia questões simples com respostas simples, dúvidas de solução fácil.
Agora surpreendo-me a pensar na vida. Na minha vida! Pela primeira vez, também, tenho medo.

Ela fez as malas e saiu de casa, foi viver com uma amiga – não conheces. Diz-me que gosta de mim, mas que gosta mais dela. Que eu preciso pensar e que me dá um tempo.
Sei que o tempo é curto mas não sei o que fazer. Ajuda-me.

Um abraço.

Diogo.

PS – Ao reler o texto vejo que no início escrevi que não gosto de defraudar as expectativas. Podia ter apagado, mas não, a ironia reflecte bem a pessoa que eu tenho sido.

sexta-feira, janeiro 27, 2006

Post 55

Depois de Plan 9 From Outer Space, da Area 51, do Códice 632 e do Envelope 9, chegou o Post 55.

“Mas o que será isso”?, perguntam vocês. Pois bem, o Post 55 não é mais que o fruto da minha pouca inspiração e debilitada disponibilidade mental para textos minimamente interessantes.
Tenho resistido a escrever sobre as presidenciais, as escutas, a governação socrática, sobre o sr. Nuno e o Veiga, mas não consegui resistir a fazer um balanço da minha actividade blogueira. É isso o Post 55.

Ainda está aí alguém?
Como não tenho mesmo nada melhor para fazer, vou continuar.

Estava eu aqui sossegado a apertar os parietais, tentando assim forçar as sinapses, na esperança que brotasse texto, quando, a meio de um bocejo, reparo que tinha publicado 54 textos. Sendo 4 deles parentes do Post Scriptum, 50 eram textos a valer, frutos do meu pomar cerebral.
Bocejo suspenso, súbita incandescência da lâmpada de 15W que me ilumina as ideias – foi tal o sentimento que me avassalou que até a bola de espelhos que se me suspende da caixa craneana, começou a rodar. 50 posts… tinha tido uma ideia: é tempo de balanço!!

Na verdade, não se trata de balanço nenhum. É apenas uma reflexão sem jeito nenhum para não estar muito tempo sem publicar.

Lembrei-me de uma conversa que tive há poucos dias, em que me queixava de, no início, não ter divulgado o blog; de durante muito tempo apenas meia dúzia de pessoas o conhecerem. Que assim os primeiros textos tinham sido lido por muito poucas pessoas – ah, vaidade que me atraiçoas.
Recomendaram-me que os publicasse de novo, mas isso não sou capaz de fazer, não faria o mínimo sentido. No entanto, e visto que se assinalam os 50 textos, lembrei-me de deixar aqui um link para o primeiro texto, para o inicio de tudo: chama-se “O Último Comboio” – está dividido em várias partes mas acho que até se lê rapidamente (parte I, parte II, epilogo).

Não posso deixar de repetir aqui algo que já escrevi antes: eu misturo muito realidade e ficção, tenham isso em conta.
Dito isto, quero agradecer a quem me deu os parabéns pelos 23 anos e dizer-lhes que só faço anos lá pelo calor e que os 23 já lá vão há um tempo.
É por estas e por outras que eu não publiquei um texto sobre um ribatejano, marialva dos quatro costados, macho latino típico, campino orgulhoso, que se envolve com outro campino – este grande dançarino de fandango e toureiro de renome na aldeia – numa relação homossexual tórrida em plena lezíria.
Como tinha sido escrita na primeira pessoa, ainda iam achar que eu gostava de tourada!
Entretanto estreou o “Brokeback Mountain”, o filme sobre dois cowboys gay, e o texto perdeu actualidade.

Pois é, isto anda mal para estes lados. Vamos lá ver se dá para mais 50 posts.

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Me and Johnnie

“Parabéns a você, nesta data querida…”

Os versos ecoam na minha cabeça. Não consigo deixar de pensar na ironia: “nesta data querida”… nada mais errado. Hoje é o dia do meu aniversário e tem sido o dia mais triste da minha vida!
Felizmente está a terminar, mais uns minutos e já é amanhã. Pode então começar o processo de cura, de recuperação desta maldita depressão.

Estou sozinho. Longe de casa, longe da família, dos amigos – dos poucos que tenho. Na verdade, isto não é inteiramente assim, sem o meu fiel companheiro Johnnie Walker não teria chegado aqui.

(Peço desde já desculpa por qualquer coisa, é que o Johnnie ajuda a passar o tempo mas dificulta muito acertar nas teclas certas).

Não tenham pena de mim, se há coisa que eu detesto é perceber que alguém sente pena de mim.
Estou aqui por opção própria, ninguém me obrigou. Também não culpa de ninguém que eu não tenha dito aqui aos meus conhecidos que hoje fazia anos. Como é que eu posso ficar magopado com eles por não me terem dado os parabéns, se ninguém sabe?
Sou uma besta difícil de entender e supurtar. Tenho este orgulho – ou lá o que é -, n~ão digo nada a ninguém e depois venho para o computador aliviar a tristeza, a solidão que sinto… sentir pena de mim próprio ah pois é. Como se isso fosse possível. Sou mesmo um triste, só tenho o que mereçºo.

(Alguém me sabe dizer se hà problema em entornar whyski em cima do teclado?)

Sai, fui aos locais habituais em busca dos (poucos) conhecidos que aqui fiz Acho que marrependi de não ter dito nada. Ia por o meu melhor sorriso, dar uma palmada nas costas deles, oferecer uma rodada e anunciar “hoje faço 23 anos, pá weeeeeeeeeeeeeeeeeeeee
Mas nada,, ninguém, corri todos os locais habituais – e os outros, para ser francxo – em vào. Não vi ninguém.
O problema, se calhar, foi ter visto imensa jente: logo calha ser hoje o dia da festa anual aqui da terra Anda tudo na farra, a divertir-se… e eu aqui na merda. Abençoado santo que não deixa que nada de mal aconteça a estas maravilhosas pesoas que aqui moram que são simpáticas como já não se fasem em lado nenum do mundo…e dos arredores tambem
Anda cá Jonnie, só tu me compreendes.

A feira estava animada, muita luz, muito barulho, muita gente, muitos sorrisos… tanta tristeza, tanta solidão… tantá alccol.

(o uisky deixa nódoa na roupa? Lá se vai o pólo da river hoods sim que hoje vestime todo catita para ir a rua comer uma fatura cós amigos do peitu)

onde estariam eles, cambada de desgraçados? Dei umas quantas voltas pela localidade e nada já tava a ficar tonto com tanta volta. Sentei-me nos degraus do pelourinho, à espe ra que alguém passasse quand o achei que nos poderíamos estar a desencontrar, mas nada nem a porrea da dor de caneçaa paçou
estou a tornar-me amargo, muito amargo e fiz hoje 23 anos. Sinto as entranhas a serem corroídas pelo fel e a cabelça pezada feita num oitue já nem esto a ver a direitu
por falar em amargo, vamos lá afogar esta treta mais um boucado.

ois meus pais ligaram-me ee o meu irmão também essas nunca se esuqcem, eu gosti muito deles Mais ninguém se lembrou
É bem feito, desde que ma lembro que sou gente que paso a vida a dizer que não ligo aos aniversário,s que na quero saber diso para nmada. Só tenho o que mereço.
nâo tenho é que depois, me sentir assim… e sempre me senti assim, sempra pá, neta altura do ano9i é sempre o mesmo este ano só está é a ser um pouco pior mai nada.
Mas acabous, acaba aqui, vou imprimir este texto e mandarr a toda a gente que conheço por carta, á antiga: eis-me em todo o meu te rível e obescuro esplendor, apreciem a tristesa, o azzedome, a solidao. Este é que sou eu. O pra mim aqui
V~am ver se não fasso isso

e este filho da puta que n tem outra nonme do meu vizilho do lado que n para de ouvir Bom Jovi em altos berros??
cala-teeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee cabrao

eu agora tame a abetecver falar com dues quese deve tar a divertir mas na lje vou dar esse prser

um dia tã~o triste e ^é meu não devia ewxistir um dia assim jamais o vou esquece r mas n o quero recordar só qero que passse
hoje quase n me consegu i suportar eestou farto de mim
acho que ma lembra de algem me ter ditoumacerta vez que os piores momentos sao aqules em que se perde alguem discordo!!!11111 nao á nada pior do que nao ter ningue m para perde,r percebi isso hoge á minha custa quando me vi taop fundo que ja nem cair podia

~´e um dia q cvou agradecer ter subrevivido… esperooe agora vsu choraer

sao onse e quase meiaanoittttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttt

quarta-feira, janeiro 18, 2006

A Cena Seguinte

Perseguidos, correm pelas rochas, junto ao mar. Passam por uma espécie de gruta e conseguem, finalmente, alcançar os botes. O som atrás deles aproxima-se e é assustador. Sabendo o que os persegue, o receio de serem apanhados enche-lhes o coração de terror.
Ela é a única que sente o que se passa de maneira diferente. Sabe algo que os restantes desconhecem, é que esteve com ele, conhece-o um pouco melhor. Sabe que apenas a quer a ela e pondera sacrificar-se pelo grupo.
Nem todos conseguem chegar aos botes, mas para alguns parece haver esperança quando, no último minuto, ele ali está, imenso, brutal. Estão condenados. Emite sons que são de vitória, também ele sabe que conseguiu o que queria.
Será mesmo assim? Nós sabemos que não, mas é suposto estarmos agarrados pelo suspense da cena.
Num gesto desesperado e derradeiro, Carl Denham arremessa o frasco de clorofórmio contra a besta. Sucesso, mesmo em cheio, junto ao nariz. O animal ergue-se, emite agora sons desesperados, terá percebido a derrota. Em pouco tempo jaz no chão, inanimado. O grupo estava salvo.
Ela não conseguiu esconder alguma tristeza, tinha pena dele, apesar de tudo. Ninguém no grupo percebeu isso, só a nós foi mostrado.

Na semana passada consegui ir ao cinema, esse ritual de outros tempos posto de lado devido a circunstâncias várias.
Fui ver o filme do macaco, o “King Kong”.
Uma das razões que me levou a ir ver o filme foi o argumento. Tendo este péssimo hábito de escrever alguma ficção, a questão do argumento – que sempre foi importante para mim -, assumiu uma importância ainda maior. Estou sempre bastante atento à maneira como a história é contada, como é que as ideias/situações se encaixam e fazem avançar a história.
Naquilo que escrevo perco algum tempo à procura da melhor maneira de tudo se encaixar: as acções, as ideias, as personagens. E desespero um pouco quando elas se complicam.
Ora no filme do macaco eu tinha alguma curiosidade em ver como iriam ser resolvidos alguns problemas práticos que eram fáceis de antever. Desde logo como é que, com tecnologia do início do século XX, conseguiriam os nossos intrépidos heróis içar um bicho daquele tamanho para o barco… e transportá-lo sossegado durante várias semanas até Nova Iorque.
Eu dou de barato a existência de macacões enormes, dinossauros, baratas gigantes, aranhiços descomunais, etc, apenas tinha curiosidade em saber como é que esta fauna incaracterística interage entre eles e, especialmente, com os humanos civilizados.

Flashback. Está o Kong cloroformizado nos rochedos à beira mar, suspiram os nossos exploradores de alivio e eu, ansioso, quase me levanto, “e agora, como é que o põem no navio”?
Muda a cena e o macaco já está num palco teatral de Times Square, NY!! – já agora, como é que entrou tão grande criatura no teatro?, pela porta das traseiras não deve ter sido.
Ou seja, isso não interessa nada. Eu é que sou parvo em me preocupar com isso. Até por escrever umas coisas, devia ser o primeiro a saber que esses detalhes são isso mesmo: detalhes! Coisas sem importância em algo muito maior, que é toda a história.

Dava jeito que a vida fosse como nos filmes que, nos momentos difíceis do guião, pudéssemos passar para a cena seguinte, aquela em que tudo já está resolvido e o drama passou.
Recentemente, à minha pergunta de como iam as coisas, alguém me respondeu “está tudo na mesma, as mesmas chatices de sempre… estou à espera que passem”. Num primeiro momento, estive quase para responder que tinha sérias dúvidas sobre a bondade dessa atitude; que quem muito espera, desespera; que varrer para debaixo do tapete não resolve nada, apenas esconde por um tempo a situação e que, quando o problema se voltar a manifestar (porque volta sempre), será muito pior lidar com ele. Estive quase para dizer que há que enfrentar as situações, confrontar os problemas, confrontar quem gostamos, nós próprios se for necessário; que temos que falar sobre o que nos vai cá por dentro.
Em devido tempo todo esse discurso me soou a uma sucessão ineficaz de frases feitas e lugares comuns. Falar é fácil e calei-me.
Acho que foi também por me ter lembrado da imagem do macaco anestesiado junto à rebentação e, logo de seguida, amarrado no teatro. É que, pensando bem, pode mesmo ser que, para esta pessoa que espera, a cena seguinte seja já uma em que tudo se tenha resolvido e não haja necessidade de nos preocuparmos com nada.
Apesar de não ser filme, de se tratar das nossas vidas.

PS - Refuto o parágrafo em que digo que os detalhes não me interessam. Não há volta a dar, dou-lhes mesmo importância, acho que deviam ter perdido tempo a pensar em como é que metiam o macaco no navio e, depois, dentro do teatro. Defeito meu.

segunda-feira, janeiro 16, 2006

O Erro Do Meu Erro

Ainda a propósito do meu último texto. Algumas pessoas apontaram um erro ao meu erro: que a associação do nome da localidade de nascimento de Leonardo estava de tal interiorizada pelas pessoas, que já não há como uma coisa não signifique a outra e, portanto, é perfeitamente aceitável que o livro do Dan Brown se chame “O Código Da Vinci”.

É, também, para mim evidente que sim, que têm razão. Não me passa pela cabeça que haja quem não saiba de quem se esteja a falar com aquele título, que se está a falar de uma pessoa e não de um local e que essa pessoa seja Leonardo – apesar do título não ser “O Código de Da Vinci”.

Eu usei esse exemplo precisamente por isso!
Entendendo eu que, do ponto de vista estritamente literal, existe um erro – e talvez erro não seja o termo mais adequado, apenas o usei na falta de melhor termo -, muito poucas pessoas pensa nisso exactamente por o nome da localidade e o da pessoa estarem enraizadamente associados.
O objectivo do texto era fazer um paralelismo dessa situação com as nossas vidas: haver coisas – comportamentos, opiniões, maneiras de ser, de pensar, filiações, etc -, que, por estarem de tal maneira interiorizadas em nós, deixaram de ser questionadas, tornaram-se dogmas. E isto, desde logo, porque muitas vezes já nem damos por elas… um pouco como quando vamos a conduzir não necessitarmos de racionalizar que antes de meter uma mudança, temos de pisar o pedal da embraiagem.
(Possivelmente, resume-se tudo à minha dificuldade em lidar com dogmas e fundamentalismos e achar que, antes de lidarmos com os que nos tentam impor, devíamos lidar com os auto-infligidos).

Não terá sido o melhor exemplo e não terei conseguido explicar o meu ponto de vista, por isso esta tentativa de concretizar um pouco melhor a ideia que estava por detrás do texto anterior.

Agradeço, mais uma vez, a todos as vossas opiniões.

terça-feira, janeiro 10, 2006

O Erro de Exeter, New Hampshire

Numa noite fria de Outubro de 1999, estava eu à procura de metades de amendoim numa tigela cheia de sal e fava-rica, no bar do costume, quando chega o Hugo.

Não sei se se recordam, mas em 1999 vivia-se a febre da (suposta) passagem do milénio: o Y2K aterrorizava as almas, era a electricidade que ia faltar, os computadores que iam deixar de computar… o caos ao virar do ano. Para os mais crédulos, a profecia do fim do mundo ia cumprir-se, os sinais estavam todos lá.

- Pessoal, vocês sabem que eu não sou crente nem crédulo, mas fiquei esta manhã a saber de uma coisa que me deixou perturbado – diz o Hugo com ar sério e nervoso. – Então não é que a passagem de ano vai calhar a uma sexta-feira 13? Depois de saber isto já não sei se no que acreditar.
Todos achámos um tremendo disparate, mas ninguém percebeu. Ficámos boa parte da noite a desancar nas teorias absurdas de que o mundo ia acabar, até porque, na verdade, a passagem do milénio seria só no ano seguinte.
O Hugo agora já não parecia preocupado, apenas bastante divertido. Umas três cervejas depois, tossicou, fez uma pose e disse: - Eu tenho-os ouvido com atenção mas há uma coisa que eu ainda não percebi: como é que a passagem de ano vai acontecer no dia 13…
Silêncio. Os presentes naquela mesa entrecruzam olhares durante vários segundos. Depois, a galhofa geral e o reconhecimento de que tínhamos sido uns otários.
Contada com o devido ar sério e com a entoação correcta, aquela estória enganou muita gente.

O titulo deste post é outro exemplo de como certas coisas nos escapam. Vou tentar explicar: ele está relacionado com o Dan Brown, autor d’ “O Código Da Vinci”. É que também o título desse livro lido por milhões de pessoas, contém um erro tão evidente que a maioria dos leitores não dá por isso.
O nome do livro remete para uma pessoa: Leonardo da Vinci. Só que o nome do senhor, como era frequente na altura, significa Leonardo DE Vinci, sendo que Vinci é a localidade onde ele nasceu e não um nome de família, um apelido que o distinguisse, por assim dizer, de outras famílias.

Ou seja, o nome do livro remete para uma pessoa mas de uma forma errada. Era o mesmo que dizer que se o livro tivesse sido escrito sobre alguém conhecido como o Fanã da Baixa da Banheira, se chamaria “O Código da Baixa da Banheira”. O que remetia para o local e não para a pessoa - Exeter é o local onde o Dan Brown nasceu.

Isto tudo para simplesmente dizer que, muitas vezes, quando as coisas são demasiado óbvias, não as vemos, escapam-se por entre os nossos dedos como areia fina.
Da mesma maneira, temos tendência para não questionar certas coisas só porque elas sempre foram assim ou são assim há muito tempo.
E isto também sobre nós próprios. Não devíamos vir programados para, tal como os automóveis, fazermos uma revisão periódica de quem somos, do que queremos? Questionarmo-nos a nós próprios - sem, evidentemente, nos colocarmos em causa?

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Mudar

O pai de um amigo meu fumava imenso e, à pergunta do porquê de não parar, respondia sempre que o seu organismo estava de tal modo dependente da nicotina que já não conseguia passar sem ela; mais, não encontrava nele a força de vontade necessária para conseguir deixar o tabaco. Já tinha tentado algumas vezes mas falhava sempre ao fim de pouco tempo.

Um dia teve um enfarte agudo do miocárdio e escapou por pouco, por muito pouco. Segundo o médico, foi uma segunda chance, como que nasceu de novo. Foi também avisado: o próximo cigarro seria o último.
Nunca mais fumou. Nesse dia percebeu com particular clareza o quanto queria viver.
O tal corpo que já não vivia sem nicotina, a tal força de vontade que lhe faltava, não significavam agora nada. Confrontado com a morte, foi fácil fazer aquilo que há bem pouco tempo lhe parecia impossível.

Pergunto: que necessidade é esta de sermos confrontados com algo definitivo para, finalmente, fazermos aquilo que até já sabíamos que devia ser feito?
O que é preciso para mudar-mos?

Por vezes, é preciso perdermos algo importante para que haja, dentro de nós, um impulso definitivo que nos leve a agir - talvez porque só tenhamos real consciência do que tínhamos quando o perdemos.
Talvez porque só aprendemos realmente à nossa custa, perante a factura que nos vêm cobrar.
Casa roubada, trancas na porta.

(O perigo de generalização existe, mas é assumido).

Na segunda-feira passada de manhã, conduzi a 130 Km/h na Segunda Circular, por entre o habitual trânsito intenso.
Tenho perfeita consciência do disparate, de que bastava um pequeno acaso – daqueles em que a vida é fértil -, para que algo de consequências potencialmente graves tivesse acontecido. E de que, caso algo tivesse mesmo acontecido, iria pensar muitas vezes que se pudesse voltar atrás…
Então porque não evitar antes que aconteça? Porque não prevenir?
Vem-me à ideia a natureza humana, mas disso eu percebo pouco, sei apenas que não o devia fazer, mas também sei que se amanhã o trânsito permitir, corro o risco de o fazer de novo.

Vou ser optimista (!!!): o primeiro passo para que se mude, penso ser o ter consciência da coisa – e esse está dado; o segundo, talvez seja ter consciência da coisa no momento em que estamos a fazer algo que sabemos ser realmente errado – sim, tudo bem; por último, seria conseguir evitar fazê-lo – a tal força de vontade em acção…e é aí que tudo se complica.
Simplista? É bem possível.

Este tipo de situações serão, ainda assim, mais fáceis de racionalizar, de nos deixar vislumbrar um modo de actuar, uma maneira de iniciar uma mudança. Quer-me parecer que, no que diz respeito às relações entre pessoas, as coisas são mais complicadas.

Quando, a determinada altura de uma relação amorosa, se percebe que algo não está bem, pura e simplesmente não paramos para analisar as coisas friamente, “hmmmm, isto não está bem, vamos lá mudar o que é necessário mudar”.
São muitas as coisas envolvidas, as dúvidas, as incertezas, os prós, os contras – há quem prefira até anular-se, de alguma maneira, a despoletar um conflito… vão recolhendo à sua concha.
O mesmo se passa nas relações sociais, profissionais e de amizade, em que impera um certo egoísmo/ego centrismo.

O que é, então, preciso para mudar-mos? O que é que nos dá a coragem necessária? Que acontecimento definitivo pode haver numa relação que nos faça tomar uma atitude?

quarta-feira, dezembro 28, 2005

Final de Ano

Fique desde já o(a) leitor(a) ciente que este post está crivado de apartes.

Esta manhã alguém me disse: “mais um ano, hein”? referindo-se ao facto de mais um ano estar a terminar.
Sorri e, encolhendo os ombros, disse que sim. Não fui capaz de dizer mais nada mas fiquei a pensar para comigo que, fosse ele pessimista como eu, teria dito de outra forma: “menos um ano, hein”?
É como a história da garrafa estar meio cheia ou meio vazia. Se é verdade que mais um ano passou, também o é que menos um ano falta para ser desfrutado.

Mas descanse o(a) amável leitor(a) que este post não é para o(a) deixar melancólico ou triste. Para stress e sentimento de angústia, já chegou o Natal – sim, que há quem ache o Natal stressante e angustiante.
Nada disso, este post serve para manifestar alguma incompreensão para com a celebração da passagem de ano – descansem que não é para fazer nenhum balanço do meu ano… se bem que lá para o final, desconfio que não resista a um ligeiro abano.

Se pensarmos bem, esta ocasião que se aproxima – a passagem de ano -, é das poucas celebrações verdadeiramente universais, que todo o planeta celebra. Cada qual à sua hora, é certo, mas todos a festejamos (bem sei que outras religiões têm o seu calendário próprio e que o dia de passagem de ano não coincide mas, aproveitando o balanço da maioria e o facto de não ser uma celebração religiosa, todos acabam por festejar esta passagem de ano, ainda que de uma maneira mais comedida).
Ora, sendo uma celebração universal, é a única (?) em que não se celebra nada de concreto: não nasceu ninguém, não morreu ninguém, não houve nenhum acontecimento naquele dia em anos passados, nada! Celebra-se uma convenção que algumas pessoas estabeleceram para melhor orientarmos as nossas vidas.
Alguém, um dia, decidiu estabelecer um calendário que, por força das circunstâncias, determinou um momento aproximado em que mais uma órbita do planeta é completada à volta do sol – e, quando em 1582 se percebeu que as contas estavam mal feitas e o ano não tinha 365 dias + 6 horas, não custou nada obliterar 10 dias (salvo erro) aquele ano… afinal, tratava-se apenas de uma convenção.
Mais, as zero horas de dia 31 de Dezembro nem correspondem ao mesmo local da órbita, ou seja, o planeta não está exactamente no mesmo local do ano anterior – é que o ano não são os 365 dias exactos.
Já agora, só mais uma coisinha: 2005 vai ter mais um segundo, o último minuto do ano vai ter 61 segundos, não se deixem enganar pelas contagens decrescentes que por aí andam, façam saltar a rolha do espumante à hora certa (podem ficar a saber porquê, aqui).

Isto tudo para propor uma troca, a celebração da passagem de ano às 0h00 do dia 31 de Dezembro de cada ano, por duas: a celebração dos solstícios e dos equinócios.
Sempre era a celebração de algo concreto: do dia mais longo e mais curto do ano. Ou seja, trocava uma festa por duas. Ficávamos a ganhar, ora pensem lá bem: mais umas pontes e tal… em Junho, então, ia ser um festival de feriados… (e também sei que há muitas pessoas a celebrar estas datas, mas não se pode comparar os seguidores de crenças e cultos pagãos com a generalidade da população mundial).
Acho que havia aqui grandes benefícios.

Agora o tão temido balanço, ou abano, que foi como lhe chamei: quanto à minha vida pessoal vou poupá-los a isso, descansem; quanto aqui ao Blog, só quero dizer que tem sido uma descoberta… de mim mesmo e de muitas pessoas a escrever muito bem. Queria ainda agradecer a todos as palavras amáveis.

Que 2006 seja o melhor ano das nossas vidas.

quinta-feira, dezembro 22, 2005

Taxi - O Regresso a Casa (conclusão)

Quando parei à porta do número 29 da Rua dos Condes, o taxímetro marcava 5,70€. Mordi o lábio inferior e saí para ir tocar à campainha.
Do outro lado da rua, à porta do “Mini-Mercado Barrocal”, estava uma senhora já de idade. Abanava a cabeça e tinha um dos olhares mais tristes que me lembro de ver.
Uma sensação de desconforto invadiu-me. Tinha que sair dali e depressa. Toquei novamente.
Nada.
Como a rua só tem um sentido e, com o estacionamento, uma faixa de rodagem, tinha já vários carros a apitar. Estacionei em frente a uma garagem que por sorte existia perto.
À porta do Mini-Mercado estavam já cinco idosas que falavam baixo entre elas.
- Então você não tem ninguém em casa, Sr. Albino? – perguntei.
O homem tentava disfarçar as lágrimas que começavam a cair pela face.
- Tenho sim, não devem ter ouvido.
Toquei de novo, mas sem sorte. Não estava ninguém em casa. E agora? Deixava ali o homem, ao frio? Ia entregá-lo às velhotas à porta do “Barrocal”? Chamava a policia? Toquei de novo.

- As senhoras sabem se está alguém no segundo esquerdo?
As velhotas pareceram surpreendidas com a minha pergunta e agitaram-se. Nenhuma respondeu. Atravessei a estrada e fui ter com elas.
- As senhoras desculpem lá, mas expliquem-me lá o que se passa.
Uma delas acabou por falar. Percebeu-se que teve que ganhar coragem: - Está sim. A filha do Albino. Mas é uma velhaca, quer se ver livre dele, não lhe vai abrir a porta.
- Espere lá! Você está a dizer-me que a filha está em casa e não quer abrir a porta ao pai?
- Foi o que ouviu. Já não é a primeira vez que o faz. Quer é vê-lo morto para lhe ficar com a casa e com o pouco dinheiro que deve ter – retorquiu uma outra velhota.
- Mas as senhoras têm a certeza que ela está em casa?
- Está, eu vi-a a espreitar à janela quando você tocou. Percebeu que era o pai e agora não lhe abre a porta. Aquela cobra – afirmou a senhora do olhar triste.
Agora falavam todas ao mesmo tempo. Uma delas empurrava-me com o indicador enfiado no meu peito. A que devia ser a dona do Mini-Mercado foi ter com o velhote ao táxi.
- … oh dona Beatriz e daquela vez em que a velhaca lhe bateu?
- aquela malvada, que não tem outro nome…
- tem, tem… vaca, é o que ela é. Fornica com uns e com outros, mete-os a todos em casa e só quer ver o pobre do pai morto.
- e ele que lhe deu tudo.
- Deixem-me falar… calma. Isto não pode ficar assim. Eu vou subir aquele segundo andar e, nem que tenha que deitar a porta abaixo, ela vai ter que receber o pai!
- Isso, faça isso. E aproveite e dê uns tabefes naquela cabra.
- Eu vou, mas as senhoras vão comigo também. Vamos todos e vamos armar uma tal cagaçal que ela vai ter que abrir a porta.
O estado de excitação das velhotas acalmou, subitamente fez-se silêncio. Entreolharam-se. Uma réstea de adrenalina que conservavam impulsionou-as, disseram que sim.
- Sr. Albino, volto já. Não se preocupe que na rua não fica.

A vizinha do rés-do-chão abriu a porta da rua e o grupo de justiceiras geriátricas avançou, comigo à frente. Quando cheguei ao segundo andar ia para fazer um último apelo de motivação ao grupo, quando reparei que estava sozinho. Devagar, devagarinho, agarradas ao corrimão em fila indiana, lá vinham elas subindo as escadas, ofegantes.
Dei por mim sem saber se havia de chorar ou de rir.
- Recuperem lá o fôlego que vamos ter que fazer barulho.
Fechei a mão e bati na porta com quanta força tinha.
- Abra a porta. Está aqui o seu pai – gritei eu a plenos pulmões.
Nada. Bati de novo e, desta vez, dei também uns pontapés na porta para mostrar que não estava a brincar.
- Sabemos que está aí, se você não abrir a porta vou chamar a policia, não duvide.
Uns segundos depois ouviu-se um barulho de chaves no interior de casa e um ferrolho a ser corrido. A porta rangeu.
- Eu vou lá a baixo chamar o Sr. Albino – disse umas das mulheres. Foram todas.
Uma figura muito magra e de cara chupada apareceu numa pequena fresta que se entreabriu. Tinha os olhos raiados de sangue e o cabelo em desalinho. Não disse nada.
- Eu trouxe o seu pai do Hospital e você vai deixá-lo entrar, ouviu?
- Estava a dormir, não ouvi – respondeu numa voz rouca de tabaco.
- Não estou minimamente interessado em falar consigo. A sua atitude é inqualificável. Digo-lhe só isto: o seu pai vai entrar e você vai tratá-lo bem; eu que saiba de alguma coisa, percebeu?

Ao passar por mim no patamar mal iluminado daquele segundo andar, o Sr. Albino olhou para mim sem dizer palavra. Senti que me queria pedir algo, mas que não teve coragem.
Entrou em casa e a porta fechou-se. Fiquei ali, na escuridão alguns minutos. Não se ouviu nenhum som.
Quando, por fim, me fui embora, as velhotas continuavam em conversa à porta do Mini-Mercado, por certo sentiam que pela primeira vez tinham feito algo em relação aquela situação.
Tinham feito pouco, pensei eu. Aliás, também eu tinha feito pouco. Decidi voltar ao Hospital, iria falar com a assistente social, contar-lhe o que se passou, algo teria de ser feito.

- Mas eu sei disso tudo. Já não é a primeira vez que aquela criatura finge que não está em casa para não receber o pai. Eu já lá fui, já falei com ela e fiz um relatório para a Segurança Social – afirmou a M. dos Anjos enquanto bebia um chá na cafetaria do Hospital de S. José.
- Então não há nada que se possa fazer?
- Fazer o quê? Ele nunca apareceu aqui com sinais de maus-tratos, nunca se queixou disso. Que ele não está bem lá, é um facto, ela não tem com o pai os cuidados que devia ter com uma pessoa daquela idade, com problemas cardíacos. Olhe, eu faço o que posso e até mais do que devo. De quem é que você julga que eram os 5,00€ que eu lhe dei?
- Sabe o que lhe digo? É triste ser-se velho – afirmei, enquanto me levantava. Tirei 5,00€ do bolso e deixei-os na mesa. – Esta fica por minha conta.

A caminho de casa, percebi o que queria dizer aquele olhar do velhote no patamar, antes de entrar em casa: que não era ali que queria estar.

Continuo sem saber se há quem goste de estar nos Hospitais, mas agora sei que, mesmo sem precisar, há quem se sinta melhor num Hospital.

terça-feira, dezembro 20, 2005

Taxi - O Regresso a Casa (parte 1)

Não gosto de hospitais, nunca gostei. Nem sei se alguém gosta. Tive a minha conta de visitas forçadas e estadias e, por isso, evito ao máximo lá entrar: as recordações não são as melhores.
Não gosto de lá entrar nem que seja por dois minutos para deixar um cliente, o que, sendo taxista, é impossível evitar. Não há semana que não tenha que ir a um hospital duas ou três vezes.
Ontem à tarde não foi excepção. Eu era o primeiro na paragem de táxis de Entrecampos quando um senhor com ar executivo se aproximou; tive um feeling que aquela ia ser uma boa corrida, mas toca-lhe o telemóvel e ele atrapalhado com a pasta que tinha numa mão e um dossier na outra, parou… foi o suficiente para ser ultrapassado por uma senhora: “Hospital de S. José, se faz favor”. Pouca sorte a minha!
E logo S. José, o Hospital de que tenho piores recordações.
Muitas horas lá passei eu sentado naqueles corredores vazios de calor, vazios de sentimento, de bem estar… cheios de dor, de falta de esperança, de vontade de fuga.
Lado a lado num banco corrido, encostados ao azulejo monocromático e frio ou deitados em macas a olhar para o tempo a escoar-se por entre os buracos no tecto falso, fazíamos companhia silenciosa e sofrida uns aos outros.
Manifestávamos a nossa solidariedade com o parceiro de infortúnio no silêncio a que nos entregávamos, na resignação dos conformados que já não protestavam pelo tempo de espera com as enfermeiras que passavam, apressadas e que nem sequer para nós olhavam. Se olhassem teriam de admitir que ninguém merecia nada daquilo.
Dizem-me que está diferente, mais humano. Que se continua a esperar as mesmas horas infinitas mas com mais humanidade. Talvez. Espero não ter que constatar pessoalmente.

Deixei a senhora nas consultas externas e passei pela Urgência. Uma assistente social fez-me sinal e desapareceu no interior do edifício.
Qualquer taxista minimamente experiente sabe que isto não é bom sinal. Confesso que estive quase a ir-me embora, cheguei a meter a primeira. Não fosse a imagem do passado daqueles corredores, das pessoas à espera da ajuda que não chegava, tinha-me ido embora.
Eu não podia fazer o mesmo, mas sabia que aquele desaparecimento da assistente social não era bom sinal.
Voltou pouco depois empurrando uma cadeira de rodas. Nela, um velhote aparentando uns oitenta anos, curvado sobre si, de pijama e roupão. Saí para ajudar – já estava a ter trabalho extra…
Na cadeira, o velho parecia pouco mais que um monte de ossos dentro da roupa mas, ao levantar-se, percebi que era muito mais que isso. Impressionou-me o seu porte, apesar de continuar curvado e seco.
A idade avançada e a doença tinham-no feito pagar uma factura pesada. Apresentava os olhos saídos das órbitas, a pele pendia-lhe em bocados da face, a barba era rala e estava por fazer há dias, estava muito amarelecido.
Ainda assim, o porte era evidente. Na juventude teria tido perto de um metro e noventa, tinha com certeza sido um homem elegante, garboso. Agora metia pena, que é dos piores sentimentos que podemos ter por alguém.
Julgo que ele percebeu isso. Quando o meu olhar cruzou o dele, vi reprovação e mágoa. Sem que me tivesse dirigido a palavra, pedi-lhe desculpa entre dentes.

- Entre lá Sr. Albino. Não tarda nada está em casa… não diga nada, eu sei, eu sei… mas tem mesmo que ser.
- Deixe-me ajudá-lo a por o cinto – disse eu.
- Vai levar este Sr. à Rua dos Condes, 29, 2º esquerdo, às Janelas Verdes, conhece?
- Conheço muito bem. Foi para essa rua o meu primeiro serviço como taxista.
- Coincidências… está bem sentado, Sr. Albino?
O velhote não disse nada.
- 5,00€ chegam, não chegam? – perguntou-me a assistente social M. dos Anjos, ajeitando a placa com o nome que quase lhe caia da bata.
- Vão ter que chegar, não é verdade? – respondi-lhe.

Ao sentar-me ajeitei o espelho retrovisor de maneira a poder ver melhor aquele saco de ossos embrulhado num roupão. Dizer que ele estava triste não é faltar à verdade, mas também não é dizer a verdade toda, havia na expressão do homem algo que me escapava. Afinal, ele estava a sair do Hospital para ir para casa.
Preparei-me para não abrir a boca o caminho todo.
Na Rua dos Fanqueiros o Sr. Albino falou. Num tom de voz surpreendentemente perceptível, disse-me: - É triste ser-se velho.
- É triste é estar doente – respondi-lhe.
- Ser velho e estar doente…
Reparei que olhava pela janela e não lhe respondi.

Parado atrás de um autocarro turístico, daqueles de dois andares, descapotáveis, reparava nos turistas que, de pé, fotografavam a metálica árvore de Natal que domina por estes dias a Praça do Comércio. A maior árvore de Natal da Europa… quando fazemos, fazemos em grande.
Dois pensamentos me assaltaram: um foi que não sabia se o instrutor de Spinning da Quinta da Marinha tinha conseguido entrar para o Guiness por pedalar oitenta horas seguidas sem sair do mesmo sítio (se é para se fazer, que se faça em grande); o outro pensamento, foi que se o autocarro arrancasse naquele momento, o camone ia desequilibrar-se, cair e, bati três vezes numa madeira imaginária, aterrar-me no colo.
Estava eu a tentar recordar quanto tinha custado o último pára-brisas que me partiram e se o seguro cobriria quebra de vidros por queda de turista, quando o Sr. Albino falou novamente: - Hoje não é o seu dia de sorte.
Continuava a olhar pela janela.
- Porque diz isso?
- Ter-me apanhado, você vai ter chatices…espero eu.
- Como é que é, espera que eu tenha chatices?
- Você não me ligue, eu não sei o que digo, é da medicação, da idade.
Decididamente, devia ter-me ido embora quando tive a oportunidade de o fazer.
Calei-me. Achei que se o tentasse fazer falar ia ser pior.
O velhote sabia que algo ainda estava para acontecer.

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Um Passeio no Jardim

Lembro-me que naquela altura pensava com frequência nos meus pais. Recordava a toda a hora episódios da minha vida com eles, de todos tentando retirar uma lição, um ensinamento.
Tentava também avaliar se tinha sido um bom filho, se eles tinham sido bons pais; onde é que cada um de nós tinha falhado e onde é que a sabedoria deles me tinha auxiliado.
Fazia isto automaticamente, sem dar por isso, não era nenhuma decisão consciente. Até que um dia a razão para o fazer se tornou evidente. De tão óbvia, não sei porque nunca tinha tomado consciência dela: eu ia ser pai pela primeira vez em breve.
Esta iminência da paternidade assustava-me um pouco. Queria ser um bom pai - o melhor pai -, e não fazia a menor ideia de como o podia ser. Por vezes, ficava algo angustiado com a ideia, com a dúvida se seria eu capaz. Estaria preparado para tão grande mudança na minha vida?
Esta preocupação só era superada pelo fascínio que sentia com a ideia de gerar vida, de eu estar na origem desse processo fantástico.
Se as mães o sentem de uma forma especial, única, nós, os pais (alguns, pelo menos), sentimos as coisas de maneira diferente, claro, mas também intensamente. Eu era dos que sentia assim.
A ideia de gerar uma vida fascinava-me, enchia-me de um sentimento maior que eu.

Até que um dia…

Não sei se as pessoas que andam de comboio alguma vez pensam em quem os vai a conduzir. Num autocarro, num táxi, é fácil perceber quem vai os comandos, damos pelos condutores (mesmo nos aviões, sem o vermos, o piloto está mais presente que no comboio, quanto mais não seja porque no inicio da viagem o seu nome é referido e durante o trajecto ele faz uma pequena comunicação aos passageiros), num comboio não, aquilo pára, arranca, abre portas e quase nunca se dá pela pessoa que o vai a conduzir.
Eu sou maquinista da CP e gosto muito do que faço. O anonimato da função permite-me pensar em coisas como a paternidade mesmo enquanto estou a trabalhar.
Sendo uma função de grande responsabilidade, está de tal maneira automatizada, que acaba por ser relativamente calma e livre de stress, afinal, não temos horas de ponta e basta alguma atenção à sinalização que aquilo até as curvas faz sozinho.

Há três anos atrás, estava eu absorvido nos pensamentos de que vos falava, quando, ao sair de uma curva antes da estação de Barcarena, algo me arrancou ao torpor em que me encontrava.
A princípio não consegui apreender o que era, foi o inconsciente que me alertou para algo de errado; o cérebro demorou uns segundos a processar a informação mas, quando tomei consciência dela, não podia ser pior: estava uma pessoa na linha a tentar subir para a plataforma da estação.
Freio em emergência mas, tal como um petroleiro em mar alto, várias dezenas de toneladas de comboio a uma velocidade razoável, não param em poucos metros.
Aflição, muita aflição. De um momento para o outro, vemo-nos numa situação surreal, é como se fossemos transportados para um filme, algo de terrível está prestes para acontecer e nós não pudemos fazer nada. Só que neste caso não estamos sentados na plateia ou no sofá de casa, estamos no meio da acção, somos intervenientes directos. Pânico, muito pânico.
São breves segundos que demoram muitos minutos, muitas horas a passar, ao serem recordados vezes sem conta. É algo que nunca mais me vai abandonar. Terror, muito terror.

Uma rapariga com a sua filha pequena ao colo decidiu atravessar a linha, achou que conseguia subir a plataforma em segurança e assim poupar duzentos metros de caminho e cinco minutos de tempo.
Colocou a filha no apeadeiro e, quando se preparava para tentar subir, ouviu o comboio aproximar-se. Ao vê-lo sair da curva, também o seu cérebro demorou a processar a informação, também ela deve ter pensado que algo de terrível estava para acontecer. E, depois, tomou a decisão errada, fatal: em vez de, num último esforço, ter tentado subir, optou por se encolher e ficar imóvel. Apesar de a velocidade ser já reduzida, o comboio entrou na estação e o degrau da primeira porta apanhou-a, depois outro, e outro…
Aflição, pânico, terror? Seria isso que eu sentia? Com uma tremenda descarga de adrenalina a correr-me no corpo, o ritmo cardíaco descontrolado e o cérebro em desatino, consegui realizar os procedimentos habituais nestas situações, mas em piloto automático: não me lembro de ter contactado o posto de comando da Refer/CP e de ter chamado o Revisor, mas sei que o fiz. Lembro-me de “voltar a mim” quando, ao olhar para o espelho retrovisor, vi a criança, ali, parada, perdida. Parecia olhar para mim. Em que pensaria ela?

Quando fui para esta profissão sabia que era praticamente inevitável passar por esta situação. São raros os maquinistas que não tenham passado por isto e os mais velhos fazem questão de lembrar isso a quem começa – o monitor do meu curso tinha 16 casos no curriculum.
Se noutros países quando algo semelhante ocorre, a empresa não deixa o maquinista conduzir mais nesse dia e coloca ajuda psicológica à disposição, cá, pergunta-se via rádio se o corpo está a obstruir a via; caso não esteja, depois da polícia tomar conta da ocorrência, somos mandados seguir viagem - tenho um colega a quem isto aconteceu num sentido e, ao fazer o trajecto de volta, voltou a acontecer.

Como numa fracção de segundo, sem qualquer aviso, sem um sinal, a nossa vida pode mudar. Absorvido pela ideia de ser responsável por gerar vida, eu acabava de estar envolvido na perda de uma.
Este conflito – há falta de melhor termo -, abalou-me profundamente. Durante muito tempo as coisas deixaram de fazer sentido, pelo menos o sentido que faziam habitualmente. Questionei tudo. As certezas que tinha desapareceram. Tudo era transitório, efémero.
Se pensava na minha filha que ia nascer, logo pensava naquela figura no espelho retrovisor. Porquê? Tinha sido apenas uma decisão errada da sua mãe. Como é que um acto irreflectido, mas simples, banal, podia ter consequências tão dramáticas, sem possibilidade de segunda chance, sem direito a arrependimento?
E no centro de tudo, estava eu.
Conseguiria amar a minha filha? Seria eu digno de uma filha? Haveria o destino de, um dia, procurar vingança?
Com o tempo, as duvidas foram sendo menos, a compreensão do que aconteceu maior. Tenho hoje a consciência exacta do meu papel em tudo o que aconteceu, mas continua a custar. Lembro-me ainda muitas vezes de tudo. Revejo os detalhes da cena com frequência.

No outro dia, parado na mesma estação em sentido contrário, reparei numa mulher que estava parada junto à linha, fora da plataforma. Percebi que aguardava que eu passasse para atravessar pelos carris. O local era exactamente o mesmo do acidente, atravessar ali na altura em que um comboio está a chegar, é tragédia pela certa.
Apitei-lhe. Por gestos perguntei-lhe se sabia o perigo que corria. A resposta foi insultar-me; chamou-me todos os nomes que sabia.
A vontade que tive foi sair e dar-lhe uma carga de porrada. Juro, foi por pouco que não o fiz!
Não têm noção. Não querem saber.

Agora vou terminar, tenho que ir buscar a minha filha à escola, prometi-lhe que íamos passear ao jardim.


Ao amigo Quim, aquele abraço.

domingo, dezembro 11, 2005

É Natal

- Estou?

- Sim, quem fala?

- Sou eu, pá, o Pai Natal.

- Ah, olá Pai Natal. Deixe-me aqui tirar o som ao televisor…

- Estavas a ver o quê?

- Nada de especial, estava a ver a Arlinda a abandonar a Base.

- Também vês essas merdas, pá?

- Naaa, estava a fazer zapping quando vi a Arlinda a bater continência a um gajo de microfone na mão. Fiquei a ver. Mas deixe lá isso, conte-me como vão as coisas por aí.

- Mal, pá. Vão mal.

- Então, que se passa?

- Ora, o que é que se havia de passar, estamos no Natal!

- Pois, imagino que deva estar caótico.

- Caótico é em Agosto quando chego da praia, nesta altura nem há palavras para descrever isto, pá.

- Maldita invenção esta do natal.

- Podes crer, se eu soubesse que ia dar nisto, nunca tinha aceite esta brincadeira.

- Mas você não tem aí muita ajuda?

- Sabes lá o que é ser ajudado por Duendes, Elfos e Gnomos… estes gajos não se gramam uns aos outros, é só chatices, só queixas, só lamentações, pá. Os Elfos não podem ver os Gnomos, estes boicotam o trabalho dos Duendes, e estes só sabem é chatear as Renas. É de dar em doido, pá.

- E você não dá um murro na mesa?

- Eu atirei foi com a mesa ao ar! Ameacei-os com despedimento colectivo. Eles que vão trabalhar para Holywood, que fiquem lá à espera de mais filmes em que os da raça deles entrem. Mas que esperem sentados! Lá porque houve uns filmes em que entraram, devem pensar que todos os anos há mais. Eu bem lhes disse que aqui, pelo menos, era garantido: Natal há todos os anos, já filmes…

- E eles?

- Os sacanas na altura não disseram nada, meteram as orelhongas nos barretes e deram meia volta. No dia seguinte aparecem-me aqui uns quantos, auto-intitulados “comissão de trabalhadores” e ameaçaram que iam criar um sindicato! Tu já viste isto, pá?

- Um sindicato?

- Um sindicato, pá. Já tinham nome e tudo. Esta malta das criaturas dos contos de fadas não bate bem, tu repara nisto: Sindicato dos Técnicos Operadores de Natal E Diversos. Nem dá para acreditar.

- Você tem que ter calma, olhe a sua tensão. Você já não é novo.

- Qual tensão, pá. Esta cambada dá é cabo da cabeça de um santo.

(em fundo, ouve-se uma música: “eu sou e serei, coração, coração sem dono… não me quero prender a ninguém, ainda é cedo para me entregar, quero viver o que a vida tem, um dia mais tarde se verá… quero o peito livre pra voar e a mente solta pra curtir, o meu coração a palpitar, durante muitos anos sempre assim… porque eu sou e serei, coração, coração sem dono…”)

- Que música é essa, pá?

- É a TVI, a Ruth Marlene está a cantar.

- A Ruth… no outro dia via-a a fazer flexões. Deixa cá ver se ela já pediu alguma coisa ao Pai Natal…

- Veja lá.

- Não tenho cá nada em nome de Ruth… ou de Rute Marlene.

- Ainda não teve tempo, anda muito ocupada na guerra.

- Mas olha que os portugueses são quase sempre os primeiros a pedir. Logo em Outubro recebi daí os primeiros pedidos.

- Gente ansiosa, por certo.

- Pareciam, sim. Bom, os quatro primeiros, pelo menos.

- Pediram o quê?

- O primeiro pedido a chegar foi do menino Mário, explicava-me que já não tinha idade para escrever ao Pai Natal, mas que o fazia porque não pedia só para ele, que o que queria era para o bem comum, etc. Enfim, uma ladainha para me pedir um Tacho. Achei muito estranho tanta coisa por causa de um simples Tacho.

- Não é um tacho qualquer, Pai Natal, é um Tacho muito apetecível.

- Percebi isso nos dias seguintes, pá. Então não é que o menino Manuel, logo no dia seguinte, me escreve a pedir desculpa por já não me escrever há muito tempo, mas que tem escrito outras coisas e que depois não tem tempo nem para uma carta. Pedia ainda que, caso eu já tivesse recebido um pedido igual do seu grande ex-amigo Mário, o ignorasse, porque era ele, menino Manuel que tinha direito a o Tacho, que o Mário já tinha tido o dele.

- São piores que as crianças…

- Depois foi o menino Chico a pedir-me o Tacho. Que me achava um bocado capitalista e ao serviço do grande capital e por isso não me tem escrito, mas que, este ano, excepcionalmente, contava comigo, com a minha reflexão ponderada de homem vivido para me passar para o lado dos oprimidos, dos que têm pouco, das vitimas dos barões que controlam esse tal capital. Que eu podia começar por lhe dar acesso ao Tacho.

- Não me diga que o menino Jerónimo também lhe escreveu.

- Escreveu, pá! Que era a primeira vez que o fazia, que antes os seus camaradas lhe confiscavam o selo e a carta para o Pai Natal e que por isso nunca tinha conseguido. Mas que sempre me achou piada, vestido assim de vermelho, a viver no meio da neve; que isso o lembrava da Sibéria, dos trabalhadores que para lá iam trabalhar para o bem dos outros camaradas. Que no fundo eu era um símbolo do operariado. Concluía dizendo que também ele queria ajudar os outros, mas que para isso precisava do tacho. Vou-te contar, pá, já mandei investigar que raio de Tacho é esse que eu também o quero oferecer à Mãe Natal.

- Não recebeu nenhum pedido do menino Aníbal?

- Aníbal? Não me recordo, mas deixa-me consultar a base de dados.

- Veja lá isso, agora estou curioso.

- De facto, há aqui uma carta do menino Aníbal, mas não pede nada ao Pai Natal. São só duas linhas, diz ele que não quer escrever muito para não se prejudicar, que o ano lhe correu bem e que vai acabar melhor, que não tem nada para me pedir, que o Tacho já é dele. Despede-se desejando-me um bom Natal.

- O menino Aníbal é muito sabido. Tem o Bolo Rei na barriga, é o que é.

- Parece que isso anda muito animado por aí neste Natal.

- Nem queira saber. É a corrida ao Tacho, às compras e foi também a abertura da época de transferências religiosas.

- Hã, que é isso, pá?

- É muito parecido com a reabertura do mercado futebolístico agora em Janeiro. É a altura em que se volta a poder negociar o passe dos jogadores entre clubes. Neste caso, tem a ver com a mudança de paróquia por parte de alguns padres. Há sempre polémica com a decisão de algum bispo iluminado que, quando percebe que a população local gosta do padre e até vai à missa, trata logo de o transferir. Cá para mim, os bispos são como os empresários de futebol, devem ganhar à comissão com as transferências que fazem.

- O que passará pela ideia dessa gente…

- É mistério insondável, mas este ano a transferência do padre Luís António de Ranhados para Sendim, deu mais que falar que a transferência do Figo do Barcelona para o Real Madrid.

- E como acabou isso?

- Ora, no fim-de-semana passado não houve missa nem em Ranhados nem em Sendim. Parece que ficaram todos a perder.

- É sempre o mesmo… pá, agora tenho de ir, a Mãe Natal está a chamar-me. Vai começar o AB… Sexo.

- Grandes malucos que vocês são.

- Curiosidade cientifica, apenas.

- Sim, claro. Pai Natal…

- Diz lá depressa.

- Cuidado com a distribuição de prendas este ano, não vá o trenó ser confundido com uma avião da CIA. E feliz Natal para si também.