quarta-feira, janeiro 18, 2006

A Cena Seguinte

Perseguidos, correm pelas rochas, junto ao mar. Passam por uma espécie de gruta e conseguem, finalmente, alcançar os botes. O som atrás deles aproxima-se e é assustador. Sabendo o que os persegue, o receio de serem apanhados enche-lhes o coração de terror.
Ela é a única que sente o que se passa de maneira diferente. Sabe algo que os restantes desconhecem, é que esteve com ele, conhece-o um pouco melhor. Sabe que apenas a quer a ela e pondera sacrificar-se pelo grupo.
Nem todos conseguem chegar aos botes, mas para alguns parece haver esperança quando, no último minuto, ele ali está, imenso, brutal. Estão condenados. Emite sons que são de vitória, também ele sabe que conseguiu o que queria.
Será mesmo assim? Nós sabemos que não, mas é suposto estarmos agarrados pelo suspense da cena.
Num gesto desesperado e derradeiro, Carl Denham arremessa o frasco de clorofórmio contra a besta. Sucesso, mesmo em cheio, junto ao nariz. O animal ergue-se, emite agora sons desesperados, terá percebido a derrota. Em pouco tempo jaz no chão, inanimado. O grupo estava salvo.
Ela não conseguiu esconder alguma tristeza, tinha pena dele, apesar de tudo. Ninguém no grupo percebeu isso, só a nós foi mostrado.

Na semana passada consegui ir ao cinema, esse ritual de outros tempos posto de lado devido a circunstâncias várias.
Fui ver o filme do macaco, o “King Kong”.
Uma das razões que me levou a ir ver o filme foi o argumento. Tendo este péssimo hábito de escrever alguma ficção, a questão do argumento – que sempre foi importante para mim -, assumiu uma importância ainda maior. Estou sempre bastante atento à maneira como a história é contada, como é que as ideias/situações se encaixam e fazem avançar a história.
Naquilo que escrevo perco algum tempo à procura da melhor maneira de tudo se encaixar: as acções, as ideias, as personagens. E desespero um pouco quando elas se complicam.
Ora no filme do macaco eu tinha alguma curiosidade em ver como iriam ser resolvidos alguns problemas práticos que eram fáceis de antever. Desde logo como é que, com tecnologia do início do século XX, conseguiriam os nossos intrépidos heróis içar um bicho daquele tamanho para o barco… e transportá-lo sossegado durante várias semanas até Nova Iorque.
Eu dou de barato a existência de macacões enormes, dinossauros, baratas gigantes, aranhiços descomunais, etc, apenas tinha curiosidade em saber como é que esta fauna incaracterística interage entre eles e, especialmente, com os humanos civilizados.

Flashback. Está o Kong cloroformizado nos rochedos à beira mar, suspiram os nossos exploradores de alivio e eu, ansioso, quase me levanto, “e agora, como é que o põem no navio”?
Muda a cena e o macaco já está num palco teatral de Times Square, NY!! – já agora, como é que entrou tão grande criatura no teatro?, pela porta das traseiras não deve ter sido.
Ou seja, isso não interessa nada. Eu é que sou parvo em me preocupar com isso. Até por escrever umas coisas, devia ser o primeiro a saber que esses detalhes são isso mesmo: detalhes! Coisas sem importância em algo muito maior, que é toda a história.

Dava jeito que a vida fosse como nos filmes que, nos momentos difíceis do guião, pudéssemos passar para a cena seguinte, aquela em que tudo já está resolvido e o drama passou.
Recentemente, à minha pergunta de como iam as coisas, alguém me respondeu “está tudo na mesma, as mesmas chatices de sempre… estou à espera que passem”. Num primeiro momento, estive quase para responder que tinha sérias dúvidas sobre a bondade dessa atitude; que quem muito espera, desespera; que varrer para debaixo do tapete não resolve nada, apenas esconde por um tempo a situação e que, quando o problema se voltar a manifestar (porque volta sempre), será muito pior lidar com ele. Estive quase para dizer que há que enfrentar as situações, confrontar os problemas, confrontar quem gostamos, nós próprios se for necessário; que temos que falar sobre o que nos vai cá por dentro.
Em devido tempo todo esse discurso me soou a uma sucessão ineficaz de frases feitas e lugares comuns. Falar é fácil e calei-me.
Acho que foi também por me ter lembrado da imagem do macaco anestesiado junto à rebentação e, logo de seguida, amarrado no teatro. É que, pensando bem, pode mesmo ser que, para esta pessoa que espera, a cena seguinte seja já uma em que tudo se tenha resolvido e não haja necessidade de nos preocuparmos com nada.
Apesar de não ser filme, de se tratar das nossas vidas.

PS - Refuto o parágrafo em que digo que os detalhes não me interessam. Não há volta a dar, dou-lhes mesmo importância, acho que deviam ter perdido tempo a pensar em como é que metiam o macaco no navio e, depois, dentro do teatro. Defeito meu.

29 comentários:

Dani disse...

Engraçado, essa também era uma das coisas que me tinha suscitado dúvidas, e que estava à espera que o Sr. Peter "Senhor dos Anéis" Jackson, tivesse resolvido de forma mais ou menos brilhante. Mas afinal, a surpresa ficou-se pela não apresentação de uma solução...

Anónimo disse...

És Caranguejo, dai gostares dos detalhes, da ficção e de sonhar,...
És a natureza infantil da Alma,...
És a lua com quatro fases de imprevisíveis variações...
Às vezes pareces possuir a força de um gigante e outras vezes exibes a fraqueza de uma criança... :-)
A vida é complicada, imagina uma autoestrada e muitas ruinhas pequenas que dão acesso a ela, que piada teria se ninguém anda-se pelas ruas pequenas a tropeçar nas pedras e descobrir o seu caminho.
É assim mesmo, a esperança que tudo mude é que nós faz fechar os olhos, esperar e acreditar que amanhã poderá ser melhor.
Beijinho da Jaqui.

Margarida Atheling disse...

Eu também dou importância aos pormenores. Muita mesmo. Fazer o quê?!

Ah! E tenho o defeito de dizer às pessoas, quando me perguntam alguma coisa, aquilo que, realmente penso; o que, muitas vezes não é o que elas queriam ouvir.

Inês Salgado disse...

Pois!!
Tens aí lugar para mais uma nesse clube?? ;) eheheh
Quando vejo um filme também fico a pensar... " como é que o gajo chegou ali??", "como é que eles fizeram...?" lol (reconheço que também sou critica quanto ao resultado dos “efeitos especiais”… às vezes vê-se filmes de pequena produção com bons efeitos e vice-versa, não achas??)
Eu sei, sou lixada, lol… :$
ok... reconheço que, muitas vezes, o que interessa "mesmo" é que resulte o feito final ou que a história seja contada, não esmiuçando os pormenores... mas fazer o quê?... :P
Eu gosto de saber que eles se esforçaram por me contar uma história verosímil.... ;)
Como, por exemplo, o fizeram quando eu (depois de ter lido anos antes o livro) não resisti a ir ver como tinham "resolvido" a grande história do "Contacto" do meu amado Carl Sagan...
Devo acrescentar que não me desiludiram... e que foi um bom exemplo de como se pode puxar pela massa cinzenta e oferecer uma história consistente e bem "resolvida". :D
Achas que nós é que estamos errados?? :O
Eu não! :)

Beijo grande para ti :)

Anónimo disse...

Eu própria sussurei ao ouvido de quem estava comigo no cinema "como é que eles vão por o bicho no barco?" e tau...muda a imagem e está o gajo no teatro... Eu ri-me...

Mas a Sétima arte tem destas coisas. Estes filmes a mim servem apenas para passar tempo, para distrair e não são para levar muito a sério. De uma maneira geral prefiro sempre os filmes mais crus, salvo raras excepções.

Portanto...oh Rui...caga nisso! ehehehehehehehehehehehheheh

Reportando isto para a vida real, é preciso discernir o que é importante e o que é acessório, e às vezes, nem sempre temos a objectividade e o distanciamento necessários para o fazer.

(Achei ainda piada àquela cena no fundo do abismo em que aparecem criaturas por todo o lado, inclusive uma que come um dos personagens pela cabeça e pensei "olha o Peter Jackson a voltar às origens". Para quem não sabe, este realizador no inicio de carreira, muito antes do Senhor dos Aneis, fazia filmes de terror da pior categoria...com bicharocos nojentos. Não resistiu, está-lhe no sangue eheheheheheheheheh)

___________________________

Gina disse...

Esta doeu....
Mas faz pensar...não te preocupes kem sabe o macaco não consegue façanhas muito maires ke essas meu kerido.
talvez o macaco te consiga surpreender....
Beijinho
Adoro tu homi

Francis ( X ) disse...

Pois caga nisso.

Voltando à cena dos pensos... é melhor não.

O Cinema como em tudo na vida têm os seus mistérios, os seu segredos e algumas explicações, umas plausíveis outras nem por isso, mas o dom da imaginação tudo consegue.
Mas como é de Cinema que se trata deixa-me dizer-te que anda por ai muito filme que nos dá espaço para a nossa própria imaginação, se queres uma resposta para isto ou aquilo procura-a tu mesmo ( porque não ).
Quem se dá ao trabalho de o fazer, pode sempre aprender algo consigo mesmo, caso contrario é como diz a nossa amiga rsikita ( caga nisso )
A nossa sociedade está demasiado preguiçosa na procura de respostas para isto ou aquilo, querem a papinha toda feita, e caso contrario vão ao google, não pode ser o pessoal tem que desafiar os dogmas, tens um belo exemplo no António Damasio e o Erro de Descartes.

P.S. Agora estou na fase de reparar em todos os pequenos pormenores da Scarlett Johansson, até os sinais estão cirurgicamente bem colocados.

Um abraço

Ana P. disse...

E eu que pensava que esses pormenores só eu os via. Eu tb sou assim quando vejo um filme. Mas como é k isto aconteceu? Mas a gaja tinha uma blusa branca quando abriu a porta e ao fechar já tinha casaco. Eheheh, pois, e afinal não sou só eu....

Jinhus nessa boxexa laroca

Martuxa disse...

Os pornemores revelam td
Sorrisos e beijitos
=P

Anónimo disse...

Pois falar é fácil Ruizinho!!!! Mas tu rapaz, diz sempre aquilo que pensas, sempre, nao te acanhes!
:)
beijocas
ss

virilão disse...

é uma das razões porque não gosto de filmes muito fantasiosos (especialmente americanos) quando já não há saida, vem uma cena qualquer que não lembra nem aos argumentistas de novelas brasileiras ;-) abraço

Silvia disse...

A questão é que se tivessem perdido tempo a pensar como o metiam lá, teriam que concluir que tal era impossivel... até porque naquela altura a tripulação estava muito reduzida, e não estou a ver que qualquer guindaste ou grua que o navio tivesse pudesse colocá-lo lá.

Ou seja, o filme acabaria ali.

Assim, tiveste a oportunidade de imaginar formas de como continuar a história... e de a continuar.

A ficção (pelo menos a daquele género) é mesmo assim, não é suposto ser real, é sonho!

E como dizia o outro "o sonho comanda a vida".

Acredito que não é a consistência/pragamatismo das nossas vidas que as fazem avançar, mas o facto de pelo menos de vez em quando conseguirmos concretizar os nossos sonhos e imaginar...

Aposto que se não fosses tão pragamático tinhas chorado quando o macaco morre :)

Gina disse...

Fui para casa a pensar no ke escreves-te e a resmoer, o assunto.
Quando existe verdadeira amizade, nada deve fikar por dizer e se achavas ke essa pessoa tua amiga estava errada devias ter-lho dito directamente, afinal é para isso ke os amigos e a verdadeira amizade existe, se existe.
Beijinho

Vampiria disse...

Eu por acaso até gostei do filme. Já o vi há algum tempo, achei um pouco descritivo, repetido, mas gostei... A relação da loira com o macaco estava bem conseguida, acho que foi dos pontos altos do filme...

****

Paty disse...

Não vi o filme confesso! Tirando a velhinha versão a preto e branco que vi a muito muito tempo, não conheço muito bem os moldes desta nova versão do King Kong. Apenas me ocorre dizer te que isso é fruto das maravilhas da técnica...lololo um passe de mágica e puff la passa ele do barco para o teatro...anyway, creio que podia ter arranjado algo mais interessante para dar esse salto, senão para que serviam os remakes...ora se se trata disso mesmo, mesmo mantendo se fiel ao original, podia ter ocorrido ao senhor dos aneis, dar um arzito da sua graça e voilá!
Hmmm creio que soa meio de disparatado...e para não cair em tal, aconcelho mesmo a não ligar, não questionar e tentar manter alguma da magia do cinema e da ficção.

BloodyMary disse...

Parabéns pela excelente observação. É o que costumo chamar de um "Bom Defeito"!
Ainda não vi o filme mas já soltei algumas gargalhadas a ler-te! A produção do ano com uma falha monumental como essa...dá que pensar!
E que mais dizer...é a magia cinematográfica!
O mau de tudo isso é que essa magia não se transporta para fora do ecrãn e, quanto a isso, concordo contigo: há que transpôr as barreiras que nos surgem e não contorná-las!

Beijos**

segurademim disse...

Não vi o filme e não estava a pensar ir vê-lo, mas com o realce que lhe dás, abriste-me a vontade de o ir ver...

depois dou-te a minha opinião! quanto aos pormenores, convém estar atento!

beijo :)

legivel disse...

... não é por acaso que se chama ao cinema a arte da ilusão; do tempo e do espaço. O guião de um filme tem pouco a ver com a narração de um livro; neste, o autor pode movimentar-se com relativo à vontade e valorizar os detalhes (até porque não se pode socorrer da imagem)em cem ou mesmo mil páginas.
No cinema, o realizador tem de meter em noventa ou cento e vinte minutos, uma história; os detalhes são a soma de todo o filme e não apenas das falas.
Talvez por isso mesmo, um bom livro raramente dá um bom filme.

Neith disse...

A tua escrita tem sempre a particularidade de nos fazer pensar em algo que quase sempre não nos ocorre...gostei dessa tua observação ;) Beijinhos :)

@ disse...

Fiquei desiludida com o filme também. Queria mais não no sentido de coninuar mas no de que lhe faltou algo...

M.M. disse...

Por isso é que não fui (nem vou) ver o filme, já calculava que isso acontecesse (bem como outros pormenores) e prefiro não assistir à falta deles.
Dou muita importância aos detalhes, não há volta a dar-lhe. É deles que a vida é feita, são os pequenos pormenores que nos enriquecem e nos permitem realmente visualizar "the full picture".
Bjs para ti.

alyia disse...

Obrigada **

Lagoa_Azul disse...

Ai rui, depois de ler teu post fiquei com a certeza que escrever poemas é mais facil que ver um filme, e então se for daqueles em que não bate ao milimetro, até perde a graça...
Olha eu escrevi aqui sem grande ligaçao entre as coisas ;)

Bom fim de semana...
Beijos com carinho.

LUA DE LOBOS disse...

regressando ao teu blog, depois de um periodo de reclusão para acabar o meu novo livro, cá voltarei pois adoro a tua escrita
xi
maria

Meia Lua disse...

Sim... falar é fácil, principalmente quando não estamos na pele de alguém que tem um problema...
Quanto aos detalhes... importam.. num filme, num texto, na vida... são os detalhes que deixam marcas ;)
beijinho

Canephora disse...

Ora aqui está a razão porque tu só escreveess em blogs e não cinema... no cinema os detalhes só são importantes se forem grandes planos... de resto. E pra mais, o problema do transporte da entrada no teatro também não tinha sido resolvido nos primeiros filmes, porquie haveriam de se preocupar com isso agora?

Um Abraço

Sara MM disse...

ah.. bem me parecia... quase nem valia a pena "confessares" num Ps... nota-se em "todo o discurso" que os detalhes te importam!!! E nos teus textos também!!
E sim, são importantes... Nos filmes e na vida!

De resto... só me surgem feedbacks ;o) do tipo "tb eu":
- perdi o hábito do cineminha, por diversos motivos
- "o macaco" foi o ultimo filme que vi
- massacrei muita gente sobre "onde estão" e como "fazem" e "então não mostram", lá daquela vez...
sabes a resposta?

são ELIPSES!!
... é mesmo assim e pronto! :o(

MorangoTopázio disse...

Já me habituei a não pensar nesses filmes, a deixar-me ir consoante o enredo. O pormenor é cada vez mais esquecido! Por isso pelo preço que estão os bilhetes de cinema o melhor é aproveitar o momento e esquecer os detalhes!
Isso começa a ser um deja vú demasiado frequente!

Mas a verdade é que tens toda a razão ;)

Anónimo disse...

Enjoyed a lot!
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