terça-feira, julho 12, 2005

O Último Comboio (parte I)

As chaves caíram com um som abafado. O golfinho desfez-se em dezenas de pequenos pedaços.
O porta-chaves de que tanto gostava, era agora apenas uma pequena corrente que terminava no aro onde estavam presas 4 chaves.

Entrou no prédio. Uma lágrima rolou-lhe pela face direita. Apenas uma. Não fosse ter sentido o ar fresco que se fazia sentir no interior do prédio, teria, por certo, chorado.
Ultimamente andava assim. Tinha vontade de chorar por tudo e por nada. Mesmo em situações em que o que devia sentir era raiva, apenas conseguia sentir as lágrimas juntarem-se-lhe nos olhos.
Não andava bem e sabia-o.

Na escada sentia-se ainda um ligeiro perfume a flores de plástico. Pelo menos era isso que lhe fazia lembrar o cheiro do detergente usado pela Nancy, a rapariga que a empresa de limpeza tinha destacado para o prédio e que lavava com brio as partes comuns todas as segundas, quartas e sextas. Aquele cheiro recordava-lhe a casa da sua tia Noémia, paz à sua alma.
Abriu a caixa do correio e parte de 5 dias de correspondência e publicidade caiu ao chão. Lembrou-se do golfinho.

No elevador o mesmo perfume a flores de plástico. A Nancy.
A rapariga de origem cabo-verdiana, com grandes olhos, claros e expressivos, que transmitiam confiança, tinha sido a última pessoa a perguntar-lhe como estava. A última pessoa a quem tinha confidenciado algo realmente sincero sobre si… que não se estava a sentir muito bem ultimamente.
Subiu ao quinto andar. Entrou em casa, atirou com os papéis que trazia do correio e com a mala para cima do sofá. Um banho era tudo o que estava a precisar.

Comeu qualquer coisa em frente ao televisor, enquanto via as noticias. Pouco lhe ficou dessa hora em que repartiu o olhar entre o ecran e o prato. Tinha estado a pensar noutras coisas.
Já não se lembrava do que tinha visto na televisão, nem do que tinha comido. A bem dizer, já nem se lembrava no que tinha estado a pensar.
Acontecia-lhe muito. As coisas passavam por ela e nada parecia ficar retido. Por vezes, dava consigo a pensar que tinha deixado de viver, limitava-se a sobreviver.

Acordou de repente com a imagem de um revólver a ser disparado na televisão. Sobressaltada, procurou o comando e desligou.
A sala estava envolta em penumbra. O cortinado japonês estava corrido e filtrava a luz do final da tarde. Adorava estes finais de tarde de primavera, em que o sol parecia resistir ao apelo do hemisfério sul, demorando-se no horizonte.
Reparou nas sombras que eram projectadas nas paredes da sala, nos efeitos que provocavam nas fotos que tinha emoldurado e colocado nas paredes. Eram a única decoração. Eram fotos suas.
Nunca tinha percebido realmente qual a razão de ter colocado fotos suas na parede. Nunca tinha percebido aquela sua exposição. Ela, que era a descrição personificada, que nunca chamava a atenção sobre si, tinha sucumbido aquele momento de gratificação pessoal, imodéstia mesmo, como por vezes pensava.
No fundo, achava que o tinha feito porque sabia que ninguém iria alguma vez a sua casa. Sabia que não corria o risco de ter fosse quem fosse a fazer-lhe perguntas sobre as suas fotografias.

Estava no sofá, deitada em cima da correspondência e não se lembrava de ter saído da mesa.
Entre facturas para pagar, publicidade a uma viagem maravilhosa a Badajoz e a produtos de que não precisava, mas que iriam tornar a sua vida muito mais fácil, a um preço óptimo, estava uma folha A4 dobrada ao meio.

Vivia num prédio de construção recente. Numa zona onde ainda há poucos anos pastavam algumas ovelhas e cabras, apesar de ser em plena Lisboa, na freguesia de Carnide. Particularidades das cidades portuguesas.
A rua onde morava não existia, foi aberta com a construção do quarteirão que agora habitava, o que, acrescido do facto de ter sido das primeiras compradoras, lhe trouxe complicações algo bizarras.
Por não ter nome, a rua tinha para o empreiteiro um nome, para a EPAL outro, para a Gás de Lisboa outro, para a EDP outro e assim sucessivamente. Em nenhum serviço conseguiu que o nome coincidisse.
Também o número da porta não foi coisa fácil de perceber, tal foi a confusão gerada entre Corpo, Bloco e Sector. Dizer que morava no Corpo 3, Bloco A do Sector 1, nunca tinha sido indicação suficiente para ninguém.
Ter água, luz, gás e as mobílias entregues em casa, não foi tarefa simples.
Desde tais imbróglios que nunca mais tinha pensado muito nas burocracias prediais.
Mas agora estava a ler aquela folha A4.
Em poucas linhas, o administrador do condomínio lembrava que faltava pagar a semestralidade do mesmo.

No seu prédio existiam 28 habitações e nos 9 meses em que lá vivia, tinha-se cruzado uma vez com uma rapariga no elevador e outra com um casal na entrada do prédio.
Tinha sido das primeiras moradoras e o edificio demorou algum tempo a estar totalmente habitado, mas o seu convívio com os vizinhos era francamente escasso. Parecia possuir o misterioso dom de não se cruzar com ninguém naquele prédio.
Era coisa em que não gostava de pensar, mas aquele prédio era o resumo da história da sua vida: desencontros.

Recordou-se de ter recebido há uns meses uma carta da empresa construtora do empreendimento. Nela, se informava que, “tal como estipulava o contrato assinado entre ambas as partes, após serem concretizadas ¾ das escrituras, o condomínio passaria a ser gerido pelos condóminos”. Marcava-se também a assembleia de condóminos em que se procederia à eleição da nova administração.
Não tinha ido e estava agora em falta com a sua prestação.
Olhou para o relógio, eram 21h50. Hesitou. Seria tarde?
Tomou então uma resolução para aquele fim de dia: nada de adiamentos!
Levantou-se e foi à casa de banho passar água no rosto.
Evitou olhar para o espelho. Tapou o ralo e abriu a torneira sem levantar os olhos.
Quando ia colocar as mãos debaixo de água, viu o seu reflexo na tampa de inox que vedava o ralo. Nunca tinha reparado naquele espelho.
Sentiu-se estranhamente aliviada ao ver a sua imagem. Ainda assim, não teria estranhado perceber que a sua imagem não conseguia ser reflectida.
Secou a cara e enfrentou-se no espelho. Dois olhos azuis muito escuros fitavam-na. Tinha o cabelo apanhado. Era castanho claro, tinha algum orgulho no seu cabelo. Tinha também algumas sardas por cima das maçãs do rosto. Não usava brincos nem qualquer maquilhagem. As sobrancelhas demasiado cerradas para o seu rosto e longas pestanas.
Aparentava a idade que tinha, 32 anos.
Piscou o olho ao espelho e este retribuiu. Esboçou um sorriso.

Procurou o livro de cheques e uma caneta. Leu de novo o aviso: Pedro Andrade, 7º A.
Ao pegar nas chaves para destrancar a porta, pensou em algo verdadeiramente estranho: se estaria bem vestida. Surpreendeu-se a si própria. Afastou o pensamento com um gesto da mão direita e saiu.
Optou por ir pelas escadas. Era a primeira vez que as utilizava. Apesar disso, fez o que fazia quase sempre quando era miúda no prédio dos seus pais, não acendeu a luz.
A escuridão era total. Ficou imóvel durante algum tempo. Só o tempo dos seus olhos se habituarem à escuridão. Agarrou-se ao corrimão e começou a subir.
Decididamente, aquele dia estava cheio de novidades.
Nunca tinha percebido aquele seu hábito de andar nas escadas às escuras. Uma vez, a sua mãe tinha-lhe perguntado o porquê de tão estranho hábito, “será a tua maneira de enfrentar o desconhecido”? Respondeu à mãe que não e, baixinho, só para si, acrescentou “de me enfrentar”.
Recordava este episódio quando chegou ao 7º andar. “Tenho que fazer isto mais vezes”, pensou.
Acendeu a luz e dirigiu-se para a porta A. Aproximou o ouvido. Era quase imperceptível, mas ouvia-se música.
Fechou a mão e bateu com os nós dos dedos duas vezes.
Nada.
Engoliu em seco e levantou a mão. Preparava-se para bater novamente, quando a porta se abriu.
Reparou nos olhos dele, dois pontos castanhos que a interrogavam.
Sorriu, coisa que nunca fazia a estranhos.
- Não me vai bater, pois não? perguntou ele sorrindo.
Só então ela reparou que continuava de punho cerrado e erguido, o movimento de bater na porta suspenso a meio.

1 comentário:

Butterflywings disse...

Querido,

excelente texto para entrar nesta vida dos blogs... Gostei, agora aguardo a parte II do teu último comboio... Livra-te de não me contares o resto... A~cho que te mordo!

Beijo enorme e pf continua....




PS Só por isto até o msn me caiu....