segunda-feira, maio 08, 2006

Uma Vida Demorada (6)

Antes da partida para o Algarve, contactei Alberto Cosme, tinha um favor para lhe pedir.
Foi entregue ao Museu Marítimo de Ílhavo valiosa documentação referente a seis décadas de actividade de dois organismos criados pelo Estado Novo e que controlavam o negócio da pesca do bacalhau: a Comissão Reguladora do Comércio do Bacalhau e, mais tarde, o Grémio dos Armadores de Navios de Pesca do Bacalhau. São 140 dossiers com 21.000 declarações para fins de inscrição no Grémio, fotografias, bibliografia variada, listas de navios com apuramento das pescas, recortes de jornais e 60 cartazes de grandes dimensões.
Alberto tinha-me mostrado a ficha de inscrição do meu pai. Dela consta o percurso de cada homem: os navios, as datas, as categorias que cada um ia ocupando na embarcação (moço de convés, verde, pescador, imediato, capitão), os dados pessoais e uma foto. Nela, o meu pai vestia o que seria o seu único fato; estava muito bem penteado e olhava directamente para quem o observasse, nos lábios, um ligeiro sorriso.
Comentei com Alberto que aquele homem, com aquele olhar, devia impor respeito. Teria sido, no seu tempo, um líder.

- Veja aqui na ficha, ele tinha a categoria de pescador. Com a idade e experiência de mar dele, se fosse um líder nato já teria ascendido a imediato. – Respondeu-me Alberto, ficando um pouco atrapalhado com o comentário. Ainda tentou justificar-se mas eu descansei-o, não me tinha melindrado, ele teria, por certo, razão. Erro meu, que tenho a mania de interpretar as fotografias.

- Dr. Alberto, fala João Vicente, como vai?
- Olá, estou óptimo, e você, descobriu mais alguma coisa?
- Não, nada, mas decidi ir até à Fuzeta fazer umas perguntas.
- Óptimo, óptimo, isso é fantástico, fico a torcer por si.
- Estou a ligar-lhe porque preciso de um favor seu.
- Diga lá.
- Bom, queria pedir-lhe se, através das fichas de inscrição no Grémio, você me podia dar uns quantos nomes de pescadores que possam ter trabalhado com o meu pai, estado nos mesmos navios… não sei se é viável.
- Vou ver isso, mas não sei se teremos sucesso. O seu pai já estava há uns anos no Aliseo e, como as tripulações tinham tendência a não mudar muito, tiveram todos o mesmo destino. Mas eu vou procurar e envio-lhe por mail cópias das fichas, já as temos digitalizadas.
- Isso seria excelente. Nem sei como lhe agradecer este trabalho todo.
- Não se preocupe com isso, de alguma coisa eu me hei-de lembrar. –Soltou uma sonora gargalhada. – Para já faça-me também um favor.
- Só se não puder.
- Pare de me chamar doutor.

Antes de ir, quis também ficar a conhecer um pouco melhor a Fuzeta. À falta de melhor ideia, procurei na Internet.
Fiquei a saber que o nome deriva de Fozeta, diminutivo de foz, o que teria tido origem no facto de ali, em tempos idos, ali desaguar um ribeiro. Desconhece-se a data em que ali se terá começado a constituir um aglomerado populacional mas, na época das Descobertas, é conhecida a participação dos seus pescadores nas caravelas dos irmãos Corte-Real, participando assim na descoberta da Terra Nova. Talvez por isso, foram dos primeiros portugueses a aventurarem-se nesses mares para a difícil pesca do bacalhau.
Fiz um brilharete com estas e outras informações durante a viagem. A Leonor estava espantada, via-me interessado. Não o disse, mas sei que estava a adorar cada minuto daquela aventura. Não por ela em si, que não era grande aventura, mas pelas diferenças que ia notando no meu comportamento e que ela atribuía a toda aquela situação.

Parámos à entrada da Fuzeta, no snack-bar pastelaria Moby Dick, para café, água e indicações para o cemitério. Não nos demorámos, o cemitério ia fechar em breve.

- Alda das Dores Saraiva? Esse nome não me diz nada. – O responsável pelo cemitério coçava a grande cabeça, cheia de cabelos brancos. Tinha um sotaque algo carregado. – Tem a certeza que ela aqui está sepultada?
- Bom, na verdade, não tenho, julgo que sim, era aqui que ela vivia, foi aqui que morreu.
- Isso foi quando?
- 1969.
- Deixe-me ver no arquivo. – O homem dirigiu-se a um móvel metálico com várias gavetas e abriu a de baixo. De cócoras, ia revolvendo papéis e soltando exclamações imperceptíveis. Após alguns minutos, ergueu-se. – É como lhe digo, não temos cá ninguém sepultado com esse nome.
- Nenhuma Alda?
- Nenhuma Alda!

Leonor ainda sugeriu que fossemos procurar campa a campa, mas era tarefa inútil. Ali não havia nada que nos pudesse ajudar.

- Vamos procurar as pessoas das fichas que o Alberto te enviou, João. Vais ver que alguém sabe de alguma coisa.
- Mas não hoje. Estou cansado, vamos procurar um sítio onde passar a noite, só me apetece tomar um longo banho.

Não há muito alojamento na Fuzeta, não é terra de turismo, apesar de estar junto ao mar. É, ainda hoje, terra de pescadores.
Indicaram-nos a Pensão Liberdade. Rejeitei a ideia, pensões e Leonor não combinavam, iríamos ficar a Olhão, mas ela não gostou da minha observação e fez questão de que ficássemos lá instalados. “Só precisa de ter uma casa de banho no quarto e estar asseada”. E estava, o asseio era irrepreensível.
A minha ideia de um banho demorado a dois é que teve que ser abandonada, não cabíamos os dois na banheira, nem com toda a boa vontade do mundo.

Jantámos cedo, junto ao mar, cada um o seu bife: eu de atum, ela de espadarte. Quase não falámos durante a refeição, eu porque sou calado por natureza, ela porque sabe disso. O restaurante apenas tinha mais três mesas ocupadas, havia uma certa calma, uma paz que se foi instalando naquele final de noite de Junho e que me foi embalando para um estado de tranquilidade que há muito não sentia.

- Gosto tanto desta música. – Eu ainda não tinha prestado atenção à música ambiente. Leonor tinha um brilho muito especial nos olhos.
- É Bruce Springsteen, não é? – Perguntei.
- Should I Fall Behind… é uma bonita canção de amor, não achas?
- Sim, ele tem músicas óptimas.
- Queres dançar comigo?

E eu, contrariando cada impulso do meu corpo, aceitei. Pedi ao empregado que colocasse a música do início e ali ficámos, os dois, agarrados, quase sem nos mexermos, no meio das mesas, perante o sorriso de clientes e empregados.
Saímos do restaurante directos para o quarto. Havia em ambos uma necessidade que não podia esperar mais. Fizemos amor como se fosse a primeira vez… como se fosse a última vez, não sei bem. Sei apenas que foi de uma intensidade que eu desconhecia existir. Nunca tinha sentido tanto.
Na Pensão Liberdade, na Fuzeta.

Fui acordado pelos gritos de Leonor: - Fogo, João, fogo! Há um incêndio ali em cima.

31 comentários:

Sofia disse...

Quando se pensa que tudo está bem.....pronto lá tens tu que colocar mais emoção na historia!

ehehehhe tou a adorar. continua sim?

bjs

Paty disse...

Bah!!! Odeio o to be continued...
Aghghghghghgh!!!! :)
Beijus

Paixão disse...

Fogo digo eu! Até me assustei. Que coisinha tão romântica, e depois...puff! De volta à realidade e com direito a fogo e tudo!

Mas não me convences a desistir;)
Continuo à espreita para o novo episódio. Este João está a sair-se muito bem...

Beijinho

Seda disse...

Olá Rui..passei pra fazer uma visita e conhecer seus posts...agradeço pelo seu comentário ao Tok...gostei dos seus textos e voltarei mais vezes pra te ler ...desejo uma linda semana pra ti ...bjos com Tok de SEDA

alice disse...

querido rui,

fui hoje agradavelmente surpreendida pela tua visita no meu novo e definitivo refúgio...

venho sempre ler-te, sabes... como se as tuas histórias fossem vidas de pessoas minhas vizinhas e precise de vir saber de como vão

espero que me perdoes esta forma de interpretação dos teus textos

oxalá esteja tudo bem contigo

um grande beijinho para ti,

alice

inBluesY disse...

bonita a sintonia de espaço, bonito o romance, bonito a espectativa desesperante :))

Luna disse...

Passei para continuar a leitura
beijos

joão marinheiro disse...

Sabes Rui, posso tratar-te por tu? Gosto de ler os teus escritos...Avivam-me a memoria, tantas vezes fiquei na Pensão Liberdade, tantas vezes me abracei no amor como uma primeira vez..Tantas vezes ficava altas horas da noite com os amigos a tocar musica na praia...A minha Fuseta...das noites de calor e cheiros a flores...
Navegas por sitios que me são fasmiliares e por temas que me dizem muito, Ilhavo, o Museu...A pesca do Bacalhau...Costumo comversar com alguns velhos pescadores...O mar...O mar que amo...
Abraço com sucesso na busca...

Maria Pedro disse...

Rui, fazes mesmo esses percursos?

(quando muito eu consigo, quando muito, uma sombra da tua autenticidade e mesmo assim fica patente que estou a falar de mim...)

Sea disse...

Consegui, finalmente, ler com atenção o texto.
Acho que nem preciso dizer muito mais, já sabes o que penso :)
Aguardo desenvolvimentos, no alvoroço do dia a dia de uma vida demorada ;)
beijo

rafaela disse...

Paragem arrepiante.
Passou tão rapido e já estou a espera do proximo.

=)

Vanda Baltazar disse...

-estas a ver o que faz a Liberdade aos corpos que se entregam? provoca fogo! :)

agora a serio...Rui, tu sabes do que escreves!

desta vez nada de grandes banhos, estamos aqui todos em pulgas!

Beijinho

Van

Salvador disse...

Fogo isto está a ficar intenso e emocionante

1 abraço

Francis ( X ) disse...

Tanto detalhe, tanto trabalho de pesquisa, e agora um fogo, pronto começou os incendios.
Estou a gostar para variar :)

Um abraço

BloodyMary disse...

Excelente criatividade. Excelente a forma como prendes os teus leitores a cada capitulo destas "histórias de uma vida". Excelente descrição de Vidas.
É bom vir aqui e ver que continuas em grande.

Sempre muito bom.

Um beijo*

ISA disse...

ai credo homem tu queres-me matar por amor de deus... n nos faças esperar muito, pode ser? desculpa a pressão mas esta coisa do fogo deixou-me assim... em brasa!!! :-) bjs

zeni disse...

Vinha aqui todos os dias ver se já havia outro episódio e vou continuar a vir! Estou presa à história...

Polly Jean disse...

Esta história está a despertar a curiosidade. Parabéns mais uma vez.

Dani disse...

Fogo, que o rapaz não tem mesmo sorte nenhuma! :)

segurademim disse...

...ó Rui, então incendearam a pensão???????
;)

rmgv disse...

meu caro o que eu quis dizer com a historia no blog era que tinha o todo o prazer de ver a sua historia aqui publicada devido a ser uma historia de alguem tão nobre da nossa terra que combateu pelo nosso país. um abraço

keops disse...

Caro Rui, então a editora, avança ou não?
Um abraço

Foxylady disse...

Obrigada pela visita!
Adorava ir á gathering mas creio que não vou poder mesmo... Caso a pensar ainda... Vou ver se leio a história do começo ok?
beijo severo..

Sara MM disse...

mmmmmmmm.... isto está a melhorar...

:o)

mas agora... fiquei a pensar... afinala TIANICA será da Foz?!?! ou da Fuzeta ?!? :o)

BJss

alice disse...

cucu ;)

vim retribuir a visita escrita

a leitura está cá dentro... a florir

beijinhos

alice

Wisper disse...

já foste linkado!!!

Carla disse...

Rui,vamos la falar a serio!
O livro quando sai?
Tenho que te ter a noite na cabeceira...
;)

missixty2000 disse...

Continua, porque já não passamos sem o fim!!!
beijocas

legivel disse...

Não quero ser mais papista que o papa; mas se bem me lembro tinham feito amor antes de adormecerem. Então porque raios é que o fogo só se fez sentir de manhã*?!

* Presumo eu, que fosse de manhã...

Andas a pôr o pessoal com água na boca; viajas com a Leonor para o Algarve em interlúdios apaixonados com Bruce Boss em música de fundo, mas...e a estória? esta investigação anda a preocupar-me...

Inês Diana disse...

LOL eu tb andei a tarde toda a cantarolar a "tianica da fuseta"
(as coisas que tu me fazes :P )

Já agora... Ela devia era tê-lo acordado, com uma voz rouca, e dito: "João, tenho um fogo... aqui em baixo" ;)

Beijo

Anónimo disse...

Oi,

Conhecer a Fuzeta...
Melhor ke fazer amor na areia branca da ilha da Fuzeta...ao pôr do sol...já passaram tantos anos...
Sempre valeu a pena os 20m de caminhada p/ lá e mais 20m p/ cá até xegar ao barco.
Com prazer descobri a Fuzeta e a redescobri todos os anos seguintes.
Era perfeita à 20 anos atrás.
Hj é positivamente diferente do caus Algarvio.
Não vão lá p.f.