quinta-feira, maio 11, 2006

Uma Vida Demorada (7)

Levantei-me de um pulo. Estava a dormir profundamente mas, quando os meus pés tocaram na alcatifa, sentia-me totalmente desperto.
Peguei na mochila onde transportava o material fotográfico, na carteira e preparava-me para juntar a roupa, que estava espalhada pelo chão, para fugir quando reparei em Leonor, parada em frente à porta envidraçada que dava acesso a uma pequena varanda. Estava estranhamente calma.

- Ali em cima, anda ver, parece ser no adro da igreja. – Vestida com o negligé cinzento que trouxera para me impressionar (sem que tenha sido necessário) e banhada pela luz artificial vinda do exterior, tinha uma aparência algo fantasmagórica. – Um incêndio, João!

Estaria eu a sonhar?

- Pensei que o incêndio era aqui, na Pensão. Assustaste-me.
- Não tonto, na rua.

De facto, não muito longe, no cimo da colina, bem junto à igreja, viam-se clarões de um incêndio.
O jornalista que há em mim assumiu o comando.

- Vou lá ver. Pode ser uma notícia e notícia com imagens vale mais.
- Vou contigo.

Argumentar com Leonor sobre os perigos de um incêndio seria inútil. Vestimo-nos rapidamente e, com a mochila ao ombro, saímos. Eram 23h00.
O caminho foi feito em passo estugado. Sentia-me cheio de energia, entusiasmado. De mão dada, quase corríamos.
Aproximamo-nos da igreja pelas traseiras; o incêndio era mesmo no adro, do outro lado do edifício. As sombras e os reflexos das chamas reflectiam-se nas casas vizinhas. Detivemo-nos.

- João, não se ouvem sirenes, os bombeiros ainda não chegaram. – Disse Leonor, algo ofegante. Tinha razão, tudo estava calmo, não se via ninguém na rua, não se via nenhuma da agitação que seria de esperar junto de um incêndio.

Dobrámos a esquina da igreja e elas ali estavam. Eram algumas dezenas. Estavam em silêncio, formando um círculo largo que ocupava todo o adro da igreja. As suas sombras tremeluzentes alongavam-se pelo chão de pedra gasta, formando uma espécie de cerca alta.
As pessoas – na maioria mulheres idosas que, em silêncio, pareciam rezar - contemplavam uma enorme fogueira que ardia com alguma violência, projectando altas labaredas na direcção do céu onde, em quarto crescente, a lua parecia apreciar a cena.
Troquei um olhar com Leonor, também ela não compreendia o que estava perante nós.
Instintivamente, tirei a câmera fotográfica da mochila, ajustei a exposição, a velocidade de obturação, encostei-a à cara e pousei o dedo indicador direito no botão de disparo. Não consegui, não tinha força no dedo. Senti estar a invadir algo a que eu não pertencia, algo que não compreendia. Não fui capaz de fotografar.
Leonor pegou-me na mão e levou-me até junto de uma idosa, toda vestida de preto que, mais afastada do círculo de pessoas, observava as chamas. Estas, reflectidas no seu rosto, davam vida às rugas profundas de uma vida vivida. Havia dor naquela expressão de pedra. Os olhos pareciam deitar fogo e não absorvê-lo.

- A senhora desculpe, mas pode explicar-nos o que se passa aqui? – Leonor apertava-me a mão com força, num misto de medo e atracção por aquela figura.
- Não sabem que dia é hoje? – Respondeu ela num tom de voz calmo, sem tirar os olhos do fogo.
- Hoje… não… quer dizer, para além de ser 16 de Junho?
- Não sabem da lenda da Nossa Senhora do Carmo…
- Não.
- Eu conto-vos, é importante ficarem a conhecê-la. – Eu sentia dificuldade em me concentrar, sentia o calor da fogueira queimar-me o rosto. A mulher contou-nos então a lenda.

Diz o povo que, muitos anos atrás, se levantou um forte temporal quando os pescadores se encontravam na sua labuta, no alto mar; em terra, as mulheres, desesperadas, fizeram uma enorme fogueira no adro da igreja, ponto mais alto da povoação, procurando orientar os seus homens no caminho certo de regresso.
Dos barcos no mar alto, os pescadores viram a luz distante e a imagem de Nossa Senhora do Carmo, que os acompanhou até chegarem sãos e salvos a terra firme. Tudo isto se terá passado num dia 16 de Junho, e até hoje faz-se anualmente a fogueira no adro da igreja, honrando a sua padroeira. É também o ponto mais alto dos festejos da Fuzeta, que decorrem de 1 a 17 de Junho.

- É uma lenda bonita. – Afirmou Leonor.
- É mais do que isso. – A mulher mantinha o olhar fixo no fogo. Nós nada dissemos, ambos olhávamos na mesma direcção que ela, tentando perceber o que via. – Não é para o fogo que olho, é para o mar, ao fundo. Perdi para ele o meu homem há muito tempo e todos os anos, neste dia, venho aqui na esperança que ele, onde quer que esteja, veja o lume. Me veja a mim, que nunca o esqueci.

Após um breve silêncio, apenas interrompido pelo som do crepitar da lenha na fogueira, continuou: - Viste à procura de respostas, mas não é tempo delas ainda. Antes disso vais ter que te encontrar a ti próprio.
- Posso tirar-lhe uma fotografia? – Disse-lhe eu, não dando importância ao que ela dizia.
- Não adianta. De mim nada ficará.

Voltei a ter a sensação de que, a qualquer momento, iria acordar, que tudo aquilo era um sonho. Agora, já não sonhava com o meu afogamento no mar alto, em vez disso, ardia naquela fogueira.
Peguei de novo na câmera. Olhei para o lado mas a velhota já lá não estava, tinha desaparecido.


Retirei o texto da lenda daqui - de tão bem resumido, não consegui resumir mais.

36 comentários:

Paixão disse...

Inesperado, como sempre...
Belamente escrito, como sempre...

Não tem piada comentar. O bom é mesmo vir cá ler-te.

Beijos

Sofia disse...

Excelente como sempre. Mas diz, e quem era essa velha misteriosa, a mãe????

bj

as velas ardem ate ao fim disse...

Esta muito bonito!
bjos

Luna disse...

As lendas tem sempre algo de verdade e ao mesmo tempo estão cercadas de magia
beijos

Luna disse...

As lendas tem sempre algo de verdade e ao mesmo tempo estão cercadas de magia
beijos

Martuxa disse...

Lindo para ñ variar =)
Sorrisos e beijos

zeni disse...

Uau! Está a ficar cada vez mais interessante!

ISA disse...

muito bonito mesmo... bjs

Maria Pedro disse...

Aha! Não conheces, não estiveste lá, mas tão-pouco inventas. Investigas!!!

Salvador disse...

Enganaste-me com o incendio, és imprevisivel
Continua assim

rafaela disse...

Continuo a ler e a esperar o proximo.

=)

Paty disse...

Lá está ele com o to be continued...irra! Anyway...
Fazes me voltar ao meu algarve de que tenho tantas saudades, tive vontade de por as tralhas na moxila e zarpar...
Ai ai ai!
Beijos

Sea disse...

..."não adianta. De mim nada ficará"
Registei esta frase.
A ler-te sempre, sem comentários :)

inBluesY disse...

de facto, que capacidade heim !? e aqui fico sentada aguardando o próximo capítulo mui bien ... :)

e a frase q a Sea refere de facto *****

bjs

Paty disse...

Rui,
Quanto à maratona já vais atraso :D
Ve la se apareces!!! Conheco malta que foi e diz que o ano passado foi curtido :D
Beijos

Paty disse...

P.s. Axo que as incrições são ate 14 no ipj ou que é e até hoje na APAF.

Beijos

Canephora disse...

Adoro vir aqui... é sempre uma surpresa, e ainda bem. Meu amigo, não posso deixar de te dar os parabéns, excelentes todos os teus textos, mas estes últimos... tem sido espectaculares. Melhores que os de muitos escritores modernos.
Continua.

hala_kazam disse...

ainda bem que estava resumido

:)


que hei-de dizer...lindo como é o habito


*beijo grande*

alice disse...

querido rui,

obrigada pela tua visita

sabes, é mesmo bom acabar a semana com a promessa de continuidade do teu conto durante a próxima...

desejo-te um óptimo fim de semana

um grande beijinho,

alice

Jaqui disse...

Excelente!
tenho-me guardado os meus comentários, porque "sabia" que iria ter um final que ia me surprender e não me enganei ;-)
Bjs e Bom fds.

segurademim disse...

...por momentos assustei-me! pensei que fossem os registos da igreja que estivessem a arder! nas igrejas guardam-se descrições muito importantes das pessoas da paróquia.
Talvez o João e a Leonor lá consigam algo do que procuram...

beijo, bom fim-de-semana

Wisper disse...

Arrepiante... é uma história fantástica...

Adorei passar por aqui

Sara MM disse...

Era a Nossa Senhora do Carmo em pele e osso... ao vivo e a cores...!!!??!?!?!?!???

BJss

Inês Diana disse...

Socorro... :S
Tanto tempo sem cá vir!
Hoje leio 8 posts de enfiada e acabo com o formigueiro de ter de esperar até para a semana para ler a continuação!!!
Não se faz, pa! :P


Beijo

P.S. - Continuas a surpreender-me :)

lélé disse...

uma velha, que deita fogo pelos olhos, um dragão intemporal... sim, é bom que ele se encontre primeiro e às respostas depois... (no meio disto tudo, parece-me é que o João vai encontrar a Grande Avó...)

Medusa Azul disse...

...o bacalhau está a ser bem cozinhado! ;)

alyia disse...

Mais uma vez a ler-te :)

Vanda Baltazar disse...

e agora? Ai nossa Senhora do Carmo nos valha...

Rui, enquanto estas "com o rabo de molho", toma lá uma beijoka que bem mereces! :=)

manhã disse...

Quem me dera acreditar em milagres! Talvez se acreditasse eles acontecessem mesmo!

GNM disse...

Escreves muito bem!
Gostei bastante do que li!

Fica bem!

a_mais_linda disse...

muito bom!!
as Mais fazem anos!!! vai ao nosso bog e habilita t a 1fantastico prémio!!

legivel disse...

Percebi perfeitamente o resumo da lenda. Está muito bem sintetizado, embora não me tenha queimado... A ti,pelo contrário, na tua busca incessante de respostas, tudo te acontece... em sonhos. Depois de quase te teres afogado, agora o fogo quase te chamusca. Os elementos não te largam e nem quero fazer futurologia sobre o que te acontecerá com a... terra.

Sara MM disse...

Venha o 8!
Venha o oito!
:o)

Sea disse...

A vida continua demorada...

alice disse...

bom dia, rui ;)

como estás?

desejo-te uma boa semana e aguardo a continuação...

um grande beijinho,

alice

Margarida Atheling disse...

Já vi que tenho muito que ler por aqui! Ainda bem! :)

Beijinhos