sexta-feira, abril 28, 2006

Uma Vida Demorada (4)

Play.

Espero que estejas bem. Temos todos muitas saudades. Tenho o João ao colo, ele vai falar… diz olá ao pai… farta-se de falar, mas agora nada, é sempre assim. Todos os dias lhe mostro a tua foto e falo-lhe de ti. O tempo tem estado bom, dias de sol, sem vento. Aceita um beijo de quem mais te quer.
Parei a gravação e deixei-me ficar. Olhava em frente mas não via nada. Estava longe dali, sem saber bem onde. Não tinha raízes! Tal como o meu olhar não tinha onde pousar, também eu senti naquele momento que não pertencia a lugar algum. Nem a ninguém.
Mais do que nunca, apeteceu-me uma bebida. Tinha que sair dali e depressa.

- Whisky? Na Cantina não temos whisky. – O empregado olhava-me com espanto.
- O que é que têm com álcool?
- Cerveja, só isso.

Cerveja ia levar muito tempo a produzir o efeito que eu pretendia. Precisava de uma bebida destilada, mais forte. Lembrei-me que o Alberto podia ter alguma coisa guardada no gabinete e dirigi-me para lá.
Saí do edifício e o sol acertou-me em cheio, com violência. Fechei os olhos e senti uma tontura. Tive que parar. Sentei-me num banco, à sombra de uma pequena árvore. Sentia-me prestes a desmaiar.
O movimento era escasso, alguns alunos dirigiam-se para o edifício da Cantina. Olhei para o relógio, eram quase 13h00 e eu não comia nada há muitas horas. Tinha bebido um café e comido metade de um queque ainda em Lisboa, antes das 8h00. Pagava o preço das emoções fortes e de um estômago vazio.

- Então é aqui que você está. – Uma voz atrás de mim trouxe-me à realidade. Era Alberto Cosme.
- Ah, sim… precisava apanhar ar.
- Fui lá ter consigo para virmos almoçar, mas não estava. Andei à sua procura.
- Ouça, você por acaso… er… não tem… er… nada, deixe, vamos lá almoçar, sim.
- Você está bem? Está branco, homem.
- Dor de cabeça, isto passa.
- Então venha daí, não é nenhuma especialidade o que aqui se come, mas é barato.

Sentámo-nos, cada um com o seu tabuleiro e, enquanto tentava comer uma espécie de carne de porco à alentejana (sem amêijoas), o Alberto perguntou-me: - Então, teve sucesso? - Contei-lhe da minha descoberta.

- Mas isso é fantástico! Os meus parabéns. Que coisa extraordinária. Fantástico, mesmo. – Os olhos de Alberto brilhavam atrás das lentes redondas, estava visivelmente entusiasmado. Muito mais que eu. – Você vai ter que nos deixar juntar a sua história à nossa investigação. Ainda não sei bem como, mas é fantástico demais para se perder.
Eu disse-lhe que sim, na altura quase nem o ouvia com atenção.

- E só encontrou uma gravação da sua mãe?
- Desculpe, como disse?
- Se só encontrou uma gravação da sua mãe.
- Há mais que uma? – A minha surpresa era grande.
- Como deve calcular, não faço ideia, mas era frequente voltar às mesmas localidades, algum tempo depois, noutra campanha, ou seja, pode haver mais mensagens da sua mãe… ou de outro familiar seu. – Alberto falava com a boca cheia de omeleta, agitando as mãos no ar, segurando os talheres.
- De facto, eu não ouvi mais nada, pensava que só havia uma gravação.
- Então vai ter que procurar mais um pouco. Nós, no estudo que fizemos, ouvimos as gravações e encontrámos várias pessoas com mais que uma mensagem. E olhe que a Fuzeta era das terras mais visitadas pela RDP.

Fuzeta, Branca Noiva do Mar.
Veio-me à memória a reportagem da TSF. Tinha sido lá que os técnicos do Museu Marítimo tinham realizado as primeiras entrevistas fora de Ílhavo, reagindo assim à extraordinária manifestação de disponibilidade de muitos pescadores da Fuzeta para a partilha das suas memórias, ainda em 2005, no âmbito da itinerância da Exposição de fotografia A Campanha do Argus, em Olhão.
Meu local de nascimento, ao qual nunca tinha dado importância.

O segundo e derradeiro cd já só tinha mais três gravações quando voltei a ouvir a voz da minha mãe. A qualidade do som era igualmente má, havia muito daquele ruído característico dos discos de vinyl riscados.
O início da mensagem era idêntico ao anterior, o meu pai estava de novo na Terra Nova, mas pude perceber facilmente que a voz da minha mãe estava alterada, não parecia sequer a mesma. Ao contrário da calma anterior, do sorriso na voz, havia agora algum temor nas palavras ditas.
Parei a gravação e procurei a data na caixa do cd. 1970, dois anos depois da primeira mensagem, o ano em que tudo tinha acontecido. Aquela seria a derradeira campanha do meu pai. Poucos meses depois daquela gravação a minha mãe iria suicidar-se. Teria isso alguma coisa a ver com aquele tom de voz alterado, com toda aquela emoção?
Não era possível, a minha mãe não podia adivinhar o que iria suceder. Teria tido um sonho, uma premonição? A minha cabeça fervilhava, começava a doer imenso. Sentia alguma desorientação. Respirei fundo várias vezes e ouvi a mensagem de início:

- João, por aqui o tempo tem estado mau, nuvens negras rondam a Fuzeta, o vento faz-se sentir cada vez mais, parece que a tempestade se vai abater. Quando chegares, ao largo, atenta na corrente, não desembarques sem teres a certeza da maré. Leva o tempo que for preciso. Sabes como te quero, hoje e sempre.

A mensagem era, no mínimo, estranha. O que significava aquilo? Falar do tempo, dizer a um pescador experiente como e quando devia atracar? Não fazia muito sentido. Havia ali algo nas entrelinhas.
Não havia terceira mensagem. Fiz cópias das duas gravações e regressei a Lisboa.
A Leonor concordou comigo, era muito estranha aquela segunda mensagem, nada tinha a ver com a primeira, quase nem parecia a mesma pessoa.

- O que é que eu posso fazer? Não há mais nada nos arquivos que me possa ajudar. Ainda perguntei ao Dr. Alberto, mas vagamente, não quis dizer-lhe o conteúdo da segunda mensagem. Eles não têm mais nada relacionado com as gravações.
- Só vejo uma coisa que possa ser feita, João. – Leonor fitava-me com um olhar muito particular dela, o mesmo que lhe bailava nos olhos quando ela descobria uma saída para um caso difícil em que trabalhasse.

- O quê? – Perguntei eu, receando a resposta.
- Temos de ir à Fuzeta perguntar pelos teus pais.

28 comentários:

Vanda Baltazar disse...

...só mesmo essa doce Leonor...coisa de mulher nao desistir, ir mais longe :)

Gosto dele.Do homem que tem o bacalhau enrolado nas tripas da vida, à espera de um sol que o seque. para por fim poder ser digerido...

bacalhau, prato servido com sal.

Por falar nisso, há muito tempo que não faço bacalhau com natas :) e ainda bem :)

duas beijokas :)

neith disse...

E a caneta vai delineando os contornos de uma história que pode ser fictícia ou talvez não, de uma forma sempre embriangante. Espero que a ida à Fuzeta se concretize e possam obter as respostas às dúvidas existentes :) Beijinhos e bom fim de semana

inBluesY disse...

excelente o mistério :)

um BJ

clotilde disse...

Muito bom!

Bom fim de semana
Beijinhos

rafaela disse...

Continuam os cortes na altura certa.

=)

Paixão disse...

E agora a intriga aumenta...
E eu novamente suspensa nas tuas próximas palavras. Gosto do teu modo de escrever.

Beijos

alísios disse...

isto está profundo...
adoro vir aqui ler as tuas histórias. Adorava ter essa capacidade. devo dizer que esta está espectacular, inclusive o trabalho de pesquisa.
Deviamos ter mais escritores assim em Portugal, talves nos tornassemos mais leitores, mais cultos e melhores escritores... os meus parabéns

Ana P. disse...

Só no fim, já sabes...

Beijoca.

E vê lá se vês aquiulo dos fados

Sofia disse...

Que grande e emocionante aventura Rui!

fico a espera de mais.

bj e bfs

zeni disse...

Humm, um policial?! Adoro policiais...! Haverá na Fazeta alguma Miss Marple?!

Sara MM disse...

Ai ai.. boa sorte pro João!!!!

Sea disse...

já sabes, a ler apenas :)

Carla disse...

Ola Rui
Tenho tid pouco tempo,mas adoro sempre ler-te,e agora fiquei espantada com mais uma historia.
Beijos

WildFlower disse...

Ai ai ai...a coisa complica-se!!
Que raiva na parte melhor...zumba!
:P Lá terei que esperar pelas cenas dos proximos capitulos :D
Beijos e bom fim de semana

mixtu disse...

ummm.. à fuzeta, isto está interessante... tou a calcular mas como modificas sempre o sentido da cosa...
cumprimentos monárquicos

lélé disse...

à procura de raízes desconhecidas... essa é uma viagem sempre proveitosa... mesmo que, neste caso, o João nunca venha a entender a sua repulsa pelo bacalhau...

sonia r. disse...

Estou a gostar de ler...bom fim de semana Rui.

Bjo

legivel disse...

Uma viagem no tempo, em busca de respostas para uma história de vidas. Acompanho. Sempre.

Bom fim de semana!.

Akasha disse...

Acabei de ler a 3ª e a 4ª parte. Mais um desenrolar fabulástico de mais uma história que, as usual, promete :-)

Gostei do pormenor da advogada/analista, não podia concordar mais :-)

Bjnhs e bom fds

lazuli disse...

cada vez mais fico colada aqui. Boa noite, Rui

Luna disse...

Quando se inicia algo, temos de ir ao fim

ernest disse...

Cada vez mais cativante. Aquela escrita que prende mas de forma pura, por si só. Parabéns mesmo Rui.

amigona disse...

Voltarei!

rmgv disse...

meu caro encontrei por acasso o seu blog, e tenho que lhe dizer que é verdadeiramente maravilhoso.
muitos parabéns

Dani disse...

Lá tive eu que ficar aqui um bom bocado a actualizar-me...

segurademim disse...

... o imaginário das crianças adoptadas deve ser complexo... nada é linear nos seus, percurso e desenvolvimento

temos de ir à Fuzeta

beijo, dia feliz Rui :)

Vanda Baltazar disse...

demora o V...e eu suspensa à espera...

Afrodite disse...

Amanhã volto...
Tenho muito que ler por aqui.

Beijo do olimpo