domingo, março 19, 2006

O Olhar de Arminda (IV)

Francelina observava a filha ao longe, via-a recolher as vacas à loja – nome dado na aldeia à parte da casa reservada aos animais. Percebia nela a força e a determinação que um dia ela própria se vira obrigada a arrancar de dentro de si. Em Arminda isso era natural, tinha nascido com ela.
Quis sorrir mas não conseguiu. Sabia que essa mesma força e determinação da filha era o que, um dia, a ia levar a partir.

E assim foi.

Sentada num banco, Francelina estava sentada à janela. Tinha o olhar preso na rua, numa enxada que a filha se esquecera de guardar.Com os cotovelos apoiados no pequeno parapeito e as mãos juntas, parecia rezar.
Tinha parado de chover há poucos minutos. Nuvens escuras corriam velozes no céu, empurradas por um vento frio que soprava vindo de Espanha. Apesar de serem três da tarde, a pequena divisão, que servia de cozinha e de sala, estava envolta em semi-escuridão. A luz que tinha jorrado da lareira extinguira-se por falta de combustível sem que Francelina se tivesse apercebido disso.
Um relâmpago cortou o ar bem perto da aldeia, iluminando o rosto da mulher, que levantou os olhos do solo. As rugas marcavam-lhe a expressão. Os olhos brilhavam. Estava serena.
Seguiu-se o som do trovão, forte, próximo, fazendo-a estremecer.

- Mãe… - Arminda tinha saído do seu quarto e estava agora a meio da sala.
- Sim, filha? – Respondeu sem se virar.
- Vou viver para o Porto.
- Quando?
- Daqui a uma semana.
- É isso que tu queres?
- Sim, mãe…
- Vens visitar-me às vezes?

Arminda não respondeu, foi abraçar-se à mãe.
Também lá fora a água começou a cair.

Contou, depois, como tinha lido numa revista que havia uma fábrica de confecções de Vila Nova de Gaia a contratar raparigas. Que tinha escrito a Fernanda, sua ex-colega de escola, cujos pais tinham ido viver para o Porto há dois anos – e que a mãe bem conhecia -, para a ajudar a procurar um quarto para alugar. Que tudo ia correr bem.

Dez dias depois, ainda o dia não tinha nascido, estava Arminda, no seu quarto, a olhar para as roupas que tinha escolhido e colocado em cima da cama. Não tinha sido uma escolha difícil, pouco mais roupa tinha que aquela.
Pegou no candeeiro a petróleo e ajoelhou-se. Espreitou para baixo da cama e puxou uma pequena mala de cartão empoeirada e algo bolorenta. Tinha sido dada à mãe por um seu tio que vivia em Chaves. Era às riscas, em vários tons de castanho, já sumidas.
Limpou-a o melhor que conseguiu e arrumou algumas revistas e a roupa. Deixou de fora uma saia preta de tyrilene, com um macho, uma blusa pérola e um casaco de malha beige; ofertas de sua mãe, que as comprara à mulher de Laureano, dias antes. Sapatos, só tinha um par, sem salto, em pele castanha.
Vestiu-se e guardou o dinheiro que ia levar, no bolso. Bebeu uma caneca de leite e uma fatia de pão de milho com mel. Guardou na mala um pequeno farnel preparado pela mãe, e saiu de casa no preciso momento em que o primeiro raio de sol venceu o contraforte este da Serra. Estava pronta para a sua nova vida.

O plano era simples: iria de boleia até Bragança com a vizinha Leontina, que todos os meses lá ia à farmácia. Aí, apanharia a carreira até ao Porto, onde chegaria já de noite.

A despedida da mãe foi breve e quase silenciosa: Francelina tomou a cara da filha entre as suas mãos e olhou-lhe nos olhos; era aquele olhar de quando descia da Serra, longínquo. Lembrou-lhe o olhar do pai da sua filha e isso assustou-a.

- Prometes que tens cuidado?
- Sim, mãe.

Beijaram-se e Arminda entrou no carro.

Passava um pouco das nove horas quando a senhora Leontina e o marido deixaram Arminda à porta da central de camionagem.

- Ficas bem rapariga, não queres ajuda para comprar o bilhete?
- Obrigado mas não, dona Leontina, eu desenrasco-me.
- Então boa viagem.

Arminda não entrou para comprar o bilhete. Ficou a olhar para os carros que passavam e para os prédios à sua volta. Tudo aquilo era novidade para si mas não estava assustada. Como ainda tinha algum tempo, deu uma volta pelo quarteirão, observando tudo com atenção e algum espanto.
De volta à central de camionagem, esperou. Segurava na pequena mala com ambas as mãos e espreitava para um lado e para o outro.
Dez minutos depois ouviu o barulho ao longe. Sim, é a camioneta, pensou para si. Fixou os olhos naquele ponto azul que se aproximava no meio duma nuvem de fumo.
Reconheceu a camioneta: era a Bedford de Laureano que se aproximava.
Por entre uma chiadeira infernal, o veículo deteve-se junto a si. Arminda não se mexeu.
Abrindo a porta por dentro, a cara barbuda e suja de Laureano, apareceu à sua frente. Sorria, mostrando os seis dentes que tinha.

- Não estavas há muito tempo à minha espera, pois não, carinha laroca?

quinta-feira, março 16, 2006

O Olhar de Arminda (III)

A princípio, não deu importância; estranhou, apenas. Até que uma noite, deitada na sua cama, no sótão, se lembrou de uma conversa ouvida, anos atrás, entre a sua mãe – que Deus a tenha – e a vizinha Ofélia:

- Eu devia ter percebido. – dizia a vizinha. – O que vossemecê quer…
- E não sabia que a falta das regras é sinal de que podia estar prenha?
- Soubesse eu…
- E agora mulher?
- A ver se ainda vou a tempo do desmancho.

Instintivamente, levou as mãos à barriga. E se eu… Afastou o pensamento com um movimento da mão, como se estivesse a enxotar um mosquito.
À medida que os dias passavam, não conseguia pensar noutra coisa. Aquele frio na barriga que tinha sentido nessa noite, dias atrás, teimava em não passar. De alguma maneira, sabia que estava grávida.
No domingo seguinte, contou a Joaquim.

- Rapariga, rapariga… o que me contas tu. Logo hoje que tinha uma noticia para te dar… como as coisas são. – Segurou na mão dela. – É que recebi na sexta-feira guia de marcha para Lisboa, vou embarcar daqui a 10 dias para África, parece que há por lá guerra.
O raciocínio rápido era uma das características de que Joaquim mais se orgulhava de possuir. A lábia, era outra.
- Mas vais ver que isso não é nada, que o sangue ainda te vem.

Francelina não tinha tirado os seus olhos dos dele. Não ficou a saber mais, no entanto, ele tinha-os sem vida; cinzentos, frios e duros como aço. Não lhe viu emoção.
Mais frio na barriga.
Depois de lhe dar um beijo na face, Joaquim retirou a carteira de um bolso interior do casaco, abriu-a e procurou algo. Entregou-lhe um pequeno quadrado de papel, recortado em pequenas ondas. De um lado, umas letras escritas à mão - Francelina não sabia ler -, do outro, cercado por uma moldura branca, o rosto dele. Era uma foto.
Joaquim estava muito bem penteado, tinha aquele sorriso magnífico dele. Parecia olhar para o infinito. Ali, na foto, o olhar era diferente: expressivo, vivo.

- Para que não te esqueças de mim.

Após juras de amor eterno e de um regresso em breve, Joaquim desculpou-se com a trouxa para fazer e foi embora.
Francelina nada disse. Limitou-se a vê-lo afastar-se.

Esperou até ao mês seguinte, talvez tivesse tido o período e apenas não se lembrava disso. Um dia, deixou de se tentar enganar a si própria e contou ao irmão.

Depois de muito drama e lágrimas, o irmão procurou Joaquim. Com a foto, foi ao quartel.

- Olha quem é ele! – Exclamou o oficial de dia. – Você ‘tá tramado, amigo. Esse daí é um grande artista. Deixe-me adivinhar, deve-lhe dinheiro… não é o primeiro, deixe. Foi passado à Reserva compulsivamente há mais de seis meses… um aldrabão, roubava munição para vender em Espanha. E veja lá que parece que nem pode voltar para Lisboa, que se o apanham por lá lhe limpam o sebo.

Após aquilo, o irmão foi da opinião que ela devia abortar. Francelina disse que sim mas, depois, mudou de ideias. Ia voltar para a aldeia.

- Estás louca… matavas o pai de vergonha… impossível… o falatório… eu não deixo…
- Tu vais ajudar-me, irmão. A criança vai nascer aqui e vai viver em tua casa até fazer um ano. Nessa altura, vou enviuvar e regressar então a casa. Ninguém vai saber da mentira.

E assim foi. Mandou-se para a aldeia notícia do casamento – coisa simples, sem direito a festa que os tempos eram difíceis -, da gravidez – uma menina linda e saudável - e do infeliz acidente que vitimou o pobre rapaz, tão novo…
Feliz coincidência, foi o pai a propor que Francelina voltasse.

No regresso a Chaves, após deixar a irmã e a sobrinha, o irmão sentiu remorsos. Não tinha sido capaz de dizer à irmã o quanto se orgulhava dela.
Tinha levado, pouco tempo antes, uma miúda frágil e assustada e trazido, agora, uma mulher forte e determinada.

quarta-feira, março 15, 2006

O Olhar de Arminda (II)

No estrangeiro tudo era bonito: havia casas grandes; carros lustrosos; as senhoras eram louras; os homens bonitos e sempre muito bem vestidos, de cabelo arranjado; havia muitas festas no estrangeiro. Aquilo sim, era vida. A vida que Arminda queria.

- Onde vais tu arranjar essas porcarias, rapariga?
- É a professora Adilia que as traz do Porto, mãe… já lhe tinha dito. – Sabia dar um tom convincente às mentiras que dizia, quando queria.
- Vou ter de conversar com essa professora, vou, vou… - ameaçava a mãe, mas Arminda sabia que ela nunca o faria.
- Larga isso e vai ajudar os teus primos a trazer as vacas, anda. Sempre a sonhar acordada. Ainda vai ser a tua perdição!

No seu íntimo, Francelina sabia que já perdera a filha. Era uma daquelas certezas que se lhe instalavam nas tripas. Não o sabia explicar mas, quando sentia aquele frio na barriga, nunca se enganava.
Uma vez tinham-lhe dito que era o “sexto sentido”. Não lhe adiantou muito, mas ficou a saber o que chamar aquela sensação.
À porta de casa, a ver a filha a caminho do campo, Francelina tentava resignar-se à ideia de que um dia a filha ia partir. Esta não nasceu para ficar quieta… sai ao pai.

Arminda nasceu da inocência. Era a sua mãe pouco mais velha que ela quando, por altura da apanha da azeitona, um seu irmão, que vivia em Chaves, convenceu o pai a deixar que ele levasse Francelina consigo. Que por lá havia muito sitio onde trabalhar como criada de dentro; que até conhecia uma família de bem que lhe dava cama, comida e ainda uns dinheiros no fim de cada quinzena.
Com mais cinco filhos a seu cargo, não foi difícil convencer José a deixar partir a filha. E Francelina foi. Contrariada. Arrancada do único sítio que conhecia.
Não lhe perguntaram se queria ir, mandaram-na só fazer a mala, no dia seguinte, bem cedo, iria para Chaves.

Numa coisa o irmão tinha razão: trabalho havia muito. Quase sempre fechada em casa, Francelina era triste. Queria voltar para Espinhosela, para o campo, queria andar na rua, queria tratar do campo e dos animais.
Mas enquanto não voltava, tratava da casa dos patrões e, um dia, ao iniciar o almoço, viu-se sem cebolas para o refogado. Saiu apressada para ir ao mercado. Sem que o soubesse, ia ao encontro do seu destino.
Ao longo da vida, muita espécie lhe fez a maneira como tudo aconteceu, primeiro a inesperada mudança para Chaves e, depois, como uma simples ida ao mercado lhe havia de mudar a vida. Passou a estar muito atenta às coisas simples e desconfiada em relação às inesperadas.
Em particular, aos homens.

- A menina vai muito carregada, deixe-me ajudá-la.
Aquela voz soou-lhe como música. Ao virar-se, tendo o sol pela frente, apenas viu a silhueta dele. Era muito alto, a cabeça grande, a terminar num estranho triângulo. À medida que os olhos se foram habituando aquela luz, viu-lhe os olhos, muito claros, seriam azuis? Talvez verdes… o sorriso enorme, os lábios grossos, os dentes perfeitos.
O triângulo, percebeu depois, era um bivaque. Joaquim, assim era o seu nome, estava fardado. Soldado no Regimento de Infantaria de Chaves, era um Lisboeta de Alfama, ali colocado como castigo por insubordinação em Mafra.
Detentor do charme característico dos malandros, Joaquim tinha decidido que aquela sopeira tímida e encolhida com quem se cruzou havia de ser sua… e estava habituado a ter o que queria, no que dizia respeito a mulheres.

Nem sequer foi difícil, Francelina percebia pouco de homens e tinha ficado fascinada por aqueles olhos e por aquele sorriso.
Apesar de algumas vigorosas negas dela, acabou por a acompanhar a casa. Na tarde do domingo seguinte, única altura em que ela tinha algum tempo livre, esperou-a à porta para irem passear.
Em menos de um mês, Francelina tinha sido sua.

segunda-feira, março 13, 2006

O Olhar de Arminda (I)

Duas características físicas faziam Arminda Maria de Jesus sobressair: sempre foi a mais alta entre as crianças da sua idade - mais alta que qualquer dos rapazes - e também a única nas redondezas com olhos claros.
Com 13 anos era já a mais alta habitante de Espinhosela, a sua aldeia natal, cravada nos contrafortes da Serra de Montezinho. Aos 16, media 1,80m.

Sua mãe sempre atribuiu os desmandos de Arminda a tão inusitado tamanho. Ela sempre foi grande demais para a aldeia… é até grande demais para a Serra…
Na sua maneira simples de ver as coisas, a sua mãe tinha razão, Arminda sempre se sentiu muito maior que a Serra em que nasceu e cresceu.
O seu passatempo favorito, desde tenra idade, era subir ao sítio mais alto que conhecia e ali ficar, a olhar para terras de Espanha, a imaginar o seu futuro, longe dali. Voltava a casa com o horizonte gravado no olhos.

No início dos anos 70, Espinhosela, como a maioria das aldeias do interior, vivia em isolamento. As condições de vida eram pouco mais que miseráveis, o atraso enorme. As notícias chegavam tarde e o interesse por elas era pequeno. Arminda era quem mais queria saber coisas do que se passava “lá fora”.
Não lhe foi difícil conseguir que Laureano Costa, vendedor ambulante de retrosarias e todos os artigos para o lar, que visitava a aldeia quinzenalmente para vender a partir da traseira da sua camioneta, lhe trouxesse umas revistas do Porto.
Aprendeu muito nova a fazer uso dos seus atributos: corpo bem torneado; pernas a perder de vista; um sorriso inocente como só ela sabia fazer; olhos claros de uma cor indefinível, rodeados por umas longas pestanas que, ao piscar, deixavam o vendedor ambulante afogueado.
Enquanto as senhoras da aldeia se reuniam na traseira da camioneta Bedford, entretidas nas compras e em trocar dois dedos de má-língua com a mulher de Laureano, Arminda colocava-se no adro da igreja, de mão dadas no regaço, cabeça baixa, enquanto com o pé ia raspando na terra batida. Laureano não conseguia tirar os olhos dela, depressa arranjava uma desculpa e escapava-se para uns baldios atrás da igreja com as revistas debaixo da roupa, ao encontro da moça.

- Tens sorte, menina, desta vez trouxe-te a Flama e uma Paris-Match que uma cliente me deu.
- O que é isso?
- É uma revista do estrangeiro. Não se percebe nada, mas tem umas fotografias bonitas.
- Deixe ver…
- Primeiro quero o meu beijinho.

E lá Arminda fechava os olhos e sustinha a respiração, tentando evitar ao máximo o cheiro a suor e o bafo a vinho de Laureano, e lhe dava um beijo por cima da barba por fazer.

- Quando é que me deixas dar-te um abracinho?

Num movimento rápido, Arminda puxou pelas revistas e desatou a correr, limpando os lábios à manga da blusa.

- Arisca esta miúda, um dia perco a cabeça…

quinta-feira, março 09, 2006

Um Momento de Raiva

Arnaldo Faneca era um conformado. Sempre o fora.
De tão apagado, tornava-se quase transparente. Nunca era assunto de conversa entre os seus conhecidos - que amigos não tinha. Fosse ele um dia, por hipótese, o tema de conversa e ninguém seria capaz de dizer que se caracterizava por ser um rebelde, por protestar, por se manifestar. Não, Arnaldo era até conhecido pelo oposto: solitário, não levantava ondas, não questionava nada, nunca se zangava.
Basicamente, não se dava por ele.

Quer dizer, dar até dava, mas por outras razões. Sendo funcionário publico e estando a conjuntura pouco favorável à classe, Arnaldo sobressaía quando era o único a não aderir às greves.
Bem vistas as coisas, nestas ocasiões, ele até era tema de conversa entre os colegas. Sacana e cabrão eram os termos mais simpáticos com que o mimoseavam.
O que ninguém imaginava, é que, pasme-se, Arnaldo não aderia às greves por inconformismo! Achava que se todos faziam, ele devia ser do contra e não aderir. Não gostava de seguir a carneirada mole, como chamava aos que não pensavam por si. É que ele, Arnaldo Faneca - detestava o nome -, ao contrário dos seus colegas, considerava-se uma pessoa esclarecida, informada e com sentido crítico. Só não o demonstrava, paciência.

Aos poucos, foi-se cansando da sua imagem e da troça dos colegas nas suas costas. Revoltou-se.
Era verão, inicio de tarde, um calor abrasador – no seu diário, irá escrever, dias depois, que sentiu “o miolo fritar”.
Tinha aproveitado a hora de almoço para ir à loja da TMN da Avenida da República, para que lhe desbloqueassem o telemóvel (como não o usava por não ter a quem ligar, tinha-se esquecido do PIN).
Tirou a senha 85; no mostrador, que indica o número em que vai o atendimento, piscava o 71; ar condicionado avariado, respirava-se com dificuldade. Meia hora depois, apenas duas pessoas tinham sido atendidas. Começou a sufocar.
Os miúdos que faziam o atendimento pareciam mais preocupados em estar na galhofa uns com os outros do que em despachar as pessoas.
Quando um cliente saiu e o rapaz que o atendeu se pôs ao telefone em vez de chamar a pessoa seguinte, saltou a tampa ao Arnaldo. Atirou com o telemóvel ao mostrador – errando o alvo, mas estilhaçando o Nokia em mil pedaços, tendo um deles ido cravar-se no sobrolho da cliente 80. – e chamou filho da puta, individualmente e de dedo apontado à cara, a cada um dos empregados da loja.
Depois, virando-se para os estupefactos clientes – agora encostados a um canto, com medo dele -, berrou: Foda-se, cansei… querem inconformismo? Pois é isso que vão ter a partir de agora! Aqui o Arnaldo Fan… (engoliu em seco) vai passar a por a boca no trombone e a chamar os bois pelos nomes…

Ia dizer mais qualquer coisa, mas sentiu uma dor muito forte nos rins que o forçou a dobrar-se para a frente. Atrás dele, o segurança da loja, franzino e de aspecto juvenil, com uma barba mal semeada e por fazer (contrariando, assim, o regulamento interno da Prosegur), tinha-lhe dado um soco ao fundo das costas que o paralisou – um truque aprendido nas Galinheiras e que já o tinha safo de alguns apertos.
Salta de trás do balcão o empregado que se tinha posto ao telefone há pouco, e espeta uma tal biqueirada no flanco do Arnaldo, que lhe colapsa duas costelas contra a pleura. Chama lá nomes agora, pá…

Mas o Arnaldo já não consegue dizer nada, arfa cheio de dores, procurando desesperadamente levar oxigénio até aos pulmões.
Pobre diabo, até uma velhota que tinha entrado na loja no preciso momento em que ele se tinha posto aos berros, e que não sabe o que se passa, lhe baixa o sarrafo umas quantas vezes na cabeça. Seu animal, vir para aqui assaltar as pessoas… toma… toma… desgraçado…

Todo partido, na ambulância a caminho de Santa Maria, ia o Arnaldo a pensar que isto de ser subversivo fazia mal à saúde.

segunda-feira, março 06, 2006

O Baloiço (fim)

José Miguel Antunes
Advogado

Exma. Sra.
Patrícia Fonseca Costa
Rua xxxxxxxxxxxxx, 62 2º
1500-256 Lisboa

Registado com AR

Porto, 2 Fevereiro 2006

Assunto: Testamento.

Exma. Sra.,

Venho por este meio informá-la que seu pai, e meu cliente, Artur Fonseca, me encarregou em vida de ficar fiel depositário do seu testamento.
Em virtude do seu falecimento, no passado dia 31 de Janeiro, compete-me contactá-la, na qualidade de única herdeira, para se proceder à abertura do referido testamento e, assim, dar cumprimento às suas últimas vontades. Pelo que agradecia me contactasse pelo telefone abaixo indicado.

Os meus respeitosos cumprimentos.

* * *

Primeiro, o choque; saber assim da morte do pai. Depois, a consciência de que, ao fim de 9 anos a ignorar a sua existência, outra coisa não seria de esperar. Por fim, a emoção, que não conseguiu evitar.
O chão pareceu fugir-lhe debaixo dos pés. Sentia o quê, afinal? Não tinha perdoado ao pai. As razões da sua saída de casa estavam presentes, ainda. Tinha seguido com a sua vida e deixado o passado para trás. Bem para trás. Não era, por isso, suposto não sentir nada de especial?
Mas sentia algo. Foi invadida por um sentimento de terror: e se tivesse sido injusta? Sentou-se e chorou, chorou muito.

O advogado acedeu a recebê-la no sábado. Contou-lhe como o seu pai o tinha chamado, mais um notário, ao hospital para lhe ditar o seu testamento. Que, apesar de lhe ter explicado que isso não seria necessário uma vez apenas tinha uma herdeira, o pai tinha feito questão em o fazer.
Contou-lhe também da carta que ele havia ditado para lhe ser entregue, uma vez que já não conseguia escrever.

Rodou a chave de casa e entreabriu a porta. Um aroma característico invadiu-lhe o olfacto. Tinha-se esquecido dele; era o odor particular da sua casa.
Abriu todas as janelas para deixar entrar o sol ameno daquela manhã de domingo. Poucas alterações haviam desde o dia em que tinha saído de casa.
Reparou nas várias molduras com fotos suas, do marido e da filha, tiradas ao longe. Ficou confusa, não percebia aquilo. Lembrou-se então do texto do testamento: vais encontrar algumas respostas para as perguntas que te assaltarem.
Subiu ao primeiro andar. Em frente às escadas, o quarto. Na porta, continuava colado o sinal de trânsito: sentido proibido. Entrou. A única diferença em relação à memória que guardava dele, era a cama estar feita. Em cima dela, 3 caixas de sapatos com envelopes por abrir.
Retirou um deles, a meio do envelope, escrito em letras garrafais pela sua própria mão leu DEVOLVER AO REMETENTE. Tinha escrito aquelas palavras centenas de vezes ao longo dos anos. Uma lágrima rolou-lhe pela face.

Sentada à mesa da cozinha, viu o último raio de sol desaparecer, escondido pela moradia vizinha. Fechou os olhos.

Tentava procurar um sinal no facto de fazer, precisamente naquele dia, 9 anos em que tinha atravessado aquela cozinha de olhos cerrados pela última vez. Apenas uma daquelas ironias em que a sua vida parecia ser fértil?

Na mão tinha agora o envelope com a última carta do pai, ditada ao advogado. Ia abri-lo quando um grito a fez olhar para o jardim.
No baloiço, empurrada pelo pai, Carolina gritava de felicidade. – Mais alto papá, mais alto…

Ficou a olhar para ela aquilo que lhe pareceu serem horas infinitas.

Fim

Nota: Este texto foi inspirado por duas personagens a que o Clint Eastwood deu vida no cinema: Luther Whitney (Absolute Power) e Frankie Dunn (Million Dollar Baby).

sexta-feira, março 03, 2006

O Baloiço (parte 5)

Amadora, 15 Maio 2004

(…)
Pois é, confirma-se: é mesmo cancro no estômago. Menos mal, afinal não era dos meus cozinhados.
Estou a manter uma atitude positiva quanto a isto, fica sabendo. Aquele pessimista que conheceste, já passou à história. O médico diz que a radioterapia – e uma operação a que não devo escapar -, devem resolver o problema.

Não sou nada religioso, como sabes, mas, no outro dia, entrei numa igreja ali para os lados do Chiado. Acho que nestas alturas acabamos por nos socorrer de tudo…
Não disse nada enquanto lá estive, não fui capaz. Sentei-me e ali fiquei, no fresco. Desconfio que nem me atrevi a pensar. Pareceu-me um grande descaramento, ao fim de tantos anos, me por a falar com Deus, ou com Jesus, ou fosse com quem fosse – mas eles perceberam a minha presença ali, não achas?

Dá um beijo nessa minha neta linda. Aquilo é que ela já corre no recreio, nisso, sai ao avô.

O teu pai.

[…]

Amadora, 8 Outubro 2004

Patrícia,

Tudo parece ter corrido pelo melhor. Soube hoje o resultado dos últimos exames: não há vestígios do tumor. Agora é seguir à risca todos os conselhos médicos – o que vou fazer – e aproveitar bem a vida. Nada como a eminência da catástrofe para apreciarmos as coisas boas que nos restam.
Só tenho mesmo esta amargura da nossa relação, mas as coisas são como são.

Dá os parabéns à pequena, que de pequena não tem nada.
(…)

* * *

O barulho de um carro a estacionar junto à vedação do jardim, fê-la levantar os olhos cansados das cartas.
As sombras alongavam-se dentro da cozinha. Tinha perdido a noção das horas, a luz era já mais fraca.

- Mamã, mamã… - gritava Carolina junto à vedação de madeira.
Patrícia atravessou o pequeno relvado e abriu a pequena porta – lembrou-se da última vez que tinha feito aquele gesto.
- Como estão os meus mais que tudo? – Perguntou depois de beijar a filha e o marido.
- Um baloiço! – Exclamou a miúda, correndo para o limoeiro. - Posso, posso?
- Alexandre, vê se ainda está em condições. Se estiver, fica aí com ela mais um bocadinho, que eu já não demoro.
- Esses teus olhos…
- Vai lá, depois falamos. – Virando-se para a filha, disse: - E nada de tirares o casaco, está muito frio.
- Parece em condições, aguentava comigo. Carolina, olha aqui este desenho tão giro no assento. Um dia vais ter que me ajudar a pintá-lo de novo.

Patrícia voltou para dentro. Já só havia 5 envelopes na caixa.

* * *

[…]

Amadora, 18 Setembro 2005

(…)
E agora as más notícias: tenho outro tumor, agora no pâncreas. Já sei disto há umas semanas mas não quis dizer nada, acho que estava à espera que não passasse de um engano. Não é.
Decidi voltar para casa. Já tratei de tudo, mais uma semana e volto para cima. Vou ser acompanhado no IPO do Porto, prefiro as viagens de Braga para lá do que passar por todo o martírio que me espera nesta cidade, que não é a minha.
Espero que não penses que deixei de querer saber de vocês. É só que há coisas que… olha, não sei explicar, sinto que preciso ir para casa.

Vai ser muito doloroso a última vez que vos for ver. Espero que não o seja, que vocês me vão lá visitar.
(…)

[…]

Porto, 25 Janeiro 2000

(…)
Ontem fiquei internado, já não me deixam ir a casa. Bem os mandei à merda, mas nada feito, aqui estou, a vegetar.
(…)
Essa miúda deve estar enorme, não? As saudades que tenho de vocês. Até do Alexandre, vê lá.

Se quiserem – e puderem – aparecer, estou no piso 5, sala 2, cama 4.

Desculpa a letra, mas estou entubado e as forças já não são as mesmas.

O teu pai.

quinta-feira, março 02, 2006

O Baloiço (parte 4)

[…]

25 Outubro 1998

Filha,

Espero que não te zangues comigo, mas estou a viver em Lisboa. Isto é, arrendei um T1 na Damaia, que em Lisboa não conseguia arrendar nada com a pensão de invalidez. Espero, também, que não te zangues por ter descoberto a tua nova morada.

Não sei como aguentas esta vida aqui em baixo, é tudo caríssimo e uma confusão sem fim. Um horror! Vivo na esperança que mudes de ideias e voltes para Braga – não me desfiz da nossa casa, não seria capaz; um dia vai ser tua.
Fiquei muito contente quando conseguiste esse emprego na empresa que vai gerir os terrenos da Expo. Sempre soube que te ias safar bem, tu és muito inteligente.
Se bem que a arranjar namorados, nem por isso. Então agora é um oculinhos? Não o achas com ar demasiado intelectual para ti? Aposto que é daquele partido que apoia os maricas.

Eu estou bem. Vou indo. Habituar-me a esta mudança é que não está a ser fácil, mas eu aguento-me, quero estar perto de ti.

O teu pai

* * *

O toque do telemóvel assustou-a. Estava incrédula com as atitudes do pai. Aquele não era o homem que tinha conhecido. Mudar-se para Lisboa, incrível! Custava-lhe a crer.

- Mamã… o pai quer saber se ainda demoras.
- Vou demorar sim, Carolina. A mãe precisa tratar aqui de umas coisas. Passa o telefone ao papá.
- Diz.
- Tens que lhe dar o almoço e entretê-la, eu ainda vou demorar por aqui.
- Então passa-se algo…
- Conto-te depois.

* * *

[…]

Amadora, 2 Março 2001

Com que então vou ser avô. Estou radiante, nem calculas. E eu que achava que o oculinhos só disparava tiros de pólvora seca.
Ah valente!, está a revelar-se um tipo às direitas – ironia minha, que ele não engana ninguém. Olha lá, ele vai cortar aquelas barbas algum dia? Será promessa?
Tu cuida de ti, nada de esforços. Achas que vai ser rapaz? Era bom.
(…)

PS – O que eu digo do Alexandre é brincadeira, ele é bom moço e eu sei que gostas muito dele. Ele também gosta muito de ti, acredita.

[…]

Amadora, 5 Outubro 2003

Patrícia,

Até parece mentira, mas a Carolina já vai fazer 2 anos para a semana. Está cada vez mais parecida contigo.
No mês passado estive quase a meter-me com vocês, no Zoo, enquanto assistiam aos golfinhos. Custou-me imenso estar ali, sentado tão perto, e ao mesmo tempo… Mas promessas são promessas e eu não quero quebrar mais nenhuma. Um dia, vais perdoar-me e vamos poder recuperar o tempo perdido, sei disso.

Ando com uma dores de estômago que nem queiras saber. Tudo o que como me põe a barriga a arder. Nunca fui grande cozinheiro, mas que diabo, também não sou assim tão mau.
(…)

* * *

Procurou os lenços de papel na mala, mas encontrou apenas a embalagem de plástico vazia. As lágrimas dançavam-lhe no canto dos olhos, o nariz pingava.
Havia na parede um rolo de papel de cozinha, tirou uma folha, limpou os olhos e assoou-se.

De volta à mesa, pegou na terceira caixa de sapatos. Esta, ao contrário das outras duas, não estava cheia de envelopes.

quarta-feira, março 01, 2006

O Baloiço (parte 3)

Braga, 31 de Janeiro 1998

Patrícia,

Espero que 1998 te esteja a tratar bem. Eu cá, vou indo. Cada dia é uma vitória. Continuo sem tocar no álcool.
Entre o Natal e o Ano Novo quase tive uma recaída. Dei por mim, sem saber como, em frente à tasca do Abílio. Foi como se tivesse acordado lá. Felizmente, alguma coisa me fez voltar para trás.

Estou há mais de uma hora a olhar para esta folha sem conseguir escrever. Tenho muita vontade de te falar num assunto mas, ao mesmo tempo, muito medo da tua reacção. Acho que se escrevi isto, é porque me decidi a contar-te…
Eu disse, ali em cima, que alguma coisa impediu que me enfrascasse mais uma vez. Na verdade, eu sem muito bem o que foi: foi a tua mãe, Patrícia, foi ela! Ela apareceu-me! Que Deus me castigue se te estou a mentir.
Ela sorriu-me. Não me disse nada, não foi preciso. Percebi bem o que ela me queria dizer: que não podia ali entrar, se o fizesse arruinava de vez a minha vida e te perdia para sempre.

Sei que não me achas digno de falar dela, e talvez tenhas razão; eu sei aquilo por que as fiz passar, mas eu precisava de contar isto a alguém… e tinha que ser a ti.
Chorei baba e ranho no fim-de-semana passado, a ver-te, ao longe, junto à campa dela. Os malmequeres eram lindos.

Desculpa-me Patrícia, perdoa-me.

[…]

Braga, 20 de Abril 1998

Patrícia,

Não imaginas a minha tristeza quando soube que estás de partida para Lisboa. Temo que não fiques lá apenas durante a Expo, que isto seja o adeus a Braga, às tuas raízes.
Quero muito estar enganado. Vai ser duro para mim ficar longe, sem te ver, sem saber com quem te dás. Eu sei que não fazes ideia nenhuma disto, mas não é por mal que o faço, é por gostar de ti – acredita quando te digo que mudei, que sou outro.
Sei que nunca fui bom pai e que há coisas que não se recuperam, há tempo que não volta atrás, mas que diabo, acho que me tenho portado bem e que merecia uma palavra tua.
(…)

[…]

Braga, 6 Maio 1998

(…)
Fizeste muito bem em deixar aquele panhonha do Adolfo. Ser cantor de um conjunto que só faz barulho, não é vida para ninguém. Ele que acabe o curso de Direito e ganha juízo, que cantor nunca vai ser. Aquilo são só grunhidos, que raio de voz é aquela?

Parece que estás a cortar amarras outra vez, a deixar algo para trás para recomeçar uma outra vez. Sinto-me culpado como já não me sentia há algum tempo.
(…)

* * *

Patrícia olhava para o limoeiro. O baloiço que tanto adorava ainda lá estava, o assento preso ao tronco por um prego, agora ferrugento.
Era a última recordação boa que tinha do pai: o dia em que ele lhe tinha construído o baloiço.

- Vês estes nós? Nem daqui a 50 anos estas cordas vão sair daqui.
Tinham pintado uma meia-lua na madeira do assento e, nessa tarde, o pai tinha-a empurrado aquilo que lhe pareceu serem horas infinitas.
Interrogava-se agora sobre o que tinha acontecido aquele homem, que tinha sido capaz de demonstrar aquele amor por si. Queria muito ter uma resposta para essa pergunta.
Queria, também, ter a certeza que tinha feito bem ao cortar todos os laços com o pai. A dúvida persistia. Queria encontrar a resposta naquelas cartas.

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

O Baloiço (parte 2)

Braga, 15 de Setembro 1997

Patrícia,

Espero que tenhas tido o melhor aniversário possível. Na hora exacta do teu nascimento fiz um brinde à tua saúde – com sumo de laranja, que não toco em álcool há quase quatro meses.
Era uma novidade que tinha para te dar, caso tivesses voltado para casa: “alistei-me” nos Alcoólicos Anónimos e estou determinado a conseguir recuperar – sinto a mesma determinação que me levou a alistar nos Comandos em tempo de guerra. Não tem sido fácil, como deves calcular, mas mais pormenores sobre isso gostava de te os dar em pessoa.

Não me leves a mal a insistência, mas queria muito falar contigo. Se não for antes, considera, pelo menos, a hipótese de cá vires pelo Natal.

O teu pai.

[…]

Braga, 22 Dezembro 1997

Filha,

Continuo sem notícias tuas e, por isso, já não tenho esperança que cá venhas este Natal. Se mudares de ideias, ia ficar muito contente.

Feliz Natal. Tudo de bom para ti. Que 1998 seja um ano bom para todos nós, bem precisamos. Que seja um novo inicio.

O teu pai.

PS – Gosto do teu novo corte de cabelo. Estás muito bonita.

* * *

Lembrava-se, com inusitado detalhe, de todos os acontecimentos daquele ano de 1997. Tinham-na marcado profundamente. Para o melhor e para o pior, transformara-se numa pessoa diferente.
Ao longo dos anos tinha sido sua convicção de que se tornara numa pessoa mais forte, mais determinada. Numa palavra, melhor. Tinha também perfeita consciência do preço que tinha pago: tornara-se mais fria, mais distante, mais inacessível.
Nada disso tinha importado muito. O que tinha que ser feito, foi feito. Sem dó, nem piedade. Sem nunca olhar para trás, sem nunca pensar e se…

Agora, ali sentada, a ler a correspondência do pai, teve, pela primeira vez, dúvidas. Hesitava. Teria mesmo feito bem quando criou em seu redor uma barreira intransponível para as coisas do passado? Teria, de facto, se tornado numa pessoa melhor?
Mas eu dei-lhe várias oportunidades, e ele nunca as quis – soube? – aproveitar… Os acontecimentos daquele dia de Fevereiro, tinham sido a gota de água final num copo já muito cheio. É claro que fiz bem, pensou alto, enquanto se assoava.
Reparou que o próximo envelope tinha o carimbo de dia 31 de Janeiro.

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

O Baloiço (parte 1)

Braga, 5 de Setembro 1997

Patrícia,

Faz hoje exactamente 8 meses que saíste de casa. O orgulho, que tu tão bem conheces, tem-me impedido de te contactar – calculo que não estejas surpreendida por eu saber onde vives; sabes melhor que ninguém que eu sou uma pessoa de recursos.

Dia 12 fazes 26 anos e eu queria muito que voltasses para casa. Quero falar contigo, esclarecer tudo. Preciso que me dês mais uma oportunidade.
Calculo que estejas a pensar que já me deste todas as oportunidades do mundo, mas desta vez, acredita em mim, é a sério, eu quero mudar mas só o vou conseguir com a tua ajuda. Preciso de ti.

Por favor volta, temos muito que conversar – tenho muito que explicar.

O teu pai.

PS – Nunca tive jeito para escrever mas, ainda assim, pareceu-me mais fácil do que te telefonar; acho que nunca falarias comigo.

* * *

Pousou a folha de caderno amarelecida em que aquela carta tinha sido escrita e mordeu o lábio inferior.
Tentou identificar as emoções que sentia naquele momento. Antes de abrir o envelope, tinha tido a esperança de que não sentiria nada para além de indiferença, mas tinha-se enganado. Sentia algo, mas não sabia o que era.
Olhou novamente para a folha de papel. A letra desajeitada do pai, que tão bem conhecia. Imaginou o quanto lhe terá custado escrever aquelas linhas. Apoiou ambos os cotovelos na mesa e escondeu a cara nas mãos.

Estava sentada na mesa da cozinha da casa dos seus pais, a casa onde tinha crescido. A luz do final de dia chegava-lhe filtrada pelo limoeiro plantado no pequeno jardim.
Aquela sempre fora a sua divisão preferida da casa, nenhuma outra tinha aquela luz natural durante todo o dia. Fora sempre ali que fizera os seus trabalhos de casa, lido os seus livros de aventuras favoritos. Tinha sido ali que passara os melhores momentos com a sua mãe.
As melhores recordações que tinha dela eram dos momentos em que as duas se divertiam a cozinhar enquanto falavam das suas vidas. Tinha sido ali que mãe lhe tinha pedido juízo dezenas de vezes, tinha sido ali que contara à mãe do seu primeiro namorado.
Por momentos, tinha-se transportado para essa infância e adolescência despreocupada, em que tinha sido feliz. Via a sua mãe com o avental favorito a descascar maçãs para fazer uma tarte e ela, em cima de um banco, a ajudar a mãe.

O cheiro bafiento que vinha da caixa de sapatos cheia de envelopes à sua frente, fez-lhe recordar um outro momento passado por si naquela cozinha. Desta vez estava sozinha, era de noite e a cozinha apenas estava iluminada pela lua cheia. As sombras projectadas do exterior, dominavam.
Por uma coincidência em que já tinha reparado, faria amanhã exactamente 9 anos em que entrara naquela cozinha, de madrugada, vinda do seu quarto e fechara os olhos com força. Sentia-se ali mais à vontade de olhos fechados do que a ter que enfrentar aquelas sombras em movimento.
Aproximou-se da porta que dava para o jardim e, o mais silenciosamente que pode, rodou a chave a maçaneta da porta, saindo para o jardim.
Recordou do vento gelado e o limoeiro que se agitava. Não tinha olhado para trás e não tinha voltado nunca mais.

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Meio Frango e Uma Missa

Terça-feira, 9 de Fevereiro, 18h30. Moscavide.
Um motivo forte, mas fastidioso de explicar, faz-me estar a quase 10 kms de casa, a fazer tempo dentro do carro, para ir comprar meio frango.
Dou por mim a pensar nisso mesmo, que me afastei de casa, em plena hora de ponta, para ir comprar meio frango de churrasco. Não bastando isso, ainda é cedo, tenho que esperar até depois das 19h00. (Repito: é um motivo forte que me ali faz estar e não um qualquer convencimento paranóico que em Moscavide é que o frango assado é bom).

Fui dar uma volta por essa bela localidade de fronteira. O regresso a casa domina a cena: a pé ou de carro, a pressa é o denominador comum; só quem tem que utilizar os transportes públicos tem um ar resignado, a esses, ter pressa não adianta de nada.
A Av. de Moscavide não é grande. Ainda me aventurei numa ou noutra perpendicular, mas nada havia que ver, em pouco tempo cheguei ao largo da Igreja. À porta, um grupo de senhoras conversava animadamente. Vi que as portas estavam abertas e aproximei-me.

“Entra… estou à tua espera”. Assim mesmo. Recortadas em papel autocolante vermelho, 20 letras e 3 pontinhos colados em duas portas de vidro fosco, interpelavam-me. Não resisti ao convite e entrei.
Quer dizer, tentei. É que quando empurrei as ditas portas elas não se mexeram. Não é empurrar, é puxar, pensei eu, mas nada, nem para um lado nem para o outro.
Confesso que percebo pouco de igrejas. Não sendo crente, não sou frequentador e, naquele momento, bloqueei. Ali fiquei, ora empurrava, ora puxava e o cérebro não dava para mais. Então é assim que tratam os convidados?
Foi uma das senhoras que estava na rua que me desenrascou. – Oh homem, entra-se de lado.
E não é que era mesmo? Ela tinha razão. De um lado e de outro (!!!) uma porta no mesmo vidro fosco, daquelas que abriam. Sorri encavacado e penetrei.
A Igreja Matriz Paroquial de Santo António de Moscavide, sendo pequena, tem um interior bastante amplo. Não é daquelas igrejas tradicionais, construída na década de 50 do século XX, tem linhas modernas – a terminologia é a de quem não domina o assunto, portanto, paciência com o escriba.
Tem um altar central, muito simples, muito “despido”. Cristo Vivo, Eu Vim Para Que Tenham Vida, pode ler-se. Tem também um altar mais pequeno, lateral, à direita.
Passei pela pia baptismal e fui colocar-me ao lado de um pilar, tentando passar despercebido. Se havia coisa que eu não queria era perturbar.
Em frente a esse altar lateral – mal iluminado, vazio -, umas duas dezenas de mulheres e um homem – idosos, todos -, cantavam uma ladainha. Estava quase para me ir embora, quando, ao terminar a cantoria, ao mesmo tempo que as senhoras soltam um sonoro Ámen, se acende uma imensa luz por cima do altar.
Não consegui evitar achar que ou aquilo estava muito bem ensaiado ou era um sinal para que eu não saísse já. E não saí.

Reparo então numa senhora que está sentada nos bancos da nave central. Levanta-se e dirige-se para um púlpito que está ao lado do altar lateral. Abre um livro, coloca os óculos, sopra no microfone e começa a dizer nomes.
Nomes de pessoas, entenda-se, não a ofender alguém. Achei-a com cara de poucos amigos. Marcolino José Saraiva, Leopoldo Francisco Baeta, Genuína Maria Fagundes, Gertrudes Isabel Bandeira, e por aí a fora – os nomes são da minha autoria, que dos ditos não guardei memória.
Aquilo intrigou-me, o que seria? Não me pareceu que fosse a chamada dos presentes, como na escola. Estava eu a conjecturar, quando a senhora levanta os olhos do livro. Olha por cima das lentes e dispara: - Assim não pode ser, depois digam que eu não leio os nomes… é sempre a mesma coisa. – Diz ela com impaciência.
Aparentemente, tinha apanhado duas velhotas na conversa e estava a dar-lhes um raspanete. Sortiu efeito, nunca mais se ouviu um ai até a senhora terminar a leitura.
Voltou ela para os bancos centrais e ali ficámos todos, quietos, em silêncio. Nem me atrevi a mexer. Se ninguém se mexia, também não era eu que o ia fazer. E agora?, pensava eu.
Estivemos naquilo quase 5 minutos. Reparo então nos confessionários, 2. Têm uma zona central, onde se senta o padre, tapada por uma cortina escarlate e, de cada lado, o local de quem se vai confessar, totalmente aberto. Tive que achar que era necessária uma boa dose de coragem para alguém se confessar ali, à vista de toda a gente. E porquê um lugar de cada lado? O padre consegue confessar duas pessoas ao mesmo tempo? É para ser mais rápido, ainda uma pessoa não saiu de um dos lados já está outra pronta do outro?
Nisto, sai um senhor de uma porta ao fundo, à esquerda. Vamos ter acção, finalmente. Curva a cabeça ao passar pelo altar central, curva a cabeça quando passa ao lado do altar lateral e senta-se. Mau…
Distraio-me a olhar para os 11 quadros colocados de cada lado da nave central. Penso representarem a Via Dolorosa.
Estava eu a matutar no facto de estar, até então, convencido de que a Via Dolorosa era constituída por 14 ou 15 estações e se seria a mesma coisa que a Via Sacra, quando, vindo do nada, uma sonora badalada me traz de volta à Terra.
Foram 7 as badaladas. Eram as horas. E depois o Avé Maria tocado pelos sinos. Na igreja nada, ninguém se mexia.
Esperava-se por alguém, conclui eu brilhantemente. O padre, pois claro, ia haver missa às 19h00, que esperto que eu sou.
Mais 2 minutos e lá vem ele, de paramentos verdes, seguido por um homem. Curva a cabeça ao altar central, benze-se ao chegar ao altar lateral. Todos estão agora de pé.

“Em nome do pai, do filho e do espírito santo”… e depois lembrei-me: a metade do frango, já estou atrasado!
Saí quase a correr.

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Empresta-me o Teu Olhar (conclusão)

Um fio de voz fez-se ouvir do outro lado. – Diz-me o que vês.
Não conseguiu responder. Afastou o auscultador do ouvido e fitou-o. Olhou à sua volta. Ninguém parecia interessado nela. Ao encostar de novo o auscultador, ouviu de novo, diz-me o que vês.
- Quem fala?
- Por favor, não desligues. Diz-me o que vês. – A voz chegava-lhe em surdina, como se estivesse muito longe. Pareceu-lhe a voz de uma criança.
- Como assim, o que vejo?
- O que vês à tua volta, conta-me.
Olhou novamente em todas as direcções. Não viu nada suspeito.
- Isto é uma brincadeira, não é? Estás a falar de um telemóvel, aqui perto, a observar-me…
- Não, juro que não. Não sei sequer para onde estou a ligar. – A voz parecia-lhe agora um lamento.
- Estou confusa. Ajudava se me explicasses o que se está a passar.
- Eu só queria saber onde estás, o que está aí a acontecer, o que vês.
- Mas para quê, que interesse tem isso?
- Não tenho mais nada…
Pareceu-lhe ter alguém atrás de si. Virou-se instintivamente mas não havia ninguém, apenas o movimento habitual de pessoas indiferentes umas às outras. Indiferentes para com ela.
Sentiu um vazio no peito que lhe subiu pela garganta e se alojou no cérebro. Vou desmaiar, pensou. Apenas teve tempo de se apoiar com uma mão à parede.
- Não te vás embora. Diz-me o que vês. – Desta vez a voz saiu nítida, próxima. Foi como se a tivesse segurado.
- Estou num Centro Comercial. Num telefone público. Junto a um repuxo e a umas escadas rolantes. Lojas… muitas pessoas. – Perguntava a si própria o porquê de estar a ter aquela conversa com alguém que não conhecia, ao telefone.
- Fala-me das pessoas.
Ia protestar, recusar dizer fosse o que fosse, ia desligar, mas algo naquela voz a prendeu. Sentia naquele murmúrio algum desespero.
- Vejo o Segurança da loja aqui ao lado a olhar para as pernas de uma miúda que passa. Vejo um grupo de homens… que estranho, três deles levam acordeons, um leva um bombo, outro umas massas… vão vestidos normalmente, bem vestidos, quem serão, o que estarão aqui a fazer? – Pensava alto.
- Como é o olhar das pessoas?
- Distante. Cansado… parecem todas muito concentradas nelas próprias. Não procuram nada, sabem todas para onde vão. – Fez-se silêncio por alguns segundos. – Não vejo ninguém sozinho, mas parece-me ver solidão… vão todos absorvidos com as suas coisas, com as suas vidas. Ninguém quer saber, ninguém se preocupa.
- Estás a falar de ti…
Virou as costas à multidão que passava e procurou concentrar-se naquele estranho diálogo. – Agora diz-me tu o que vês.
- Nada, não vejo nada.
- Como assim, não vês nada?
- Há pouco mais de um ano sofri uma grave acidente de viação, fiquei muito mal tratada, sofri um forte traumatismo craniano e estive sete meses em coma. – Falava pausadamente, como que procurando as palavras. – Recuperei a consciência mas não a visão. Ceguei, não vejo. É por isso que peço o olhar emprestado.
- Eu não podia imaginar… - balbuciou.
- Não fiques assim. Sabes, também ainda não recuperei a mobilidade. Faço duas horas diárias de fisioterapia e o resto do tempo, passo-o deitada. Não me resta muito mais que ouvir música, digitar números de telefone ao calhas e pedir a quem me atende que me diga o que está a ver.
- Foi a maneira que encontraste de sair daí.
- Sim, é isso. Fico aqui a imaginar os sítios que me descrevem, as pessoas que passam, as pessoas com quem falo. A tentar perceber as entrelinhas do que dizem. Mas é muito difícil conseguir falar com alguém, a maioria desliga logo. Eu percebo, claro, se calhar fazia o mesmo.
- Achas que se diz muito nas entrelinhas?
- Acho que as pessoas profundas, como tu, não se conseguem exprimir com clareza são, muitas vezes, as entrelinhas. Quando se sentem incompreendidas, cobram isso das pessoas. Ao mesmo tempo que querem ser vistas, não se mostram totalmente.
Aquelas palavras tinham muito a ver consigo. Olhou por cima do ombro, não conseguia afastar a ideia de que estava a ser observada. De que aquela pessoa com quem falava a conhecia. Mas desligar já não era uma opção.
- Há pouco, disseste que eu estava a falar de mim. Tinhas razão, o cansaço que vejo nos outros é o meu, a solidão que vejo é a que sinto, o olhar distante não é das outras pessoas. Mas tudo isto é momentâneo, daqui a pouco já passou. Tem que passar. Há quem precise muito de mim, da minha força.
- Ele deixou-te sozinha. – A frase não saiu como uma interrogação, antes como uma certeza.
- Não, deixou-me com dois filhos! – Exclamou. – Que eu tinha mudado, que a nossa relação já não era a mesma, que não conseguia comunicar comigo, não me entendia… que eu estava muito concentrada nos filhos e não queria saber dele. Que agora ele tinha novas experiências para viver, novos interesses. Disse-me isto assim. Dá para acreditar? – Não esperou pela resposta. – O filho da mãe! Doze anos de relação…
- Seria que, no fundo, tu precisavas de continuar a ser descoberta e ele se fartou dessa procura?
- Há mal nisso? Eu não acho que haja. Ele nunca me disse nada, nunca! Se algo estava mal, porque não falou comigo?
- Deu cabo do teu mundo.
- Quero crer que da mesma maneira que o acidente deu cabo do teu…
- Sim, calculo que sim.
- É verdade… fez com que eu pusesse tudo em causa. Me pusesse em causa. Em boa medida, deixou-me sem nada em que acreditar acerca de mim. E eu preciso de algo em que acreditar.
- Sabes que és boa mãe.
- Sim, sou. Foi aos meus filhos que fui buscar forças para continuar. Precisamos de algo a que nos agarrar, não precisamos?
- Sem dúvida. Ambas temos que aprender a lidar com a mudança que ocorreu nas nossas vidas.
- Tens conseguido?
- Todos os dias um bocadinho. Vais ver que um dia nos vamos rir de tudo isto. Quando formos leves e transparentes.
- Tu não sabes mas eu vou dizer-te: transparente não sei se consigo ser, sempre fui muito opaca, mas leve quero acreditar que vou conseguir. – Ao dizer aquilo, não conseguiu evitar achar que, de alguma maneira, quem estava do outro lado sabia isso bem.

Pouco depois despediram-se. Desligaram sem mais nada saber uma da outra.

Pousou o auscultador mas não se mexeu durante algum tempo. Ao virar-se, viu o repuxo e duas crianças que apontavam para água. Tudo lhe parecia em câmera lenta.
Pela primeira vez desde o divórcio tinha tocado na ferida que a trazia dorida. Na fonte da dor.

Ao entrar no Continente sorriu. De facto, sentia-se mais leve.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Empresta-me o Teu Olhar (parte 1)

Sentia-se exausta. Depois de um dia de trabalho em que poucas coisas tinham corrido bem, ainda tinha que ir às compras.
Sentada no carro, ponderou pela décima vez na última hora se poderia passar sem as fazer. Não se sentia com cabeça para andar às voltas no hiper-mercado.
Lembrou-se do último pedaço de queijo, comido nessa manhã. O fiambre há muito que tinha terminado. Já só restava um resto de manteiga para pôr no pão. Ainda assim, ponderou se a manteiga daria até ao dia seguinte.
Só se convenceu que tinha mesmo de ir às compras quando se lembrou que a sopa para os miúdos também já tinha terminado há dois dias, que não tinha legumes para fazer outra e que, depois de hambúrgueres e pizzas comidos fora, ela e os filhos mereciam uma refeição caseira.
Suspirou e sentiu as forças abandonarem-na quando percebeu que, depois das compras, ainda tinha que preparar o jantar. Tinha saído mais cedo do emprego para tentar descansar um pouco, mas ainda não ia ser nessa noite.

Estava na zona azul do parque de estacionamento do Centro Comercial Colombo. Apesar de não ser ali que fazia as compras habituais, ia ao Continente para aproveitar um talão de desconto, gentilmente oferecido numa gasolineira. Sanguessugas, pensou ela enquanto memorizava o local onde tinha estacionado. Já não era a primeira vez que ali se perdia.
Tinha tido um dia péssimo. Subia as escadas rolantes e fazia um resumo mental do que tinha acontecido. Não conseguiu lembrar-se de nada positivo. Aliás, acabava de se lembrar de mais uma coisa que tinha corrido mal: a zona azul do estacionamento ficava longe do Continente e, com acesso por escadas rolantes, só poderia levar o carro das compras até onde tinha estacionado se fosse dar uma volta que desconhecia e que, calculava, deveria ser enorme. Teria de resumir as compras ao essencial, algo que pudesse carregar… e teria de voltar em breve às compras.

Ao sair das escadas rolantes sentiu uma tontura e quase caía, não fosse um velhote que vinha atrás dela a ampará-la.
- Você está bem?
- Sim, obrigado, agora estou – respondeu. Mais uma queda de tensão, pensou. Nas últimas semanas era a terceira vez que lhe acontecia. Não podia continuar a ignorar. Ficar doente não era uma opção, mas tinha que ir ffalar com o médico da sua empresa sobre estas tonturas que começavam a ser recorrentes.
Sentou-se no bordo do repuxo que fica em frente às escadas rolantes. Precisava recuperar a totalidade da consciência.
Ali sentada podia ver o intenso movimento junto à entrada do Continente. Mais uma vez, ponderou o adiamento das compras. Não posso, agora que aqui estou, tenho mesmo que ir, pensou para si. Fechou os olhos e o som da água que corria no repuxo parece acalmá-la.
Pensou em férias na praia, viu-se deitada numa espreguiçadeira debaixo de uma palmeira, diante de si, um mar azul-turquesa. Sentia a areia branca, finíssima, nos seus pés.
E depois ouviu um telefone a tocar, ao longe. Telefone, não… férias… O som de um jacto de água lançado a grande pressão na direcção do tecto do Centro comercial, fê-la abrir os olhos. Tinha passado por um estado de vigília, quase tinha adormecido. Olhou em redor e viu um mar azul-turquesa, muitas palmeiras e um casal de mão dada que passeava à beira mar.
Tudo isto se passava num enorme televisor que estava em exposição na entrada da Worten. Passou as mãos pelo rosto. Precisava voltar rapidamente à realidade.
E então, ouviu novamente o telefone. Olhou para a sua mala, mas o telemóvel não era. Estarei ainda a sonhar? Outro toque. Apurou os sentidos e aguardou que tocasse novamente.
Apesar do ruído e do muito movimento à sua volta, conseguiu perceber de onde vinha o som, era de um dos telefones públicos que ficavam junto às escadas rolantes.
Continuava a tocar, perante a indiferença de quem passava. Serei a única pessoa a ouvir? Levantou-se e aproximou-se do telefone. Precisava ter a certeza.
Tocou de novo e assustou-se, deu um passo atrás e olhou à sua volta. Ninguém parecia interessado nela ou no telefone. Deu por si a pensar se aquela chamada seria para si. Que estupidez… mas se tocar novamente, atendo.
Trimmmmmmmmmm. Fixou o olhar no auscultador durante breves segundos e levantou-o.
- Estou?

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Aquela Coisa dos Cinco Hábitos Estranhos

Desafiado recentemente pela M.M do Arte & Lingua e, ainda hoje, pela Ana das Laliscadas, a não quebrar a corrente que assola o universo bloguistico nacional – arriscando-me a sofrer inenarráveis tragédias -, achei por bem participar no relato de alguns hábitos estranhos que eu tenho (não que eu acredite nisso, que esse hábito estranho não tenho eu). Aqui vai disto:


1 – Tenho o estranho hábito de guardar os bilhetes de cinema dos filmes a que assisto. Sei que muita gente guarda os bilhetes dos concertos, e esses eu também guardo, mas também fico com os dos filmes que vou ver.
Não é coisa de agora, o mais antigo que conservo é do Natal de 1984, do já defunto Cine Plaza – hoje conhecido com Recreios da Amadora, recuperado que foi de um mais ou menos longo período de abandono; ocasionalmente passa, outra vez, filmes.

O filme, esse, é de culto (!?), “Conan, o Bárbaro”, com o Arnold Schwarzenegger em início de carreira. Lembro-me que fui com o meu primo Tó e de ele, após o final do filme, ter ficado a pensar o que havia de fazer comigo… sendo eu uns anos mais novo que ele. Custou 100$ o bilhete.

São, portanto, 21 anos a juntar bilhetes. Muitos dos cinemas já não existem: Éden, Odeon, Condes, Politeama (nessas funções), Roxy, Alvalade, Alfa, Nimas e mais alguns. Todos locais que só cumpriam essa função, ao contrário de hoje em que ou se está no centro comercial ou se está tramado.

Também os próprios bilhetes mudaram muito. Se antes os havia impressos para cada sessão de cada dia, hoje, o bilhete é impresso no momento, com o nome do filme (muitas vezes abreviado) e sem lugar marcado. É um tipo de bilhete que deu cabo da minha colecção, visto a impressão e o papel serem reles e, ao fim de um tempo, já pouco ou nada se notar. Tenho pena.

2 – Tenho o estranho hábito de fazer caretas quando fotografo. Nas fotos em que apareço é certo e sabido que fico sempre com um ar estranho. É coisa de que não gosto, ficar nas fotografias. Mas só recentemente percebi que também quando estou atrás da câmera faço as mais estranhas caretas.

Sempre deve ter sido assim, mas ao ver há pouco tempo algumas fotos que me tiraram enquanto eu fotografava, é que percebi a dimensão da coisa. Lá estou eu, de taxa arreganhada, com um esgar que mais parece de dor.

Agora, dou por mim com mais essa preocupação, não bastava o enquadramento, a exposição, a obturação e afins, tenho que me preocupar em não fazer figuras tristes. É necessária muita concentração, acabo por me distrair e surpreendo-me muitas vezes a fazer as tais caretas.

3 – Tenho o estranho hábito de ler livros. E revistas também – disse isto assim só para provocar, porque estranho mesmo é andar pelas livrarias a folhear os livros e ter o hábito de ler os primeiros parágrafos.

E isto mesmo dos livros que não me interessam nada. Não consigo resistir a saber como é que começa, por exemplo, um livro como o da Alexandra Solnado, “Este Jesus Cristo Que Vos Fala”, em que se relatam as conversas tidas entra a autora e Jesus. Deve ter a ver com aquele famoso sentimento conhecido como síndrome da página em branco, aquele algo inatingível e inexplicável que não nos deixa escrever, nem sequer começar. No fundo, tenho curiosidade em saber como é que os outros resolveram essa questão, a do inicio.

4 – Tenho o estranho hábito de andar a pé. Saio de casa – da cama – com o único propósito de andar! É verdade, vou andar, sem destino, às voltas. E sempre a um passo razoável, não propriamente de passeio.

Como dizem que faz bem à saúde e eu até sou um bocado hiper-tenso, eu lá vou. Aos fins-de-semana, cedo, vou andar para os poucos locais onde isso se pode fazer com alguma tranquilidade em Lisboa. Durante a semana é mais complicado, mas aproveito as horas de almoço para dar uma volta ao quarteirão.

Às sexta, como fico liberto dos compromissos laborais às 15h00, aproveito para andar um pouco pela cidade: vou ver montras para a Av. De Roma, Praça de Londres e Rua Guerra Junqueiro. Gosto de observar as novas tendências da moda – imprescindível deitar um olhar à montra da Fátima Lopes -, gosto de observar com quem me cruzo, de procurar umas fotos.

5 – Tenho o estranho hábito de escrever muito e falar pouco. Por exemplo, se me tivessem pedido oralmente para eu falar de cinco hábitos estranhos, tinha despachado a coisa em menos de um fósforo, mas como é por escrito, acabo sempre por inventar uma série de coisas desnecessárias – até do meu primo Tó eu já aqui falei!

Já li vários blogs onde consta esta coisa dos cinco hábitos e, em todos, as pessoas limitaram-se a algumas linhas, pronto, já está… mas eu não, tenho que me alongar sempre. Alguns de vocês já sabem disso, basta ler alguns dos meus posts anteriores, que são extensos demais para o nível de atenção com que se lê blogs.

O que talvez não saibam é que o que é publicado, muitas vezes, é uma versão condensada de textos mais longos.

6 – Tenho o estranho hábito de ser distraído. Ai esperem, são só cinco, já está, já chega. Sorte a vossa.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Assunto: Um Pedido

De: Diogo Melo [diogo.m@***.pt] Enviada: qui 01-02-2006 10:52

Para: Artur.Valença@*****.pt

Cc:

Assunto: Um pedido.

_______________________________________________________________

Artur,

Imagino que ao veres o meu nome na pasta dos mails recebidos, deves ter sentido um calafrio. Só podem ser chatices, pensaste tu.
Como não sou pessoa de defraudar expectativas, fica sabendo que sim, são chatices. Tu desculpa-me isto mas, não sendo nós sequer os melhores amigos nem tendo grande intimidade, não consigo lembrar-me de melhor pessoa a quem recorrer, com quem desabafar um pouco. Preciso da tua calma analítica, do teu conselho ponderado. Nunca te disse isto, mas aprecio a tua opinião.
Ainda pensei em nos encontrarmos, mas percebi que não seria capaz de falar tão bem quanto sou capaz de escrever. Ia, automaticamente, defender-me, procurar palavras menos dramáticas, no fundo, não ia dizer aquilo que quero, que preciso, pelo menos não tão cruamente, tão abertamente. E neste momento o que eu preciso é de ser sincero e absolutamente franco.

Muito estranho isto, não achas? O senso comum diria que falar seria o ideal para se dizer o que realmente nos vai na alma, que a escrita, por ser mais pensada, seria óptima para disfarçar, para nos escondermos nas entrelinhas.
Comigo é ao contrário. Se eu puder pensar, reflectir sobre aquilo que quero realmente dizer, sai-me a verdade, mostro-me tal qual sou. Acho que isto é assim porque, ao longo dos anos, consegui desenvolver uma técnica que me tornou um tangas. Não é à toa que sou um bom Comercial.
Como vendedor vou directo ao assunto, não perco tempo nem faço os clientes perderem – é algo que muito apreciam. Se estivéssemos a falar, já tinha feito um resumo rápido – portanto, resumido demais – do que me tinha feito falar contigo. Por escrito não, aqui consigo fazer introduções, preparar o terreno com explicações prévias, fazer apartes.

E aqui chego ao que me levou a escrever-te. Até há bem pouco tempo eu não era apartes, introduções e explicações prévias. Como que descobri um novo eu e tenho-me assustado.

Começou tudo há não muito tempo, quando a Joana me disse que estava farta. Que eu parecia mais ausente de dia para dia, cada vez mais desprovido de sentimentos. Que ela se sentia uma cliente e não minha mulher. Que eu estava irreconhecível e que o nosso casamento já não era o mesmo do inicio. Assim, sem mais nem menos.
Foi como se tivesse levado uns murros no estômago. Nem sei de onde eles vieram, fui apanhado desprevenido. Um autentico choque para mim. A minha primeira reacção foi não querer saber, achar que era mais uma das coisas dela.
Preparava-me para não lhe ligar, como faço habitualmente. Ela fala, queixa-se, barafusta e eu vou acenando com a cabeça mas sem a estar a ouvir. Desde que ela não se ponha à frente da televisão, para mim é só ruído de fundo. “Toma um Xanax que isso passa”, digo-lhe eu às vezes. Ela fica danada, até deita fumo, mas é o suficiente para se calar.
Uma besta, eu sei.

Desta vez não, vi-lhe no olhar, na expressão, que era diferente. Não era a Joana dos outros amuos, se alguma vez ela tinha falado a sério, era desta vez.
Na altura a coisa ficou por ali mas nunca mais deixei de pensar nisso, nas causas de tudo aquilo. Se eu teria mudado assim tanto.
As conclusões a que tenho chegado têm-me deixado assustado e triste; não fosse uma pequena esperança que possa estar enganado, e já tinha entrado em séria depressão – preciso que me digas com toda a sinceridade se, daquilo que me conheces, que nos conheces, o que achas e o que devo fazer.

Digo isto porque acho que não mudei assim tanto e, ao mesmo tempo, a Joana tem razão. Tenho sido um egoísta que não tem conseguido ver para além de si. Dei como garantidas uma série de coisas e não me preocupei mais com isso. Pelos vistos, isto das relações implica um recomeço constante, uma reconquista quase diária da outra parte. Um esforço que não fiz porque não sabia que era necessário.
Na verdade, e isto é terrível, não sei se a amo. Pior, não sei se alguma vez amei algo ou alguém! Não sei sequer o que é isso de amar.
Um dado tenho por adquirido: não a soube amar.

O que é amar, sabes me dizer? Como se identifica o amor?

Quase a fazer 40 anos, dou por mim a debater-me pela primeira vez com estas questões. E isso não é normal, se nunca foram temas importantes para mim, porquê agora? Será isto a famosa crise de meia-idade?
De um momento para o outro, vejo-me a olhar para dentro, à procura do meu mecanismo de funcionamento, preocupado em saber como se mexem as engrenagens que fazem de mim aquilo que sou. E assusto-me. Mais ainda quando percebo que sou portador do não resolvido, de incertezas.
Eu não era assim. Este tipo de interrogações sim, são em mim uma mudança, não o que levou a Joana a confrontar-me. É que, até recentemente, só havia questões simples com respostas simples, dúvidas de solução fácil.
Agora surpreendo-me a pensar na vida. Na minha vida! Pela primeira vez, também, tenho medo.

Ela fez as malas e saiu de casa, foi viver com uma amiga – não conheces. Diz-me que gosta de mim, mas que gosta mais dela. Que eu preciso pensar e que me dá um tempo.
Sei que o tempo é curto mas não sei o que fazer. Ajuda-me.

Um abraço.

Diogo.

PS – Ao reler o texto vejo que no início escrevi que não gosto de defraudar as expectativas. Podia ter apagado, mas não, a ironia reflecte bem a pessoa que eu tenho sido.