quarta-feira, fevereiro 22, 2006

O Baloiço (parte 1)

Braga, 5 de Setembro 1997

Patrícia,

Faz hoje exactamente 8 meses que saíste de casa. O orgulho, que tu tão bem conheces, tem-me impedido de te contactar – calculo que não estejas surpreendida por eu saber onde vives; sabes melhor que ninguém que eu sou uma pessoa de recursos.

Dia 12 fazes 26 anos e eu queria muito que voltasses para casa. Quero falar contigo, esclarecer tudo. Preciso que me dês mais uma oportunidade.
Calculo que estejas a pensar que já me deste todas as oportunidades do mundo, mas desta vez, acredita em mim, é a sério, eu quero mudar mas só o vou conseguir com a tua ajuda. Preciso de ti.

Por favor volta, temos muito que conversar – tenho muito que explicar.

O teu pai.

PS – Nunca tive jeito para escrever mas, ainda assim, pareceu-me mais fácil do que te telefonar; acho que nunca falarias comigo.

* * *

Pousou a folha de caderno amarelecida em que aquela carta tinha sido escrita e mordeu o lábio inferior.
Tentou identificar as emoções que sentia naquele momento. Antes de abrir o envelope, tinha tido a esperança de que não sentiria nada para além de indiferença, mas tinha-se enganado. Sentia algo, mas não sabia o que era.
Olhou novamente para a folha de papel. A letra desajeitada do pai, que tão bem conhecia. Imaginou o quanto lhe terá custado escrever aquelas linhas. Apoiou ambos os cotovelos na mesa e escondeu a cara nas mãos.

Estava sentada na mesa da cozinha da casa dos seus pais, a casa onde tinha crescido. A luz do final de dia chegava-lhe filtrada pelo limoeiro plantado no pequeno jardim.
Aquela sempre fora a sua divisão preferida da casa, nenhuma outra tinha aquela luz natural durante todo o dia. Fora sempre ali que fizera os seus trabalhos de casa, lido os seus livros de aventuras favoritos. Tinha sido ali que passara os melhores momentos com a sua mãe.
As melhores recordações que tinha dela eram dos momentos em que as duas se divertiam a cozinhar enquanto falavam das suas vidas. Tinha sido ali que mãe lhe tinha pedido juízo dezenas de vezes, tinha sido ali que contara à mãe do seu primeiro namorado.
Por momentos, tinha-se transportado para essa infância e adolescência despreocupada, em que tinha sido feliz. Via a sua mãe com o avental favorito a descascar maçãs para fazer uma tarte e ela, em cima de um banco, a ajudar a mãe.

O cheiro bafiento que vinha da caixa de sapatos cheia de envelopes à sua frente, fez-lhe recordar um outro momento passado por si naquela cozinha. Desta vez estava sozinha, era de noite e a cozinha apenas estava iluminada pela lua cheia. As sombras projectadas do exterior, dominavam.
Por uma coincidência em que já tinha reparado, faria amanhã exactamente 9 anos em que entrara naquela cozinha, de madrugada, vinda do seu quarto e fechara os olhos com força. Sentia-se ali mais à vontade de olhos fechados do que a ter que enfrentar aquelas sombras em movimento.
Aproximou-se da porta que dava para o jardim e, o mais silenciosamente que pode, rodou a chave a maçaneta da porta, saindo para o jardim.
Recordou do vento gelado e o limoeiro que se agitava. Não tinha olhado para trás e não tinha voltado nunca mais.

34 comentários:

Maria Pedro disse...

É inevitável!
Uma pessoa tem de fazer o que tem de fazer.

Sara MM disse...

já tens lá um recadito ;o)
qt à Patrícia... volto depois, tá?

BJs

Paty disse...

Há decisões inevitaveis, e por vezes são inevitaveis para nos libertarmos de determinadas situações. Eu penso demasiado, em situações dificeis não consigo romper e tomar decisões radicais....por isso muitas coisas se arrastam e depois por força do destino acabam por acontecer mudanças mesmo sem as querer. É mais doloroso...mas tem mesmo que ser! Beijos

Ana P. disse...

Vou esperar pelo fim para comentar...

Beijão na nuca

Sara MM disse...

odeio recordações de estimação... e odeio a nostalgia da lua cheia...

BJs
(PS-bem sabes que hoje tens de me dar um desconto...)

alice disse...

olá :-)
eu também tenho uma caixa pintada por mim cheia de postais e cartas e mensagens e ao ler este post viajei até ao banco de pedra debaixo da tangerineira da minha avó
obrigada por este regresso à infância
perdoará a patrícia o seu pai?
beijinho, alice

legivel disse...

Rui:

Para a palavra fantasia aparecer assim como a estás a ver (em itálico), teclas primeiro < i > (sem espaços), depois teclas a palavra pretendida (fantasia) e logo a seguir teclas < / i > (sem espaços)*

* Tive de espaçar os caracteres; se o não fizesse o comment não entraria. Dava erro. Para escreveres a bould, a técnica é a mesma; nesse caso, em vez do "i" escreves "b".

Experimenta.

Nina disse...

Acho que foi inevitável deixar ele partir (rs)... para que estragar um relacionamento tão agradável?

legivel disse...

Teste recebido em perfeitas condições!!
Depopis venhop comentar este teu post...

Marta disse...

Hmmm, estou ansiosa pelo final! Não sei se já disse isto, mas a fluidez com que escreves é super cativante! :)

Meia Lua disse...

Uma carta que nunca foi enviada... uma filha que volta à sua casa e não encontra o pai... o que será que guardas aí contigo?
beijinho

segurademim disse...

espero que a carta tenha sido recebida a tempo e horas e que o limoeiro, agora, esteja carregadinho de fruto!!!

;)

BloodyMary disse...

Existem momentos em que podemos optar por uma ou várias hipóteses. O pior mesmo são as consequências...

Veremos onde esta história nos leva!...

Um beijo*

lélé disse...

chorei com este conto... tocou-me... há mesmo muitas emoções envolvidas... E está tão bem escrito!...

Nina disse...

numa visão otimista, prefiro acreditar que ela decidiu preservar aquele momento, tão perfeito quanto possível... Beijo.

Marlene Maravilha disse...

Rui,
apareci aqui através do teu comentário no blog da Vilma. Gostei deste conto. Conto? mas torço para que esta carta tenha chegado a tempo das coisas serem esclarecidas!
"Eis que estou a porta, e bato: se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa e com ele cearei e ele comigo." Apoc.3:20
Não queres ceiar com Jesus?
A porta é o teu coração! Deixa Cristo entrar por opção! Quem sabe não tiveste ainda esta oportunidade?!
Abraços de uma amiga brasileira

Anónimo disse...

Só para te mandar um beijo...

as asas de borboleta descansam de forma serena...

Sofia disse...

Hummmm isto promete!

Beijos

@ disse...

É sempre tão real. Uma história de vida...

clotilde disse...

Nem sei o que dizer, estas histórias comevem-me, são tão reais...
Muito bem escrito.

Beijinho

Legionaria disse...

Olha, revi-me um pouco no papel da filha, porque tem quase a minha idade, porque tmb saí de casa, porque de vez em qd tmb vou a casa deles, mas... com a única dif. e mais atroz, o meu pai nunca me escreveu a pedir que voltasse... Desculpa o desabafo... :((((((

Dani disse...

Fechar os olhos para não encarar os problemas...?

Rui disse...

Fechar os olhos para melhor os encarar!

Claudia Perotti disse...

Fecho os meus olhos ...
Lindo texto, Rui!
Beijinhos

manhã disse...

Muito bonita a história!

Lagoa_Azul disse...

Bem meu amigo Rui, para quem reclamou um dia da inpiração...uma história da vida...

Beijos com carinho.

legivel disse...

Como é minha norma, o comentário para os teus posts de duas partes fica para "o fim da história"...

Margarida Atheling disse...

Muito bonito!
Mas agora vê se não demoras com a segunda parte. Esta deixou-me suspensa!

GNM disse...

E vou esperando os próximos capítulos...

Fica bem!

missixty2000 disse...

Eu fiz o mesmo quando tinha 23 anos, o meu pai só me viu passado um ano!!!Isto é uma história que se deve passar em muitas famílias!!Gostei muito!!Está bem escrito e tem intensidade dramática!!!Outro que podes mandar publicar!!
O outro tentaste???

Martuxa disse...

Espero pelo resto... Gostei do início
SOrrisos com beijos
Bom fim de semana

Vanda Baltazar disse...

Gostei muito.

Parabéns!

Mas afinal eu é que sou nova, nisto!

Quero mais!

butterfly disse...

Já gostei da primeira parte,agora fico á espera da continuação...
Beijinhos!!

a_mais_fofa disse...

Prendeste-me...
Ainda bem que já tenho mais duas partes para ler...
*a_mais_fofa*