quarta-feira, março 01, 2006

O Baloiço (parte 3)

Braga, 31 de Janeiro 1998

Patrícia,

Espero que 1998 te esteja a tratar bem. Eu cá, vou indo. Cada dia é uma vitória. Continuo sem tocar no álcool.
Entre o Natal e o Ano Novo quase tive uma recaída. Dei por mim, sem saber como, em frente à tasca do Abílio. Foi como se tivesse acordado lá. Felizmente, alguma coisa me fez voltar para trás.

Estou há mais de uma hora a olhar para esta folha sem conseguir escrever. Tenho muita vontade de te falar num assunto mas, ao mesmo tempo, muito medo da tua reacção. Acho que se escrevi isto, é porque me decidi a contar-te…
Eu disse, ali em cima, que alguma coisa impediu que me enfrascasse mais uma vez. Na verdade, eu sem muito bem o que foi: foi a tua mãe, Patrícia, foi ela! Ela apareceu-me! Que Deus me castigue se te estou a mentir.
Ela sorriu-me. Não me disse nada, não foi preciso. Percebi bem o que ela me queria dizer: que não podia ali entrar, se o fizesse arruinava de vez a minha vida e te perdia para sempre.

Sei que não me achas digno de falar dela, e talvez tenhas razão; eu sei aquilo por que as fiz passar, mas eu precisava de contar isto a alguém… e tinha que ser a ti.
Chorei baba e ranho no fim-de-semana passado, a ver-te, ao longe, junto à campa dela. Os malmequeres eram lindos.

Desculpa-me Patrícia, perdoa-me.

[…]

Braga, 20 de Abril 1998

Patrícia,

Não imaginas a minha tristeza quando soube que estás de partida para Lisboa. Temo que não fiques lá apenas durante a Expo, que isto seja o adeus a Braga, às tuas raízes.
Quero muito estar enganado. Vai ser duro para mim ficar longe, sem te ver, sem saber com quem te dás. Eu sei que não fazes ideia nenhuma disto, mas não é por mal que o faço, é por gostar de ti – acredita quando te digo que mudei, que sou outro.
Sei que nunca fui bom pai e que há coisas que não se recuperam, há tempo que não volta atrás, mas que diabo, acho que me tenho portado bem e que merecia uma palavra tua.
(…)

[…]

Braga, 6 Maio 1998

(…)
Fizeste muito bem em deixar aquele panhonha do Adolfo. Ser cantor de um conjunto que só faz barulho, não é vida para ninguém. Ele que acabe o curso de Direito e ganha juízo, que cantor nunca vai ser. Aquilo são só grunhidos, que raio de voz é aquela?

Parece que estás a cortar amarras outra vez, a deixar algo para trás para recomeçar uma outra vez. Sinto-me culpado como já não me sentia há algum tempo.
(…)

* * *

Patrícia olhava para o limoeiro. O baloiço que tanto adorava ainda lá estava, o assento preso ao tronco por um prego, agora ferrugento.
Era a última recordação boa que tinha do pai: o dia em que ele lhe tinha construído o baloiço.

- Vês estes nós? Nem daqui a 50 anos estas cordas vão sair daqui.
Tinham pintado uma meia-lua na madeira do assento e, nessa tarde, o pai tinha-a empurrado aquilo que lhe pareceu serem horas infinitas.
Interrogava-se agora sobre o que tinha acontecido aquele homem, que tinha sido capaz de demonstrar aquele amor por si. Queria muito ter uma resposta para essa pergunta.
Queria, também, ter a certeza que tinha feito bem ao cortar todos os laços com o pai. A dúvida persistia. Queria encontrar a resposta naquelas cartas.

23 comentários:

Rui disse...

Eu sei que a coisa se está a arrastar. Desta vez optei por publicar partes mais pequenas.
Prometo publicar com mais frequência.

Silvia disse...

Não está nada... pelo contráro, aumenta a trama e o suspense.

Tb te queria dizer que estás a escrever cada vez melhor e que este conto está soberbo, repleto de pormenores que fazem o leitor imaginar e visualizar a cena.

Juro que vi o baloiço a balançar ... è certo que tb tive um colocado pelo meu pai, com uma corda grossa e cheio de nós. Felizmente, não foi a ultima recordação boa.

tonsdeazul disse...

Isto vai dar um belo conto...muito interessante... fico à espera do que se segue!

@ disse...

Esta história está repleta de sentimento, estou a adorar.

:-)

Francis ( X ) disse...

A Patricia andou com o Adolfo Luxuria Canibal? ena ena
Aposto que se conheceram algures no Hotel Hessischer Hof.

venha mais

Um abraço

Dani disse...

Aha! Finalmente descobri de onde vinha toda aquela amargura latente, nas letras que aquele senhor escreve para os Mão Morta! :)
Mais uma vez, parabéns!

Margarida Atheling disse...

Às vezes, mesmo quando gostamos muito de alguém, há motivos que nos levam a precisar de distância.
Mas nunca se sabe se fazemos as opções certas, não é?

alice disse...

boa tarde, rui,

o ondulante movimento deste baloiço hipnotiza-me os olhos quando te leio,
obrigada,
beijinho,
alice

Sara MM disse...

mmmmmm... só espero que ela vá a tempo de corrigir... nem que tenho sido "bem"... pq agora já não é, pois não!??! senao ela nao pensava assim...
BJs

Ana P. disse...

Pelo menos há pais que mesmo passado algum tempo descobrem os erros que cometeram....

Quem me dera receber uma carta do meu...

....Quem me dera saber perdoá-lo..

Beijo Rui

WildFlower disse...

Penso que tudo vale a pena quando a alma não é pequena...e às vezes gostava que quem ficou para trás tivesse a coragem de me dirigir algumas linhas e abrir o coração. Mas creio que isso é um gesto dos audazes, daqueles que amam realmente, sejam pais, mães, amantes, amigos...Aguardo atentamente a continuação ou o final! ;) Beijos

Claudia Perotti disse...

eita ... quero mais ... risos
Aguardo!
Beijinhos

WildFlower disse...

Rui sou eu novamente. Obrigado pelo teu comentário no meu So Um Olhar. Deixei-te lá uma resposta ;)
Paty

ernest disse...

Estou presa a esta história... demasiado presa.

a_mais_fofa disse...

É fantástica a forma como escreves e prendes quem te lê. É impossível ficar indiferente.
Eu fico ansiosa à espera do que se segue.
*a_mais_fofa*

macaso disse...

Será que a psicanálise explica?

Angustiante.

clotilde disse...

é um verdadeiro vício ler-te!
Este texto prendeu-me, angustiou-me e fez-me ficar a pensar...

ps: Adolfo Luxuria Canibal?

Maria Pedro disse...

Rui, isto agora não tem nada a ver, mas quem vai limpar o fogão FUI eu! E olha quem eu não sou a Maria da história...

Perguntarás e bem, quem é o moço. pois... um danado dum sortudo!

lélé disse...

Continuo a ler com muito gosto e as emoções também continuam presentes. Embora esta vivência seja tão diferente da minha, há qualquer coisa que lhes é comum, ou tão diametralmente oposta, que as junta.

Sofia disse...

Ela nunca perdoou o Pai? Eles nunca mais se viram? Ela foi para Lisboa e nunca mais o pai soube nada dela?
Que angústia Rui, diz-me que isto tm um final feliz, pleasseeeeeeee....

bj

anirada disse...

Olá, vais encontrar as respostas..bjs

legivel disse...

A Patrícia está tão interessada em encontrar uma resposta para o que levou o pai a tornar-se um alcoólico, como eu... e como os outros teus leitores, pelos vistos...

... felizmente que aqui não usas o expediente, de nos intervalos entre posts, colocares publicidade...

Meia Lua disse...

:)...