terça-feira, outubro 14, 2008

Avenidas Velhas (3)

“(…) Phileas Fogg était de ces gens mathématiquement exacts, qui, jamais pressés et toujours prêts, sont économes de leurs pas et de leurs mouvements. Il ne faisait pas une enjambée de trop, allant toujours par le plus court. Il ne perdait pas un regard au plafond. Il ne se permettait aucun geste superflu. On ne l'avait jamais vu ému ni troublé. C'était l'homme le moins hâté du monde, mais il arrivait toujours à temps. Toutefois, on comprendra qu'il vécût seul et pour ainsi dire en dehors de toute relation sociale. Il savait que dans la vie il faut faire la part des frottements, et comme les frottements retardent, il ne se frottait à personne (…)”.

O professor fechou o livro – era fluente em seis línguas e lia sempre no original –, posou-o na mesa de apoio, exactamente paralelo à base do candeeiro de estilo clássico, retirou os óculos de ler e colocou-os, solenemente, paralelos ao livro. Juntou as pontas dos dedos de ambas as mãos e fechou os olhos. Ao mesmo tempo, mudou ligeiramente de posição na poltrona, como se tivesse uma posição para ler e outra para reflectir. Ponderou a questão, analisou-a sobre vários pontos de vista, argumentou a favor e contra ela. “Estão equivocados”, concluiu, “não sou nada como Phileas Fogg”. Um relógio de pé alto, decorado com motivos japoneses, encheu a sala com uma versão da “Avé Maria” de Schubert, tocada por um pequeno carrilhão, e depois bateu dezasseis vezes seguidas. Aos sábados, significava que era hora de ir tomar café.

Enquanto isso, na florista contígua ao prédio do professor, Dona Jacinta saiu do balcão, despiu o avental e pegou num pequeno regador. Mirou-se ao espelho, ajeitou o cabelo, e foi-se colocar à porta da loja. Dois minutos depois, estranhava já a demora, quando ouviu o trinco da porta. Simulou estar a regar as Margaridas e murmurou, “bom dia cara senhora, como tem passado”? O professor segurou a porta até esta se fechar, sem fazer barulho. Deu dois passos e curvou-se ligeiramente. “Bom dia cara senhora, como tem passado”? Jacinta sorriu-lhe, fez uma pequena vénia e respondeu “muito bem, obrigado e o senhor”? “Igualmente bem, obrigado por inquirir”. Inclinou-se novamente na direcção da vizinha e seguiu o seu caminho. A florista posou o regador e recuou ligeiramente o ponteiro dos minutos.


* * *


Engoliu a meia de leite em apenas um gole, de pé, ao balcão. Tirou duas moedas do bolso e colocou-as junto à chávena. Pegou depois num molho de folhas, presas por um elástico, num pequeno envelope, e saiu da pastelaria, caminhando lentamente, até ao quiosque que fica ao lado da entrada do Metro Ficou à espera.

A luz daquele dia chegava filtrada por uma neblina alta. Era de um amarelo carregado, que ele achou diferente do habitual. Fez menção de ver as horas, não fosse fim de tarde e não hora de almoço, mas há muito que não usava relógio.

Acontecia-lhe cada vez mais, perder a noção das horas de cada dia, e dos dias de cada semana, especialmente nos períodos em que passava mais tempo entre a arrecadação, onde escrevia, e casa, para algum alimento e repouso. Ultimamente, saía cedo da arrecadação. Fosse por falta de inspiração, ou por outro qualquer motivo, nos últimos meses, escrever exigia-lhe que pensasse, que imaginasse. Sentava-se à frente das folhas e ele próprio se sentia folha: pálido, vazio. Escrevia uma linha e parava, não encontrando seguimento para a ideia. Voltava atrás, relia a frase uma, dez, vinte vezes, e nada. Refazia-a. Riscava-a. Escrevia outra frase. E mais nada. “Esta manhã… não, era ainda de noite, lembrei-me de ti”. Ponto final. Parágrafo.

Sentia que a sua, era cada vez mais uma existência de frases curtas, sem correlação. De pontos finais. De parágrafos.

A rapariga apareceu-lhe à frente, como se ali se tivesse materializado. Sorriu-lhe um sorriso rápido, fugidio, de circunstância. Ele reparou, pela primeira vez, que o cabelo dela era ligeiramente ruivo. Talvez fosse aquela estranha luz, talvez a forma como ela o tinha apanhado, na nuca, ou talvez fosse por causa da franja – alguma vez a tinha visto de franja? Não sabia porque nunca antes tinha reparado no cabelo dela.

A rapariga estendeu-lhe uma pasta e ele deu-lhe o molho de folhas presas pelo elástico.

– Esqueço-me sempre de devolver as pastas…

– Não faz mal.

– Vai aí o cheque, cuidado – disse ele, apontando para o envelope.

– Obrigado. Até à próxima – e afastou-se, passando por ele.

Colocou um cigarro ao canto da boca e deixou-se ficar, estático, a contemplar na calçada as sombras de quem passava. Subitamente, virou-se para trás. A rapariga estava a olhar para ele. Disse ela:

– Gostei muito deste último – sorriu um sorriso rápido, desceu as escadas do Metro e desapareceu.




Boomp3.com

14 comentários:

lélé disse...

A Atlântida é lindíssima, mas tens ali fotos verdadeiramente espectaculares!

A história do Mr. Fogg? Perdi-me completamente... Vou aguardar os outros comentários, que talvez lancem alguma luz, uns raios laser, neste nevoeiro tão denso, firme e hirto, como o Alexandrino, mas isso são outras histórias...

Maria Liberdade disse...

Já disse isto várias vezes, mas aqui vai de novo: Gosto muito quando contas histórias (histórias e não estórias que não sou desse tempo, :)).

Gosto do modo como descreves ambiente e personagens e estas vão aparecendo e contruindo o seu destino, até ao ponto do fim.

E quanto à musica, nada melhor para se começar amanhã. Ou para acabar a noite...

Ps. O francês é que...

Allors, au revoir..

Leonor disse...

pelo menos enquanto tem a existência rodeada de preceitos gramaticais e pontuação (bem dada) sente-se seguro...


aquele cavalo está a olhar para mim

Carla disse...

contas histórias que fazem um quotidiano que já tdos vivemos...e contas de uma forma tão especial que cria encantamento
beijos

sinhã, a. disse...

és um contador de histórias. deve saber bem, no natal, ter te sentadinho só a falar. :-)

Nia disse...

"Viajar à volta do mundo em 80 dias"...não era coisa para ele.
Il restait -là, tout seul dans un monde des autres.Et les autres ne le voyaient pas.Son monde était dans et avec ses livres.Les livres qu'il n'arrivait même pas à écrire...Et le monde tournait..sans lui.

Regressou a casa...sem pressa...mas sem saborear a brisa suave e as cores com que o mundo estava pintado.
de ombros caídos regressava.Só..e somente.
Já perto d epôr o pé com jeitinho para entrar..quase esbarrou com a Dona Jacinta.
-Desculpeee minha Senhora...
-Jacinta!O meu nome é JACINTA!
Olhou-a , surpreendido.
-Jacinta?Desculpe minha senhora...
E ela sorriu.
E foi aí que ele percebeu pela primeira vez que "jacinta" era nome de flor.E pela primeira vez olhou e viu (o estranho é que viu!) as margaridas regadas pela Dona Jacinta.E quase sorriu.

Vanda disse...

Rui,


Nada como uma ruiva para tirar da penumbra um homem. Ou para lhe levar as folhas. Ou para lhe lavar a alma. Quem seria ela? Conseguiria ele voltar a escrever sobre o que sentia?

Realmente os Açores são a "ilha".


:))


Obrigada pelo enredo e por todas estas elas imagens que nos deixas!

Vanda disse...

belas, Rui, belas!!

dona tela disse...

Tenho um prémio para lhe oferecer.

Muito bons dias.

Eyes wide open disse...

oohhhlaaaalaaa c'est chouette!!!

;)

Como se já não bastasse ficarmos na expectativa pelo próximo capítulo de cada uma das tuas histórias, agora deixas-nos duplamente expectantes...


(details, always the details...)



*

legivel disse...

... foi uma pena ter-me atrasado um pouco pois esta rapariga a descer as escadas do metro com um sorriso rápido "passou-me ao lado". Ou ando demasiado lento?
A "volta ao mundo em oitenta dias"?! Cuidado com as viagens prolongadas/demoradas. Acabo este comment e ala moço! Leiria com ele que nem é preciso fazer a mala que é curta a estadia e não me deve trazer azia.

NOTA: O meu francês está cada vez mais enferrujado. Pedi ajuda à vizinha do lado (prof do idioma de Verlaine Platini) para me dar uma ajuda na tua introdução. Foi um serão dos antigos! A minha mais que tudo teve de me ir chamar e a sua fisionomia não era bonita de se ver. Tentei pôr água na fervura "Oh minha querida Jacinta, tu tens uma grande pinta!" - e é verdade, tem um sinal ao canto da boca que lhe dá um encanto especial... mas fez-se forte e arengou "Pensas que me enganas com essas rimas de pé quebrado? ou pretendes confundir-me com a lambisgóia florista deste texto? ahn?!" e lá fui eu, à frente dela sem me despedir em condições razoáveis da vizinha...

Cantinho dos devaneios disse...

Adoro as Avenidas velhas!... têm um encanto muito especial... Que mais terão para mostrar?...

RC disse...

De que cor era a linha do metro?

APC disse...

Ah, mistério, mistério... Tudo no fog (e no Fogg, claro).

"A florista posou o regador e recuou ligeiramente o ponteiro dos minutos" - gostei da passagem! :-)

Deixa-me cá ir dar uma espiadinha nas atlântidas!...