sexta-feira, outubro 03, 2008

Avenidas Velhas (1)

O empregado colocou o café na mesa e imediatamente virou costas. Observou o conteúdo, sentiu-lhe o aroma e pegou na chávena, apertando-a entre as mãos, enquanto se interrogava se seria desta vez que o café estaria à temperatura ideal – percebeu logo que não. Levou-a aos lábios e deixou escapar um suspiro, conformado. Sabia que se queria um expresso preparado a uma pressão de nove atmosferas, servido próximo dos noventa graus célsius, de aroma e sabor intensos, com um bom corpo e persistência no paladar, coberto por um denso creme cor de avelã em toda superfície da chávena, cuja espessura fosse entre três e quatro milímetros, teria de o preparar em casa. Ainda assim, tinha esperança de um dia se surpreender. Quem sabe amanhã.

Sentiu um misto de nostalgia do passado e de angústia com o presente. Retirou do bolso do casaco uma folha meticulosamente dobrada em quatro e passou os olhos pelos apontamentos por si manuscritos. Era uma caligrafia antiga e impecável. No centro da página, estava desenhada uma grelha onde a cada dia da semana correspondiam dois valores, que variavam entre os 445 e os 448.

Tinha a testa franzida e um ar algo apreensivo, quando tentou chamar a atenção do empregado, para pedir a conta.


* * *


Sem acender a luz do pequeno candeeiro, tacteou pela mesa-de-cabeceira até sentir o maço de Gauloises. Tirou um cigarro, colocou-o na boca e permaneceu deitado, longos minutos, a fitar a escuridão, enquanto, apenas com os lábios, ia passando o cigarro de um canto para o outro da boca.

Acabou por se sentar, curvado, na beira da cama, enquanto passava as mãos várias vezes pelos cabelos revoltos, lentamente. Apesar da idade, tinha ainda um cabelo relativamente farto, sem entradas significativas; apenas grisalho. À quarta vez que repetiu o gesto, deixou ficar os dedos entrelaçados nos cabelos e as palmas das mãos nas fontes, como se, subitamente, necessitasse de apoio para que a cabeça não lhe caísse. A primeira luz do dia esgueirou-se pelo estore da janela e ele levantou-se. Mantinha o cigarro a girar-lhe nos lábios.

Prometera à sua mulher, no hospital, poucas horas antes de ela morrer de cancro do pulmão, que deixaria de fumar – ela, que nunca na vida tinha fumado mais que o fumo dos cigarros dele – e, por uma vez, queria manter-se fiel à palavra dada. Mas, para isso, precisava de ter cigarros por perto e, ultimamente, o mais perto possível: não bastava já andar com um maço no bolso, tinha de ter um cigarro na boca. Até agora, não acendera nenhum, mas receava pelo futuro.

Retirou uma frigideira velha e cansada do armário dos utensílios de cozinha velhos e cansados, colocou-a no fogão com um pouco de azeite e picou para lá um resto de cebola, que tirou do frigorífico. Antes de acender o lume, atirou o cigarro para o lixo. Bateu dois ovos, com sal e pimenta, e despejou-os na frigideira. Quis acrescentar salsa, mas não a encontrou. Mexeu a mistura com um garfo, até os ovos ficarem sólidos.

Comeu-os de pé, junto ao fogão, enquanto via o dia entrar-lhe pela janela da cozinha.




Boomp3.com

16 comentários:

Maria Liberdade disse...

Escreves tão bem! Fico sempre tão orgulhosa!

PS. talvez haja salsa no congelador...

Rui disse...

Salsa no congelador... modernices.

Nia disse...

..Não gostou do que viu.Nuvens negras começavam agora a distinguir-se cada vez mais, à medida que a luz do dia lhe inundava a cozinha.
-Merda!Já não bastam as nuvens cá de dentro?!
O sabor a ovo com demasiado sal (por distração ou por não querer saber)era ponto assente para lhe estragar o dia que chegava.Deu meia volta e foi à casa de banho lavar os dentes...esfregar a língua, esfregar a vida.
Mas nada mudou.Aquele sabor salgado e amargo estava entranhado numa imagem de cama de hospital que se lhe colou à alma e ao sono que deixou de chegar.
Esfregou a língua com mais força...quase sangrava.
-Quem sabe...um dia?...

PreDatado disse...

Gostei particularmente desse café laboratorial que no entanto seria quente de mais para mim.

(vá lá ver se há salsa no congelador)

Mlee disse...

Fiquei com a sensação de "o retrato do desalento" ...

JPD disse...

Olá Rui

A história está lançada -- Escrita se mácula -- e o que me resta é aguardar o desenvolvimento.

Um abraço

Leonor disse...

um bom café ( e todos os rituais de um bom apreciador) é difícil de encontrar...

tanto se fala da cerimónia do cha´, mas relega-se o café para uma bica (mal) tirada...

as fotografias dos açores estão simplesmente magníficas

a_mais_fofa disse...

Estou presa.
Aguardarei o resto com ansiedade!

Bjn,Cat*

legivel disse...

- Oi mano! Como vai essa bizarria?
- Oh pá! que mania a tua de entrares pela janela da cozinha! Não sabes bater à porta?!
- Bater batia, mas sabes como é: à cusca da tua vizinha Dagoberta, dava-lhe uma coisa má se me visse à tocar-te à campainha pela Noite dentro. Esses ovos... comem-se?
- Ok, ok. Vou buscar um prato. E o teu Dia como é que te correu?
- Nem me fales! Quando vinha para cá meteu-se-me um dragão à frente do carro que por um pouco não lhe limpava o sarampo... ´inda por cima o gajo riu-se e fez um sinal com os dedos em "v". Ainda estou verde de raiva. Quer dizer, amarelo... Mas tu estás a tremer! que é que se passa?
- É doença antiga. Uma gripe mal curada, apanhada num dia de temporal quando embarcadiço, entrava no porto de Leixões...

Cantinho dos devaneios disse...

... bem, isto promete...

Eyes wide open disse...

Hhmmmm... o que sairá daqui...?

[adorei a tua Atlântida ;)]


*

rosasiventos disse...

[ de que servem estas sólidas paredes acumuladas?,

vou agora ali num instante que morro crente que o maior amor é uma vez dois e, por outro lado, bem maior que dois e sempre, afinal, sempre rio virgem, mas enquanto de abraço nem sombra vou ali e volto ou volto que nem que não volte logo se não verá.



na mesma viagem? ...

sinhã, a. disse...

fiquei a ougar: os ovos e a eventual continuação.:-)

Cristina Pedro disse...

:)

Vanda disse...

Devias pagar-lhe uma viagem a Roma, para por fim saborear um café com todo esse preciosismo :))


Segundo dizem as italianas, claro!


Fora de todas as brincadeiras,
gostei tanto deste personagem que li as "Três Partes" de seguida...

APC disse...

OK, pronto, já fiz asneira: li-te. E agora já sei que não vou sair daqui sem ler os outros seis capítulos que se seguem. Mas que grande asneira, fiz eu! :-)))