terça-feira, março 28, 2006

O Olhar de Arminda (VIII)

Fez questão de estar à porta do bar para receber pessoalmente os seus convidados. Por quatro vezes o fez, acompanhando-os à mesa – uma em cada canto da sala -, aproveitou para, resumidamente, lhes relembrar o que ia acontecer.
Era ainda cedo quando o último convidado se sentou no seu sofá, acompanhado por duas meninas que o iam entreter até ao momento certo. Pretendia-se evitar a confusão habitual dos sábados à noite.

Eram 23h00 em ponto quando, de braço dado, Arminda e Madame Biju entraram. Detiveram-se, aguardando indicação para que avançassem. O efeito foi conseguido, todas as cabeças se viraram na direcção das duas mulheres. Alguns queixos caíram.
Após o espanto inicial, um burburinho instalou-se. Todos queriam saber quem era aquela miúda.
Ao longe, o patrão fez um ligeiro movimento com a cabeça e Madame Biju indicou a primeira mesa a Arminda. Aí chegadas, como que a entregou ao patrão que, por sua vez, a apresentou ao homem, envolto numa nuvem de fumo de charuto. Este, com um gesto, dispensou as acompanhantes que, ao passarem pela rapariga, lançaram-lhe um olhar penetrante e frio.
Com um sorriso, convidou-a a sentar.

A conversa foi breve, na verdade, um monólogo, já que Arminda se limitou a uns nervosos acenos de cabeça, e a emitir uns sons que a música ambiente não deixava perceber. Durante todo o tempo, não levantou os olhos do chão.
Foi assim em todas as mesas e nenhum dos homens se importou. Aliás, a inocência e timidez da rapariga eram de tal maneira genuínas, que isso só lhes aguçou ainda mais o desejo. Nunca como daquela vez, a oferta lhes agradou tanto.
Menos de uma hora depois, Arminda subiu ao quarto acompanhada por Madame Biju. O patrão passou por cada mesa recolhendo, em cada uma delas, uma folha dobrada. Nela, o valor que cada um dos homens estava disposto a pagar para serem os primeiros daquela rapariga.

Don Camilo, o único espanhol dos quatro, ganhou o leilão. A sua proposta era, de longe, a maior. Perante tal valor, nenhum dos outros homens fez contraproposta.
Casado, com seis filhos, era um latifundiário abastado, ligado à criação de gado e bem relacionado com o governo Franquista. Estava habituado a ter o que queria.
Acertada a transacção, Don Camilo subiu. Aos concorrentes perdedores, o patrão ofereceu a companhia de duas raparigas a cada um. À vossa escolha! Oferta da casa! Aquela noite estava a correr-lhe bem.

Ajoelhada junto à cama, Arminda rezava. Pedia perdão.
Nunca antes tinha rezado, na verdade, nem sabia como se fazia tal coisa mas, se aquela era uma noite para primeiras vezes, mal não podia fazer.
A porta entreabriu-se e Madame Biju espreitou, fazendo sinal para que ela se levantasse.

- Puede passar, Don Camilo. – Disse a mulher no seu melhor sotaque castelhano.

A porta fechou-se atrás do ganadero que, quieto, mirava a sua mais recente aquisição com a mesma satisfação de quando comprava um novo animal.
Era um homem já de idade, cabelo todo branco, sorriso largo mas amarelo, de milhares de havanos queimados. Era uns bons dois palmos mais baixo que ela. Percebia-se que era um homem de força, quer física quer de vontade.
Desapertou o nó da gravata e depois o colete.

- Que barbaridad…

Atirou casaco, gravata, colete e camisa para cima de uma das cadeiras e descalçou-se. Tinha o peito coberto de pelos brancos e uma barriga proeminente.
Arminda sentiu as tripas embrulharem-se. Uma fragrância de perfume floral vinda da pele desnudada dele chegou-lhe às narinas, o que a obrigou a fechar a boca com força.
Don Camilo baixou as calças, ficando de cuecas e meias, presas junto aos joelhos por elásticos. Aproximou-se dela.

- Anda cariño, levanta-te. – Deu-lhe a mão e ela aceitou-a.

Do alto do seu 1,90m, apenas via o cabelo ralo e casposo do homem. Fechou os olhos quando sentiu a língua molhada dele no seu pescoço e as mãos nos seios. Arrepiou-se e os restos do almoço – não tinha sido capaz de jantar -, subiram-lhe até à garganta. Foi a custo que os aguentou dentro de si.
Ele tentava desesperadamente desabotoar-lhe o vestido enquanto lhe passava a língua pela cara. Estava descontrolado, ofegava muito e babava-se, molhando-a toda. Arminda colocou as mãos nos ombros dele e tentou afastá-lo, mas sem sucesso.
O vestido caiu, por fim.

- Que tetas… - Atirou-a para cima e deitou-se em cima dela. – Quiero tu leche, borreguita.

Sugava-lhe os seios com força, magoando-a. Em desespero, Arminda cravou-lhe as unhas pintadas de vermelho nas costas, o que apenas o fez aumentar o ímpeto com que a apalpava e lambia.
Por fim, prendeu-lhe os braços debaixo das suas mãos e fitou-a nos olhos.

- Que tesuda eres, chica. – E forçou-se nela.

Arminda soltou um grito. Ele sorriu e pediu-lhe que gritasse mais, que adorava quando elas gritavam.
A partir daí, ela perdeu a noção do tempo e do espaço. Terá desmaiado, pelo menos é isso que lhe parece. Não se recorda de mais nada, apenas de voltar a si, deitada na cama e olhar para a ventoinha que rodopiava lentamente sobre a sua cabeça.
Um cheiro nauseabundo fê-la erguer-se. Ao lado da almofada e no chão, um rasto de vomitado. Entre as pernas uma poça de sangue ensopava os lençóis. Estava dorida, moída, todo o corpo lhe doía.
O vestido, atirado para um canto e todo amarfanhado pareceu-lhe, também ele, uma imensa poça de sangue.
Não foi capaz de se mover, encostou-se à parede e chorou para dentro. O seu corpo nada mais tinha para dar.

* * *

Passaram-se oito meses e Arminda tornou-se companhia privada de Don Camilo, que pagava uma boa maquia pela exclusividade.
Teve outros homens, mas sempre como oferta do ganadero a amigos e parceiros de negócio. Por várias vezes foi para a cama com outras raparigas, coisa que o velho apreciava particularmente. E, uma vez por mês, deslocava-se com outras mulheres da Bodeguita e de outros estabelecimentos idênticos, à quinta de Don Camilo para participar numa festa que, invariavelmente, terminava numa orgia.
Era nessas ocasiões que aproveitava para falar um pouco com algumas dessas raparigas. As histórias, apercebia-se, não variavam muito; o pano de fundo era sempre a miséria, o atraso, o abandono familiar, as ilusões desfeitas. Todas se tinham tornado mulheres muito depressa e nenhuma o era, verdadeiramente, ainda.
Uma frase de uma rapariga espanhola, com quem Arminda mais falava, ficou-lhe gravada na memória: - Somos carne, Roxanne… solamente carne.

* * *

As noites de verão tornavam o ambiente do bar muito saturado. Respirava-se mal, o cheiro de tabaco misturado com suor e perfumes reles, deixavam Arminda particularmente mal disposta.
Numa dessas noites, preparava-se para pedir licença a Don Camilo para ir ao quarto refrescar-se, quando viu entrar uma figura conhecida. Deixou-se ficar.
O homem sentou-se com os amigos, riam à gargalhada, fazendo-se notar.
Ela nada disse, levantou-se e, agarrando no grande e pesado cinzeiro que estava no centro da mesa, atravessou a pista de dança em passadas largas e decididas. Junto ao homem, que não se apercebera da sua presença, ergueu o cinzeiro bem alto. Alertado pelas expressões de espanto dos companheiros, o homem voltou-se no preciso momento em que o cinzeiro descia a grande velocidade na direcção da sua cabeça.
O impacto foi tremendo. O som abafado de osso a estilhaçar ouviu-se pela sala. Laureano cuspiu um jacto de sangue e três dentes caíram-lhe por entre os lábios flácidos. Dobrou-se para a frente, inanimado, ficando de joelhos no chão e com a cabeça e o peito em cima da mesa. A expressão, a de quem não tinha percebido o que lhe tinha acontecido.
Arminda levantou de novo o cinzeiro e preparava-se para atingir de novo Laureano, quando uma mão lhe segurou no pulso. Albertino estava atrás dela. Já chegava.
Cuspiu para cima do corpo ensanguentado e abandonou a sala. Ao fundo, o patrão engoliu em seco.

Esteve dois dias fechada no quarto a pão e água, mas ninguém lhe falou no sucedido. Tudo continuou como antes.

* * *

- Letícia, anda caralho… sempre a mesma merda! – Natalino gritava, sentado ao volante da Renault 4. No banco de trás, Arminda e Natasha esperavam pela colega para mais uma visita à finca de Don Camilo, “La Falange”.

Letícia correu para o carro, ajeitando a mini-saia e partiram.
Apesar de ficar a pouco mais de 30 kms, a viagem até à herdade demorava sempre mais de uma hora – culpa das más estradas, da pouca capacidade do automóvel e, principalmente, da pouca habilidade de Natalino para a condução.
Arminda pedia sempre que ele ligasse o rádio. Gostava de ir a olhar pela janela enquanto cantarolava as músicas que tocavam. Não percebia as palavras, eram quase sempre em estrangeiro mas, para si, isso não importava, inventava a letra… o importante era cantar.

Escurecia rapidamente, a lua, em quarto crescente, apareceu acima do horizonte. As estrelas iam ter que repartir o seu reinado do céu com ela, pensava Arminda, quando a Renault 4 deu um grande solavanco e depois outro.
Natalino vociferou a plenos pulmões umas quantas asneiras e o automóvel deteve-se num descampado.

- Que sorte a minha, Jesus, que sorte a minha. Vá, todas para fora, não viram que tivemos um furo? Mexam-me esses cus…

O pneu esquerdo da frente estava vazio. Natalino continuava a maldizer a sua sorte enquanto tirava o pneu sobresselente e o macaco.
Letícia e Natasha acenderam cada uma o seu cigarro, indiferentes ao que se passava.

- Isso, deixem-se estar, não se incomodem. – Disse ele com desdém.
- Sim filho, deves estar à espera que eu te ajude e cague a roupa toda. – Respondeu-lhe Letícia.
- Putas…

De cócoras, deu à manivela e, lentamente, o carro ergueu-se. A pedra atingiu-o por cima da orelha esquerda, abrindo-lhe uma extensa ferida de onde jorrou uma golfada de sangue quente e pastoso.
Natalino bateu com a cara no pneu que retirava e estatelou-se no chão sem proferir um som.
Letícia e Natasha, de boca aberta e cigarro a arder entre os dedos, olhavam Arminda que, segurando uma enorme pedra entre as mãos, tentava controlar a respiração.

- Que caralho! – Foi tudo o que Natasha conseguiu dizer.

Arminda deixou cair a pedra, tirou o revolver a Natalino e as chaves do carro.

- Vocês façam o que quiserem, eu vou fugir.

Descalçou-se e desapareceu, a correr, por entre um campo de milho.

No rádio do automóvel ouviram-se os primeiros acordes de Keep On Running, de Spencer Davis Group.

21 comentários:

sonia r. disse...

Finalmente a Arminda consegui a sua liberdade.
Boa noite Rui.

Bjo.

Anónimo disse...

corre Arminda corre....
Bjs. Jaqui ;-)

Sofia disse...

Grande Arminda..... é assim mesmo! Mas conhecendo o autor, será que ela n vai ser apanhada????? hummmm n sei nao....

bj ruizinho

zeni disse...

É assim mesmo, rapariga.Tomar na mão as rédeas da vida.

Adeus_Tristeza disse...

Uma Mulher de Força! Boa!

ISA disse...

BOOOOOOOOOAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!! Confesso que a primeira parte me meteu um nojo do cacete aquele velho nojento coitadinha da Arminda... Mas gostei, 2 em 1, porrada nesses fdp!!! Lindo Rui, continua em grande! bjs

Meia Lua disse...

Mulheres feitas fortes... a construção da tua personagem é espetacular...
O que podemos fazer numa situação de desespero? Nem nós sabemos.
Muito bom, como sempre. bjinho

Akasha disse...

Cada vez mais adoro a tua escrita, a visita ao teu blog faz parte da minha rotina diária. Tanto tempo sem publicares nada é esquecido/"perdoado" perante a beleza dos teus textos.
Bjnhs

Francis ( X ) disse...

Corre Arminda corre, parece que ainda existe uns bilhetes para a Final Antecipada.
:)

Dani disse...

Venho aqui protestar veementemente contra a forma como a pobre Renault 4 é tratada! "da pouca capacidade do automóvel" Um maquinão daqueles! Ai se o meu amigo Luís resolve ler esta tua história...
:)

Lagoa_Azul disse...

Vim por a leitura em dia meu amigo Rui, e devo confessar-te que continuo encantada com a forma como escreves, e nos envolves na leitura...

Deixo-te um beijo com carinho...

@ disse...

O Laureano estava a merece-las.

Grande Arminda...

lélé disse...

Como a Isa disse, a primeira parte meteu um nojo dos diabos! Mas tinha mesmo que meter, não fosse ela deixar de pensar em esmigalhar a cabeça do sacana do Laureano!... E agora?... Que mais vai olhar Arminda?...

segurademim disse...

keep on running... mas será que consegue fugir de si própria e das marcas que já lhe foram inculcadas???

veremos! beijo ;)

Inês Diana Salgado disse...

Tal como o Dani também venho protestar!!!
Olha lá... desde quando é que a R4 é um veiculo com "pouca capacidade"??? :P
Havias de ver a minha a "voar" a 140Km/h ou a circular carregadinha de tijoleira! ;)

Qualquer dia pego no meu "maquinão burmelho" e faço-te a folha!! Bais ber!! :P

Beijo para ti ;)

P.S. - Se a Arminda precisar de uma boleia, já sabes ;)

alice disse...

“Fazes-me falta

O silêncio chegou
E espalhou miséria às portas da morte
Assustou os espíritos
E evaporou as conversas de espuma
*
Trazia na trela um cão pequeno
Que latia arrogâncias
E havia fome
No focinho da besta
*
Eu podia simplesmente
Falar da cinza e dos cornos
Ou iludir-te com a falta de luz nos ovários
Mas a espera
Requer vocábulos de natureza puta
*
Eu podia pagar-te
Para ires às mulheres da rua
Deixava a fera assentar o pêlo
E calava os hemisférios
*
Era bem mais fácil
Rogar-te pragas de marfim
Fazer de conta que a lua
Tirou umas férias amarelas
Ou inventar incertezas
No centro do equador
*
Mas ouço a febre descer à montanha
Num repique de sinos alegóricos
E espero durante a hora da missa
Perder-me no bosque para sempre”

Beijinho especial para ti e obrigada por tudo, Rui...

A. S.

Margarida Atheling disse...

Meu Deus!!! Este texto é um murro no estômago!

Acho que já tinha dito mas, escreves muito bem!

Beijinhos!

Ernest disse...

Já te disse como fico presa ao que escreves sem conseguir libertar-me? Sem querer libertar-me...

sonia r. disse...

Boa noite Rui.

Bjo.

inBluesY disse...

confesso...vais ser impresso, caso contrário não consigo ler...

beijos

M.M. disse...

Fantástica, a história da Arminda.
Excelente, Rui.