quarta-feira, março 22, 2006

O Olhar de Arminda (VI)

La Bodeguita de Verín era um edifício isolado, à beira de uma estrada secundária, junto ao rio Tâmega espanhol. Construído sob o comprido, tinha dois pisos, albergando o de baixo um restaurante e um bar – com entradas separadas – e o de cima uma pensão.
Todo ele estava iluminado. Centenas de pequenas luzes de várias cores piscavam apesar de ainda haver alguma luz natural.
Uma nuvem de insectos agitava-se freneticamente junto a uma luz vermelha, por cima da entrada do bar, prenunciando o movimento que iria haver mais tarde.
O carro contornou o edifício e estacionou nas traseiras, junto a dois imundos contentores de lixo. O homem saiu e abriu a porta de trás.

- Anda, chegámos, deves estar cheia de fome.

Estava, mas Arminda nada disse, limitou-se a sair e a acompanhar o homem. Reparou que todas as janelas tinham grades.
A única porta das traseiras dava acesso à cozinha, que estava vazia.

- Vais para o teu quarto e alguém te vai lá levar o que comer.

Passaram por uma porta de batentes e entraram na sala do restaurante. Atrás de um balcão, um homem atarracado e gordo, limpava copos de cerveja distraidamente. Tinha a mesma cabeleira encaracolada de Albertino e um bigode farto que lhe escondia a boca.

- Patrão! Nem o ouvi chegar. – Disse ele, colocando o pano ao ombro.
- Estou fodido com vocês, fosse eu um dos gajos do Quintana e já estavas com os miolos espalhados no chão.
- Não diga isso, eu estava aqui a pensar na vida…
- Levas aqui a… como te chamas, mesmo?
- Ar… Arminda. – Balbuciou ela a custo. Tinha a garganta seca e tremia.
- Temos que fazer alguma coisa em relação a esse nome… bom, levas a miúda para o quarto que está vago e aqueces-lhe o que sobrou do almoço.
- Calmeirona ela, patrão.

O piso de cima era uma sucessão de portas num corredor interminável, mal iluminado e estreito. A última porta à esquerda, que dava para as traseiras, tinha o numero 29.

- Chamo-me Natalino. – Disse-lhe ele enquanto fazia rodar um enorme molho de chaves nas mãos. – Este vai ser o teu quarto.

Esperou que ela entrasse e, sem mais, fechou a porta à chave. Do outro lado, ainda disse já volto.
O quarto era um cubículo escuro e rectangular, onde pouco mais cabia que as duas camas e a cómoda que lá existiam. Havia uma janela com vidros opacos que não abria, uma ventoinha no tecto e um pequeno candeeiro que pouca luz conseguia fazer passar pela protecção que tinha. A decoração era composta por papel de parede com cornucópias castanhas gigantes e um quadro em que duas figuras femininas estilizadas deitavam a língua de fora uma à outra.
Arminda reparou que, à esquerda, junto à porta, uma cortina escondia uma outra divisão. Afastou-o, era a casa de banho. Tinha um pequeno lavatório, um espelho, uma sanita e, a um canto, um chuveiro ferrugento fixo na parede por cima de um ralo. O cheiro a canos fazia sentir-se.
Sentiu as lágrimas prestes a cair-lhe quando ouviu passos. Era Natalino.

- Tens aqui carne guisada com arroz e pão. – Colocou o prato na cómoda, agarrou-lhe na mala e saiu, fechando novamente a porta à chave.

Comeu a custo, a carne era rija e sem sabor, o arroz uma papa. Estava tudo frio. Lembrou-se novamente da mãe.
Como não tinha o que beber, abriu a torneira da casa de banho. Após uns roncos e soluços, um líquido acastanhado pingou no lavatório. Mais uns roncos e um fio de água suja caiu, por fim.
Arminda deixou-se cair e não conseguiu suster mais as lágrimas.

À medida que a noite se instalou, os barulhos foram aumentando progressivamente. Ouvia-se musica, ao longe. Ritmos Disco chegavam-lhe abafados.
Parecia haver muito movimento no corredor. Ouviam-se muitas vozes e risos. Conseguiu adormecer já tarde. Sonhou muito.

Estava a remexer nas gavetas da cómoda – todas vazias – quando ouviu um barulho de chaves junto à porta. Natalino entrou com uma bandeja.

- Se precisares de talheres, usa esses que não trouxe outros.

O instinto de Arminda disse-lhe para aproveitar e fugir; a razão disse-lhe que jamais conseguiria chegar à rua. Sentou-se à beira da cama.

- Trago-te aqui uns sapatos e umas roupas para vestires, toma. – Atirou a roupa para cima da cama. – Esta tarde vais tomar banho e vestir isso, o patrão vem ter contigo logo. Tens que estar asseada, ouviste? – Não esperou pela resposta e saiu.

Arminda mirou o prato; era a mesma comida da véspera. As tripas revolveram-se.
Pegou na blusa, estava cheia do que lhe pareceu serem pequenos espelhos redondos. Brilhava.
A saia era mínima, ficava-lhe bem acima do joelho, pensou. Os sapatos eram vermelhos, com a mesma forma dos que via as senhoras usarem nas revistas; tinha um salto fino e muito alto. Jamais seria capaz de andar com aquilo.
Sentada na cama, encostou-se ao canto, com as pernas encolhidas, encostadas ao peito. Pela primeira vez, sabia o que era ter medo verdadeiro.

Não fazia ideia de quantas horas tinham passado, quando ouviu passos no corredor. Mantinha-se na mesma posição. Fechou os olhos com força.

Silêncio.

Abriu o olho esquerdo, devagar, a medo. Continuava sozinha, o quarto envolto em escuridão. Inspirou profundamente.

Uma chave rodou e a porta abriu-se devagar, sem fazer barulho. Um ténue fio de claridade prolongou-se até ela, iluminando-lhe metade do rosto. O coração saltava-lhe dentro do peito.
Na moldura da porta, distinguiu uma silhueta escura. Era enorme.

29 comentários:

Margarida Atheling disse...

Eu bem presenti, desde o início, que isto não ia acabar nada bem!

Beijinhos

Carla disse...

Sacana do Laureano...coitada da Arminda...não pares..quero este Livro!!!
Bj

Paty disse...

Continua a parecer-me familiar ;P Não me agrada nem um pouco o rumo desta rapariga! Ai ai ai a ingenuidade de uma mulher...Enfim esperemos que a pobre consiga ter forças para escapar!
Continua...está cada vez melhor!

P.s. By the way (e num tom meramente provocatório...;P)
...
Ssoooooooooorrrrrrrrrrrrtinggggggggggggggggggg ;)))
Beijos

inBluesY disse...

com calma, vou ler, mas antes digo-te que os teus comentários são por nomra muito certeiros...

bjs

Anónimo disse...

Oh docemaleficofeliz, pasteis de bacalhau, para a travessia do rio? :)

Nunca experimentei mas a cerveja é anti enjoo. Garanto :)

Agora vou ler a carinha laroca...

Van
(não consigo como blogger, porquê?)

Vanda Baltazar disse...

...olha que "bodega" tinha que calhar à miuda!

Ainda vai ter saudades da serrania, da pequena aldeia...

Espero para ler o VII...

Beijinhos maléficos :)

alyia disse...

Hum... estou mesmo a gostar, fico à espera do próximo

lélé disse...

irra!... o que dói nesta ficção é saber que isto acontece de verdade!...

sonia r. disse...

Coitada da Arminda, mas fiquei curiosa com o que vai acontecer a seguir. Até amanhã Rui.

Bjo de boa noite.

ernest disse...

Magnífico. Este é um trilho Profundo... que já me habituei a trilhar...

ISA disse...

tu queres nos matar rui... tu queres nos matar de curiosidade homem de deus... ;-) bjs e até amanhã

que ainda agora aqui cheguei, ao teu blog, e já tou uma viciada do pior!!!

@ disse...

ela é que escolheu, agora tem que se desenvencilhar...

Anónimo disse...

... ai ai Arminda, quando a cabeça não tem juizo...
Bjokas Rui da Jaqui ;-)

Dani disse...

Os malefícios...

Sofia disse...

Ruizinho, nao te esqueças que gosto de finais felizes, sim? Arranja aí qq coisa, tipo o homem que tava á porta era o irmão, o pai, um tio desconhecido que a vinha salvar. E ela voltava pra serra, encontrava o amor da vida dela e era muito feliz. Pode ser?
bjs

legivel disse...

... eu acho ( mas o autor é que decide) que a Arminda está mesmo metida numa embrulhada dos diabos e com grande dificuldade isto vai ter um final feliz.
Que isso dos finais felizes é no cinema e nos romances de cordel. Aqui, trata-se da realidade a papel químico...

NOTA: deixei um comment no capítulo anterior... A velocidade do carro e a noite má lá de cima desorganizaram-me...

zeni disse...

Só esoero que o fim da história dê uma lição bem dada ao Laureano, pode ser?

mixtu disse...

bom... isto está-se a complicar, venha daí um desenrolar complicado, de fazer chorar as meninas...
excelente,
abraço

Inês Diana Salgado disse...

Continua, eu já tenho o meu exemplar reservado não é?? ;))

Por muitos e bons... :)

Beijoss

Inês


P.S. - Vai preparando o batôm de cieiro :P

Inês diana Salgado disse...

P.S.- Ohh Legível... gostei dessa da "realidade a papel quimico" ;)))

Sara MM disse...

Mas.... se isto for de terror, avisa!!!!!!!!!!!!!!!!!

Vanda Baltazar disse...

A vida é mesmo dura....eu para aqui à espera e o setimo papel quimico ainda no segredo dos Deuses! :)

:) Gracas a Deus que és ateu :)

alice disse...

querido rui,
apetece-me pedir-te o olhar emprestado...
estou exausta, meu caro
amanhã virei ler-te com todo o carinho
desejo-te uma boa noite
um beijinho,
alice

Akasha disse...

Continuo a adorar os pormenores e pressinto que vais abordar 2 temas um pouco "polémicos"... espero ansiosa pelo restantes capítulos.
Bjnhs

sonia r. disse...

Bom dia Rui.

Bjo.

Isa&Luis disse...

olá Rui:)) ler-te é fascinante. O teu encadear de palavras que nos dás a ideia da realidade.

Deixo o novo endereço para leres virtualrealidade

Bom fim de semana

jinho

Isa

Neith disse...

Excelente texto que mais não é do que um retrato bem real da vida de muita gente...beijinhos e votos de uma boa semana :)

Legionaria disse...

agora focas-te no olhar... um beijo

segurademim disse...

... que horror!!!!
;)