terça-feira, abril 13, 2010

O Futuro Segue Dentro de Momentos

Bolas! a exclamação saiu-lhe ainda antes de ter tido tempo de pensar no que estava a dizer. Florêncio tentou disfarçar e pôs-se a olhar para a decoração do acanhado hall de entrada. Não havia como enganar, estava em território esotérico e místico. Mas, sem querer, lá voltava a reparar na grossura das lentes da senhora que, à sua frente, o conduzia para o interior do apartamento. Antes de abrir a porta, a senhora fitou-o no seu olhar míope e, ficando muito séria, afirmou: temos sempre de acreditar nas cartas e nos astros, mas nada se compara ao que o cristal nos diz. Florêncio fez que sim com a cabeça, mas só pensava em fundos de garrafa e em como é que uma pessoa idosa e curta de vistas conseguia ver tão longe quanto ficava o futuro.
Bolas! ainda levou a mão à boca, mas já se tinha descaído novamente. Desta vez, a causa do seu espanto era uma imensa descomunal, foi o termo que lhe ocorreu na altura bola de cristal que, sustida com dificuldade numa mesa, ocupava quase toda a área da assoalhada. Se se abraçasse a ela, pouco mais de metade da sua área conseguiria cobrir.
Sente-se ordenou a vidente. A sala estava na penumbra e as paredes eram inteiramente cobertas por panos escuros com dourados em forma de estrelas, galáxias, cometas, planetas e posters com cartas astrais ampliadas. A um canto, vindo do chão, um fio de fumo subia alguns centímetros e, dissipando-se, dava lugar a um aroma algures entre a canela e a noz moscada.
Sentada em frente a ele, a mulher surgiu-lhe distorcida, do outro lado da bola de vidro. A face contorcia-se em esgares e caretas horripilantes.
Quer que eu chame o 112? perguntou Florêncio, levantando-se de um pulo, assustado com a possibilidade de se ver a braços com uma vidente a ir deste para um outro mundo.
Cale-se homem, que me estou a tentar concentrar.
Ele sentou-se muito direito, mãos nos joelhos, olhar preso numa figura estampada na toalha que cobria a mesa: um esqueleto curvado, num campo, na mão uma gadanha, como se estivesse na ceifa. A principio, a figura divertiu-o ("quem será o maluco que inventa estas coisas"), mas depois um arrepio percorreu-lhe as costas e um feixe de luz o olhar. Atordoado, perdeu por um instante a noção de onde estava. Feixes intermitentes de luz projectavam-se agora à sua frente. "A bola de vidro", pensou ele, recuperando a compostura. De facto, dentro da bola, um turbilhão de luz sem cor iluminava agora a sala. Reflectida nas lentes grossas, a luz dava à vidente um ar extraterrestre. Era como se fosse ela a fonte de toda aquela energia.
Aos poucos a intensidade luminosa foi diminuindo e um ligeiro zumbido encheu a divisão. Começando de baixo para cima, ténue, uma mira-técnica foi-se formando. A senhora deu uma pancada no vidro com a mão e a mira-técnica deu lugar a estática. Nova pancada e desta vez apareceu a Fátima Lopes, a falar directamente para Florêncio, ainda que sem som, olhando-o nos olhos, num misto de piedade e divertimento.
Mau a vidente levantou-se e duas pancadas seguidas. Com ar pesaroso e a dizer que sim repetidamente com a cabeça, Júlia Pinheiro materializou-se no globo. Também ela falava, mas o único som que lhes chegava era o zumbido eléctrico.
O senhor importa-se de esperar um pouco lá fora enquanto eu sintonizo o futuro?
Sentado na única cadeira do hall de entrada, desconsolado com a sua primeira consulta esotérica, Florêncio lamentava não ter vindo à consulta da parte da manhã: é que ele aprecia muito mais o Goucha.

13 comentários:

ss disse...

Hahahaha,
Se fosse minha, essa bola de cristal já tinha ido parar ao lixo de tão mal frequentada que era!
;)

Vieira Calado disse...

Sempre gostava de ouvir (na íntegra)
o que dizem esses figurões...

Um abraço

R. disse...

Muito divertido :) e muito alegórico. Está visto que os problemas de "visão" da dita senhora não se limitavam à miopoia. Para o cenário ficar completo, só faltava, como diz um amigo meu, que a senhora fosse "bidente", que é como quem diz, portadora de dois dentes apenas...

legivel disse...

... tenho muito respeito por estes(as) trabalhadores(as) que leem o nosso futuro. Se é verdade que na actualidade não é preciso ser vidente para adivinhar o que para aí vem neste país do mistério e ocultismo, tempos houve em que uma bola de cristal (e respectiva operadora) era serviço considerado de utilidade pública em qualquer freguesia portuguesa. A coisa hoje está de tal maneira que os próprios emblemas desportivos já não se socorrem de Zandingas e quejandos, uma vez que qualquer mano com formação feita nos media desportiva faz um treze no totobola. Até as bolas de cristal se vendem ao desbarato com o Jorge Gabriel ou a Tânia Ribas de Oliveira lá dentro.

arabica disse...

:)) bem falava eu há minutos atrás da sorte que me esperaria por aqui!! :)) Mas longe, longe de mim esperar a Júlia! :))

Bem concebido, Rui e sempre com o teu excelente sentido de humor. :)

Beijos, bom fim de semana!

via disse...

ehehehe, exige indemnização, é que se o teu futuro é a Julia precisas de dinheiro para comprar outro.

segurademim disse...

... bolas!

quando referes a Fátima Lopes até me sorri.
bolas! o Rui vai entrar no negócio da moda

já me estava a imaginar tua cliente, sim euzinha! que preciso de aconselhamento de imagem (sem som). oh pra mim com um vestido sem ombro e um buraco na barriga!!!

bolas! sai-me o Florêncio ao caminho e ameaça-me com o Goucha?!

bolas!

Plasticine disse...

És outro com vício de Tchekov?

Rui disse...

Plasticine,

não diria tanto

JPD disse...

Eu acho que não haverá escolha possível entre a Fatima e o Goucha.

Como percebo que estarás de acordo e, por essa razão é que os mencionas, o que realmente iteressará é nunca frequentar essas videntes da treta.

Gostei da ironia .

Um abraço, Rui

legivel disse...

´"... este ano é que é!" Depois do longo jejum já merecem ocupar o Marquês d Pombal, a Visconde Valmor, a Duque d´Àvila e a Rocha de Conde de Óbidos. Vieira será coroado rei e Jesus o Principe Consorte.

Rui disse...

Legível,

Com sorte é que não tem sido.
E deixa-me acrescentar aí alguns locais a ser ocupados pelo cortejo (se tudo correr pelo melhor, que quem manda é a matemática): túnel do marquês, túnel da Joao XXI e túnel do Rossio.

E olha, para o ano, estamos tramados com vocês: com um forcado a dar a táctica, ou os meus jogam com o equipamento alternativo ou vai ser uma pega... pegada.

lélé disse...

Há quem se ponha a olhar para ontem para ver se vê o futuro!... Como é que essa gente não há-de ficar vesgueta?!...