quarta-feira, março 17, 2010

O Alarme

– Então, o que é que se faz por aqui para passar o tempo? – o misto de jovialidade e ingenuidade com que a pergunta foi feita, conferiu-lhe uma particular frieza. Sentada à janela, instintivamente, a mulher levantou a cabeça do tricô e o olhar fugiu-lhe para o exterior, para o mais longe que a vista conseguiu alcançar, indo fixar-se numa grua que se erguia acima do contorno da cidade. Era a primeira vez que visitava a avó sozinho, e por sua iniciativa, na residência para a terceira idade. Nem dessa nem das vezes que tinha ido com os pais, tinha reparado num papel que, fechado numa caixa de alumínio e vidro, à entrada, enumerava as regras que os visitantes deviam observar. Eram muitas, mas faltava ainda uma, talvez a mais importante: não mencionar a passagem do tempo.

Já não esperava resposta da avó enquanto a via perdida na paisagem encaixilhada da única janela do quarto. Reparava nas rugas daquela face mil vezes beijada, espantando-se por nunca antes as ter sentido nos lábios, como havia sentido momentos antes.

– Vivem-se as solidões em conjunto – a frase desenhou um círculo no vidro, embaciando-o durante breves momentos. Quando a auréola de humidade se desvaneceu, um sorriso familiar, ainda que sem vida, estava desenhado por baixo. Inquietou-se com aquele momento e mais ainda quando os seus olhos encontraram o reflexo dos da avó e percebeu que ela o tinha estado a observar. – Sabes, a partir de uma certa idade, ninguém gosta de ser lembrado que a contagem decrescente está quase a terminar. E aqui dentro, tudo parece caminhar para zero – o sorriso era agora franco, como ele o recordava de sempre.

O som ténue de uma granada de morteiro a cair soou no quarto. Apressou-se a tirar o telemóvel do bolso interior do casaco; a mensagem tinha chegado na melhor altura, safando-o do constrangimento de não perceber nada do que se estava a passar. Respondeu com polegares ágeis e depois encolheu os ombros à avó, que estava agora de pé, a arrumar a lã e as agulhas na mesa-de-cabeceira.

– E se fossemos lanchar? – perguntou ela, com animo. – Hoje é o dia em que o chá vem acompanhado com bolas de massa no forno e doce. As raparigas que aqui trabalham chamam-lhe scones, mas são bolas de massa que elas deixam sempre cozer demais; e como a clientela pode bem dos dentes, é sempre uma tarde divertida…

De braço dado, dividia a sua necessidade de apoio enquanto andava entre o neto e uma bengala. Caminhavam lentamente e em silêncio ao longo de um comprido e mal iluminado corredor. Ter um braço ocupado não o impediu de responder a mais uma mensagem.

– Aqui, tenta-se não desperdiçar um minuto que seja. A maioria das pessoas, pelo menos – a princípio, ficou sem saber se a avó falava com ele ou com alguém que se lhes tivesse juntado. – A tua pergunta de há pouco… há quem leia os livros que nunca leu, há quem releia os livros de que mais gostou, uns pintam, outros jogam, conversam e depois há o senhor Alípio… – disse ela, a voz a ganhar súbita rispidez. Na extremidade do corredor, em cadeira de rodas, aproximava-se deles um senhor de pijama e chinelos, muito seco, a cara chupada e a barba por fazer. Há medida que se aproximava, os olhos prenderam a atenção do rapaz. Eram muito claros e vivos, de uma cor indefinida que brilhava. A avó deteve-se, à espera dele. Fez cara de zangada. O homem parou junto deles.

– Sabes o que fez o senhor Alípio no Natal passado? Carregou no alarme de incêndio e obrigou a evacuar a residência. Não fazes ideia do pandemónio! Mas vai-me prometer que na Páscoa não o volta a fazer, não vai?

O senhor Alípio esperou que a avó e o neto retomassem o caminho. Não disse nada, nem se mexeu. Quando o miúdo olhou para trás, piscou-lhe um olho e esboçou o que pareceu um sorriso.

7 comentários:

ss disse...

Fiquei com saudades das minhas avós, das suas perguntas indiscretas e ar maroto!
:)

legivel disse...

Quando eu chegar a essa etapa da minha vida, quero ser como o senhor Alípio: encontrar sempre coisas interessantes para passar o tempo.

lélé disse...

... e valha-nos um sr Alípio por perto, porque o que faz falta é agitar a malta!...
A avó do conto é uma ternurinha!...

via disse...

Forever young! é o segredo.

R. disse...

É bem eloquente a ideia de solidão partilhada, mal a que dificilmente se votam srs. Alípios, porque o sentido de humor é tendencialmente aglutinador. E que tal começarmos a praticá-lo (ou apenas aperfeiçoá-lo) desde já? ;)

Eyes wide open disse...

Estou como o legível... quando chegar a minha vez de ficar por esses sítios onde o tempo teima em não passar, quero ser como o Sr. Alípio... eheheh... tão tramados comigo ;)

*

legivel disse...

... com aquilo de ontem deve ser um sorriso de orelha a orelha. Enfim, aguardo a próxima época que pelas minhas bandas a coisa já deu o que tinha a dar.