segunda-feira, março 29, 2010

44

Joaquim Manuel ia numa aflição. Na verdade, ia para o Cais do Sodré. Isto é, ia para a Cruz Quebrada. Ou melhor, queria muito chegar à primeira praia. E depressa. E daí a aflição - não por a Cruz Quebrada já não ser praia com maiúscula, que isso até era uma vantagem. Joaquim Manuel era dado a pensamentos tortuosos, especialmente à noite, e na noite passada (em vigília, mais uma) deu por si a matutar em defeitos próprios e alheios. Como não se dava bem com puzzles e com labirintos (nem com palavras cruzadas, sudokus, sopas de letras e afins), chegou à paragem do 44 ainda antes dos primeiros raios de sol. Dali para o comboio e depois para a espécie de areal no fim da cidade. Para ele, a praia era o contrário da noite. O sítio onde não havia curvas nem esquinas.



(este texto veio de autocarro, daqui)

7 comentários:

kaku disse...

Se conseguíssemos aceder a todos os pensamentos "tortuosos" que um autocarro da carris alberga... :)

lélé disse...

Dunas...

... são como divãs...

(divã, Freud... Bingo!...)

Vieira Calado disse...

E é!

Se amanhã o sol brilhar, por aqui,

vou para a Meia Praia...

Um abraço

ss disse...

Hoje madruguei, como o Joaquim Manuel, pensamentos tortuosos tiraram-me da cama. Soube bem, tinha saudades de ver a cidade ao amanhecer.

~pi disse...

eu gosto de quem gosta de cedo,

tenho uma pasmada admiração por quem anda de autocarro cedo

[ um universo proibido pra mim

e

eu gosto ainda e também de quem amanhece a gostar de amanhecer,


ámen,




~

R. disse...

"O sítio onde não havia curvas nem esquinas" lembra-me Pessoa: "O mar tem fim, o céu talvez o tenha/ Mas não a ânsia da Coisa indefinida/ Que o ser indefinida faz tamanha".

JPD disse...

Acho este texto belíssimo.

Os sítios são o que desejarmos sempre que lá formos.

Como este exercício está equilibrado, o Joaquim será bem sucedido.

Gostei muito.

Um abraço