quinta-feira, março 12, 2009

O Arame da Vida

O desfiladeiro amanheceu da cor do metal acabado de fundir. Com as primeiras sombras, os animais nocturnos retiraram-se e os diurnos tomaram conta do cenário, desde logo apressados, nos seus afazeres de comer e evitar ser comidos, antes que a temperatura os empurrasse de novo para debaixo das pedras.

Também o trapezista estava com pressa, mas uma pressa contraditória: despreocupada, inconsciente. (Talvez não fosse pressa, apenas impaciência em chegar ao outro lado). Procedeu a alguns exercícios de desentorpecimento. Flectiu, rodou, elevou, torceu, esticou, encolheu. Achando-se fisicamente pronto, deu um ligeiro pontapé no arame, junto à estaca que o fixava ao chão de pó vermelho, como se estivesse a avaliar a pressão de um pneu automóvel. A tensão que lhe entrou pela ponta do sapato de ginástica – outrora branco, mas agora vermelho – e lhe percorreu a musculatura da perna, foi dada como boa. Só faltava achar-se espiritualmente pronto.

Pegou na comprida vara que o ajudaria a encontrar o equilíbrio necessário durante a travessia, e apertou-a entre as mãos, como quem crê pega no terço, quando reza. Contemplou o vazio que se iniciava diante de si, a um palmo dos pés. Uma ténue neblina alaranjada abandonava ainda as profundezas, não lhe permitindo ver os metros finais do cabo, do outro lado do precipício. Tudo o que dali conseguia alcançar era vermelho, àquela hora. Até na ligeira brisa que lhe agitava a franja, pareceu ver a cor do pó que pisava. Sentiu uma golfada de sangue atingir-lhe a face, ao mesmo tempo que uma imagem infernal lhe cavalgou o espírito. Felizmente, ia a galope.

Um rápido exame ao sistema nervoso central, obteve como resultado um inabalável sentimento de segurança. Foi o sinal de que necessitava. Suspirou o mais profundamente que os pulmões lhe permitiram.

Estava espiritualmente pronto.

Sem hesitações ou pensamentos de último instante – que são sempre maus conselheiros para quem vai atravessar num arame, um longo e profundo desfiladeiro – e sem sequer olhar para trás, ou despir o casaco, empunhou a vara do equilíbrio e deu inicio ao atravessamento. Concentrou-se numa máxima que o velho trapezista que o iniciara nos equilíbrios da vida lhe havia transmitido, pouco antes de morrer: “são os olhos, não as pernas, que te levam, por isso, nunca olhes para baixo”.

Olhar em frente e estamos quase lá… olhar em frente e estamos quase lá… olhar em frente e… Foi então que sentiu uma perturbadora agitação junto ao flanco direito, por alturas da nádega. O primeiro pensamento – que, tal como os de último instante, são também maus conselheiros – foi que seria um animal a roer-lhe a roupa. Um pássaro. Um Pica-Pau! Rapidamente foi aliviado do disparate por um segundo pensamento: ali não havia Pica-Paus. O toque do telemóvel interrompeu o modo vibratório e poupou-lhe um terceiro pensamento.

Na pressa (ou impaciência) com que sempre fazia as coisas importantes, tinha-se esquecido de tirar o telemóvel do casaco e o casaco do corpo. E, já que estava e constatar como havia certas coisas nele que não mudavam com o atravessar do tempo, lembrou-se também que não tinha prendido o cabo de segurança, que lhe pendia da cintura, ao arame. Bonito serviço! Agora é que não convinha mesmo nada desequilibrar-se, é que se caísse, ia estar com o velho mestre mais cedo do que era sua intenção. Não que ele não fosse bom anfitrião e pessoa de trato fácil – e até tinha sempre uma anedota engraçada a propósito do que quer que fosse que se estivesse a falar –, mas…

Num movimento estudado, ergueu o joelho direito e amparou com ele a vara, libertando assim a mão, que levou ao bolso do casaco, de onde extraiu o aparelho, que soltava agora os estridentes agudos de Barry Gibb, vocalista dos Bee Gees. Stayin’ Alive, Stayin’ Alive, ha ha ha ha Stayin’ AliiiiiiiveIronias.

Devolveu o silêncio ao desfiladeiro, atendendo a chamada. Era uma sua amiga. Manteve-se imperturbável, quando falou.

“Olá”.

“Se calhar, acordei-te”.

“Naaaaa…”

“Acordei, não acordei”?

“A sério que não”.

“Se for má altura, diz, eu volto a ligar mais tarde”.

“Não há alturas más… desde que não olhemos para baixo”.

“Hã”?

“Depois explico… espero eu”.

“Liguei para saber de ti, que não te deixas ver”.

“Oh! Cá vamos indo, no arame da vida, a ver se a brisa não sopra com muita força, que me esqueci de prender o cabo de segurança, e a rede lá em baixo foi para lavar. E tu, que contas”?

Muita coisa podia ser dita sobre o homem que naquele momento, em cima de um arame, a meio de um desfiladeiro sinistramente profundo, se equilibrava apenas num pé, mantendo uma comprida vara apoiada no joelho, enquanto falava ao telefone, mas nenhuma seria tão verdadeira como aquela que dizia que ele tinha sempre tempo para os amigos.

17 comentários:

Arabica disse...

Muita coisa poderia ser dita, mas eu gosto muito é da forma como tu o fazes.


Beijinhos para vocês.

Leonor disse...

e seria uma proeza dificil de igualar..., nem com todos os equilibrios do mundo

(a foto do blog é excelente! mudas-te?)

Anjo De Cor disse...

... este texto tocou-me particularmente com estas palavras "mas nenhuma seria tão verdadeira como aquela que dizia que ele tinha sempre tempo para os amigos" ... se calhar por não ser assim... ;)
Bjs**

Devaneante disse...

Excelente! Adorei!

Quando tiver um pouco mais de tempo vou lá ler "A linha" (fiquei curioso).

E sim, os emaranhados são uma grande dor de cabeça...

Fenix disse...

Espectacular!!!`
Podes crer que às vezes é mesmo fazer equilibrismo para ter tempo para tudo e..., às vezes os amigos são os mais sacrificados..., por serem amigos pensa-se que tudo compreendem, aceitam e toleram!
E tem mesmo que ser..., quando se é mesmo amigo!
Há momentos para a ausência e momentos para o equilibrismo!
Gostei muito!
Parabéns!

Abraço
São

lélé disse...

O conto está excelente, mas, se eu tivesse um amigo assim, que pusesse a vida em tamanho risco só para me conceder um tempo, dava-lhe um murro!

Mag disse...

Obrigado pela visita... gostei de aqui estar.
Beijo

Arabica disse...

Rui e não há nenhuma foto de um homem em equilibrio? Ou as fotos já não entram no novo modelo?

~pi disse...

parece-me que a parte mais

sinistra é mesmo a i-rupção da música dos bee gees.

( diria mesmo,,, cruel! :)



beijo



~

Arabica disse...

Haverá alguma à tua escolha indicada para este homem?
Podes sugerir alguma?

Eyes wide open disse...

Já li isto umas quantas vezes… (não, não é por ser menos booooooriiing que alguns Acordãos do STA…) já me deliciei com a perícia das descrições, já me ri… acho que já espantei uma lagartixa que teimava em espreitar por debaixo de um calhau, enquanto eu observava o trapezista… um livro senhor Malefícios, um livro… não achas que está na altura de pensares nisso? Sem hesitações, ou pensamentos de último instante? Sem sequer olhar para trás ou despir o casaco? Sem olhar para baixo? ;)



*

Azul disse...

Não queria repetir-me, nem repetir o que todos dizem, mas é realmente fantástico o que escreve, Rui. Bela metáfora da vida; belas imagens humanas foi você buscar (o trapezista é um símbolo único, perfeito!) Gostei muito de o ler de novo.

Tenho novas em carmim. Passe por lá, se lhe apetecer. Até breve. Um abraço. Azul.

legivel disse...

Aristides Funâmbulo, era essa a sua graça... a que não achava piada nenhuma sobretudo quando os amigos... da onça, vinham com a piadinha do costume «Ainda te havemos de ver roer a corda quando estiveres lá em cima no arame.» E tantas vezes foi (aos arames) que um dia foi dia. Caiu das alturas, precisamente em cima da amiga "Se calhar, acordei-te" A voz de Aristides sobrepôs-se à de Barry Gibb «Não tem importância. Fazemos assim ou queres mudar de posição?»

Carla disse...

que bela forma de se exaltar a amizade...no fio da vida, nem todos têm esse tempo, infelizmente
beijos

amai-vos uns aos outros disse...

simplesmente lindo...

Fenix disse...

Olá Rui!

Obrigada pela visita e pelo comentário..., em forma de arrepiu...
:-)))

Tens presentes aqui.

Beijinhos
São

Jaqueline Sales disse...

Penso que ha pessoas assim mesmo, capazes de desligar suas vidas, seus anseios, e desafiam a si mesmas para avaliar o quanto são capazes de alguma coisa. Eu não consigo, mas há quem de fato aja assim.

Muito bom!

BeijUivooooooooooosssssssssss da Loba