quarta-feira, fevereiro 21, 2007

O Glorioso

Josefina sabe que os há de vários tamanhos, cores e feitios. Já esteve até dentro de alguns, mas nunca desfrutou do prazer que dizem que dão. Todos os dias os vê, a toda a hora, muitas vezes: a voar, parados, a andar devagar, a andar depressa; às vezes, até a andar para trás. Já não lhes liga.
A princípio, ficava como que extasiada a apreciar aquelas máquinas fantásticas. Chegava a fingir fazer o que tinha para fazer, só para os observar através das grandes vidraças. Agora já não, de tanto convívio, tinham perdido o interesse.
Passou a interessar-se pelas pessoas que ali estão por eles. Também as há de vários tamanhos, cores e feitios, mas são sempre diferentes. Sempre interessantes aos seus olhos pequenos e atentos.
No passado sábado à noite, por volta das nove, já ela estava para se deitar – que tinha que se levantar antes das cinco, para ir trabalhar e a idade já lhe pedia explicações para tanta noite mal dormida – quando Adolfo, o seu marido, chegou a casa. Ainda ele não tinha colocado a chave à porta, quando Josefina suspirou de alívio. Conhecia-o tão bem que, só pelo som dos seus passos na pedra dos degraus, lhe conseguia adivinhar o humor. E no sábado passado ele vinha contente. “Antes assim”, pensou ela para com os botões da bata aos quadrados amarelos e brancos, que se preparava para despir.


– Então, ganharam?
– Não te preocupes, hoje não te bato – respondeu ele sem que ela percebesse se estava a brincar ou a falar a sério. – Demos duas na pá do Nacional. Foi limpinho.
– Ainda vão ser campeões – respondeu ela, tentando que as suas últimas palavras do dia fossem pela positiva. Não percebia nada de futebol, apenas o que o marido lhe dizia e o que espreitava nos dias em que a TVI transmitia um jogo.

Adolfo já estava na casa de banho a livrar-se da cerveja ingerida nas três horas anteriores, n’”O Glorioso das Galinheiras”, o seu café preferido do bairro e onde assistia aos jogos do seu Benfica, que o orçamento familiar – apenas recheado pela magro vencimento da mulher – não permitia Sporttv’s e outros luxos semelhantes.


– Sabes que a cerveja nunca se compra, apenas se aluga? – entrou no quarto abotoando a braguilha.
– Onde ouviste isso?
– Está escrito na casa de banho d’”O Glorioso”. É bem verdade… Já te vais deitar?
– Amanhã tenho de entrar às seis – o som próximo de um avião a levantar voo, fez estremecer os bibelots de Josefina. Ambos olharam para o tecto e suspiraram.
– Sempre os aviões…

Foram poucas centenas as pessoas que, no Campo João Gualberto Arruda, em Lagoa, ilha de São Miguel, nos Açores, assistiram no domingo à tarde, ao jogo entre a equipa local, o Clube Operário Desportivo e o Sport Lisboa e Nelas, filial número 16 do Sport Lisboa e Benfica.
Aos 59 minutos, Jefferson, marcou para o Nelas, dando esperanças de uma vitória, o que ajudaria a equipa a manter viva a luta pelo primeiro lugar da sua série na II Divisão, ainda para mais, quando o Operário é concorrente directo.
Durou apenas 11 minutos a vantagem, tendo o COD acabado por vencer a partida por 3–1, ultrapassando assim o oponente na tabela classificativa, onde ocupa agora o segundo lugar.
Eram homens desanimados os que chegaram ao Aeroporto João Paulo II, em Ponta Delgada, naquela final de domingo. Mais ficaram, quando descobriram que o voo programado para as 21h25 e que os traria até Lisboa, estava tão atrasado que apenas chegariam ao destino na manhã do dia seguinte.

Ao mesmo tempo, nas Galinheiras, Josefina desabotoava novamente a bata para se ir deitar. Tinha sido um domingo esgotante. A bem dizer, nem tinha dado por ele. Nem sequer se lembrava se tinha pensado durante todo o dia. Apesar de ser o dia de descanso da maioria das pessoas, era, sem dúvida alguma, o dia em que tinha mais trabalho. “Talvez uma coisa tenha a ver com a outra”, pensava ela sentada à beira da cama.


– Já vais? – Adolfo gritou-lhe a pergunta do sofá, em frente à televisão. – O homem vai começar a falar.
– Esse tem a mania que sabe tudo. Hoje não quero saber de comentários, estou estafada e amanhã cedo tenho que para lá voltar.
– Os aviões, sempre os aviões…

Ainda não eram sete horas e Josefina já tinha lavado a esfregona toda a zona das chegadas internacionais no Aeroporto de Lisboa. Havia um intervalo de alguns minutos até os passageiros do próximo avião chegarem, e ela dava com força no cabo do seu instrumento de trabalho já junto aos tapetes de recolha de bagagem. “Malditas pastilhas”, pensava ela, rangendo os dentes. As pastilhas eram o seu pior inimigo.
Pouco depois, o televisor por cima da sua cabeça apresentou uma nova mensagem: SATA voo S4 128 Ponta Delgada. Já não faltava muito para que os primeiros passageiros chegassem cheios de pressa. Para mais estes, que deviam ter chagado na noite anterior.
Assim foi, não demorou muito a que as primeiras pessoas aparecessem. Tal como ela suspeitara, vinham com ar zangado, cansadas, dispostas a atropelá-la, caso ela se atravessasse no seu caminho. Foi limpar o chão junto à parede, afastando-se um pouco do tapete. E depois, viu-os.
Era um grupo ainda grande, vinham todos vestidos com um fato de treino vermelho. Ao peito, o símbolo que tão bem conhecia: a águia de asas abertas, em cima da roda de bicicleta. O que o seu Adolfo não daria para estar ali.
Encheu-se de coragem e avançou para um rapaz pequeno, cabelo em desalinho e barba por fazer. Via-se-lhe nos olhos que não tinha dormido nada de jeito, tão inchados estavam.


– Anime-se homem, então não ganharam dois a zero?

31 comentários:

isabel mendes ferreira disse...

amargo.....caustico....



_______________
gostei. mt. mesmo.

__________________
beijo.

lélé disse...

Às vezes, só mesmo o calendário para nos dizer em que dia estamos!... E, às vezes, que diferença faz isso?!... E para muita gente, um automóvel não passa de uma gaiola metálica em cima de quatro rodas...

APC disse...

O que me fascina sempre, para além da luz que tem o que escreves, é o que vem antes, ainda na sombra. Sim, "aquilo", aquela perguntinha tosca e teimosamente residente; a tal: mas de onde te vêm estas coisas [bolas]? :-)))

Que ideia bem nascida e criada, pá!

Fotografia realista, mas com um zoom delicado e muito teu! Adorei!

Um beijo pati.

joaninha disse...

concordo..."mas de onde te vêm estas coisas [bolas]?" LOL

espetacular como sempre! :)

ISA disse...

coitadinha... mais, mais...

Luciana disse...

Cada palavra é atractiva, cada virgula da-me uma ansia de continuar a ler!
O que será que irá acontecer à Josefina?! :|

Beijinhos

Teresa Durães disse...

tinhas que lhe dar um fim triste, malandro. coitada!

uma boa pintura, sim senhor!

Eyes wide open disse...

Um "glorioso" regresso à blogosfera! ;)

Whisper disse...

A dureza da verdade...
A verdade da intenção...
A intencionalidade do gesto...

Um gesto humanamente sensível ou malvadamente humano?

Um óptimo texto... Obrigada!

poca disse...

e ainda nos queixa-mos da vida...
há histórias que nem imaginamos que existem.. de pessoas assim... que ainda têm vontade de animar os outros..

poca disse...

*queixamos

Beta disse...

As diferentes perspectivas e verdadas de vida que cada um tem e que leva.

Mas já agora e se me permites

VIVa O BENFICA hehe

Bjokas*

farinho disse...

Não sou fã do Benfica mas fico contente de ter outra história para ler.


Beijocas

zeni disse...

Já estava com saudades de uma história assim!

A estranha disse...

Que bom voltar a ler-te! Tão bem que me sabem estas histórias simples tão complexas!



Que surpresa que o "October Rust" seja um conhecido teu :)


Muitos beijos e, por favor, mais contos destes que eu adoro ler.

@ disse...

Também gostei. E muito!
Gostaria de ter uma milésima deste dom de fazer com que as palavras escritas soem como os pensamentos.

Fico-me com os traços e os trapos.

Eärwen Tulcakelumë disse...

Meu amigo, ler-te é sempre um prazer e fico feliz que tenha voltado de vez!!!
Recebe minhas pérolas incandescentes de grande carinho.
Eärwen

crispipe disse...

lindo!!!
a insatisfação dos "contentes" e o contentamento dos "infelizes"

alice disse...

que bom constatar que o meu bom amigo está de volta. fez-nos esperar, mas regressa ao seu estilo inconfundível. beijinhos *

a_mais_fofa disse...

Ainda bem que estás de volta! Mais uma vez com uma escrita invejável...

A ingenuidade da Josefina e o seu altruismo que mesmo levando uma vida de sacrificio pensa tanto nos outros (no marido que daria tudo para estar ali, nos passageiros que quase a atropelavam).

Dani disse...

Quantas vezes nos lamentamos sem razão...
E no meio de tudo, ainda espaço para algum... sentimento?

PR disse...

Futebóis.
Bfsemana, abraço.

Isa&Luis disse...

Li e gostei.
O próximo já lá está.
Abraço
Luis

vida de vidro disse...

Ah, coitada, ela tinha boa intenção! :)
Como sempre, um conto muito bem escrito e pleno da realidade de tantas vidas. És um narrador do quotidiano. Muito bom. **

segurademim disse...

... pois, pois, uns ganham outros perdem!!!!

nós é que ganhamos sorrisos e boa disposição quando aqui passamos

beijo . bom domingo :)))

sea disse...

já tinha saudades de te ler :)
beijos

Fortunata Godinho disse...

Que grande regresso!
Estou a adorar! Tu realmente... É que não tens par!
Onde fica "as galinheiras"?

Sofia disse...

Já tinha saudades de te ler....

Luiz Carlos Reis disse...

Meu caro! Quanta facilidade com as palavras! Aqui escreve-se bem! E...Muito bem por sinal!
Agradeço mais uma vez tua visita ao Oficina, retornei à pouco de merecidas férias...Me esbaldei com o conto. No país do futebol "Brasil" há amantes inveterados de times da várzea.

Abraços!

legivel disse...

... "e você é o Picoli, não é?" perguntou receosa. O baixinho parou por um momento, olhou-a de um modo que a ela lhe pareceu ter três metros de altura e aterrada tentou emendar a mão "prontos, desculpe lá que eu não estou muito dentro do jogo da bola, mas agora já percebi que você é o Ruizão, aquele que se farta de jogar á bola de cabeça e que às vezes até marca um golito, não é?! Vê como acertei?!". O baixinho escutou, escutou e gritou para o resto do grupo que já ia adiantado "pessoal! tá aqui uma gaja do hóquei sobre o gelo a patinar!!"
Envergonhada, afastou-se com a esfregona a dar-a-dar no chão liso e frio do aeroporto...

tb disse...

fico sempre perplexa com a tua capacidade inventiva e de escrita.
Beijinhos