sexta-feira, abril 01, 2011

A Estranha Manhã do Senhor Copitélio

O senhor Copitélio acordou ainda de madrugada, inquieto. O não ter visto os habituais rectângulos de dia na janela, multiplicou-lhe o desassossego. Que não era nada, disse ele de si para si enquanto, no escuro, tacteava o linóleo com os pés, em busca dos chinelos. Afinal, o que era estranho era ele não acordar cedo mais vezes. Sentou-se para fazer chichi e foi falando com o idoso de cabelo oleoso e desgrenhado que o fitava do espelho com os olhos mais papudos que alguma vez se lembrava ter visto.

Cortou-se a fazer a barba. “Ó Copitélio, tu, que não fazias sangue há tantos anos, não podias ter arranjado outro dia para te falhar a mão”? Depois, escorregou a tomar banho, quase caindo.

“Não é nada”.

Tomou o pequeno-almoço sem incidentes e, com o dia a entrar, saiu para comprar o jornal. Estranhou o caminho até à papelaria: aquela não era a sua hora, não era a sua luz, não eram as pessoas com quem se cruzava todos os dias. Apanhou a loja a abrir e o jornal ainda num molho. No jardim em frente, como em todos os dias bons, começou a ler as gordas, mas não se conseguiu concentrar no que elas diziam. Em vez de lhe ficarem na memória, as notícias ficaram-lhe esborratadas nas pontas dos dedos.

Achou por bem voltar para casa e esperar que se fizesse a sua cidade, que fossem horas da realidade a que está habituado.

Caminhou devagar, a intranquilidade a pesar-lhe nas já de si frágeis pernas. E também nas pálpebras pois, ao passar de novo pela papelaria, viu-se a si próprio, de jornal na mão, a dobrar a esquina, mais à frente. Acelerou o passo e afiou a vista, não estivesse esta a atraiçoá-lo. Lutou contra as dores até conseguir avistar o vulto que lhe parecia o seu. “É o meu corpo que ali vai”, disse alto, em tom de protesto, quando se reconheceu. Naquele momento, bem que ele quis correr mas, se o cérebro lhe ia para diante, o reumatismo vinha-lhe para trás. E foi neste confronto entre vontade e possibilidade, que o senhor Copitélio lá ganhou o terreno suficiente para se chegar a si próprio. Quando, por fim, se alcançou, colocou uma mão no seu ombro, quis-se puxar, mas as forças estavam na reserva e o movimento foi o suficiente para se conseguir parar.

Alquebrado pelo esforço, deu por si a tentar recuperar o fôlego enquanto encarava os sapatos do outro. Ou melhor, os seus sapatos, que os conhecia muito bem. E aquelas calças também, que tinham sido feitas por medida, há muitos anos, no alfaiate lá do bairro. E o cinto tinha sido presente de aniversário do seu irmão, aquando do seu septuagésimo aniversário – estava como novo, que pouco o tinha usado.

Tinha a cabeça a mil: seria possível terem-lhe entrado em casa e levado a roupa sem que tivesse dado por isso? E aquele casaco! Seu, claro, pois quantos casacos daqueles tinham o último botão descosido e quase a cair?! E gostava muito daquela gravata, de altíssimo gabarito, comprada em Londres, nos (mais ou menos) loucos anos 60, que ele não era, nem nunca tinha sido, de loucuras. Pelo menos até então, que naquele instante sentia-se a ficar louco, ou não fosse ele próprio que estava à sua frente, completo com a cicatriz feita a cortar a barba e tudo.

Confiante que ia sentir o toque de um espelho, levou a mão à cara do outro que era a dele –, mas o que sentiu foi alguém a tocar-lhe no rosto.

Longe dali, num local impossível de descrever, uma luz vermelha encheu a sala, pulsando freneticamente ao ritmo de um alarme sonoro. Vários corpos, até então dormentes, se agitaram nas cadeiras, ao mesmo tempo que muitos vieram a correr para logo tomarem posse de muitos botões e pequenas luzes de todas as cores, que piscavam em grandes monitores.

No Centro de Comando das Coisas Conhecidas Como Humanas, algo tinha corrido mal.

Logo se nomeou uma comissão e se abriu um inquérito, aguardando-se agora as conclusões.



(e agora, com música)

5 comentários:

ss disse...

E não se pode saber onde fica esse Centro de Comando das Coisas Conhecidas Como Humanas? Assim aproveitava e esclarecia algumas dúvidas!

Graça C. Santos disse...

Gostei deste Senhor Copitélio a chegar-se assim de uma forma introspectiva, a si próprio e à tal inquietude parecida com aquela que assola os outros Copitélios que habitam em alguns de nós.

lélé disse...

O Papa já se pronunciou sobre essa ocorrência no CCCCCH? Não? Só bateu palminhas?

... Claro! Para essas coisas dá-me impressão que é mais um com tantos poderes como a rainha de Inglaterra!...

Maria Liberdade disse...

Folgo em saber que há alguem que nos Governa... :)

tb disse...

Acho que as conclusões, que tardarão em ser sabidas, o declararão como morto!...
Beijo