quinta-feira, maio 21, 2009

Passam Tempos

A decrépita carrinha parou no inicio da rua, doze bem cronometrados minutos mais tarde que na semana anterior. Antes que o também decrépito condutor e dois dos rapazes que seguiam no banco de trás tivessem tempo de sair, já ele tinha fechado a janela da sala, pegado nas chaves de casa e saído, descendo as escadas tão depressa quanto a Gota e a baça visão lhe permitiam. Quando chegou à rua, a carrinha já tinha desaparecido e nenhum dos rapazes estava à vista. Por descargo de consciência, abriu a caixa do correio, mas estava vazia. Cobriu o sol com a mão e perscrutou a rua. A manhã fazia promessas de calor sem tréguas. Ali parado, à espera, as articulações latejavam-lhe ainda mais.

Não tardou muito a que, puxando com uma mão um trolley e com a outra envergando uma grande braçada de jornais, um rapaz surgisse do prédio anterior ao seu. Nunca o tinha visto, mas isso era habitual naquele tipo de tarefa. Dirigiu-lhe a palavra: não precisa meter no segundo direito, pode dar já a mim. Sem responder ou sequer olhar, o rapaz estendeu-lhe a publicação que promove, por entre artigos breves, entrevistas e outra publicidade, os produtos de uma cadeia de supermercados, enfiando de seguida um exemplar em cada caixa de correio, segundo direito incluído. De volta a casa, agarrado ao corrimão esforçando-se para conquistar cada degrau, amaldiçoou primeiro os prédios sem elevador e depois os corpos sem saúde.

A sala, entretanto, tinha sido invadida pelo acentuado aquecimento diurno e estava cheia de uma luz que parecia afastar as paredes daquela estreita existência. O barulho da cidade confundia-se com o sossego que tudo ali transmitia, na sua arrumação cuidada e imperturbada, como se o tempo naquela casa demorasse mais a passar que fora dela.

Sentou-se à mesa e dobrou com cuidado uma das extremidades da comprida tira de renda, que a sua falecida mulher havia tricotado para servir de decoração e de base a um castiçal de aspecto pesado e algo sombrio. Passou as costas da mão pelo tampo da mesa, desfazendo a quadrícula de pó que ficara para trás. Num movimento inverso, desdobrou o jornal e alisou várias vezes o vinco. Ignorou os sonhos imensos da cavaleira tauromáquica que sorria na primeira página e as notícias vagas, apenas reparando brevemente nas promoções dos produtos alimentares[1]. Deteve-se, por fim, na penúltima página, no concurso proposto para essa semana. Como sempre, dever-se-ia criar uma frase em que constasse os nomes das lojas e do patrocinador do passatempo e ainda de um produto que constasse no jornal. O prémio, desta vez, era um cruzeiro Porto/Régua.

Uma foto apresentava o barco em que o vencedor faria o passeio. Pareceu-lhe pacífico, vogando sobre águas calmas, uma vereda com socalcos em fundo. Afiou a vista e aproximou o jornal da cara para tentar perceber se eram pessoas que estavam no piso superior da embarcação. Um lampejo de excitação tomou conta de si: nunca tinha andado de barco e devia estar a perder o juízo, porque lhe pareceu que a sala balançava ao sabor da corrente de um rio que corria através de um vale de vegetação frondosa, muito verde e de formas variadas. Foi a mancha de humidade que já tomava conta do papel de parede da sala que o fez acostar à realidade.

Também nunca tinha ido ao Porto. Nem à Régua. Nunca tinha visto o Douro, nem tudo o que ficava na distância entre a cidade onde vivia e esse norte. As únicas paisagens que conhecia por experiência própria eram as da aldeia onde crescera, dos campos em redor, muito direitos e quase sempre calcinados pelo sol, numa imensidão a perder de vista, e as da cidade para onde viera, homem novo, à procura de uma vida mais vivida, também ela calcinada e imensa, mas onde o olhar não se conseguia perder.

Passou a ponta dos dedos pelas águas paradas da fotografia enquanto recordava os poucos cursos de água que vira na infância: riachos corajosos, que desafiavam a secura dos torrões no verão e a pouca chuva no inverno; um deles em particular, porque formava um pego onde, de tempos a tempos, durante a época da cortiça, tomava banho – no sentido higiénico do termo. O rio que desenhava parte dos contornos da sua cidade era, pelo contrário, imenso e, talvez por isso, por lhe impor o temor que o desconhecido impõe, nunca nele tivesse navegado, nem que fosse apenas para poder dizer que o havia feito.

Levantou-se e dirigiu-se a um pequeno aparador, de cuja gaveta cimeira retirou duas folhas de papel, uma esferográfica, um envelope e um pedaço de papel muito dobrado. De volta à mesa, o quadriculado disponibilizado pelo jornal para escrever a frase pareceu-lhe, por entre a névoa em que a Retinite o fazia cada vez mais viver, o desenho do pó que havia limpo há pouco. Desgostou-se com a acelerada progressão da maleita, que o impedia já de acertar as letras naqueles pequenos quadrados. Tudo isso fê-lo sentir com ainda mais premência a necessidade de, por uma vez, aquela vez! naquela semana! engendrar uma frase vencedora. Sabia não lhe restarem muitas mais oportunidades de ver alguns dos seus sonhos cumpridos.

Numa das folhas, já quase cheia de frases passadas, em que o tamanho das letras ia progressivamente aumentando com o passar dos passatempos, começou a ensaiar rimas com as palavras obrigatórias. Já perto da hora de almoço, transpirado, com os olhos injectados e a arderem-lhe, deu-se por satisfeito com uma das quadras e passou-a a limpo para a folha em branco. Desdobrou depois com cuidado o pequeno papel. Nele, apontadas em letras garrafais pelo dono da papelaria da esquina, estavam as condições de participação no passatempo. Sabia-as de cor mas, ainda assim, achou por bem conformar: não escrever rimas com mais de 160 letras; colocar o nome e o contacto telefónico; a morada para onde se devia enviar o sobrescrito. Cumpriu todos os passos com particular zelo, apenas respirando à vontade quando acabou de desenhar a última letra da morada do destinatário.

Estava confiante quando, em frente ao espelho do corredor, ajeitou as roupas e colocou a boina, não deixando que a imagem que lhe foi devolvida, de um corpo seco e vergado, o afectasse. Certificou-se que tinha a chave, o envelope e os trinta e um cêntimos para o selo, antes de sair e voltar a enfrentar a escada.

A caminho da estação dos Correios parou à porta da papelaria, para inquirir da saúde do amigo e da família. Com um entusiasmo inusitado, falou da esperança em que seria aquela a sua semana de sorte que, mais uma vez, a rima que ganhara no concurso passado não era em nada melhor que a sua, e em como já era tempo de calhar a si. Despediu-se com um aceno do envelope, pedindo sorte ao vizinho. Ignorava que ele, ao lhe copiar as condições de participação nos passatempos, não reparara na necessidade imperiosa de juntar ao texto um vale postal no valor de um euro.



[1] Mais tarde, com outra disponibilidade da vontade, irá recortar os artigos indispensáveis que estejam ao melhor preço, colá-los numa folha – fazendo assim uma lista de compras ilustrada, mais amiga da sua débil visão –, que levará à loja na sexta-feira, o dia das compras.



11 comentários:

Paula Crespo disse...

Cheguei aqui através de um outro caminho comum. Até aqui nada de novo. Mas devo dizer que gostei destes textos e aí, sim, entra a novidade. Parabéns.

mixtu disse...

a sorte...
por vezes não basta o bilhete...
por vezes é necessario precisar, pois como se diz na serra: só sai a quem precisa...
quanta verdade no valor de 1 euro...

abrazo serrano, amigo de letras e dos cromos, yayayay

Azul disse...

Deixe-me repousar um instantinho nas margens do Douro e no belo correo do Rio até à Régua - Lugar magnífico, que jamais esquecerei. das mais belas paisagens que conheço! Quanto ao texto, pois que gostaria de ler a quadra do concorrente! POdia candidatar-me a inventá-la, mas não tenho jeito nenhum para as quadras! raios me partam! Por isso, nunca concorro a nada! eheh

Abraço. Até breve. Azul.

sandra andrade disse...

os malefícios da felicidade são mesmo muitos. e malefícios mesmo muito muito maus. ;)

Arabica disse...

Ás vezes... ;)


Um abraço

Carla disse...

às num vale de um euro pode estar a sorte grande...mas quase sempre apenas é o tempo que passa
beijo

legivel disse...

Sou eu que vou ao cruzeiro
pois a minha é a melhor rima
não gasto nenhum dinheiro
e ainda levo a minha prima*


*Embora não constasse da história e provavelmente do regulamento do concurso, uma prima dá sempre jeito para fazer uma rima. Vejamos se é desta que tenho sorte, pois nesta coisa de participações em concursos fico sempre a ver navios. Daí, nunca ter andado de barco. Os cacilheiros não contam, claro...

segurademim disse...

... se pudesse oferecia-lhe a viagem

que o prémio jamais será dele.
sorte e assertividade não parecem estar definitivamente com o protagonista.

a idade é lixada, a falta de visão tremenda e um vale postal é sempre traiçoeiro

lélé disse...

Isto é humor negro e bem negro!...

Se ainda ao menos o papel com as instruções se estragasse... Mas não! O senhor guarda aquilo tão cuidadosamente, que nunca terá de pedir ao amigo que lhe escreva outro!...

Caramba! Ninguém precisa ver as rimas dele para considerar que ele merece bem um prémio... pela persistência, que seja!...

Leonor disse...

e com os passos dele, passando o tempo, já se chegou a alguma conclusão?

é que agora até sabia bem uma viagem ao norte, onde deve estar menos calor...

ze disse...

A única coisa que me surge pensar é que nem sempre compensa a persistência.
Que tal de vez em quando uma ou outra desistência,
Que permita mudar de concurso
Para um desabitual que obrigue a nova redacção das suas condições,
Voltando ao zero também do mal entendido.

Claro que a gota e a experiência na rima já ninguém lhas tira.