quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Avenidas Velhas (10)

Chegou ao acesso do Metro da Alameda como o trapezista chega à extremidade do arame, depois de o atravessar. A sensação de alívio confundiu-se com a pressa em tomar o apontamento. Tirou a caneta e a folha do bolso e, no espaço em branco da tabela, escreveu o número 447.

Não fez logo comparações, nem tirou conclusões – este último apontamento era mais o cumprir de uma tarefa a que se tinha proposto, que uma necessidade, pois já tinha obtido a resposta que procurava –, aproveitou para respirar fundo e retomar a compostura que sentia ter perdido na última hora, desde que tomara café na Mexicana. Ajeitou as roupas e passou os dedos pelos cabelos, enquanto olhava em redor, fixando-se em quem passava por si. Ninguém lhe devolveu o olhar. Uma dúvida em particular sobrepôs-se a uma série de dúvidas que tentava processar, naquele momento: o que achariam todas aquelas pessoas das questões – ou seriam problemas?, interrogou-se, sobrepondo mais uma interrogação – que lhe traziam o espírito ocupado nos últimos tempos? Por certo que só se poderiam rir daquele velho, de ar emproado e barriga proeminente. Aquilo não eram problemas, nem sequer questões que merecessem dois minutos de atenção. Aquilo, não era nada!

E, no entanto…

Olhou para a folha. O último valor situava-se dentro do intervalo – o número de passos que, no seu passeio habitual das tardes de sábado, passou a contar entre o candeeiro junto à esplanada da Mexicana e o acesso ao Metro da Alameda. O objectivo inicial tinha sido o de desmentir as observações dos seus alunos mas, agora que se tinha convencido do quanto previsível ele era, não sabia o que sentir em relação a isso. Seria uma coisa má? Poder-se-iam fazer extrapolações a partir desse facto? O que diria sobre ele? Deveria importar-se com isso? Considerou que talvez fosse melhor voltar para casa onde, com tranquilidade, poderia ponderar as várias questões, analisá-las sobre vários pontos de vista, argumentar a favor e contra elas. Certamente que chegaria a uma conclusão.

Se fosse um assunto que merecesse tamanho dispêndio de energia…

Amarrotou a folha. Desta vez, lenta e demoradamente, de uma forma exagerada, como quem se despede de alguém para sempre. Fez uma bola compacta e fechou-a na mão. Depois, atirou-a ao ar, apenas uns centímetros, e voltou a apertá-la. Num impulso, atirou-a de novo ao ar, bem mais alto. Ao cair, a bola bateu-lhe no polegar, depois no indicador e escapou-lhe da mão, antes que a conseguisse fechar. Fitou o papel na calçada e sentiu uma enorme vontade de saltar em cima dele, de o pontapear, de ali o deixar. Por fim, a custo, curvou-se, apanhou a bola amarrotada e colocou-a num caixote do lixo.

Doíam-lhe as costas, as pernas, os braços, a cabeça. Mas a dor maior, sentia-a dentro de si, algures, num local que não conseguiu identificar.

Iniciou o trajecto de regresso a casa no passo de sempre, tentando não pensar em nada, até que, ao chegar outra vez à Zara, uma quantidade significativa de água, vinda de uma das janelas cimeiras, se abateu inesperadamente sobre os transeuntes. Na confusão que se seguiu, o professor foi obrigado a dar um passo descontrolado à esquerda e depois, empurrado por um rapaz, três passos atrás, quase caindo. Um coro de protestos irrompeu na indolente tarde de compras. Todos os olhares apontavam para cima, em busca dos responsáveis. Algumas senhoras sacudiam as roupas, mais ou menos molhadas, as cabeleiras, os sacos de compras. Havia já quem falasse dos valores perdidos, da amoralidade da juventude, das trevas que, no futuro, aguardavam a espécie humana. Isto precisa é de outro Salazar! Olhe que este que lá está agora não é muito diferente.

O professor era uma das duas únicas pessoas que não estava a olhar para cima. Antes pelo contrário, olhava para o chão. Apesar da água ter caído bem perto de si, não o tinha atingido e toda a confusão que se seguiu, levou-o a reparar nos livros que estavam expostos em cima de um plástico, no passeio. Aproximou-se, por entre as pessoas que, aparentemente já esquecidas da brincadeira de mau gosto, debatiam agora a qualidade da democracia portuguesa.

Já não pensava em mais nada, apenas nos livros que tinha diante de si. Conhecedor e interessado por tudo o que dizia respeito a livros – mais até do que por literatura –, aqueles exemplares intrigavam-no. Geralmente, apenas pelo design da capa, conseguia identificar a editora, o género e a colecção a que determinado livro pertencia, mas aquelas não lhe diziam nada. Impressas em papel de um amarelo muito suave, nas capas apenas constava, a preto, o que deveria ser o título. Indiferente às dores que lhe castigavam as articulações, agachou-se para pegar num dos livros. Suspendeu o movimento do braço quando percebeu a presença de alguém que, sentado num degrau, à sua frente, o observava com intensidade. Não era evidente, mas teve a nítida sensação que o homem sorria para si.

10 comentários:

Devaneante disse...

Conheço bem os espaços onde traças esta narrativa, e é impressionante como, a cada passo, consigo visualizar cada local.

... e agora livros... que surpresas estarão escondidas naquelas páginas?!...

lélé disse...

Bem, eu estou completamente perdida! Afinal... havia outro?!... Mas este de hoje é o professor "Fogg", não é? Todo atinadinho, previsível e vaidoso... A menos que seja esquizofrénico, de facto, é bem diferente do anterior... (palpite: que é quem está a olhar para ele, não é?)

A. disse...

...aquele caixote azul :))




vénia.e um beijo.
*

Arabica disse...

Rui,


e mais uma vez se adensa o mistério...


será que as folhas ?


será que os livros ?


fico à espera :)


Beijos

PreDatado disse...

Chateiam-me as goteiras dos ares condicionados em certas ruas de Lisboa de passeios estreitos. Uma banhada dessas levei-a em outras circunstâncias que contarei mais tarde no meu espaço. O local, muito familiar para quem passou 5 anos da sua vida naquelas bandas. tenho agora que seguir a história.

~pi disse...

mistério (s

milésimos enigmas redesenhados

entre

páginas

escadas e

de

graus,




beijo





~

JPD disse...

Olá Rui

Gosto tanto da Praça de Londres quanto da Guerra Junqueiro.

Não sabia que seriam necessarios 447 passos para percorrer a Guerra Junqueiro, desde a Praça de Lodres até à entrada do Metro. Fica o registo.

Segunda nota: a da facilidade com que as pessoas, perante uma contrariedade, apelam ao saudoso regresso do sinistro Salazar para repor uma certa autoridade.

As crónicas desse teu ponto de observação que é a Mexicana, são excelentes.

Um abraço

Arabica disse...

Rui,


só hoje, ao deparar com um cartaz qie dizia qualquer coisa ...a magia das águas...me lembrei.


O pão, ainda não o encontrei.
A aldeia está quase deserta.
Contudo o percurso do rio já o fiz :) aquelas pontes!! a represa!!
O cheiro a lenha.
As pedras.

E finalmente, ao fim do dia, cair na piscina azul de água quente :) que embora não seja das tais, também tem muita magia :)

Beijos e uma boa semana para ti :)

Eyes wide open disse...

:) pronto... e agora lá ficamos nós aqui novamente pendurados à espera de desenvolvimentos... pode ser que com o sol que hoje ilumina Lisboa (wwwweeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee........), talvez os personagens se disponham a prosseguir as suas histórias ;)


Asterísco

legivel disse...

... o nosso homem tem uma sorte das antigas! passa ao lado de um banho retemperador, manda às malvas o diálogo sobre a qualidade da democracia portuguesa e ainda por cima suspeita que há um mano a sorrir para ele. Será que lhe vai oferecer um livro? ou um contador de passos?