segunda-feira, outubro 22, 2007

Um Jardim na Planície (1)

Água a cair. É a primeira coisa que recordo. Gota a gota. A intervalos irregulares. À minha volta. Caindo em superfícies diferentes, uma sinfonia fluida e repetitiva.
Seria chuva ou alguém que regava? Veio-me à ideia, vagamente, a existência de um jardim, algures no meu passado. Uma imagem ténue de relva, flores, uma sebe e muito sol. E de um banco de jardim, em pedra. A resposta chegou célere, na forma de um arrepio que me trespassou; gelado e cortante. Era chuva: o frio que me percorreu anunciava que o verão já não era mais. O cinzento metálico do pouco que eu conseguia distinguir do sítio em que me encontrava, parecia confirmá-lo. Tudo o resto era o mais absoluto negrume.
O som do que me pareceu ser um camião a passar a alta velocidade, interrompeu a orquestra líquida e transportou-me para uma planície distante e estranhamente familiar. Ao longe, a toda a volta, altas montanhas cercavam a paisagem. Um risco escuro e sinuoso, feito de alcatrão, serpenteava pelo cenário, como que à procura de uma saída. Grandes conjuntos de pedras arredondadas, umas por cima das outras, estavam por todo o lado. Da vegetação – rasteira, enfezada e torcida, toda em vários tons de castanho – caiam as últimas gotas.
Tinha parado há pouco de chover – mesmo antes da minha chegada – e sentia-se ainda o cheiro a terra molhada. Pressentia-se a saída dos animais dos seus abrigos para uma inspecção ao território, agora húmido. Quem sabe se na esperança de encontrar uma refeição distraída, a contemplar tão inquietante lugar… que era o meu caso, ocorreu-me subitamente. A adrenalina disparou e com ela o ritmo cardíaco. Como se estivesse algo ou alguém atrás de mim. Instintivamente, olhei em redor. Nada nem ninguém. Apenas a tristeza daquela vasta paisagem, em que as cores pareciam ter sofrido um processo de arrefecimento. Tudo ali era frio. A existência parecia em suspenso.
Impelido, talvez, por um ancestral instinto de sobrevivência, fui abrigar-me junto a uma daquelas formações rochosas, composta pelo que pareciam ser gigantescas bolas de bowling deformadas, empilhadas umas nas outras, em periclitante equilíbrio. Não demorei a sentir-me desconfortável. Embora consciente da ínfima probabilidade das pedras desabarem sobre mim, achei por bem afastar-me. Mas o desconforto não passou: não eram as rochas, era todo aquele sítio.
O fio escuro do alcatrão desaparecia uns metros mais à frente, num declive, para reaparecer mais longe e perder-se na linha do horizonte. A norte, surgia de uma curva apertada, a meio da parede montanhosa descendo depois vertiginosamente, enquanto a sul era engolido por uma espécie de enormes rolos de neblina que, num tom entre o cinzento e o castanho, pareciam rebolar sobre si, num movimento perpétuo – lembraram-me flocos de algodão doce a formarem-se em redor da pega de madeira. Todo o céu estava coberto não por nuvens, mas por farrapos daquela estranha massa líquida vaporizada e muito difusa – seria fumo?
Onde eu me encontrava não havia vento, mas a maior altitude não era assim, já que os vários pedaços em que a neblina se divida seguiam em várias direcções, impelidos por um vento que não descia. Era grande o contraste entre a desanimadora imobilidade terrestre e a frenética agitação celeste. Vi então, outra vez, o jardim. A relva, o banco de pedra, muita luz, as cores esbatidas, a sebe… e a inquietante sensação que estava alguém atrás da sebe. Perto de mim, um relâmpago rasgou o céu, e a ténue memória do jardim. O trovão demorou a chegar, mas quando o fez foi com uma violência inusitada, algo que eu nunca tinha presenciado. Levei as mãos aos ouvidos e encolhi-me. A onda de choque apanhou-me pelas costas e fez-me dar um passo.
Abri os olhos devagar, talvez por receio de me ver num outro local. Sabia que tinha sido apenas um relâmpago, mas nada do que me estava a acontecer parecia normal. Encontrei a mesma planície deserta e silenciosa e o mesmo céu, caoticamente agitado. Tentei lembrar-me do jardim, afinal, estava lá mais alguém, mas não fui capaz, não me conseguia concentrar. E então, reparei que nem tudo estava absolutamente igual: eu estava agora em cima do alcatrão.

Distinguia-se um ponto fixo por entre o movimento apressado daquelas estranhas nuvens. Uma circunferência amarelada. Perfeita e grande. Pela altura do sol no firmamento, calculei que o dia estivesse a meio. Achei por bem caminhar na sua direcção.
Pouco depois da sexta centena de passos, o caminho de alcatrão começou a descer, em curvas abertas e suaves, por entre plantas carnudas e espinhosas, que me pareceram ser da família dos cactos. Caminhava-se com facilidade naquele piso. O betuminoso parecia ter sido amolecido pela recente chuva e era mais uma pista de tartã do que pista para veículos automóveis. Entretive-me na procura de um ser vivo animal, já que até então não tinha avistado nenhum. Olhava agora mais para baixo que para a frente e quase tropecei no banco de jardim que, inusitadamente, apareceu à minha frente. A luz do sol era ainda mais intensa, colorindo tudo de um amarelo que era quase branco: a relva, a sebe, a pedra de sentar, o sangue. Sangue? Seria sangue aquela mancha num dos vértices do assento? Senti-me oco, como se, num instante, tivesse abandonado o meu corpo. Procurei apoio na pedra para não cair desamparado.
Apesar do sol intenso – que deveria ser abrasador – a rocha estava fria e húmida. Tinha colocado a mão na mancha de sangue. Mas não. Não havia banco de pedra, nem sol. Eu não estava no jardim, antes, continuava naquela inexplicável e ininteligível planície. Estava apoiado numa das bolas de bowling e, para lá dela, avistava agora uma casa.

15 comentários:

Keops disse...

Olá Rui, também senti o gelo, a chuva, esse colorido cinzento, os fumos, odores... Por onde nos levas? Fico à espera.
Um abraço

RC disse...

Quem te bate à porta dessa casa?

legivel disse...

... mas... vem aí alguém! Como é que deram com a casa ao fim destes anos todos?! será que é um daqueles cantores que se meteu à estrada e se perdeu no auge dum disco de platina? ou algum vampiro das finanças sedento de "sangue"?
- Maria! prepara qualquer coisa para trincar e para beber que vamos receber uma pessoa.
- Mas tu não sabes que ainda não fui às compras? e que só tenho dois pastéis de massa tenra que tu pediste para guardar para o jantar?
- Tá bem mulher. Vai lá então ao supermercado do Miguel arranjar qualquer coisa...
- Mas sabes que só tenho camioneta daqui a três horas e que pelo menos até à loja são outras três, sem contar com mais três para o regresso!
- Não tem problema que o tipo neste momento imagina que está a ver a nossa casa. Até isso acontecer na realidade, tens tempo de ir, vir e fazer aquele bacalhau com natas que eu gosto tanto. E se ele não gostar... coma menos.

Sofia disse...

Rui,

que grande alucinação!

bjs

Eyes wide open disse...

As primeiras palavras recordaram-me um momento real da minha vida... as outras foi só seguir-te... sem que mais precisasse para ver o cenário.


*

redonda disse...

Estou a gostar, lembrou-me como me perdia nos meus livros de ficção científica preferidos.

Ah é verdade, Santa Maria da Feira é pertíssimo de Lisboa, dá perfeitamente para vir ver a exposição e até, mediante prévia combinação, tomar um café na cidade ao lado... :)

~pi disse...

see how they fly

like lucy in the sky see how....

they............................



/...unknnown trips...



:)

~pi disse...

unknown...

lélé disse...

"tililait zone"?... fazem-se passeios inesquecíveis por lá!... o problema é quando se cai para um dos lados!... ter que encontrar de novo a "tililait" nem sempre é tarefa fácil!...

mixtu disse...

rui... planicie...
chega aqui, eu, como hei-de dizer... quando esqueço de tomar os comprimidos, jajajaja, vejo o que tu vês...

jajajaja

este teu texto...

abrzo europeo

vida de vidro disse...

Como é que foste aí parar? E será que foste parar a algum lugar ou alucinaste completamente? Tens a certeza que sabes como este conto vai acabar? Tenho medo... :))**

un dress disse...

brain salad...gostei muito!

um misto de loucura, alucinação

e...realidade.

muito nua!! :)




beijO

segurademim disse...

... as insónias têm consequências inesperadas

algodão doce... será a casa um oásis apaziaguador?

aguardo

Gi disse...

Caramba. Li-te e fiquei sem saber se estava no Alentejo profundo num dia de chuva, se num sonho ou num pesadelo :)

És o criador de realidades paralelas. Mi gusta :)


beijinhos

Isa&Luis disse...

Olá,Rui!

Excelente, penso que houve um acidente:)) mas vou comfirmar na parte seguinte.

Beijos meus

Isa