quinta-feira, março 08, 2007

Fonte Luminosa

Vejo-me ao espelho. Observo os locais onde as primeiras rugas vão aparecer. Sinto-as à flor da pele, a fazerem-se dentro de mim. Alimentam-se das noites mal dormidas e dos vícios a que me entrego. Sem piedade e remorso. Ajeito o espelho, talvez na estúpida esperança de que, noutra posição, as não sinta. Tento enganar a mim mesmo. Mais uma vez. Tento. Decomponho-me no retrovisor. Eu, aos pedaços. Ainda serei eu, se for apenas parte de mim? A porta abre-se e o frio é o primeiro a entrar. Reflecte-se no espelho e senta-se a meu lado. Atrás dele, um casal de velhos. “Boa noite. Para a Alameda, se fizer o favor”, diz ele, cortês nas palavras e na pose. Falam de cinema. Deixo-os em frente ao Café Império. Vão matar saudades do bife e do lugar. Quase lhes digo que o tempo não volta atrás, mas a figura dela, que cruza a avenida mesmo à minha frente, distrai-me. Dou-lhes o troco e desejo-lhes bom apetite. Têm o cuidado de agradecer. Atravessam a estrada de mão dada. Foi o tempo suficiente para a perder. Era apenas uma mulher, mas levava algo no olhar. Intenso, foi tudo o que consegui perceber. Desapareceu na Alameda. Alguém faz sinal e leva-me para Sete Rios. O frio, esse, ficou. Uma hora à espera. Local inóspito. Fico. Depois, Saldanha. Mais espera. Um jovem de fato e gravata à banda, que há muitas horas colocou gel no cabelo, aproxima-se. “Intendente… depressa”. Os nervos embrulham-lhe as palavras. Vai recuperar a compostura perdida. Pelo menos, até amanhã de manhã. Que depois, tudo de novo. Conheço-os bem. Todas as noites os tenho por companhia. Fica na Rua dos Anjos. A tremer. Entregue ao seu azar. Regresso à Alameda. Quem sabe. Estaciono. Nada. Viro o espelho para mim. Não. Chega. Saio e acendo um cigarro. Ninguém. A cidade só para mim. Expiro nuvens breves. Invejo-as. E então, vejo-a. Caminha sobre o bordo da Fonte Luminosa, seca. É ela. Pára junto ao cavalo, empinado na sua traseira de peixe. Observa-o. Os rostos próximos. As expressões, distintas. No entanto, percebo-lhes o mesmo desejo. Atravesso a estrada. Atrás de uma árvore, vejo-a saltar do bordo para a relva e da relva de novo para o bordo. Repete o movimento várias vezes. Brinca como não brincava há muitos anos. Ali, é de novo uma criança. Corre e salta para dentro da fonte. Sedenta. Abandonada. Aproxima-se das estátuas. Estende o braço. Uma carícia imaginada. Corre e salta para fora da fonte. Imóvel. Vejo-lhe o brilho no olhar. Parece feliz. Vem na minha direcção. Viu-me? Volto para o carro e meto a chave na ignição. Faz-me sinal. “Ajuda”. Hesito. Deseja-me boa noite e então percebo. Ajeito o espelho e aproveito para a observar. Encostou a cabeça ao banco. O olhar perdido para lá da janela. “Tudo o que eu sempre quis foi um filho”. Não digo nada. “Há dois meses que estou grávida…” A frase em suspenso. “Estou tão cansada. Andei tanto. Tanto”. Digo o quê? Nada. “Não sei onde estive, o que fiz todo este tempo”. Parece nem respirar. “Não devia fazer tanto esforço”, arrisco. Não responde logo. “Hoje fui fazer a eco… não havia batimentos… o coração desistiu”. Leva a mão à janela. O que quer que fosse, escapa-lhe. “Trago-o dentro de mim, sem vida… consegue imaginar…” Não consigo. “O médico diz-me para fazer exercícios, correr, saltar… para o expulsar… saí da clínica e andei, andei muito… e agora…” Deixa cair o braço. O frio tomou conta do carro. Pequenas gotas de água caem no vidro. Os olhos dela, no espelho. Percebo, então. É dor. As escovas chiam ao empurrar a água do vidro. Uma lágrima atraiçoa-a. “Ajuda”, digo eu. “Preciso…”

26 comentários:

crispipe disse...

Uma lagrima quase roulou por aqui também......

Lindo........Lindo.......

vida de vidro disse...

Hoje tiveste o poder de me comover intensamente. Uma forma extraordinariamente sensível de mostrar uma dor maior. **

zeni disse...

Nem consigo comentar...

alice disse...

deveras comovente, rui. tanto mais que há poucos dias soube de um caso real em que uma rapariga da alta competição aproveitou a sua boa compleição física para assim provocar um aborto. embora no teu post seja uma ficcção diferente, tocou-me este relato humano. um grande beijinho para ti e obrigada por esta sensibilidade. abraço *

Margarida Atheling disse...

Desta vez, Rui, não sei como comentar, porque desta vez, o nó na garganta, não deixa surgir pensamento algum.
Perante esta história, não se pensa nada, só se sente.

Bjs

sea disse...

quantas e quantas pessoas, não andarão assim?
adorei :)
um beijo

Silvia disse...

Há uns anos atrás disseram-me o mesmo.

Uma segunda-feira ao fim do dia. Dia 13 de Maio de 2002. Recordo-me sempre das palavras da médica. Isto acontece a 60% dos casos. Confesso que não me confortaram.

Andei uma semana (2ª a sábado) com o que julgava ser um bébé morto. Todos me olhavam com um olhar de não saber o que fazer. Se me falavam no assunto, se me falavam em outras coisas para nem me lembrar. Se nessa semana não me secaram as lágrimas acho que nunca me secarão. Aprendi a chorar as minhas mágoas nas idas e nas vindas do escritório. Chegava ao escritório sem lágrimas, chegava a casa sem lágrimas... Mas, no entretanto..

Costumo dizer que sem nunca ter perdido um filho, sei bem o que é.

E ainda hoje penso que Deus se comoveu com a minha dor e no dia marcado para o aborto enviou-me um anjo.

Talvez seja por isso que sou tão próxima do meu filho, no meu intímo tenho receio que não tenha sido uma dávida, mas um empréstimo.

legivel disse...

... não era daqueles que começam a remoer frases imperceptíveis para o cliente, como quando me sentei -e depois de arrumada a bagagem na mala do táxi, lhe indiquei o destino da corrida: "Almada, por favor." Apenas me fez notar que na Ponte 25 de Abril se transitava apenas numa faixa, por motivo de obras. Àquela hora da madrugada pouco tempo iria perder, pensei. E limitei-me a pronunciar um "tudo bem" ensonado e sobretudo cansado, que a viagem de regresso de Paris (onde me tinha deslocado para uma reunião urgente à casa-mãe da Companhia) foi demasiado barulhenta para o meu gosto. Adeptos do Benfica viajavam no mesmo avião e tocou-me em sorte um, que, apesar do resultado negativo do encontro, por argumentos dos quais me entraram por um ouvido e sairam por outro (que de futebol percebo tanto como de física quântica) me afiançou que na "na Luz os iriam comer!". Aos franceses, imagino eu e mais o que não imaginava: que o canibalismo campeia no desporto-rei(?!).
Já no tabuleiro da ponte -e sem complicações a percorrê-lo, espreitei o Tejo e o recorte da margem sul com o cristo iluminado a "observar" Lisboa e senti prelúdios indicadores nocturnos no céu estrelado, que a primavera está aí não tarda. Quando me voltei a endireitar, a minha mão esquerda ao apoiar-se no assento, sentiu um pedaço de papel com algo manuscrito. Curioso, à luz do mostrador do telemóvel li: "Nem calculas como me ajudaste! Pena não ter apanhado este táxi há uns anos atrás... " Apenas isto, sem assinatura nem mais nenhuma indicação. Quando chegámos e paguei a corrida, entreguei ao motorista o papel. "Estava aqui ao meu lado. Pode ser que lhe diga alguma coisa." Agradeceu. Em casa, fui ver o correio electrónico e alguns sítios que leio regularmente. Afinal e pelo que reza uma crónica de um motorista de táxi, tinha chovido copiosamente em Lisboa no dia anterior...

Farinho disse...

Eu fiquei sem saber o que dizer, a sua escrita maravilhou-me, muito intenso.


Beijocas

ISA disse...

que lindo... à tua! ;-)

a_mais_fofa disse...

Cada vez se torna mais díficil comentar o que escreves porque tu dizes tudo o que há para dizer, com as palavras mais bonitas... e deixas-nos sem palavras!

joaninha disse...

caramba... é fantástico... e infelizmente deve ser a realidade de muitas mulheres... q sofrem sozinhas e en silencio...

*beijinho*

isabel mendes ferreira disse...

vim.espelhar.me.
de água.


_______________


levo o frio.


________________

beijo.

MC disse...

Parece mentira, Rui, mas é a primeira vez que visito o teu blog.

E só porque visitaste o meu. Costumo ler os teus comentários aos textos do Legível e parto a rir, agora venho aqui e dou com este texto! Gostei mesmo muito. Voltarei.

Um beijo

Eyes wide open disse...

Brutalmente bonito... um dos teus melhores momentos. Falham-me os adjectivos para um post que é um exímio estímulo às emoções... adorei.

M.M. disse...

Ai, que saudades eu tinha de te ler, amigo.
Um beijo grande, de quem gosta muito de ti. :-)

Túlio Hostílio disse...

digno de registo, maravilhoso...

Isa&Luis disse...

Olá Rui,

Lindo! Amei!

Gosto muito de te ler.

Beijo!

Isa

Sofia disse...

Sempre excelente! Já nao me admiro, nem com a tua escrita nem com a tua sensibilidade.

Beijos

Fortunata Godinho disse...

Máginifico. Não a dor que nos transmites, mas o facto de a conseguires transmitir, detsa forma mágnifica.

M.M. disse...

E digo-te mais: se não és publicado em breve, como o meu chapéu.
Ou isso, ou começo uma revolução.

segurademim disse...

... o problema é o como

como ajudar numa dor assim? ninguém pode

só o tempo, as rugas, a chuva, o sol, o caminho, o rio, o frio, o frio

beijo Rui [óptimo as always]

:)

tb disse...

Sempre a mesma qualidade na forma de escrita e sentires...:)
Beijinho

cuotidiano disse...

Como não consegui respirar do princípio ao fim... 'pera ai... só um momento.

Bom, já respiro de novo. Adiante.

(Apenas) Brilhante! Espero que ganhes o prémio FNAC.

Um abraço

lélé disse...

desencadeaste uma grande dissertação, aqui no meu cerebrozinho!... mas as palavras são teimosas e poucas são as que querem aparecer... gostei muito imenso (valha-me o senhor santo cristo!... tantas palavras para dizer e só aquelas três para comentar!...)

Abssinto disse...

"Socorro, se faz favor"

Muito bem escrito.

Abraço