terça-feira, dezembro 12, 2006

K331 - Alla Turca (quinto andamento)

- Calculei que não fosse.
(acende mais um cigarro)
- Como adivinhaste?
- Não sei, foi algo que intuí. Conhecendo-te como conheço, percebi que não bastaria uma simples vingança.
- Quem te ouvisse… fazes de mim algo que não sou.
- Não me faças rir.

(interrompe a aspiração do cigarro, engasgando-se)
- Porquê, que foi?
- Que foi? Então, Ana é comigo que estás a falar.
- Isso quer dizer exactamente o quê?
- Quer dizer que estou com a cabeça a 200 à hora, tentando fazer com que tudo o que me tens dito faça sentido, tentando encaixar estas revelações em pequenas coisas do passado… atitudes tuas, incongruências, coisas que eu não percebi, que fingi não terem importância e que agora… não sei, de repente, ficou claro para mim que não te podias limitar a responder à letra. A partir do momento em que decidiste a vingança, terias de a complementar com… um toque de requinte.
- Eu não sou assim!

(ergue-se, visivelmente perturbada. Caminha pela sala)
- Mas és, e tu sabes que eu tenho razão.
- Oh…
- E requinte é mesmo o termo adequado. Tu adoras dar um toque… especial, muito pessoal, a tudo aquilo em que te envolves. Aliás, um dos teus fracassos foi nunca me teres conseguido tornar um gajo requintado.
- João, pelo amor de Deus, para quê isso agora?
- Então não estamos no momento das verdades, não foi o que disseste?
- Mas não é deste tipo de coisas que eu estou a falar, acusações que nada adiantam… em saber se tens muito ou pouco requinte.
- Sim, tens razão mas, ainda assim, te digo que tenho razão

(ela suspira e volta a sentar-se)
é verdade que nunca me adaptei ao teu estilo
(faz uma careta quando diz a palavra estilo)
ao teu gosto sofisticado, aos teus amigos… modernaços, todos eles tão.. bem, tão na moda, tão intelectuais. Porra Ana, logo foste gostar de um tipo que tem sempre a merda dos boxers a enfiarem-se-lhe pelo rego do cu acima. Aos teus amigos isso nunca acontece, aposto.
(procura mais um cigarro, mas o maço está vazio; sai do quarto)
- E pronto, aí vamos nós pela rua do disparate a fora…
(dirige-se a uma cadeira onde está a sua mala; procura algo)
- Não te apoquentes que não te vou pedir para admitires que sempre consideraste um fracasso o facto de nunca me teres conseguido fazer entrar no teu meio
(regressa com um copo meio cheio numa mão e uma garrafa quase vazia de Lemoncello na outra)
mas ainda te digo que não te levo a mal por isso, nunca levei, sempre achei legitima essa tua ambição.
- Mentira tua!

(masca furiosamente uma pastilha)
- Mentira, o quê?
- Mentira, sim. Se isso fosse verdade, tinhas feito um esforço, por pequeno que fosse, para te adaptares… e eu nem te pedia isso, que te adaptasses, apenas que tolerasses algumas coisas, que me acompanhasses de boa vontade nalgumas coisas, ainda que te custassem. Mas tu nunca foste sequer capaz de fingir, nunca fizeste a ponta de um corno… que coisa, eu só te pedia que fingisses de quando em vez.
- Terás razão, sim… não tentei lá grande coisa. Mas, verdade seja dita, nunca tive grande jeito para fingimentos…

(acentuou o mais possível o tom irónico da frase; olhou para o telemóvel como que querendo ver o efeito que aquela afirmação tinha produzido)
- Sim, sou melhor nisso que tu.
(senta-se, tentando controlar-se; está abatida)
- Que foi que fizeste mais, Ana?
- Tinha esperança que não quisesses saber… como há pouco tu não…
- Já estou por tudo, acho.
- Se não tivesses perguntado, não te teria dito.
- Arrependimento, tu?
- Sim, bastante.
- Foi assim tão mau!?

(silêncio demorado)
não me faças tentar adivinhar, por favor.
- Não, eu conto-te. É só que… não é fácil… não me diz… não diz respeito só a nós…
- Ana, que foste tu fazer...
- Eu…

(tapa a cara com a mão)
- Foi com quem? Eu conheço, não conheço?
(não obtém logo uma resposta)
- Com o teu primo.
(a frase saiu com uma aspereza não antecipada, o que a surpreendeu; seguiu-se um longo silêncio em que nenhum deles se mexeu)
calculo o que estejas a sentir…
- Não imaginas sequer.
- Sabes, a intenção era mesmo essa, provocar o máximo de dano possível, por isso o escolhi.
- Estás a ouvir-te, Ana?
- Sim, é terrível. Nem eu sabia de que era capaz de fazer o que fiz.
- Assustas-me.

(bebe pelo gargalo todo o conteúdo da garrafa; um esgar rasga-lhe a face)
- Deixa-me terminar.
- Não vale a pena, conseguiste…
- Lembras-te do início desta conversa, do pedido que me fizeste?

(perante a ausência de resposta, continua)
que te ouvisse!?
- Tenho dificuldade em raciocinar…
- Tens razão quando dizes que eu queria algo mais, superar-te na maldade que me fizeste. Quando descobri que me tinhas traído, fiquei cega de raiva. Cresceu dentro de mim algo que me estava a consumir. Só te imaginava com outras mulheres

(arrepia-se; volta a caminhar pela sala)
e depois aquelas tuas desculpas esfarrapadas, de que não tinhas conseguido resistir… como se fosses uma criança pequena, indefesa… que ódio João… só de pensar nisso…
- Mas é a verdade…
- Pára! Por favor, não me digas isso! Não inventes desculpas… assume os teus actos. Por uma vez.
- Como tu o estás a fazer.
- Como um homem.
- Um homem…

(vê-se ao espelho)
- Sabes o que pensei? Isto é horrível, eu não estava em mim, não podia estar… mas quis ver se eram todos como tu, se o teu primo era assim também, se perante os avanços de uma mulher, não conseguia resistir… para mais a mulher do seu melhor amigo.
- Chega Ana, chega…

(senta-se no chão)
- Não, ainda não chega.
- Peço-te, não serve de nada… eu… tu conseguiste… não sei, nem sei que te diga.
- Ele ainda resistiu, ao início… mas foi só enquanto ficou aparvalhado, sem saber se eu estava a sério ou apenas a brincar com ele. Que figura…
- A dele ou a tua?
- A nossa. Eu não quero… eu sei que errei, que fiz algo que jamais…

(engole em seco)
mas fi-lo… e… meu Deus, se pudesse voltar atrás…
- Não sei se alguma vez te conseguirei perdoar.
- Podes até perdoar-me, um dia, mas sei que nunca o irás esquecer, e isso é que é verdadeiramente terrível. Eu também não vou conseguir esquecer o que fizeste.
- Mas tu…

(de dedo indicador direito no ar, faz um esforço por não dizer o que queria; sente que vai chorar)
- Não tenho desculpa, eu sei. Nenhum de nós tem.



Encontram aqui mais algumas fotos

27 comentários:

crispipe disse...

....a vida....dura e crua.

a_mais_fofa disse...

Escreves com uma intensidade estonteante..

Será que os fins justificam os meios? Será que no amor há lugar para tanto rancor, tanta vingança...?

Espero pelo que vem...

legivel disse...

... Alcides caminha rápido em direcção a João
- Deixa lá o raio do telemóvel e não te lamentes! Mas que certezas tens tu do que ela te está a dizer? Ou não será que a Ana ainda te quer ver mais na merda?!ahn?!

- Não posso acreditar que ela me queira fazer tanto mal.
(responde desfigurado João)

- És muito ingénuo! Como tu conheces mal as mulheres... Pois olha, se estiveres com atenção, no final deste acto -a bold alaranjado, está escrito "Encontram aqui mais fotografias". Entra e verás um gajo de cu para o ar a remexer entre os calhaus. Foi com esse que a Ana se vingou. Como é que sei?! Elementar meu caro João! Logo a seguir vês um cão bicolor de orelhas no ar a apontar uma pata em direcção ao mano. Estes cães são danados para denunciar donos de talhos... e aproveitadores de senhoras cegas de vingança.
(replicou Alcides, que com a boca seca da deixa deixou o palco por hoje)

joaninha disse...

olha... digam ai ao alcides que as mulheres não são todas assim... como nem todos os homens o sao, nem todos traem... espero! aiiii...

Rui... parabéns! arrepiante mas espetacular ;) mas nem todas as pessoas são assim pois nao? quer dizer, nem todas traem ou tem necessidade de vingança, pois nao?
eu nao perdoava uma traição... mas também nunca pagaria na mesma moeda... é mau demais (mas eu já disse isto não?)

beijinho

Anónimo disse...

Ora bolas....

São os dois culpados. Não há volta a dar.
Na perpectiva feminina, as tipas com quem ele andava eram mais nojentas que o ela ter dormido com o melhor amigo e primo...

Pois... é lixado.

Silvia disse...

Mas ela andava com prostitutas??? Olha que não! Agora é que anda. Para ela ter ficado tão magoada a traição dev ter sido á séria. Se tivesse sido com prostitutas a Ana punha-o simplesmente andar e dava graças a Deus por se ter livrado dele.

Quanto à vingança... o facto de a Ana ter seguido em frente, parece-me que teria sido o bastante.

Mas, "keep it simple" não é um lema feminino. :)

Para a próxima ela que lhe risque o carro todo parece-me melhor e mais limpinho...

Anónimo disse...

Podia ainda ter-lhe queimado a valiosa colecção de cds, ou livros, ter-lhe furado os boxers todos (provavelmente não daria por nada, tipo que apaga cigarros em molduras).

Gosto desses seres humanos complicados que crias para as tuas histórias rui, pq a vida nunca é preto no branco.

lélé disse...

qualquer vigança é estúpida e só pode ser perdoável pelo próprio, uma vez que, para se vingar de alguém, precisa ser tão reles como esse alguém...

legivel disse...

Para joaninha:

"Eles" já disseram ao Alcides que as mulheres não são todas assim; nem os homens assado. Mas o Alcides apenas representa uma personagem fora do baralho. Sempre teve a mania que havia de ser actor...

Senhora das Aguas disse...

so achei ridicula a vingança pelo facto de ela se ter arrependido... eheheh, ou entao o primo nao valia grande coisa, ehehehe, enfim os textos estao muito bons, um casal desfeito, por algo que se poderia ter resolvido de forma tao mais digna... beijo

PiresF disse...

Meu caro Rui,

A facilidade aparente dos diálogos, é coisa que requer muita imaginação para que o leitor não se canse. Neste caso, tendo eu já lido uns poucos, verifico que o ritmo se mantém sem se notar qualquer quebra, nem na imaginação, nem na forma escorreita como os descreve.

Poderão alguns pensar, que fala de coisas privadas, digo-o, por certo comentário que há dias li num deles, não creio de forma alguma que assim seja neste caso, sabendo no entanto que, muitas vezes, transportamos as nossas vivências para os textos, o que não implica de forma alguma que os tenhamos vivido na primeira pessoa.

Seja como for, manter este diálogo como o tem mantido, só pode ser obra de pura ficção e de enorme imaginação, para além claro, da soberba arte evidenciada para o género.

Muito, muito bom.

Abraço.

PS: A este não preciso voltar, a réplica do Legível foi rápida.

joaninha disse...

oki oki legivel... mas é importante destacar que nao podemos por todos no mesmo saco ;)

Sea disse...

com um beijo apenas :)

tb disse...

É bom vir e continuar a gostar. A intensidade dos diálogos, a musicalidade, o ritmo...
Abraço

APC disse...

Ali em cima, a_mais_fofa disse "escreves com uma intensidade estonteante". E é assim mesmo; tá bem dito ao ponto de não precisar dizê-lo de outra forma.
Acho que o jeito como pegas cada fala, fazendo desfiar, aos poucos de muito, um novelo com enorme coerência mas ao mesmo tempo desconcertante, revela uma enorme mestria, na medida em que nos agarra completamente, como se fora verdade, porque não nos sentimos a tropeçar em nenhuma passagem menos verosímil ou mais forçada... É tudo de uma realidade que quase incomoda (mais quase, menos quase...;-), daí a riqueza do teatro que montaste; também ele sobre uma peça que as personagens interpretaram e em que foram personagens que não sabiam ter sido. E é que é mesmo assim! :-)
Deixo-te os parabéns costumeiros e um abraço renovado (tipo reforço da vacina, tá a ver?:-)
Inté!

PS - Acaso serás tu o papá que agarra pelas mãos o casalinho de herdeiros? :-) [Mas faz de conta que eu não perguntei nada].

PPS - Big risota com esse tal de Alcides e o tipo de cú para o ar! :-)

segurademim disse...

... coitados!!! agora é que é... pica-miolos de um lado para o outro

e o passo decisivo está longe de ser tomado...

a Ana e o João estão fritos contigo, estão, estão!!

beijo Rui :))

pequenita (quando o teu corpo e o meu) disse...

Gosto desse teu ar tristonho,
desse olhar de melancolia,
mesmo nos momentos de prazer e de sonho,
ou nos instantes de amor e de alegria...

Gosto dessa tua expressão de ternura
tão suave e feminina,
desse olhar de ventura
com um brilho úmido a luzir num profundo langor...
Desse teu olhar de meiguice que me cativa e domina,
tu que dás sempre a impressão de quem precisa
de proteção e amor...

Desse teu ar de menina, desse teu ar
que te faz mais mulher
ao meu olhar...

Gosto de tua voz, tranqüila, do tom manso
com que falas, como se acariciasses
até as palavras que dizes;
de tua presença, que é assim como um quieto remanso,
um pedaço de sombra onde me abrigo
quando somos felizes...

Gosto desse teu jeito calmo, sossegado,
com que te encostas em meu peito
e te deixas ficar
entre ternuras e embaraços,
como se tudo ficasse, de repente, parado,
e teu mundo pudesse ser delimitado
pelos meus braços...

Gosto de ti assim, pequenina, macia,
quando te aperto contra mim e te sinto
minha
(inteiramente nua)
e tens um ar abandonado, como quem caminha
sonâmbula, por um estranho caminho
feito de céu e de lua...

Bom fim de semana.......beijocasssssssssssssss by Pequenita

Anónimo disse...

eu vim aqui deixar o mais largo sorriso. porque te acompanho desde sempre. és o primeiro link dos meus favoritos. e apesar das poucas falas nesta caixinha. tenho o maior carinho por este blog. e por estes benefícios. à minha felicidade. um grande beijinho.

farinho disse...

muito, muito bom continua, que estou morta de curiosidade para ver como acaba.

Beijocas

Isa&Luis disse...

Olá menino,

Muito bom, ansiosa pelo seguinte.

FELIZ NATAL!


Beijinhos

Isa

ah e tal (c) disse...

de repente até eu me senti mal, sem ter nada a haver com esta história...até parece que senti a tensão...O_o

muito bom!!!!!!!Parabéns Rui!

bjs

ah e tal (c) disse...

Legível:
Sempre em alta!!ahahahahahaha

Salvador disse...

Desejo um bom Natal e um magnifico ano novo para ti e para os teus...

Paulo Sempre disse...

Dá que pensar....

mixtu disse...

ummmmmm.....

verdades e mentiras e sempre as desculpas

vida... vidas... conversas...

vou pelas desculpas num 5ª mandamento....

abraços navideños e monárquicos :)

yayayaya

EyeOfHorus disse...

A dor feita palavra, mas há dores que nunca conseguirão sê-lo... não há palavras que consigam mostrar a tempestade visceralmente mental que se apodera do corpo, da alma.
E cada vez o sangue flui mais devagar e a crença enfraquece até ao dia em que o olhar se ergue de novo e o peito se enche para respirar ante uma nova caminhada.
Black nº1 kiss

virilão disse...

Agradável surpresa nas fotos!
Teu fã!