terça-feira, abril 15, 2008

O Estojo (10)

Considerou a altura péssima para se lembrar de tal coisa: talvez tivesse sido boa ideia perguntar primeiro a Deolinda se queria ver um filme pornográfico com ele. Fitou a porta, depois o empregado – que se mantinha em transe – e considerou sair da loja a correr.


– Disparate. Levas o filme, escondes bem escondido e fazes-lhe a conversa – disse ele, como se estivesse a falar com alguém. – Passas-lhe a mão pelo pêlo, amansas… a fera…

Tirou da prateleira uma caixa com a foto de uma rapariga que fazia um trejeito com a boca, como se estivesse muito, muito zangada. Vestia cabedal e brandia um chicote, enquanto espezinhava com os stilettos o que parecia um corpo masculino, gordo e peludo, metido dentro de umas cuecas de látex e com uma máscara a cobrir-lhe a cabeça. Chun-Li A Fera Asiática, leu ele em voz alta. Com as mãos a tremer, quase deixava cair a caixa quando a devolveu ao expositor. Olhou em redor. Tudo se mantinha calmo. E foi então que umas quantas raparigas loiras lhe sorriram.
Aparentavam ser muito novas, felizes e moderadas no uso de roupa – envergavam mini fardas colegiais, em cores garridas. A vida, seguramente, corria-lhes bem e Joaquim devolveu-lhes o sorriso. Pegou no dvd. Estava decidido, ia aquele.
Naquele momento, uma descarga de adrenalina percorreu-lhe o corpo e ele estremeceu. Depois, sentiu-se aliviado e até um pouco eufórico. Afinal, não tinha sido assim tão difícil. Estava confiante, até, algo que já tinha esquecido como era sentir. “As coisas que uma sex-shop fazem a uma pessoa”. Espantou-se.

Dirigiu-se ao balcão, onde o empregado se mantinha impávido, mas não sereno a olhar para o ecran – parecia ter sido mumificado naquela posição, com a cabeça pendurada para a frente e a boca ligeiramente aberta; havia nele algo que perturbava. Joaquim alterou a trajectória para conseguir ver o que provocava aquele estado catatónico. Dirigiu-se a um outro expositor, onde fingiu estar a observar algo, mas apenas imaginava cenas depravadas. Discretamente, levou o olhar até ao balcão. Para sua surpresa, tratava-se apenas de um filme de banda desenhada.
Foi nessa altura que a cabeça do empregado rodou no nó da gravata e o olhar dos dois se cruzou. Como se tivesse sido apanhado em falta, Joaquim virou-se rapidamente para a frente e soltou um grito, horrorizado: sem dar conta, tinha pegado num artigo exposto. Muito vermelho e com a face a arder-lhe, deu por si com um comprido e rugoso pénis a baloiçar-lhe na mão.

(continua)


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sexta-feira, abril 11, 2008

O Estojo (9)

Deitou-se na cama a matutar sobre o que poderia ele ainda fazer pela relação. Sentia que, a cada dia que passava, eram menos as coisas que tinham para partilhar. Já pouco conversavam e, ultimamente, achava até que ela evitava olhar para ele. Levantou-se de um pulo.
Espantou os maus pensamentos andando de um lado para o outro, no quarto. Tinha de se concentrar, precisava urgentemente de uma boa ideia. Não podia precipitar-se como da última vez em que tinha tentado introduzir algo novo na relação:


– Tavares, pá… como é que eu – Joaquim sorria o sorriso dos nervos. – Pá… precisava que tu… tu deves ter…
– Depois de tantos anos, ainda tens que te engasgar comigo?

Estava convencido que o problema do seu casamento passava, em grande medida, por falta de sexo… e por total ausência de sexo com um mínimo de qualidade. Achou que uns filmes pornográficos os ajudariam: a ela, que era sempre distante e fria… e parada – embora nunca tenha sido capaz de lhe dizer tal – e a ele também, tão incapaz de saber o que fazer, tão monótono, tão despachado. A ideia surgiu-lhe quando leu uma reportagem sobre um Zoo na China onde, para aumentar a taxa de natalidade dos Pandas, lhes mostravam imagens de outros Pandas a ter relações.
Tavares, o seu melhor amigo, não tinha filmes pornográficos para emprestar, mas tinha uma sugestão:


– Alugas.
– Não sou membro de nenhum clube.
– Tornas-te.
– Hmmmmm…
– Já sei! Compras.
– Onde?

Tavares conhecia uma sex-shop na Baixa, mas Joaquim achou isso “muito perto”.


– Bom, há uma onde eu moro.
– Isso! Talvez…

Nunca tinha ido à Quinta do Infantado mas, com as indicações precisas do amigo, depressa achou A Loja do Mestre André Sex Shop. Estacionou à porta e deixou-se ficar no carro, a observar tudo à sua volta. Era hora de jantar e, quinze minutos depois, ninguém tinha entrado ou saído da loja, nem sequer passado por ali a pé.
Uma boneca insuflável, descaída sobre a perna esquerda, como se fosse coxa, estava a meio da montra, iluminada por uma luz vermelha. Joaquim imaginou-se a soprar-lhe no pipo e fez uma careta. Diversa parafernália sexual completava a decoração da montra. “Tudo coisas desconhecidas”, concluiu ele.
Levantou as golas do casaco, enterrou um boné até às orelhas e entrou, a olhar para o chão. Um expositor pequeno mas alto, repleto de caixas de dvd, estava junto da entrada e Joaquim colocou-se atrás dele. Dali podia ver sem ser visto.
Para além dele, apenas um empregado estava presente. Vestia fato e gravata – o que lhe causou estranheza a Joaquim – e parecia não ter dado pela sua entrada, curvado que estava na direcção de um pequeno ecran colocado no balcão. Parecia hipnotizado pelo que via.
Joaquim olhou em redor. Admirou-se com o facto da loja estar bem iluminada. Tinha imaginado uma coisa escura, peganhenta, com criaturas andrajosas a vaguear por corredores apertados e bafientos, mulheres desdentadas e de peles caídas a puxá-lo pela roupa para dentro de quartos que nunca se atreveu a imaginar. Em vez disso, deu por si num espaço amplo e fluorescente, onde se sentia no ar, aquilo que lhe pareceu ser um ligeiro odor a baunilha. Surpreendido, estava numa espécie de minimercado, onde a diferença residia apenas nos produtos expostos.

(continua)

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quarta-feira, abril 09, 2008

O Estojo (8)

Joaquim tinha proposto que a Lua-de-mel fosse no Hotel Costa da Caparica.


– É quatro estrelas. Tem piscina. Vistas desafogadas. – disse ele, com voz viva e olhar arregalado. – Fica perto de casa… – acrescentou, com voz mortiça e a olhar para os sapatos.

Deolinda não se impressionou:


– Não quero ir para um sítio onde possa encontrar gente conhecida – não explicou, mas a vizinha Celeste tinha um avançado no Parque de Campismo da Praia da Saúde.

Também não tinha sido fácil a Joaquim, conhecer Deolinda. Chegaram um ao outro pela internet, numa sala de chat.
Desesperado com relações inconsequentes, Joaquim decidiu procurar no virtual o que lhe escapava no mundo real. Já Deolinda, procurava no sítio da TVI novidades sobre telenovelas, quando – e ainda hoje se interroga amiúde porque o fez – decidiu entrar na sala chat, acabando por se entusiasmar com a anonimidade da coisa, com a possibilidade de dizer o que quisesse, sem ter de depois aturar quem não lhe interessava ouvir.

Na busca de outros temas e de pessoas que se interessassem por novelas mexicanas, passou para a rede portuguesa de chat – ptnet – onde, numa tarde escura e fria de inverno, deu por si a sorrir das piadas malandras de um rapaz bem-disposto.

C++
(Deolinda) resistiu a seis meses de pedidos insistentes por parte de SugarLips (Joaquim), mas lá acabou por aceder a um encontro em carne e osso. Uma semana depois, namoravam:


– Queres namorar comigo, Linda? – perguntou ele, com os cantos da boca próximos das orelhas.
– Eh… está bem. E não me voltes a chamar isso.

A primeira vez que tocaram um no outro, foi com os lábios.

Acabaram por passar a Lua-de-mel em Peniche. Quatro dias, o tempo que Deolinda considerou ser o máximo que conseguia estar longe dos pais.
Nunca usou o fato de banho que a sua mãe lhe comprou, nem aceitou os insistentes convites do marido para passeios à beira-mar, por causa do vento. Passou quase todo o tempo sentada numa cadeira de plástico, no relvado das traseiras do Hotel, a ler revistas do coração.
À noite – que, segundo Deolinda, há certas coisas que não se fazem durante o dia –, assim que terminava o Jornal Nacional e ela se voltava a mexer, Joaquim procurava-a, na cama. Nas duas vezes em que acedeu aos avanços do marido, ele não conseguiu dominar os nervos e rapidamente veio ao de cima a sua falta de controlo nas situações intimas.
Sentado na cama, de costas para ela, com o sorriso escancarado, passava mais tempo a justificar-se que a fazer amor. Deolinda nunca se importou com isso: quanto mais depressa ele lhe saísse de cima, mais depressa podia aguardar o inicio da telenovela. Ainda assim, não perdeu uma oportunidade de o fazer sentir culpado.

E assim se passaram cinco estações.

À janela de casa, numa rua inclinada e escura no Bairro das Colónias, Joaquim arrepiou-se. Franziu a testa quando concluiu que, naquele Verão, ainda não tinha sentido calor. Aliás, não se lembrava de sentir calor desde Maio do ano passado.
Um homem de idade, apoiado numa bengala, tentava fazer chegar a casa um saco de plástico. Arrastava os pés calçada acima, lentamente, sem tirar os olhos do chão. Joaquim sentiu um súbito peso nos braços, soltou um gemido e fechou a janela. A sua vida tinha de ser mais do que o carregamento de um fardo.

Achava que tinha feito tudo para que a relação desse certo. Ainda no outro dia tinha ido beber uma cerveja com o amigo Tavares e ele tinha concordado consigo: não havia muito mais que pudesse fazer.
Deolinda parecia não se importar com nada, para além dos peixes no seu aquário. Nem sequer consigo própria. Cinema? Já não havia filmes como os antigos e esses, já os tinha visto todos. Passear? As condições atmosféricas eram sempre adversas. Sair à noite? O barulho e o fumo do tabaco faziam-na passar mal. Sexo? O médico tinha-lhe diagnosticado um “princípio de osteoporose”, o que limitava muito os movimentos que podia fazer… ou suportar. Férias? A praia não lhe dizia nada e tinha alergia às coisas do campo e a todos os animais que estivessem fora de água.


– Vamos conhecer uma cidade estrangeira – propôs ele certa vez, entusiasmado.
– Para quê? – respondeu Deolinda, fazendo cócegas no vidro do aquário, na direcção de um Guppy que passava.

A irem jantar fora resistia ele, que estava farto de frango assado.

(continua)


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domingo, abril 06, 2008

O Estojo (7)

A moldura de madeira foi montada e decorada pela mãe de Deolinda. Pintou-a de cor-de-rosa, desenhou-lhe vários vasos com malmequeres, um pequeno urso de pelúcia e, no canto inferior direito, um bouquet de flores. Colou-lhe ainda uma pequeníssima camisola em renda, feita por si, também em cor-de-rosa. O significado de tanto “rococó” – termo com que Joaquim se referiu à decoração da moldura –, explicou ao genro, era o espelho da felicidade que ela sentia por os ver felizes; a eles que eram “tão fofinhos” – o que provocou um esgar à filha.
Está colocada em cima do aquário grande – agora vazio –, junto à porta de entrada. Na fotografia que exibe, pode ver-se por entre a fina neblina que se libertava da grelha, uma Deolinda com cara de tomate, lábio inferior esticado, enquanto sopra a franja – originando um tufo capilar à Tintim – dedo indicador direito apontado à objectiva e o seu marido, já sem casaco e gravata, braço por cima da mulher, olhos cerrados e lábios repenicados, a aproximar-se da sua bochecha vermelha. Tudo sobre uma sucessão de azulejos, em vários tons de verde, com grandes círculos, onde o flash se reflecte, dando à cena e aos personagens, um ar surreal.
Dona Jesuína jamais seria capaz de o admitir fosse a quem fosse – e sempre que se lembrava disso, cantava uma canção bem alto – mas o cor-de-rosa e tanto “rococó”, eram uma tentativa de disfarçar o que lhe parecia a imagem de um pesadelo inevitável.

Os azulejos dos círculos verdes eram a nota dominante de todas as fotografias daquele dia: os avós sobre os azulejos; o neto com os avós, sobre os azulejos; os noivos com os pais, sobre os azulejos; a foto de grupo, sobre os azulejos. “Felizmente, os padrinhos foram os nossos pais… sempre se poupou os azulejos dessas fotos”, dirá Deolinda, mais tarde, quando o marido lhe ofereceu um álbum para as fotos.


– Vá, façam um sorriso, meus pombinhos lindos – disse a mãe da noiva, sorridente. – Ainda não tirámos fotografias.
– Sogrinha linda, só um bocadinho – Joaquim tirou a gravata, passou o braço pelas costas de Deolinda e preparou-se para lhe dar um beijo na bochecha quente, enquanto ela soprava os cabelos que teimavam em tapar-lhe a vista. Ia contrariar a mãe quando o flash a cegou, ao mesmo tempo que um par de lábios apertados lhe comprimiu a face.
– Mãe… – rangeu os dentes e passou as costas da mão pela cara.
– Olhe, o senhor desculpe – Jesuína agarrou o empregado da Valenciana pelo braço, quase fazendo com que ele deixasse cair as bandejas de frango com batatas e de salada que transportava em precário equilíbrio. – Vai ter que nos tirar uma foto a todos.
– Com certeza, minha senhora, mas antes, tem de me soltar – gordas gotas de suor escorriam da têmpora do homem, indo cair na salada mista.
– Aquela alface vai chegar salgada, à mesa – disse Deolinda entre dentes, esboçando o primeiro sorriso do dia.

(continua)

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quarta-feira, abril 02, 2008

O Estojo (6)

A assinatura do contrato processou-se sem atribulações de maior e foi já com um sorriso menos evidente, mas mais natural, que Joaquim entrou no restaurante onde ia decorrer o copo-de-água com a mulher pelo braço.
O almoço foi ali para os lados das Amoreiras, na Valenciana que, segundo Joaquim, “tinha uma sala ampla e arejada”, não contando que os fossem sentar próximo do grelhador, nem que a extracção de fumos não desse resposta a tanto fumo.

Deolinda não conhecia o sítio, mas aceitou prontamente quando a vizinha Celeste lhe disse que o restaurante tinha fama nos frangos assados.
Foi, portanto, com manifesto desagrado que ouviu da boca do empregado a ementa:


– Temos canja de galinha, bacalhau no forno com batata a murro e febras na brasa. A sobremesa pode ser…
– Psst, psst… – o avô de Joaquim puxou o empregado pelas calças. – Oiça lá, e para molhar o gógó?
– Para beber, há tinto da casa, sumos e águas – sem ter conseguido ouvir, a mulher repetiu-lhe as opções ao ouvido.
– Esse tinto é de onde? – gritou o idoso.
– Da zona de Aveiras… e para sobremesa, pudim, leite-creme ou mousse de chocolate – e foi-se embora, apressado.
– Então, mas eu… pensava que… – Deolinda tentou articular uma frase coerente, mas as ideias atropelavam-se. Olhava para o marido, mas não o via. – Tu… tu não…

– Dois pratos, hã!? Carne e peixe! O senhor não disse, mas o café e um chiripiti no fim, também estão incluídos – afirmou ele, com manifesto agrado.
– O teu avô não consegue roer as febras, que não tem dentes – a avó, do outro lado da mesa, franzia o olho direito na direcção do neto. – E eu é coisa que também não aprecio, que a carne fica sempre seca e rija.
– Comam frango, prontos! Eu peço ao senhor para trocar.
– Eu
também quero frango – as palavras saíram de dentro de Deolinda arrastadas e cortantes, como se fossem feitas de ferro demoradamente afiado.

Entretanto, a sua cabeleira sucumbira ao fumo dos grelhados e tinha-lhe caído para os ombros e para os olhos. A sentir um calor cada vez mais insuportável a subir dentro de si, soprava a franja com evidente má cara, quando o avô berrou sem destinatário definido:


– Em Aveiras também há vinho?

(continua)

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segunda-feira, março 31, 2008

O Estojo (5)

Dentro de um saia-casaco madrepérola, escolhido pela mãe, Deolinda parecia ter ainda menos que os cento e cinquenta e cinco centímetros que lhe haviam sido concedidos. O facto de estar descalça, não ajudava.
Tinha pousado o bouquet de jacintos e malmequeres – rodeados de hera por todos os lados – na mesa e estava sentada, a soprar para a testa. Parecia indiferente à má disposição do Conservador.


– Bom, parece que agora estamos todos. Podemos dar inicio à cerimónia.

Esbaforido, o noivo entrou na sala e atirou com os avós para as primeiras cadeiras vazias que encontrou. A sala era pequena mas, com tão poucos convidados, parecia vazia. Joaquim tinha tentando convencer Deolinda a deixá-lo convidar os amigos apenas para a cerimónia, algo que ela prontamente rejeitou:


– Como se eu acreditasse que, depois, aquela cambada não se ia fazer ao almoço à borla… – e acrescentou com um silvo: – Cambada…

Deolinda não tinha amigos para convidar. Durante os anos de escola esteve sempre demasiado preocupada em ter as melhores notas – o que conseguiu – e, quando terminou a faculdade, em arranjar um emprego que não lhe exigisse muito esforço. O que, na área da programação informática, se veio a revelar inexistente. Assim, deixou um emprego aliciante e bem pago numa multinacional, para ajudar os pais na loja de animais.

Joaquim ficou muito hirto no meio do corredor, a sorrir. Passou a mão pelo gel do cabelo e ajeitou o nó da gravata, que depressa voltou à posição original. Um tufo de pêlos espreitava por entre os colarinhos, quando ele avançou lentamente na direcção da noiva. A marcha nupcial fez-se ouvir na instalação sonora da sala Cristal.

(continua)

quinta-feira, março 27, 2008

O Estojo (4)

Foi já depois do Conservador ter ameaçado Deolinda pela segunda vez que se ia embora, e dos pais do noivo conjecturarem sobre um possível rapto e pedido de resgate – “vê-se tanto, hoje em dia, com esta malandragem toda à solta”, disse a mãe dele à comadre – que Joaquim, finalmente, encontrou os avós. Estavam sentados na última fila da sala Turquesa, a assistir a um casamento de imigrantes angolanos.


– Avô, avó… venham – sussurrou Joaquim, de cócoras, junto a eles.
– Ah, estás aí – gritou o avô.
– Venham.
– Já estás despachado? – por esta altura, perante os gritos do avô que, surdo, só falava aos berros, a Conservadora tinha interrompido a cerimónia e todos os convidados, mais os noivos, estavam virados para trás.
– Vai começar agora, venham… – Joaquim ia puxando o avô pelo braço.
– Nunca mais te vimos.
– Vocês não estavam onde eu os deixei.

– O teu avô teve que ir mijar, sabes como ele é. Depois já só havia lugar aqui – disse a avó, também aos gritos.

Sem conseguir mexer o pescoço e a cabeça, com um sorriso de orelha a orelha, Joaquim fez uma vénia à audiência, na esperança que percebessem tratar-se de um pedido de desculpas.


– Esta malta também se casa, afinal – berrou o avô. – Não tarda nada, estão cheios de filhos.
– Se não tiverem já meia dúzia deles – concordou a avó.

O casal de idosos foi projectado para fora da sala com um empurrão e Joaquim fez outra vénia aos aturdidos espectadores. Quis dizer algo, mas não conseguiu articular uma palavra.

(continua)


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segunda-feira, março 24, 2008

O Estojo (3)

A cerimónia foi marcada para um final de manhã de Maio, que calhou quente e caótico. Encostado a uma parede, mesmo por baixo de uma saída de ar condicionado, Joaquim reflectia sobre a possibilidade de todos os casais solteiros de Lisboa e arredores terem escolhido aquele dia para contrair matrimónio. Era tanta a confusão de noivos e convidados, que pareciam estar ali todos reunidos para um grande casamento em conjunto.
Um homem com um grande bigode e uma proeminente barriga, de casaco de camurça castanho pendurado no braço e a abanar-se com a ponta da gravata, veio encostar-se à parede, perto dele. A sua camisa azul clara era agora azul escura, das manchas de suor. O homem olhou para cima e abanou a cabeça com pesar: dali não viria alivio para os seus padecimentos, o ar condicionado ou estava desligado ou cansado demais para fazer alguma diferença num dia como aquele.


– Os padres estão lixados – disse ele a Joaquim. – Já ninguém casa pela igreja. É bem-feita, quero é que eles se lixem – não obteve resposta.

Por entre a confusão de fatos escuros, vestidos de folhos com motivos florais e crianças transformadas em adultos miniatura, que corriam em todas as direcções, Joaquim, de sorriso e pescoço esticados, espreitava um carro parado à porta da Conservatória.
O ruído era quase ensurdecedor. Havia quem chamasse pelos padrinhos, havia quem procurasse crianças extraviadas, havia quem chorasse e miúdos que gritavam a plenos pulmões, só pelo prazer de gritar.


– Grande ajuntamento, hein? Isto parece aquela coisa dos casamentos de Santo António, não parece? – perguntou o homem, dando-lhe um toque com o cotovelo.
– Não, não parece – Joaquim sorria, mas tinha cara de poucos amigos. – Esses são na igreja – e foi ter com o sogro, que tinha vindo também espreitar o carro.
– Que chatice, isto… – o olhar do noivo tinha já petrificado por completo.
– Quando é que vamos ter a sala livre? Ainda falta muito para o casamento acabar? – o sogro estava visivelmente zangado.
– Atrasou… sabe como são estas coisas…
– O que eu sei é que a Deolinda deve estar a assar como um leitão, dentro do carro. Devíamos ter chegado atrasados, como manda a lei.

Joaquim ia corrigi-lo, dizendo que ela estaria a assar como uma leitoa, mas um súbito nó nas tripas interrompeu-lhe a frase: nunca mais se tinha lembrado dos avós.

(continua)



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quinta-feira, março 20, 2008

O Estojo (2)

Deolinda não tinha feitio para nervos. Bem vistas as coisas, não tinha feitio para coisa alguma. Quando Joaquim, cinco semanas antes, à porta da Zara do Colombo, subitamente se ajoelhou à sua frente e lhe pediu a mão, ela, após recuperar de um caju que se lhe atravessou na garganta, respondeu logo que sim. Não por convicção – e amor era um conceito que só conhecia das revistas que lia no escaparate do Feira Nova –, apenas porque já eram quase nove e meia da noite e ainda não tinha jantado.


– Deolinda Prazeres, eu, por minha honra, Joaquim Aleluia, peço-te a tua mão para contraíres matrimónio comigo.
– Er… cof… cof… ai Nosso Senhor Jesus Cristo me acuda… cof… cof… sim, está bem… cof cof… bate-me nas costas, Quim, faz alguma coisa, homem de Deus…

Com o fruto do Cajueiro cá fora, beijaram-se brevemente e ela lembrou-se de uma coisa importante.


– Não era suposto haver um anel?
– Ora bolas! Esqueci-me dele no porta-luvas… eu vou lá…
– O tanas! Vamos mas é jantar.

E foram. À Portugália, que a fila para o Sr. Frango da Guia – de longe, o preferido de Deolinda – tinha para mais de vinte pessoas.


– Estás contente? – perguntou ele, molhando uma batata frita na gema do ovo a cavalo.
– Eh! – exclamou ela, encolhendo os ombros. – Gosto mais do franguinho, mas como desta vez até pediste da vazia… – e voltou a encolher os ombros.

(continua)


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segunda-feira, março 17, 2008

O Estojo (1)

Momentos antes de proferirem as palavras mais importantes das suas vidas, todo ele era dentes, toda ela era cabelos.
A Joaquim, entre outras reacções morfológicas, os nervos faziam-lhe esticar os cantos da boca, afastar os lábios e achatar o nariz. Sob pressão, ele sorria.
De cabelo fraco e pouco cuidado, sempre que Deolinda se sujeitava a tratos de cabeleireiro, parecia sair de lá envolta em electricidade estática, apontando cada cabelo em sua direcção – sendo que nenhum para baixo.
Era assim que estavam, lado a lado, a escutar sem grande atenção o Conservador que, daí a pouco, os ia declarar marido e mulher.


* * *


Joaquim apresentou-se na Conservatória do Registo Civil cinco quartos de hora antes do inicio da cerimónia. “Não fosse o diabo tecê-las”, tinha ele justificado aos pais e avós paternos, os únicos convidados que o orçamento tinha permitido – avós maternos, já não tinha. Estava, obviamente, sorridente quando foi sentar o casal de idosos numa das salas de espera.
À medida que o tempo passava, os olhos iam-lhe entrando em pausa no centro das órbitas. Ao mesmo tempo, o pescoço endurecia e o aperto do colarinho tornava-se insuportável. Era por isso que, sempre que usava gravata, a camisa tinha de ser, pelo menos, um número acima.
Mas logo se havia esquecido disso para tão importante ocasião. E foi com os colarinhos afastados, o botão de cima desapertado e o nó da gravata aparcado por baixo da maçã-de-adão, que ele aguardava, impaciente e suado, a chegada da noiva.

(continua)


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segunda-feira, março 10, 2008

A Cura...

Saímos na última noite do último dia. O vento tinha levado a luz e caminhámos por instinto. De tão denso, o céu pesava dentro de nós. A tempestade, iminente. Deste-me a mão e um trovão mudo, apenas sentido, rasgou a cidade. Partilhámos o frio que ambos sentíamos num toque de pele.
Foi quando nos aproximámos de onde tudo termina, que os vimos. Seguiam todos o mesmo destino. O teu olhar respondeu que sim ao meu e fomos. Esvaídos e em dor.

Abrimos os olhos ao mesmo tempo. Sorriste e disseste que era bom estarmos ali, juntos.

... no início do mundo.


texto inspirado (?!) na Plainsong, dos The Cure


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terça-feira, março 04, 2008

O Som da Música

Desde Julho de 2005 que este blogue anda a dar "música" – mudo, apenas em forma de letras arrumadas umas a seguir às outras mas, ainda assim, "música". Pois bem, isso vai mudar. Ou melhor, vai-se agravar. É que para além da música que entra pelos olhos, vai-se passar a disponibilizar aqui da outra, da que perfura a cera acumulada nas orelhas e faz vibrar tímpanos, estribos, martelos, bigornas e outras miudezas que tal.
O objectivo não é senão ambicioso: fazer o leitor/ouvidor ir desta para melhor, ou seja, fazê-lo sonhar (está bem, eu confesso: ocasionalmente, o objectivo vai ser provocar pesadelos, que nem só de sonhos vive o homem e a mulher moderna).
Aviso: Não deve a música ser encarada como banda sonora do texto que a precederá.

Culpem a hora de música apresentada na Radar. Mas não se assustem em demasia, que só toca se vocês apertarem o botão esquerdo do rato em cima do símbolo play.

Por termos encontro marcado no próximo sábado, aqui ficam os The Cure.

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PS - a ver se arranjo tempo e cabeça para voltar aos textos... the hills are alive with the sound of music...

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

(parêntese)

Só para recordar que é já no próximo sábado, dia 1 de Março, às 17h00 que passa a minha hora musical na Radar 97.8FM Emissão online, aqui.

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Sentidos Únicos

Tem um trabalho ingrato: apagador-chefe, na Imensa Autoridade dos Caminhos da Vida. Compete-lhe eliminar os vestígios das estradas caminhadas pelas pessoas que não querem voltar atrás.

Só apaga a pedido e quando aceitou tal emprego, julgou que iria ter uma vida regalada de pouco ter que fazer. Quem é que não quer – nem que seja por um instante, para apenas matar saudades ou recordar algo – guardar o caminho que o trouxe ao sítio em que se encontra?

Por má estrada que fosse, por irregular que fosse o piso, sempre foi onde se deixou algo nosso, pedaços daquilo que somos. Podemos até nem querer voltar para trás, mas havemos sempre de querer saber o caminho. Nunca se sabe para onde vamos a seguir e, às vezes, pode ser útil amanhã o que não nos faz falta hoje.

Assim tinha avaliado a coisa. Mas a verdade que encontrou muito o surpreendeu: não havia mãos a medir, a toda a hora recebe pedidos para obliterar trajectos. Sem nunca conseguir evitar o espanto com tanta vontade de esquecer, lá vai ele, empurrando o carrinho de mão, a pá e a vassoura.

Tem um trabalho ingrato porque lhe custa recolher os despojos de vidas vividas. Cada objecto caído, cada memória abandonada, como se fossem partes de corpos, em nada diferentes de um braço, uma perna, um coração. Também eles necessários para viver.

Decididos a serem esquecidos, recolhe corpos mutilados, vidas mutiladas. E sente a sua definhar.

Talvez seja por isso que, ao contrário das ordens que tem, não incinera nada no fim de cada dia. Guarda tudo o que encontra no armazém dos fundos: tem esperança que um dia lhe apareça alguém, arrependido, à procura do caminho apagado, e ele possa depois ajudar.

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Intempérie no Sofá

Quem não leu o penúltimo post, deverá fazê-lo aqui, antes de prosseguir - não demora nada.


Sebastião não conteve o arroto. Um efémero, mas inequívoco aroma a tremoço e malte fermentado rodopiou-lhe boca fora. Estava sozinho mas, ainda assim, sentiu uma ponta de vergonha pelo descuido.

Acomodou-se no sofá sem grande convicção. Não fosse a anemia do mercúrio no termómetro e o aviso do Instituto de Meteorologia que as vagas iriam estar particularmente alteradas, estaria a pescar à beira Tejo, a procurar gaivotas passadas, a confirmar o horário dos navios pela previsão de chegadas publicada no site da Administração do Porto de Lisboa. E a sonhar.

Distraía-se facilmente com o movimento portuário, em casa não. Deitou-se, com as pernas no ar, por cima de um dos braços do sofá. Por causa do gosto pelos navios, comprou uns binóculos para lhes conseguir ler o nome e uma máquina fotográfica para os registar para memória futura – sempre no mesmo enquadramento: do lado da foz, com os silos da Trafaria em fundo. Encontrava no facto – presumido – de ser o único dos presentes à beira mar que sabia que tipo de navio se tratava, bem como qual a sua carga, um motivo de grande satisfação. Era como se possuísse um grande segredo pelo qual muitos estariam dispostos a pagar avultadas quantias – e mesmo a matar – para conseguir. Enquanto mudava chumbadas e cobria anzóis com isco, inventava para si um personagem, sempre enigmático e solitário, membro de uma sociedade secreta, uma espécie de Templário Naval: sem super-poderes, mas com muita astúcia, engenho e pulmão, o que lhe permitia atravessar a nado o Tejo de Belém a Porto Brandão, debaixo de água, de um fôlego só. Eram momentos em que lhe vinham à tona das ideias intrigas aguadas, que navegavam à volta de navios graneleiros, porta-contentores, tanques químicos, navios de guerra, bombas terríveis, mais os terroristas do costume e que culminavam, regra geral, com a salvação da pátria. Estes filmes faziam-no sentir-se útil, alguém com uma missão, com um propósito na vida – pelo menos, durante os dois pares de horas em que estava à pesca e que regressava a casa de eléctrico.

Mas com a ondulação ao sabor da intempérie não havia peixe que fosse ao anzol e doía-lhe também a garganta. O frio húmido, que o vento conseguia fazer passar pelos mais pequenos orifícios da roupa, não lhe iria fazer nenhum bem e assim, ficou em casa a ouvir o relato dos jogos da Taça.

Aos quinze minutos de jogo não havia golos. Os vários relatores do serviço público de rádio iam dando conta das (poucas) incidências futebolísticas de norte a sul do país – sem esquecer os arquipélagos –, quando Sebastião viu uma seta sulcar as águas na sua direcção. Um frio glaciar tomou conta de si. Completamente ensopado e gelado, sentia os pulmões espalmados, pendurados dentro de si ao sabor de um vento cortante que, impiedosamente, lhe abria feridas na carne. Respirar exigia-lhe um esforço tremendo e doíam-lhe todos os ossos da caixa torácica. Aos outros ossos, não os sentia sequer. Julgou-se dentro de uma enorme caixa metálica em que tudo era cor de ferrugem: o céu, as nuvens, os edifícios, as margens, a água.

Estava em pleno rio, a debater-se com extrema dificuldade para se manter à tona, quando reparou num enorme navio que contornava o farol do Bugio. A única cor daquele lugar era uma estreita faixa vermelho-sangue que percorria o casco a todo o comprimento, junto à linha de água. Uma seta apontada a si. E aproximava-se a grande velocidade, afastando para os lados as águas castanhas com desprezo e rudeza.

Retirou um pequeno binóculo de um dos bolsos do colete – que usava por cima de uma T-shirt com a imagem do Rambo a segurar uma metralhadora e a frase “Get Some, Baby” – e apontou-o à proa. Maersk Beaumont, leu. Como se tivesse levado uma injecção de adrenalina, Sebastião começou a nadar furiosamente na direcção da margem norte ao mesmo tempo que fazia uma avaliação da situação: navio porta-contentores do tipo panamax, foi construído nos estaleiros da Volkswerft, em Stralsund, na Alemanha; com um comprimento total de 294 metros, 32 metros de boca, 53.868 toneladas de deadweight, 48.853 toneladas de arqueação bruta, calado de 12,2 metros e uma capacidade de 4196 contentores standard. Está registado em Londres, propriedade do armador Bambini di Dio, que mais não é que uma fachada da famigerada organização internacional de malfeitores conhecida como Cosa Vostra.

Confirmava-se o relatório que tinha recebido dias antes: era esperado a qualquer momento um atentado com uma bomba atómica em Lisboa. Sabia agora que era transportada num dos muitos contentores a bordo. Àquela velocidade e naquela direcção o navio iria ser arremessado contra a Torre de Belém, fazendo assim deflagrar a bomba. Lisboa seria arrasada até Chelas. Não havia tempo a perder. Um futuro em que a Baixa seria na Zona J, era algo inconcebível. Mas o navio estava já muito próximo dele. Não havia um segundo a perder.

Carregado com instrumentos variados – aqueles com que um agente secreto nunca sai de casa sem – não conseguia velocidade. A proa era agora um monstro marinho imenso que se preparava para o tragar. Foi empurrado para o lado pela ondulação que a deslocação que tão grande animal provoca e afogou-se.

A primeira coisa que viu foram estrelas, depois uma baleia e o Capitão Nemo a acenar-lhe atrás de uma das vigias redonda do Nautilus. Atrás de um outro vidro ia um senhor de barbas, com ar antigo e distinto, que só podia ser Julio Verne. Gostava imenso dos seus livros, que tinha lido em criança com irrepetível prazer. Numa terceira vigia, surpresa das surpresas, vestido num dos seus habituais fatos que ferem a vista, estava o Elvis, que lhe sorriu um sorriso níveo, de dentes perfeitamente alinhados. Não estava gordo.

Começava a achar que a morte era uma coisa esquisita, quando ouviu um canto ao longe. Era belo, entoado numa voz juvenil, pura, que nada tinha a ver com aquele sítio frio e feio. À medida que a canção se tornava mais perceptível, viu que uma pequena figura feminina se aproximava, ondulante. De súbito, detrás de uma serapilheira velha que por ali boiava, surgiu-lhe Ariel, a Pequena Sereia. Era bela como a sua voz, de longos cabelos ruivos que pareciam dançar ao sabor da corrente. A criança, metade mulher, metade peixe, deteve-se a alguns metros dele, a cantar. Colocou depois uma mão sobre o coração e ergueu a outra na direcção do céu, enchendo as guelras de água e fechando os olhos. Ia terminar a canção com um vibrato poderoso, quando a sucção provocada pela rotação das enormes pás da hélice do navio lhe interrompeu a actuação, despedaçando-a em todas as direcções. O gosto do sangue meio humano, meio poiquilotérmico, misturado com esgoto, provocou em Sebastião um efeito estranho: de um momento para o outro o barulho do navio tornou-se de novo audível – ensurdecedor, na verdade – a água voltou a ficar gelada e os seus ossos e pulmões a doer as dores de todos os infernos.

Projectado para longe pelo turbilhão provocado pela hélice do Beaumont, percebeu que não estava ainda afogado. Conseguiu reunir a presença de espírito necessária para se livrar do colete e das calças que, encharcados e com os bolsos cheios, faziam-no pesar quase o dobro – não sem antes ter ficado com um saco de plástico transparente, que tinha um fecho de correr, o que o tornava estanque – e nadou até à superfície.

Quando veio à tona, já sabia como deter o navio que, naquela altura, deixava para trás a praia da Cruz Quebrada. Com o corpo trémulo e roxo de frio, parecia um cadáver ligado à corrente eléctrica. Cheio de dores e a mal sentir os membros, conseguiu retirar do saco um transmissor de rádio – que ligou e sintonizou na frequência desejada – e um GPS, que também ligou. O plano era simples: estava ao largo da barra do Tejo, a caminho de Plymouth, o HMS Tireless, submarino classe Trafalgar, da Royal Navy, que transporta mísseis de cruzeiro UGM-84 Harpoon; apenas um, seria mais que suficiente para deter o Beaumont; bastava contactá-lo e dar-lhe as coordenadas da Torre de Belém. O dia estaria salvo.

“HMS Tireless… HMS Tireless…” Impiedosamente fustigado pela ondulação e com as forças a abandoná-lo, Sebastião tinha dificuldade em falar e em se manter à tona. “HMS Tireless…” insistiu ele, “Sebastião calling… HMS… please, please…” Nada. O Beaumont estava já a poucas centenas de metros da Torre de Belém. A esperança abandonava Sebastião quando do rádio saiu um som engasgado e embrulhado em estática. Ao longe, mas sem deixar dúvidas, ouvia-se uma voz. “HMS Tireless, Sabastião calling, I need your help”, gritou ele com renovado ânimo. Uma voz formou-se nos circuitos do aparelho e ecoou bem alto na sala: “GOOOOOOOOOOOLO… Juninho Pernambucano a fazer o primeiro tento da sua equipa… uma boa jogada pelo flanco direito do ataque…”

Sebastião deu um salto no sofá, caiu mal e rebolou para o chão, batendo com a testa no soalho. Com as pernas dormentes, sem se conseguir levantar, afagava o sítio onde o galo iria nascer e pensava nas inúmeras vantagens que havia em sonhar acordado.


terça-feira, fevereiro 12, 2008

Os Meus 15 Minutos de Fama Radiofónica

É ainda o autor que vos escreve.

Preparava-me eu para publicar o tal texto meio cavilha, meio prego pequeno (amigo do senhorio) quando - surpresa boa - a Radio Radar, 97.8FM (ouvir aqui) me convidou para apresentar uma hora de música por mim escolhida e que eu lhes tinha enviado há algum tempo - para quem ouve a rádio, trata-se d'A Hora do Bolo.
Tenho estado a arear tachos, panelas e formas e a reunir os ingredientes para amanhã ir gravar a dita cuja. A emissão da coisa é aos sábados às 17h e repete domingo às 16h - esqueci-me de perguntar se o meu bolo é fatiado já no próximo fim-de-semana ou noutro posterior; de qualquer maneira, fica prometido para quinta-feira uma adenda a este texto com mais pormenores e notas da gravação.

Adenda
A coisa deu-se. Está dentro de um computador à espera de ser lançada ao éter. Vai ser dia 1 de Março, sábado, às 17h; repete dia 9, domingo, às 16h - falta ainda tempo suficiente para voltarmos a este assunto aqui no blogue.

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

O Tamanho É Importante...

... ponto de interrogação.

É quem mantém este jardim florido, conhecido por Malefícios da Felicidade, que vos escreve, o autor, não qualquer narrador de ocasião, como é costume por estas bandas -
desta vez, não há história... nem estória.
E é com o coração nas mãos que me apresento perante vós - vejam lá onde é que se encostam, para não se sujarem de sangue, que a gerência não tem verba para lavandarias.

Não é sobre isso em que estão a pensar que vos quero escrever. O que aqui me traz é o tamanho daquilo que escrevo.
Ultimamente, tenho-me interrogado se faço bem em partir os contos (!?) às postas. Não consigo deixar de achar que, quando é publicada a parte seguinte, já ninguém se lembra do que ficou dito antes, perdendo-se assim o encadeamento mínimo que permite apreciar o fino recorte literário que por aqui não existe - a mim acontece-me esquecer detalhes mais ou menos importantes, confesso, que também escrevo às postas.
Assim, sinto-me tentado a por tudo à mostra de uma só vez, independentemente do tamanho. Nem que seja só para experimentar,
o próximo texto, que em termos de tamanho e usando linguagem de loja de ferragens, não é propriamente uma cavilha, mas também não é um amigo do senhorio, vai todo junto, ficando ao critério do paciente leitor a forma de melhor o pregar: se de uma martelada, se de marteladas várias (tenho quadros para pendurar, o que querem). Isto implica é uma coisa: preguiçoso como sou, sou capaz de demorar a publicar - não que isso importe, eu sei, mas já está escrito e vou deixar ficar.

E agora vou, que ainda tenho que ligar os aspersores.

Obrigado.


terça-feira, janeiro 29, 2008

Seis Estações Para o Destino (3)

As últimas pessoas que saíram da composição iam já a meio da escada. Não havia sinal da rapariga das calças escritas, nem da leitora de Goethe. Quis lembrar-se do rosto delas e não conseguiu. Frederico não tinha nada para lhes dizer mas, inexplicavelmente, sentia que faltava alguma coisa – na confusão da saída, não tinha guardado memória delas enquanto pessoas, apenas enquanto significados que lhes atribuiu. Sabia que as não voltaria a ver.

Deu três passos largos na direcção dos degraus e subiu-os aos pares, quase atropelando um casal de idosos a quem já não era permitida pressa. Estacou. Muitas pessoas seguiam em todas as direcções. Rodou a cabeça na direcção dos acessos à rua. Nada. Foi então que, na direcção do acesso à linha vermelha, viu um conjunto muito coeso de caracóis louros a navegar por entre um mar de cabelos escuros. Ainda havia esperança. Deu o impulso necessário para começar a correr, mas algo lhe reteve o braço direito. Olhou espantado para uma coisa pálida, sarapintada de manchas castanhas e percorrida por finos fios esverdeados que estava agarrada ao seu cotovelo. Parecia ser algo mole, sem força, mas uma série de protuberâncias articuladas, que dela saiam, cheias de cabelos engelhados, mantinha-o no lugar. Uma voz débil misturou-se com o barulho da hora de ponta que começava e coou-lhe na cabeça, aumentando a sua confusão. E se havia coisa que Frederico não apreciava era confusão. E traição e desordem.

“O senhor viu o que fez?” Conseguiu desviar o olhar da coisa branca – que, percebia agora, era carne – e encarou um velhote que o mirava com uma intensidade inusitada. Reparou que o homem tinha duas coisas daquelas, uma no seu cotovelo e a outra estava entregue a uma mulher, velha como ele, com o cabelo branco como ele, da mesma altura dele, com uma gabardine amarelo-torrado igual à dele e com uma cara de reprovação igual à dele. “Não viu, pois não?” Quis dizer alguma coisa, mas olhou antes na direcção da linha vermelha. Os caracóis tinham desaparecido. “Pois fique sabendo que ia dando um valente encontrão na minha mulher”, continuou o homem, fulminando-o com um olhar que, há uns anos atrás, teria queimado. “Sabe que ela sofre dos ossos e que se você a derruba tínhamos aqui um grande sarilho?” “Se eu a ia derrubando é porque não derrubei”, respondeu-lhe Frederico, ao mesmo tempo que, com um movimento brusco, se libertou da mão do homem. Antes de sair a correr, ainda pediu desculpa, ao que o velho respondeu alguma coisa que não ouviu.

Foi encontrar a mulher a meio da passadeira rolante, presa no tráfego congestionado por quem aproveita a boleia mecânica para dar descanso aos passos. Viu também a rapariga da ganga grafitada. Tinha ido pela escada lateral. Avançou uns metros e virou-se para trás, sorrindo. Surpreendido, Frederico pensou que tinha sido apanhado: a rapariga tinha percebido que ele a estava a observar. Ia voltar para trás quando reparou que não era para si que ela sorria. Acabada de desaguar da passadeira, a mulher arrumava o jovem Werther na mala que levava a tiracolo. Depois, num gesto gracioso passou o braço direito por cima dos ombros da rapariga, que continuava a sorrir e que, por sua vez, passou o braço esquerdo pelas costas da mãe, que lhe devolveu o sorriso.

Seguiram abraçadas em direcção a Oriente.

Frederico voltou para trás. Tinha a cara rasgada pelos lábios – se se visse ao espelho, ter-se-ia certamente espantado com a elasticidade da sua boca. Não viu o casal passar por si, mas na sua cabeça duas vozes débeis fizeram-se ouvir: “mal-educado”.


FIM

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Seis Estações Para o Destino (2)

Mais uma paragem. Duas pequenas multidões cruzam-se ao abrir da porta, numa sucessão de encontrões que a ninguém parece perturbar. Quem chega não tem onde se sentar. Nas expressões, vê-se instalar uma ainda maior pressa em dali sair. Mas o semáforo não passou a verde e ali ficaram todos, imóveis, muito ciosos do seu pequeno território, partilhando o mesmo ar saturado e a mesma impaciência. Frederico apreciou o tempo extra, que a resposta teimava em não chegar, mas um movimento feito por uma passageira, captado pelo canto do olho, chamou-lhe a atenção e distraiu-o do raciocínio que tinha eleito como passatempo. Um simples virar de página.

De pé, ao fundo da carruagem, entre os dois bancos, uma mulher lia um livro. Era uns anos mais velha, tinha a cabeça cheia de caracóis louros e o olhar escondido atrás de compridas pestanas, fiel à leitura. Usava a triskle celta num colar e vestia discretamente, em tons de Outono. Não tinha nada escrito na roupa nem havia nela o mínimo vestígio de rebeldia ou protesto, no entanto, algo fez com que Frederico a associasse à rapariga das calças escritas – talvez fosse por estar a ler aquele livro ou, simplesmente, por estar a ler um livro, cada vez mais um acto de rebeldia. “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, de Goethe.

Um apito estridente soou, as portas da carruagem fecharam-se e o comboio reiniciou a marcha. Alegre, eu, por haver partido! Frederico, que havia feito um trabalho sobre ele na Faculdade, não conteve o riso e soltou uma pequena gargalhada, ao recordar as primeiras palavras do livro. Um rapaz com muitas borbulhas na cara, que estava ao seu lado, olhou para ele fazendo-o corar. Tossiu para disfarçar.

Talvez fosse o pequeno pingente, que lhe caia no peito, a ligação. Os olhos de Frederico ganharam um súbito brilho ao recordar a tatuagem que a sua amiga Lara tinha nas costas, logo abaixo do pescoço. Mais estilizado, era aquele mesmo símbolo que a mulher usava no colar. E ele até sabia o que significava, que Lara tinha feito questão de lho explicar durante um jantar de amigos: de origem celta, ligado à natureza, representa as três faces da mulher – a anciã, a mãe e a virgem – e é usado como talismã, atraindo as três principais qualidades femininas – intuição, ternura e beleza – ajudando a proteger dos males. Na altura a coisa complicou-se, quando Tomás, um amigo comum, interrogou Lara – em modos que pareceram a Frederico algo bruscos e que ele atribuiu a algum excesso de álcool – se ela sabia quem Simone de Beauvoir era e como é que alguém, em pleno século XXI, para mais uma fêmea, podia reduzir a mulher a apenas três facetas. Mais vale irem todas para casa passar a ferro. Lara, que não era de se ficar, tratou de contra-argumentar. Filipa e Teresa juntaram-se-lhe. Vendo-se em inferioridade numérica, sem apoio dos restantes homens presentes, Tomás subiu para uma cadeira falou brevemente em Betty Friedan e chamou-as de incultas, abandonando o tema feminismo para passar a atacar essas bruxarias em que vocês acreditam e com que, alegremente, pintam o corpo.

Frederico, a quem nada daquilo interessava, foi para a varanda apanhar ar com a secreta esperança que Filipa também fosse. Seria uma boa oportunidade para meter conversa com ela, que tema não faltava. Mas ela não foi e, semanas depois, ele continuava à espera de uma desculpa para lhe ligar. Mulheres, pensou ele com um suspiro. Com ar intrigado, o rapaz das borbulhas mirava-o pelo canto do olho.

Sim, mulheres. Frederico regressou à carruagem. Trazia conclusões: a leitora de Goethe, à sua maneira, discretamente, acabava também, tal como a rapariga, por proclamar parte das suas crenças, no fundo, parte daquilo que ela era. Talvez todos o façamos durante a nossa vida, de uma maneira ou de outra, pensou.

Olhou para si de alto a baixo. Virou-se para a porta e observou com a minúcia que lhe foi possível o seu reflexo no vidro. O que diriam de si aquelas roupas, o seu cabelo desgrenhado e a barba de três dias? Algo mais que ele não tinha gosto para se vestir e que frequentava um mau barbeiro? Estaria alguém a observá-lo naquele preciso momento e a tirar conclusões? Subitamente assustado, olhou na direcção do rapaz das borbulhas que, o mais depressa que conseguiu, desviou o olhar para a publicidade a um crédito telefónico, tentando disfarçar.

Frederico ia explicar-lhe o porquê de se estar a ver ao “espelho” – não podia deixar que o outro achasse que era vaidoso –, mas as portas abriram-se e o rapaz tomou a direcção da saída. Sucederam-se vários encontrões e vagos pedidos de licença. Muita gente saia ali, inclusivamente a rapariga das calças escritas e a mulher do livro. Frederico sentiu-se perdido e desorientado. Uma catadupa de decisões a tomar bloqueou-lhe as sinapses. Onde estava? Olhou para o apeadeiro. Alameda. Era também ali que saía. Tomou a direcção da porta, mas já ninguém saía, só se entrava e ninguém se mostrou solidário com os seus pedidos de passagem. Foi a custo – e à força de empurrões – que conseguiu sair no último momento, tendo ainda sido apertado pelas portas que já se uniam. (continua, ainda)


quarta-feira, janeiro 16, 2008

Seis Estações Para o Destino (1)

No cais da estação de Metro, com as biqueiras sujas dos All Star milimetricamente perpendiculares à linha amarela, pensava nas traições que a idade lhe começava a infligir – aquela dor que se lhe enfiava na zona dos rins sempre que estava de pé, na mesma posição, mais que dois minutos era uma dessas traições. Cerrou os dentes com força. Se havia coisa que não apreciava, era traição.

O volume de voz da rapariga que, pelos altifalantes, mantinha os impacientes passageiros ao corrente das notícias de há dois dias, aumentou, anunciando, ainda antes do placard electrónico, a aproximação da composição ferroviária. Um sopro quente, com cheiro de carris soterrados, foi empurrado para a galeria do arquitecto Siza, precipitando os corpos, até então respeitadores, para lá da linha. Um senhor gordo e demasiado vestido, que transpirava abundantemente das patilhas, deu-lhe um encontrão, fazendo-o pisar o risco. Cerrou também os punhos com força – não apreciava traições nem desordem.

Foi encafuado não tanto por vontade própria, mas pelas circunstâncias, numa das extremidades da composição, junto à porta que só abre no trajecto inverso. De pé, que nem tentou procurar lugar sentado, tão grande era a ansiedade em aliviar o peso do corpo que sentiu nos companheiros de viagem. Teria de suportar os rins durante seis estações. Nada a que não estivesse habituado. Antes assim. Bem vistas as coisas, ia mais à vontade pé, que nunca sabe onde pousar o olhar quando tem desconhecidos sentados mesmo à sua frente. Encontrou conforto na máxima que lhe ocorreu naquele momento: suporta-se melhor o lombo dorido que o olhar perdido.

Sorria para dentro quando uma rapariga lhe chamou a atenção – não tanto ela, mas mais as calças que usava. Depois de matutar no assunto durante um momento, Frederico concluiu que começava a não ter também já idade para se recordar de algumas coisas que tinham tido importância na sua juventude. Começavam a ficar já longe demais, ténues vestígios que, amiúde e pelas razões mais estranhas, o faziam regressar ao passado. Viu-se no alto de uma comprida curva que lhe fez lembrar o dorso de um Dromedário. Subitamente, a curva estremeceu e ele desequilibrou-se, começando a cair em direcção a uma das extremidades. Tinha 35 anos e sentia-se velho.

O comboio chiou no aperto da curva e deu um solavanco tal que o arrancou do sítio e dos pensamentos cinzentos. Reconquistado o equilibrio, achou curioso o tipo de questões que com ele implicavam, mesmo quando se encontrava em sofrível situação de equilíbrio, entalado entre desconhecidos e em permanente esforço de contenção, tentando não tocar em alguém.

Do que ele não se tinha conseguido lembrar da sua juventude, eram as razões que o tinham levado a, no 10º ano, escrever a esferográfica numa mochila verde-tropa em que carregava um caderno e alguns livros para a escola. É que a rapariga sentada perto dele – e que teria a sua idade de então – tinha as calças de ganga todas escritas a esferográfica. Havia letras de todo o formato, tamanho e cores. Umas redondas, outras angulosas. Havia palavras isoladas e frases mais ou menos longas. Umas eram em português, mas a maioria em inglês. Havia filosofia e muita música. Um tratado de vida, concluiu Frederico, sem saber bem o que isso significava.

The only moment we were alone. First breathe after coma. Your hand in mine. Six days at the bottom of the ocean. Three Seed. Lets dance to Joy Division. The stylish kid in the riot. Cool kids wear Ray Ban. Poupar a vontade. Amar é metade de crer. Carpe Diem.

Havia mais, mas não conseguiu ler por impossibilidade de se aproximar.

Nos anos 80, pelo menos na sua escola, chegou a ser moda, mas hoje, depois de tanta coisa ter acontecido, pensava que a juventude já tinha encontrado outras formas de exteriorizar as suas crenças e angústias – coisas mais “radicais”, como tatuagens e piercings. Mas a rapariga ali estava, sentada perto dele, olhar vago e muito compenetrada na música que lhe chegava através de dois fios brancos, que desapareciam num saco que ela transportava ao ombro.

Faltavam quatro estações para o destino, o tempo possível para que Frederico se recordasse das razões que o tinham levado, há muitos anos, a escrever na sua mochila, que à superfície lhe era mais difícil divagar. Eram coisas que hoje lhe pareciam parvas – Up The Irons, Megadeth, peace sells but who’s buying, Hell Raiser, é proibido proibir… Carpe Diem, um clássico destas coisas –, mas que na altura lhe pareceram ser de rebeldia, anti-o-que-quer-que-fosse, muito anti-quem-mandava. Seriam as mesmas razões que levavam uma adolescente a escrever nas calças, hoje? Concentrou-se.