quarta-feira, abril 02, 2008

O Estojo (6)

A assinatura do contrato processou-se sem atribulações de maior e foi já com um sorriso menos evidente, mas mais natural, que Joaquim entrou no restaurante onde ia decorrer o copo-de-água com a mulher pelo braço.
O almoço foi ali para os lados das Amoreiras, na Valenciana que, segundo Joaquim, “tinha uma sala ampla e arejada”, não contando que os fossem sentar próximo do grelhador, nem que a extracção de fumos não desse resposta a tanto fumo.

Deolinda não conhecia o sítio, mas aceitou prontamente quando a vizinha Celeste lhe disse que o restaurante tinha fama nos frangos assados.
Foi, portanto, com manifesto desagrado que ouviu da boca do empregado a ementa:


– Temos canja de galinha, bacalhau no forno com batata a murro e febras na brasa. A sobremesa pode ser…
– Psst, psst… – o avô de Joaquim puxou o empregado pelas calças. – Oiça lá, e para molhar o gógó?
– Para beber, há tinto da casa, sumos e águas – sem ter conseguido ouvir, a mulher repetiu-lhe as opções ao ouvido.
– Esse tinto é de onde? – gritou o idoso.
– Da zona de Aveiras… e para sobremesa, pudim, leite-creme ou mousse de chocolate – e foi-se embora, apressado.
– Então, mas eu… pensava que… – Deolinda tentou articular uma frase coerente, mas as ideias atropelavam-se. Olhava para o marido, mas não o via. – Tu… tu não…

– Dois pratos, hã!? Carne e peixe! O senhor não disse, mas o café e um chiripiti no fim, também estão incluídos – afirmou ele, com manifesto agrado.
– O teu avô não consegue roer as febras, que não tem dentes – a avó, do outro lado da mesa, franzia o olho direito na direcção do neto. – E eu é coisa que também não aprecio, que a carne fica sempre seca e rija.
– Comam frango, prontos! Eu peço ao senhor para trocar.
– Eu
também quero frango – as palavras saíram de dentro de Deolinda arrastadas e cortantes, como se fossem feitas de ferro demoradamente afiado.

Entretanto, a sua cabeleira sucumbira ao fumo dos grelhados e tinha-lhe caído para os ombros e para os olhos. A sentir um calor cada vez mais insuportável a subir dentro de si, soprava a franja com evidente má cara, quando o avô berrou sem destinatário definido:


– Em Aveiras também há vinho?

(continua)

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segunda-feira, março 31, 2008

O Estojo (5)

Dentro de um saia-casaco madrepérola, escolhido pela mãe, Deolinda parecia ter ainda menos que os cento e cinquenta e cinco centímetros que lhe haviam sido concedidos. O facto de estar descalça, não ajudava.
Tinha pousado o bouquet de jacintos e malmequeres – rodeados de hera por todos os lados – na mesa e estava sentada, a soprar para a testa. Parecia indiferente à má disposição do Conservador.


– Bom, parece que agora estamos todos. Podemos dar inicio à cerimónia.

Esbaforido, o noivo entrou na sala e atirou com os avós para as primeiras cadeiras vazias que encontrou. A sala era pequena mas, com tão poucos convidados, parecia vazia. Joaquim tinha tentando convencer Deolinda a deixá-lo convidar os amigos apenas para a cerimónia, algo que ela prontamente rejeitou:


– Como se eu acreditasse que, depois, aquela cambada não se ia fazer ao almoço à borla… – e acrescentou com um silvo: – Cambada…

Deolinda não tinha amigos para convidar. Durante os anos de escola esteve sempre demasiado preocupada em ter as melhores notas – o que conseguiu – e, quando terminou a faculdade, em arranjar um emprego que não lhe exigisse muito esforço. O que, na área da programação informática, se veio a revelar inexistente. Assim, deixou um emprego aliciante e bem pago numa multinacional, para ajudar os pais na loja de animais.

Joaquim ficou muito hirto no meio do corredor, a sorrir. Passou a mão pelo gel do cabelo e ajeitou o nó da gravata, que depressa voltou à posição original. Um tufo de pêlos espreitava por entre os colarinhos, quando ele avançou lentamente na direcção da noiva. A marcha nupcial fez-se ouvir na instalação sonora da sala Cristal.

(continua)

quinta-feira, março 27, 2008

O Estojo (4)

Foi já depois do Conservador ter ameaçado Deolinda pela segunda vez que se ia embora, e dos pais do noivo conjecturarem sobre um possível rapto e pedido de resgate – “vê-se tanto, hoje em dia, com esta malandragem toda à solta”, disse a mãe dele à comadre – que Joaquim, finalmente, encontrou os avós. Estavam sentados na última fila da sala Turquesa, a assistir a um casamento de imigrantes angolanos.


– Avô, avó… venham – sussurrou Joaquim, de cócoras, junto a eles.
– Ah, estás aí – gritou o avô.
– Venham.
– Já estás despachado? – por esta altura, perante os gritos do avô que, surdo, só falava aos berros, a Conservadora tinha interrompido a cerimónia e todos os convidados, mais os noivos, estavam virados para trás.
– Vai começar agora, venham… – Joaquim ia puxando o avô pelo braço.
– Nunca mais te vimos.
– Vocês não estavam onde eu os deixei.

– O teu avô teve que ir mijar, sabes como ele é. Depois já só havia lugar aqui – disse a avó, também aos gritos.

Sem conseguir mexer o pescoço e a cabeça, com um sorriso de orelha a orelha, Joaquim fez uma vénia à audiência, na esperança que percebessem tratar-se de um pedido de desculpas.


– Esta malta também se casa, afinal – berrou o avô. – Não tarda nada, estão cheios de filhos.
– Se não tiverem já meia dúzia deles – concordou a avó.

O casal de idosos foi projectado para fora da sala com um empurrão e Joaquim fez outra vénia aos aturdidos espectadores. Quis dizer algo, mas não conseguiu articular uma palavra.

(continua)


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segunda-feira, março 24, 2008

O Estojo (3)

A cerimónia foi marcada para um final de manhã de Maio, que calhou quente e caótico. Encostado a uma parede, mesmo por baixo de uma saída de ar condicionado, Joaquim reflectia sobre a possibilidade de todos os casais solteiros de Lisboa e arredores terem escolhido aquele dia para contrair matrimónio. Era tanta a confusão de noivos e convidados, que pareciam estar ali todos reunidos para um grande casamento em conjunto.
Um homem com um grande bigode e uma proeminente barriga, de casaco de camurça castanho pendurado no braço e a abanar-se com a ponta da gravata, veio encostar-se à parede, perto dele. A sua camisa azul clara era agora azul escura, das manchas de suor. O homem olhou para cima e abanou a cabeça com pesar: dali não viria alivio para os seus padecimentos, o ar condicionado ou estava desligado ou cansado demais para fazer alguma diferença num dia como aquele.


– Os padres estão lixados – disse ele a Joaquim. – Já ninguém casa pela igreja. É bem-feita, quero é que eles se lixem – não obteve resposta.

Por entre a confusão de fatos escuros, vestidos de folhos com motivos florais e crianças transformadas em adultos miniatura, que corriam em todas as direcções, Joaquim, de sorriso e pescoço esticados, espreitava um carro parado à porta da Conservatória.
O ruído era quase ensurdecedor. Havia quem chamasse pelos padrinhos, havia quem procurasse crianças extraviadas, havia quem chorasse e miúdos que gritavam a plenos pulmões, só pelo prazer de gritar.


– Grande ajuntamento, hein? Isto parece aquela coisa dos casamentos de Santo António, não parece? – perguntou o homem, dando-lhe um toque com o cotovelo.
– Não, não parece – Joaquim sorria, mas tinha cara de poucos amigos. – Esses são na igreja – e foi ter com o sogro, que tinha vindo também espreitar o carro.
– Que chatice, isto… – o olhar do noivo tinha já petrificado por completo.
– Quando é que vamos ter a sala livre? Ainda falta muito para o casamento acabar? – o sogro estava visivelmente zangado.
– Atrasou… sabe como são estas coisas…
– O que eu sei é que a Deolinda deve estar a assar como um leitão, dentro do carro. Devíamos ter chegado atrasados, como manda a lei.

Joaquim ia corrigi-lo, dizendo que ela estaria a assar como uma leitoa, mas um súbito nó nas tripas interrompeu-lhe a frase: nunca mais se tinha lembrado dos avós.

(continua)



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quinta-feira, março 20, 2008

O Estojo (2)

Deolinda não tinha feitio para nervos. Bem vistas as coisas, não tinha feitio para coisa alguma. Quando Joaquim, cinco semanas antes, à porta da Zara do Colombo, subitamente se ajoelhou à sua frente e lhe pediu a mão, ela, após recuperar de um caju que se lhe atravessou na garganta, respondeu logo que sim. Não por convicção – e amor era um conceito que só conhecia das revistas que lia no escaparate do Feira Nova –, apenas porque já eram quase nove e meia da noite e ainda não tinha jantado.


– Deolinda Prazeres, eu, por minha honra, Joaquim Aleluia, peço-te a tua mão para contraíres matrimónio comigo.
– Er… cof… cof… ai Nosso Senhor Jesus Cristo me acuda… cof… cof… sim, está bem… cof cof… bate-me nas costas, Quim, faz alguma coisa, homem de Deus…

Com o fruto do Cajueiro cá fora, beijaram-se brevemente e ela lembrou-se de uma coisa importante.


– Não era suposto haver um anel?
– Ora bolas! Esqueci-me dele no porta-luvas… eu vou lá…
– O tanas! Vamos mas é jantar.

E foram. À Portugália, que a fila para o Sr. Frango da Guia – de longe, o preferido de Deolinda – tinha para mais de vinte pessoas.


– Estás contente? – perguntou ele, molhando uma batata frita na gema do ovo a cavalo.
– Eh! – exclamou ela, encolhendo os ombros. – Gosto mais do franguinho, mas como desta vez até pediste da vazia… – e voltou a encolher os ombros.

(continua)


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segunda-feira, março 17, 2008

O Estojo (1)

Momentos antes de proferirem as palavras mais importantes das suas vidas, todo ele era dentes, toda ela era cabelos.
A Joaquim, entre outras reacções morfológicas, os nervos faziam-lhe esticar os cantos da boca, afastar os lábios e achatar o nariz. Sob pressão, ele sorria.
De cabelo fraco e pouco cuidado, sempre que Deolinda se sujeitava a tratos de cabeleireiro, parecia sair de lá envolta em electricidade estática, apontando cada cabelo em sua direcção – sendo que nenhum para baixo.
Era assim que estavam, lado a lado, a escutar sem grande atenção o Conservador que, daí a pouco, os ia declarar marido e mulher.


* * *


Joaquim apresentou-se na Conservatória do Registo Civil cinco quartos de hora antes do inicio da cerimónia. “Não fosse o diabo tecê-las”, tinha ele justificado aos pais e avós paternos, os únicos convidados que o orçamento tinha permitido – avós maternos, já não tinha. Estava, obviamente, sorridente quando foi sentar o casal de idosos numa das salas de espera.
À medida que o tempo passava, os olhos iam-lhe entrando em pausa no centro das órbitas. Ao mesmo tempo, o pescoço endurecia e o aperto do colarinho tornava-se insuportável. Era por isso que, sempre que usava gravata, a camisa tinha de ser, pelo menos, um número acima.
Mas logo se havia esquecido disso para tão importante ocasião. E foi com os colarinhos afastados, o botão de cima desapertado e o nó da gravata aparcado por baixo da maçã-de-adão, que ele aguardava, impaciente e suado, a chegada da noiva.

(continua)


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segunda-feira, março 10, 2008

A Cura...

Saímos na última noite do último dia. O vento tinha levado a luz e caminhámos por instinto. De tão denso, o céu pesava dentro de nós. A tempestade, iminente. Deste-me a mão e um trovão mudo, apenas sentido, rasgou a cidade. Partilhámos o frio que ambos sentíamos num toque de pele.
Foi quando nos aproximámos de onde tudo termina, que os vimos. Seguiam todos o mesmo destino. O teu olhar respondeu que sim ao meu e fomos. Esvaídos e em dor.

Abrimos os olhos ao mesmo tempo. Sorriste e disseste que era bom estarmos ali, juntos.

... no início do mundo.


texto inspirado (?!) na Plainsong, dos The Cure


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terça-feira, março 04, 2008

O Som da Música

Desde Julho de 2005 que este blogue anda a dar "música" – mudo, apenas em forma de letras arrumadas umas a seguir às outras mas, ainda assim, "música". Pois bem, isso vai mudar. Ou melhor, vai-se agravar. É que para além da música que entra pelos olhos, vai-se passar a disponibilizar aqui da outra, da que perfura a cera acumulada nas orelhas e faz vibrar tímpanos, estribos, martelos, bigornas e outras miudezas que tal.
O objectivo não é senão ambicioso: fazer o leitor/ouvidor ir desta para melhor, ou seja, fazê-lo sonhar (está bem, eu confesso: ocasionalmente, o objectivo vai ser provocar pesadelos, que nem só de sonhos vive o homem e a mulher moderna).
Aviso: Não deve a música ser encarada como banda sonora do texto que a precederá.

Culpem a hora de música apresentada na Radar. Mas não se assustem em demasia, que só toca se vocês apertarem o botão esquerdo do rato em cima do símbolo play.

Por termos encontro marcado no próximo sábado, aqui ficam os The Cure.

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PS - a ver se arranjo tempo e cabeça para voltar aos textos... the hills are alive with the sound of music...

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

(parêntese)

Só para recordar que é já no próximo sábado, dia 1 de Março, às 17h00 que passa a minha hora musical na Radar 97.8FM Emissão online, aqui.

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Sentidos Únicos

Tem um trabalho ingrato: apagador-chefe, na Imensa Autoridade dos Caminhos da Vida. Compete-lhe eliminar os vestígios das estradas caminhadas pelas pessoas que não querem voltar atrás.

Só apaga a pedido e quando aceitou tal emprego, julgou que iria ter uma vida regalada de pouco ter que fazer. Quem é que não quer – nem que seja por um instante, para apenas matar saudades ou recordar algo – guardar o caminho que o trouxe ao sítio em que se encontra?

Por má estrada que fosse, por irregular que fosse o piso, sempre foi onde se deixou algo nosso, pedaços daquilo que somos. Podemos até nem querer voltar para trás, mas havemos sempre de querer saber o caminho. Nunca se sabe para onde vamos a seguir e, às vezes, pode ser útil amanhã o que não nos faz falta hoje.

Assim tinha avaliado a coisa. Mas a verdade que encontrou muito o surpreendeu: não havia mãos a medir, a toda a hora recebe pedidos para obliterar trajectos. Sem nunca conseguir evitar o espanto com tanta vontade de esquecer, lá vai ele, empurrando o carrinho de mão, a pá e a vassoura.

Tem um trabalho ingrato porque lhe custa recolher os despojos de vidas vividas. Cada objecto caído, cada memória abandonada, como se fossem partes de corpos, em nada diferentes de um braço, uma perna, um coração. Também eles necessários para viver.

Decididos a serem esquecidos, recolhe corpos mutilados, vidas mutiladas. E sente a sua definhar.

Talvez seja por isso que, ao contrário das ordens que tem, não incinera nada no fim de cada dia. Guarda tudo o que encontra no armazém dos fundos: tem esperança que um dia lhe apareça alguém, arrependido, à procura do caminho apagado, e ele possa depois ajudar.

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Intempérie no Sofá

Quem não leu o penúltimo post, deverá fazê-lo aqui, antes de prosseguir - não demora nada.


Sebastião não conteve o arroto. Um efémero, mas inequívoco aroma a tremoço e malte fermentado rodopiou-lhe boca fora. Estava sozinho mas, ainda assim, sentiu uma ponta de vergonha pelo descuido.

Acomodou-se no sofá sem grande convicção. Não fosse a anemia do mercúrio no termómetro e o aviso do Instituto de Meteorologia que as vagas iriam estar particularmente alteradas, estaria a pescar à beira Tejo, a procurar gaivotas passadas, a confirmar o horário dos navios pela previsão de chegadas publicada no site da Administração do Porto de Lisboa. E a sonhar.

Distraía-se facilmente com o movimento portuário, em casa não. Deitou-se, com as pernas no ar, por cima de um dos braços do sofá. Por causa do gosto pelos navios, comprou uns binóculos para lhes conseguir ler o nome e uma máquina fotográfica para os registar para memória futura – sempre no mesmo enquadramento: do lado da foz, com os silos da Trafaria em fundo. Encontrava no facto – presumido – de ser o único dos presentes à beira mar que sabia que tipo de navio se tratava, bem como qual a sua carga, um motivo de grande satisfação. Era como se possuísse um grande segredo pelo qual muitos estariam dispostos a pagar avultadas quantias – e mesmo a matar – para conseguir. Enquanto mudava chumbadas e cobria anzóis com isco, inventava para si um personagem, sempre enigmático e solitário, membro de uma sociedade secreta, uma espécie de Templário Naval: sem super-poderes, mas com muita astúcia, engenho e pulmão, o que lhe permitia atravessar a nado o Tejo de Belém a Porto Brandão, debaixo de água, de um fôlego só. Eram momentos em que lhe vinham à tona das ideias intrigas aguadas, que navegavam à volta de navios graneleiros, porta-contentores, tanques químicos, navios de guerra, bombas terríveis, mais os terroristas do costume e que culminavam, regra geral, com a salvação da pátria. Estes filmes faziam-no sentir-se útil, alguém com uma missão, com um propósito na vida – pelo menos, durante os dois pares de horas em que estava à pesca e que regressava a casa de eléctrico.

Mas com a ondulação ao sabor da intempérie não havia peixe que fosse ao anzol e doía-lhe também a garganta. O frio húmido, que o vento conseguia fazer passar pelos mais pequenos orifícios da roupa, não lhe iria fazer nenhum bem e assim, ficou em casa a ouvir o relato dos jogos da Taça.

Aos quinze minutos de jogo não havia golos. Os vários relatores do serviço público de rádio iam dando conta das (poucas) incidências futebolísticas de norte a sul do país – sem esquecer os arquipélagos –, quando Sebastião viu uma seta sulcar as águas na sua direcção. Um frio glaciar tomou conta de si. Completamente ensopado e gelado, sentia os pulmões espalmados, pendurados dentro de si ao sabor de um vento cortante que, impiedosamente, lhe abria feridas na carne. Respirar exigia-lhe um esforço tremendo e doíam-lhe todos os ossos da caixa torácica. Aos outros ossos, não os sentia sequer. Julgou-se dentro de uma enorme caixa metálica em que tudo era cor de ferrugem: o céu, as nuvens, os edifícios, as margens, a água.

Estava em pleno rio, a debater-se com extrema dificuldade para se manter à tona, quando reparou num enorme navio que contornava o farol do Bugio. A única cor daquele lugar era uma estreita faixa vermelho-sangue que percorria o casco a todo o comprimento, junto à linha de água. Uma seta apontada a si. E aproximava-se a grande velocidade, afastando para os lados as águas castanhas com desprezo e rudeza.

Retirou um pequeno binóculo de um dos bolsos do colete – que usava por cima de uma T-shirt com a imagem do Rambo a segurar uma metralhadora e a frase “Get Some, Baby” – e apontou-o à proa. Maersk Beaumont, leu. Como se tivesse levado uma injecção de adrenalina, Sebastião começou a nadar furiosamente na direcção da margem norte ao mesmo tempo que fazia uma avaliação da situação: navio porta-contentores do tipo panamax, foi construído nos estaleiros da Volkswerft, em Stralsund, na Alemanha; com um comprimento total de 294 metros, 32 metros de boca, 53.868 toneladas de deadweight, 48.853 toneladas de arqueação bruta, calado de 12,2 metros e uma capacidade de 4196 contentores standard. Está registado em Londres, propriedade do armador Bambini di Dio, que mais não é que uma fachada da famigerada organização internacional de malfeitores conhecida como Cosa Vostra.

Confirmava-se o relatório que tinha recebido dias antes: era esperado a qualquer momento um atentado com uma bomba atómica em Lisboa. Sabia agora que era transportada num dos muitos contentores a bordo. Àquela velocidade e naquela direcção o navio iria ser arremessado contra a Torre de Belém, fazendo assim deflagrar a bomba. Lisboa seria arrasada até Chelas. Não havia tempo a perder. Um futuro em que a Baixa seria na Zona J, era algo inconcebível. Mas o navio estava já muito próximo dele. Não havia um segundo a perder.

Carregado com instrumentos variados – aqueles com que um agente secreto nunca sai de casa sem – não conseguia velocidade. A proa era agora um monstro marinho imenso que se preparava para o tragar. Foi empurrado para o lado pela ondulação que a deslocação que tão grande animal provoca e afogou-se.

A primeira coisa que viu foram estrelas, depois uma baleia e o Capitão Nemo a acenar-lhe atrás de uma das vigias redonda do Nautilus. Atrás de um outro vidro ia um senhor de barbas, com ar antigo e distinto, que só podia ser Julio Verne. Gostava imenso dos seus livros, que tinha lido em criança com irrepetível prazer. Numa terceira vigia, surpresa das surpresas, vestido num dos seus habituais fatos que ferem a vista, estava o Elvis, que lhe sorriu um sorriso níveo, de dentes perfeitamente alinhados. Não estava gordo.

Começava a achar que a morte era uma coisa esquisita, quando ouviu um canto ao longe. Era belo, entoado numa voz juvenil, pura, que nada tinha a ver com aquele sítio frio e feio. À medida que a canção se tornava mais perceptível, viu que uma pequena figura feminina se aproximava, ondulante. De súbito, detrás de uma serapilheira velha que por ali boiava, surgiu-lhe Ariel, a Pequena Sereia. Era bela como a sua voz, de longos cabelos ruivos que pareciam dançar ao sabor da corrente. A criança, metade mulher, metade peixe, deteve-se a alguns metros dele, a cantar. Colocou depois uma mão sobre o coração e ergueu a outra na direcção do céu, enchendo as guelras de água e fechando os olhos. Ia terminar a canção com um vibrato poderoso, quando a sucção provocada pela rotação das enormes pás da hélice do navio lhe interrompeu a actuação, despedaçando-a em todas as direcções. O gosto do sangue meio humano, meio poiquilotérmico, misturado com esgoto, provocou em Sebastião um efeito estranho: de um momento para o outro o barulho do navio tornou-se de novo audível – ensurdecedor, na verdade – a água voltou a ficar gelada e os seus ossos e pulmões a doer as dores de todos os infernos.

Projectado para longe pelo turbilhão provocado pela hélice do Beaumont, percebeu que não estava ainda afogado. Conseguiu reunir a presença de espírito necessária para se livrar do colete e das calças que, encharcados e com os bolsos cheios, faziam-no pesar quase o dobro – não sem antes ter ficado com um saco de plástico transparente, que tinha um fecho de correr, o que o tornava estanque – e nadou até à superfície.

Quando veio à tona, já sabia como deter o navio que, naquela altura, deixava para trás a praia da Cruz Quebrada. Com o corpo trémulo e roxo de frio, parecia um cadáver ligado à corrente eléctrica. Cheio de dores e a mal sentir os membros, conseguiu retirar do saco um transmissor de rádio – que ligou e sintonizou na frequência desejada – e um GPS, que também ligou. O plano era simples: estava ao largo da barra do Tejo, a caminho de Plymouth, o HMS Tireless, submarino classe Trafalgar, da Royal Navy, que transporta mísseis de cruzeiro UGM-84 Harpoon; apenas um, seria mais que suficiente para deter o Beaumont; bastava contactá-lo e dar-lhe as coordenadas da Torre de Belém. O dia estaria salvo.

“HMS Tireless… HMS Tireless…” Impiedosamente fustigado pela ondulação e com as forças a abandoná-lo, Sebastião tinha dificuldade em falar e em se manter à tona. “HMS Tireless…” insistiu ele, “Sebastião calling… HMS… please, please…” Nada. O Beaumont estava já a poucas centenas de metros da Torre de Belém. A esperança abandonava Sebastião quando do rádio saiu um som engasgado e embrulhado em estática. Ao longe, mas sem deixar dúvidas, ouvia-se uma voz. “HMS Tireless, Sabastião calling, I need your help”, gritou ele com renovado ânimo. Uma voz formou-se nos circuitos do aparelho e ecoou bem alto na sala: “GOOOOOOOOOOOLO… Juninho Pernambucano a fazer o primeiro tento da sua equipa… uma boa jogada pelo flanco direito do ataque…”

Sebastião deu um salto no sofá, caiu mal e rebolou para o chão, batendo com a testa no soalho. Com as pernas dormentes, sem se conseguir levantar, afagava o sítio onde o galo iria nascer e pensava nas inúmeras vantagens que havia em sonhar acordado.


terça-feira, fevereiro 12, 2008

Os Meus 15 Minutos de Fama Radiofónica

É ainda o autor que vos escreve.

Preparava-me eu para publicar o tal texto meio cavilha, meio prego pequeno (amigo do senhorio) quando - surpresa boa - a Radio Radar, 97.8FM (ouvir aqui) me convidou para apresentar uma hora de música por mim escolhida e que eu lhes tinha enviado há algum tempo - para quem ouve a rádio, trata-se d'A Hora do Bolo.
Tenho estado a arear tachos, panelas e formas e a reunir os ingredientes para amanhã ir gravar a dita cuja. A emissão da coisa é aos sábados às 17h e repete domingo às 16h - esqueci-me de perguntar se o meu bolo é fatiado já no próximo fim-de-semana ou noutro posterior; de qualquer maneira, fica prometido para quinta-feira uma adenda a este texto com mais pormenores e notas da gravação.

Adenda
A coisa deu-se. Está dentro de um computador à espera de ser lançada ao éter. Vai ser dia 1 de Março, sábado, às 17h; repete dia 9, domingo, às 16h - falta ainda tempo suficiente para voltarmos a este assunto aqui no blogue.

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

O Tamanho É Importante...

... ponto de interrogação.

É quem mantém este jardim florido, conhecido por Malefícios da Felicidade, que vos escreve, o autor, não qualquer narrador de ocasião, como é costume por estas bandas -
desta vez, não há história... nem estória.
E é com o coração nas mãos que me apresento perante vós - vejam lá onde é que se encostam, para não se sujarem de sangue, que a gerência não tem verba para lavandarias.

Não é sobre isso em que estão a pensar que vos quero escrever. O que aqui me traz é o tamanho daquilo que escrevo.
Ultimamente, tenho-me interrogado se faço bem em partir os contos (!?) às postas. Não consigo deixar de achar que, quando é publicada a parte seguinte, já ninguém se lembra do que ficou dito antes, perdendo-se assim o encadeamento mínimo que permite apreciar o fino recorte literário que por aqui não existe - a mim acontece-me esquecer detalhes mais ou menos importantes, confesso, que também escrevo às postas.
Assim, sinto-me tentado a por tudo à mostra de uma só vez, independentemente do tamanho. Nem que seja só para experimentar,
o próximo texto, que em termos de tamanho e usando linguagem de loja de ferragens, não é propriamente uma cavilha, mas também não é um amigo do senhorio, vai todo junto, ficando ao critério do paciente leitor a forma de melhor o pregar: se de uma martelada, se de marteladas várias (tenho quadros para pendurar, o que querem). Isto implica é uma coisa: preguiçoso como sou, sou capaz de demorar a publicar - não que isso importe, eu sei, mas já está escrito e vou deixar ficar.

E agora vou, que ainda tenho que ligar os aspersores.

Obrigado.


terça-feira, janeiro 29, 2008

Seis Estações Para o Destino (3)

As últimas pessoas que saíram da composição iam já a meio da escada. Não havia sinal da rapariga das calças escritas, nem da leitora de Goethe. Quis lembrar-se do rosto delas e não conseguiu. Frederico não tinha nada para lhes dizer mas, inexplicavelmente, sentia que faltava alguma coisa – na confusão da saída, não tinha guardado memória delas enquanto pessoas, apenas enquanto significados que lhes atribuiu. Sabia que as não voltaria a ver.

Deu três passos largos na direcção dos degraus e subiu-os aos pares, quase atropelando um casal de idosos a quem já não era permitida pressa. Estacou. Muitas pessoas seguiam em todas as direcções. Rodou a cabeça na direcção dos acessos à rua. Nada. Foi então que, na direcção do acesso à linha vermelha, viu um conjunto muito coeso de caracóis louros a navegar por entre um mar de cabelos escuros. Ainda havia esperança. Deu o impulso necessário para começar a correr, mas algo lhe reteve o braço direito. Olhou espantado para uma coisa pálida, sarapintada de manchas castanhas e percorrida por finos fios esverdeados que estava agarrada ao seu cotovelo. Parecia ser algo mole, sem força, mas uma série de protuberâncias articuladas, que dela saiam, cheias de cabelos engelhados, mantinha-o no lugar. Uma voz débil misturou-se com o barulho da hora de ponta que começava e coou-lhe na cabeça, aumentando a sua confusão. E se havia coisa que Frederico não apreciava era confusão. E traição e desordem.

“O senhor viu o que fez?” Conseguiu desviar o olhar da coisa branca – que, percebia agora, era carne – e encarou um velhote que o mirava com uma intensidade inusitada. Reparou que o homem tinha duas coisas daquelas, uma no seu cotovelo e a outra estava entregue a uma mulher, velha como ele, com o cabelo branco como ele, da mesma altura dele, com uma gabardine amarelo-torrado igual à dele e com uma cara de reprovação igual à dele. “Não viu, pois não?” Quis dizer alguma coisa, mas olhou antes na direcção da linha vermelha. Os caracóis tinham desaparecido. “Pois fique sabendo que ia dando um valente encontrão na minha mulher”, continuou o homem, fulminando-o com um olhar que, há uns anos atrás, teria queimado. “Sabe que ela sofre dos ossos e que se você a derruba tínhamos aqui um grande sarilho?” “Se eu a ia derrubando é porque não derrubei”, respondeu-lhe Frederico, ao mesmo tempo que, com um movimento brusco, se libertou da mão do homem. Antes de sair a correr, ainda pediu desculpa, ao que o velho respondeu alguma coisa que não ouviu.

Foi encontrar a mulher a meio da passadeira rolante, presa no tráfego congestionado por quem aproveita a boleia mecânica para dar descanso aos passos. Viu também a rapariga da ganga grafitada. Tinha ido pela escada lateral. Avançou uns metros e virou-se para trás, sorrindo. Surpreendido, Frederico pensou que tinha sido apanhado: a rapariga tinha percebido que ele a estava a observar. Ia voltar para trás quando reparou que não era para si que ela sorria. Acabada de desaguar da passadeira, a mulher arrumava o jovem Werther na mala que levava a tiracolo. Depois, num gesto gracioso passou o braço direito por cima dos ombros da rapariga, que continuava a sorrir e que, por sua vez, passou o braço esquerdo pelas costas da mãe, que lhe devolveu o sorriso.

Seguiram abraçadas em direcção a Oriente.

Frederico voltou para trás. Tinha a cara rasgada pelos lábios – se se visse ao espelho, ter-se-ia certamente espantado com a elasticidade da sua boca. Não viu o casal passar por si, mas na sua cabeça duas vozes débeis fizeram-se ouvir: “mal-educado”.


FIM

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Seis Estações Para o Destino (2)

Mais uma paragem. Duas pequenas multidões cruzam-se ao abrir da porta, numa sucessão de encontrões que a ninguém parece perturbar. Quem chega não tem onde se sentar. Nas expressões, vê-se instalar uma ainda maior pressa em dali sair. Mas o semáforo não passou a verde e ali ficaram todos, imóveis, muito ciosos do seu pequeno território, partilhando o mesmo ar saturado e a mesma impaciência. Frederico apreciou o tempo extra, que a resposta teimava em não chegar, mas um movimento feito por uma passageira, captado pelo canto do olho, chamou-lhe a atenção e distraiu-o do raciocínio que tinha eleito como passatempo. Um simples virar de página.

De pé, ao fundo da carruagem, entre os dois bancos, uma mulher lia um livro. Era uns anos mais velha, tinha a cabeça cheia de caracóis louros e o olhar escondido atrás de compridas pestanas, fiel à leitura. Usava a triskle celta num colar e vestia discretamente, em tons de Outono. Não tinha nada escrito na roupa nem havia nela o mínimo vestígio de rebeldia ou protesto, no entanto, algo fez com que Frederico a associasse à rapariga das calças escritas – talvez fosse por estar a ler aquele livro ou, simplesmente, por estar a ler um livro, cada vez mais um acto de rebeldia. “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, de Goethe.

Um apito estridente soou, as portas da carruagem fecharam-se e o comboio reiniciou a marcha. Alegre, eu, por haver partido! Frederico, que havia feito um trabalho sobre ele na Faculdade, não conteve o riso e soltou uma pequena gargalhada, ao recordar as primeiras palavras do livro. Um rapaz com muitas borbulhas na cara, que estava ao seu lado, olhou para ele fazendo-o corar. Tossiu para disfarçar.

Talvez fosse o pequeno pingente, que lhe caia no peito, a ligação. Os olhos de Frederico ganharam um súbito brilho ao recordar a tatuagem que a sua amiga Lara tinha nas costas, logo abaixo do pescoço. Mais estilizado, era aquele mesmo símbolo que a mulher usava no colar. E ele até sabia o que significava, que Lara tinha feito questão de lho explicar durante um jantar de amigos: de origem celta, ligado à natureza, representa as três faces da mulher – a anciã, a mãe e a virgem – e é usado como talismã, atraindo as três principais qualidades femininas – intuição, ternura e beleza – ajudando a proteger dos males. Na altura a coisa complicou-se, quando Tomás, um amigo comum, interrogou Lara – em modos que pareceram a Frederico algo bruscos e que ele atribuiu a algum excesso de álcool – se ela sabia quem Simone de Beauvoir era e como é que alguém, em pleno século XXI, para mais uma fêmea, podia reduzir a mulher a apenas três facetas. Mais vale irem todas para casa passar a ferro. Lara, que não era de se ficar, tratou de contra-argumentar. Filipa e Teresa juntaram-se-lhe. Vendo-se em inferioridade numérica, sem apoio dos restantes homens presentes, Tomás subiu para uma cadeira falou brevemente em Betty Friedan e chamou-as de incultas, abandonando o tema feminismo para passar a atacar essas bruxarias em que vocês acreditam e com que, alegremente, pintam o corpo.

Frederico, a quem nada daquilo interessava, foi para a varanda apanhar ar com a secreta esperança que Filipa também fosse. Seria uma boa oportunidade para meter conversa com ela, que tema não faltava. Mas ela não foi e, semanas depois, ele continuava à espera de uma desculpa para lhe ligar. Mulheres, pensou ele com um suspiro. Com ar intrigado, o rapaz das borbulhas mirava-o pelo canto do olho.

Sim, mulheres. Frederico regressou à carruagem. Trazia conclusões: a leitora de Goethe, à sua maneira, discretamente, acabava também, tal como a rapariga, por proclamar parte das suas crenças, no fundo, parte daquilo que ela era. Talvez todos o façamos durante a nossa vida, de uma maneira ou de outra, pensou.

Olhou para si de alto a baixo. Virou-se para a porta e observou com a minúcia que lhe foi possível o seu reflexo no vidro. O que diriam de si aquelas roupas, o seu cabelo desgrenhado e a barba de três dias? Algo mais que ele não tinha gosto para se vestir e que frequentava um mau barbeiro? Estaria alguém a observá-lo naquele preciso momento e a tirar conclusões? Subitamente assustado, olhou na direcção do rapaz das borbulhas que, o mais depressa que conseguiu, desviou o olhar para a publicidade a um crédito telefónico, tentando disfarçar.

Frederico ia explicar-lhe o porquê de se estar a ver ao “espelho” – não podia deixar que o outro achasse que era vaidoso –, mas as portas abriram-se e o rapaz tomou a direcção da saída. Sucederam-se vários encontrões e vagos pedidos de licença. Muita gente saia ali, inclusivamente a rapariga das calças escritas e a mulher do livro. Frederico sentiu-se perdido e desorientado. Uma catadupa de decisões a tomar bloqueou-lhe as sinapses. Onde estava? Olhou para o apeadeiro. Alameda. Era também ali que saía. Tomou a direcção da porta, mas já ninguém saía, só se entrava e ninguém se mostrou solidário com os seus pedidos de passagem. Foi a custo – e à força de empurrões – que conseguiu sair no último momento, tendo ainda sido apertado pelas portas que já se uniam. (continua, ainda)


quarta-feira, janeiro 16, 2008

Seis Estações Para o Destino (1)

No cais da estação de Metro, com as biqueiras sujas dos All Star milimetricamente perpendiculares à linha amarela, pensava nas traições que a idade lhe começava a infligir – aquela dor que se lhe enfiava na zona dos rins sempre que estava de pé, na mesma posição, mais que dois minutos era uma dessas traições. Cerrou os dentes com força. Se havia coisa que não apreciava, era traição.

O volume de voz da rapariga que, pelos altifalantes, mantinha os impacientes passageiros ao corrente das notícias de há dois dias, aumentou, anunciando, ainda antes do placard electrónico, a aproximação da composição ferroviária. Um sopro quente, com cheiro de carris soterrados, foi empurrado para a galeria do arquitecto Siza, precipitando os corpos, até então respeitadores, para lá da linha. Um senhor gordo e demasiado vestido, que transpirava abundantemente das patilhas, deu-lhe um encontrão, fazendo-o pisar o risco. Cerrou também os punhos com força – não apreciava traições nem desordem.

Foi encafuado não tanto por vontade própria, mas pelas circunstâncias, numa das extremidades da composição, junto à porta que só abre no trajecto inverso. De pé, que nem tentou procurar lugar sentado, tão grande era a ansiedade em aliviar o peso do corpo que sentiu nos companheiros de viagem. Teria de suportar os rins durante seis estações. Nada a que não estivesse habituado. Antes assim. Bem vistas as coisas, ia mais à vontade pé, que nunca sabe onde pousar o olhar quando tem desconhecidos sentados mesmo à sua frente. Encontrou conforto na máxima que lhe ocorreu naquele momento: suporta-se melhor o lombo dorido que o olhar perdido.

Sorria para dentro quando uma rapariga lhe chamou a atenção – não tanto ela, mas mais as calças que usava. Depois de matutar no assunto durante um momento, Frederico concluiu que começava a não ter também já idade para se recordar de algumas coisas que tinham tido importância na sua juventude. Começavam a ficar já longe demais, ténues vestígios que, amiúde e pelas razões mais estranhas, o faziam regressar ao passado. Viu-se no alto de uma comprida curva que lhe fez lembrar o dorso de um Dromedário. Subitamente, a curva estremeceu e ele desequilibrou-se, começando a cair em direcção a uma das extremidades. Tinha 35 anos e sentia-se velho.

O comboio chiou no aperto da curva e deu um solavanco tal que o arrancou do sítio e dos pensamentos cinzentos. Reconquistado o equilibrio, achou curioso o tipo de questões que com ele implicavam, mesmo quando se encontrava em sofrível situação de equilíbrio, entalado entre desconhecidos e em permanente esforço de contenção, tentando não tocar em alguém.

Do que ele não se tinha conseguido lembrar da sua juventude, eram as razões que o tinham levado a, no 10º ano, escrever a esferográfica numa mochila verde-tropa em que carregava um caderno e alguns livros para a escola. É que a rapariga sentada perto dele – e que teria a sua idade de então – tinha as calças de ganga todas escritas a esferográfica. Havia letras de todo o formato, tamanho e cores. Umas redondas, outras angulosas. Havia palavras isoladas e frases mais ou menos longas. Umas eram em português, mas a maioria em inglês. Havia filosofia e muita música. Um tratado de vida, concluiu Frederico, sem saber bem o que isso significava.

The only moment we were alone. First breathe after coma. Your hand in mine. Six days at the bottom of the ocean. Three Seed. Lets dance to Joy Division. The stylish kid in the riot. Cool kids wear Ray Ban. Poupar a vontade. Amar é metade de crer. Carpe Diem.

Havia mais, mas não conseguiu ler por impossibilidade de se aproximar.

Nos anos 80, pelo menos na sua escola, chegou a ser moda, mas hoje, depois de tanta coisa ter acontecido, pensava que a juventude já tinha encontrado outras formas de exteriorizar as suas crenças e angústias – coisas mais “radicais”, como tatuagens e piercings. Mas a rapariga ali estava, sentada perto dele, olhar vago e muito compenetrada na música que lhe chegava através de dois fios brancos, que desapareciam num saco que ela transportava ao ombro.

Faltavam quatro estações para o destino, o tempo possível para que Frederico se recordasse das razões que o tinham levado, há muitos anos, a escrever na sua mochila, que à superfície lhe era mais difícil divagar. Eram coisas que hoje lhe pareciam parvas – Up The Irons, Megadeth, peace sells but who’s buying, Hell Raiser, é proibido proibir… Carpe Diem, um clássico destas coisas –, mas que na altura lhe pareceram ser de rebeldia, anti-o-que-quer-que-fosse, muito anti-quem-mandava. Seriam as mesmas razões que levavam uma adolescente a escrever nas calças, hoje? Concentrou-se.

sexta-feira, dezembro 28, 2007

A/c do Rodrigo Leão

Rodrigo,

Lá estive, mais uma vez. Nunca é a mesma coisa – e ainda que fosse, seria sempre um prazer. Se da penúltima vez nunca tínhamos sido tantos, desta, nunca tínhamos sido tão poucos. Resultou bem a opção intimista, de como quem se encontra no café e começa a falar da vida.

Não terá sido propositado, mas achei feliz a coincidência: local de encontros – ocasionais ou fortuitos – o café é também sítio de observação daqueles cujo trajecto se cruza, num ponto do tempo e do espaço, com o nosso olhar, e nos interrogam, se a isso estivermos dispostos.

Foi isso que aconteceu no sábado passado. Encontro de amigos, que falaram de si, e na tela, os anónimos que, sem terem dito uma palavra, disseram tanto sobre nós, os portugueses – excelente o trabalho do António Barreto, da Joana Pontes e o teu, ao nos retratar tão bem.

Lá estávamos nós, com aquela expressão triste – mesmo quando sorrimos –, a preto e branco, no campo, a caminho da cidade, a esperança que ia ser desta, as barracas…; em miúdos a fazermos fila para nos encherem a caneca com leite; na praia – talvez o sítio onde somos menos fatalistas – a aproveitar cada momento como se no dia seguinte a maré não voltasse; também a cores, mais descontraídos, com cara de quem anseia pelos maiores centros comercias da Europa, que somos pobres, mas desenrascados, e também se desenrasca consumo; lá estavam os velhos que já não são, a olhar com cara de caso para quem lhes tirava o retrato; também vi pressa e fiquei a pensar para onde iríamos nós tão apressados, seria em direcção ao futuro? Sabes o que não vi, Rodrigo? Não vi o Eusébio a marcar golos, ou o Águas a levantar uma das Taças dos Campeões (bons tempos…), também não me lembro de ter visto a Amália, de xaile nos ombros, olhos cinzentos, a fingir um sorriso, e não vi Fátima, a Nossa Senhora em ombros, os lenços a acenar. Teriam as imagens passado, por certo, num daqueles momentos em que eu estava a sonhar, que é coisa que me acontece quando te oiço.

Desta vez, talvez por sermos poucos, imaginei-me um de vocês, alguém que tinha o engenho suficiente para saber tocar um instrumento e estava no palco, a ser provocado pelo olhar maroto da Viviena, como ela faz com o Jano Lisboa ou com a Celina (como ela está a cantar bem; e, já agora, o que dizer da Ana Vieira, do Marco, do Luis Aires ou do Luis San Payo? Todos excelentes). A música também serve para estas coisas, não serve? Para nos transportar para sítios onde se queira muito ir, e lá, sermos aquilo que se consegue ser apenas nos sonhos. E faz-nos querer ser melhores pessoas, limar as arestas, as falhas.

Houve alturas em que eu não estava no Jardim de Inverno, antes, fui protagonista de um filme cujo guião construí com cada acorde da tua música, que é a banda sonora perfeita para o filme das nossas vidas: para os altos e para os baixos, para quando somos apenas nós, ou quando nos partilhamos; quando partilhamos locais. São alturas em que consigo ver esboços de como as coisas deviam ser. Em que é mais fácil vislumbrar os espaços em branco da vida que compete apenas a nós preencher, e que tantas vezes não sabemos onde estão, de tudo nos surgir tão turvo.

Tenho que te confessar que é apenas isso, um fugaz momento, uma fracção ínfima de tempo e que eu não tenho capacidade de apreensão para guardar memória do mapa com o caminho de saída do labirinto, mas é algo tão raro e precioso que, por mais ténue que seja, é muito importante para mim. Sabes, permite-me esperança – algo que ao pessimista raramente é concedido.

Acreditas que, enquanto vos ouvia, vi uma estrela cadente?

Até breve. Um abraço.



Do que se trata .pdf e site

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Francisco e o Caleidoscópio

Gingando pela Rua Augusta, ao som de Lou Reed, ainda e sempre na sua, mas já sem o mesmo speed, segue o seu caminho. Com o leitor de mp3 na algibeira, Francisco o, em tempos, freak da Cantareira. Distraído a tentar perceber as novas tecnologias, vai os esses, rua acima – algo que lhe ficou dos muitos chutos nas retretes e das trips de heroína – com os seus inseparáveis sapatos bicudos e joanetes.
Agora, a noite vem e ele ainda atina. Não é já o maior da Cantareira, ainda tem borbulhas, mas não usa patchouli, nem brilhantina. A cólica, o escorbuto e a caganeira, são uma memória – embora ainda presente e sofrida. Vinte seis anos depois, ainda domina a cena e continua a farejar a judite em cada esquina. A vida, essa, complicou-se e não tem apenas um problema: se antes era o ácido com muita estricnina, agora são os inúmeros créditos a que tem que fazer face todos os meses.
Da Cantareira à Baixa, da Baixa à Cantareira, conhecia os flipados todos de ginjeira, mas agora está em Lisboa, chegou ao Rossio e a ginjinha está fechada por ordem da ASAE. Desconsolado, reparou num tipo que, a seu lado, contempla também a porta fechada da tasca. É um intelectual de ar estafado, um homem de faces cavadas. Na noite, topou imediatamente Francisco. “Por certo, no Bairro Alto”. Como que saindo de um sono profundo, o homem tomou a direcção do Jardim do Regedor.
No silêncio dos seus cansados ténis claros, seguiu em passos largos de dança. Francisco foi atrás. Aquela figura atraía-o. Teve a sensação que o conhecia. Talvez fosse aquela dureza como rocha, que lhe vinha do olhar, através dos óculos. Achou-o fã da violência: vestia cabedal, que era, afinal, napa preta. Parado no tempo!? Não conseguia afirmar, mas percebia nele fome. E agora, quem sabe, não seguia o caminho da fábrica ou do estaleiro. Francisco acelerou o passo e tocou-lhe no ombro. Quando o outro se virou, pareceu-lhe que tinha vestido a pele de um animal em fuga. Estava agressivo, o que, afinal, era a reputação ideal.
– Calma, carago! – Deu um passo atrás ao enfrentar o olhar do outro. – Eu só queria falar…
– Falar o quê? – Respondeu após um breve silêncio e depois de ter mirado o seu interlocutor e quem por eles passava.
– Acho que te conheço.
– De onde?
– De sítio nenhum, antes, de um tempo. – O outro pareceu ficar curioso. – Do inicio dos anos oitenta. Da noite. Do começo de uma mudança. Da música.
– Talvez… é possível. Eu andava por aí, nessa altura. E musica, sempre.
– Percebi isso. É que eu, também. Acho que nós acabámos por resumir bem o sentimento de uma geração – O que quer que fosse essa coisa que tinham em comum, o outro reconheceu-a em Francisco.
– Sim, talvez…
– Havia uma angústia que começou a ser gritada…
– Gritada. – Interrompeu. – Não sei se gritada, pelo menos, logo no inicio mas, pelo menos, a ser mostrada. Uma ânsia, acho que era mais isso.
– Implicou sofrimento, para ti? – A resposta chegou primeiro através de um aceno de cabeça.
– Sim, sim. – Ficaram os dois calados durante algum tempo. – Mudavas alguma coisa?
– Claro que não, carago! Eu estava lá. Fui dos primeiros, estava na vanguarda. – O outro quase sorriu. – Estou com sede, vamos beber uma?
– Bute lá! Mas, com isto tudo, nem nos apresentámos.
– Chico, mais conhecido por Chico Fininho. Portista de gema, em visita à capital.
– A mim, chamam-me Rapaz Caleidoscópio.



A inspiração(!!) deste texto vem, obviamente, do tema Chico Fininho, do Rui Veloso (letra, Carlos Tê; música, Carlos Tê e Rui Veloso) e, menos obviamente, do tema Rapaz Caleidoscópio, dos UHF (letra, António Manuel Ribeiro; música, Renato Gomes e António Manuel Ribeiro)

terça-feira, dezembro 04, 2007

Um Jardim na Planície (7)

Interroguei-me tantas vezes sobre se devia mudar, que me esqueci de mudar fosse o que fosse. Mudar de casa, mudar de comportamento, mudar de atitude, mudar de emprego, mudar de relação. Mudar de vida. Curioso como agora, depois de tudo, me interrogo ainda sobre se pode o nada mudar. Ou será o nada isso mesmo, a ausência de qualquer mudança? A imutabilidade. É desnecessária e inconsequente esta interrogação: vou ter todo o Universo para obter a resposta.
Arrefeceu bastante. Talvez por estar deitado há já algum tempo, tenho muito frio – não que isso me incomode, apenas me assusta. Acho que a temperatura começou a baixar logo a seguir à adolescência, por altura daquele fim-de-semana em que, por ter sido apanhado, sem carta de condução, ao volante de um carro que não era meu, passei a minha primeira noite na esquadra. A revisão destes últimos anos foi um gelo.
Dói-me imenso a nuca.

À medida que grandes nuvens translúcidas se foram instalando no céu amarelo, a luz foi perdendo intensidade e alguns detalhes começaram a notar-se, ainda que sem permitir certezas sobre o que via. As calças aparentavam estar bastante sujas. A camisa também. Seriam marcas de relva, ou talvez… sim, devia ser isso. Cómico e sempre surpreendente como a nossa mente funciona – a minha, pelo menos: perante algo tão definitivo como aquele corpo inerte, ocorreu-me que seria dificílimo tirar as nódoas; que era roupa cara e que eu pouco a tinha vestido; que seria um desperdício não se aproveitar.
Agachei-me e pousei a mão nas minhas costas. Foi quase uma carícia, algo como “foi bom enquanto durou, pá”, em linguagem gestual. Apesar de parcialmente tapado pelo braço, pude ver os contornos familiares do meu rosto. A expressão era a de quem percebeu tarde demais que tinha cometido um erro fatal. Ainda assim, estava eu sereno. Apresentável. Podia ser encontrado pela pessoa mais sensível, que não ia causar grande impressão. Morreste como viveste, está certo, não há muito do que queixar.
A cada minuto que passava a luz perdia força. Era já possível perceber com clareza que as manchas na roupa eram verdes, umas, e vermelhas, outras. As nuvens tinham escurecido e ganho volume, tapando quase totalmente a luz do sol que, até há bem pouco tempo, quase nada tinha deixado ver, de tão intensa.

Trovejou e uma gota vinda do céu estatelou-se na minha têmpora. O impacto foi tremendo e julguei que me esmagava o crânio. O pânico apoderou-se de mim. Quis levantar-me, mas não consegui. Tentei mexer o braço, mas não fui capaz. A perna. A cabeça. Nada funcionava.
Água a cair. Gota a gota. Pareceu-me música. Não muito longe, um automóvel começou a trabalhar e arrancou a alta velocidade, projectando gravilha, que ouvi cair pedra a pedra. O derradeiro vestígio de temperatura abandonou-me e a noite caiu sobre mim com inusitada rapidez. Ainda vi, à minha volta, as sebes a convergir sobre mim, encarcerando-me. A última imagem que guardei foi a do banco de pedra, à minha frente, e a de um rasto de sangue que vinha dele até mim.

Sigo ainda o fumo, que se escapou abundantemente da chaminé, em golfadas sem cor definida. A paisagem não se alterou: a mesma ausência, a mesma tristeza – ou talvez ela não seja assim, e tenham sido os meus olhos que se tornaram cinzentos e eu me tenha tornado vazio; prenuncio do futuro, que ainda não cheguei não sei onde.


FIM

segunda-feira, novembro 26, 2007

Um Jardim na Planície (6)

Braço erguido, punho cerrado, incredulidade que paralisa. Devo ter permanecido assim largo tempo, em torpor, como se a paisagem me estivesse a absorver aos poucos. Sentia-me cada vez mais parte dela.

O que significava realmente aquela frase? Devia interpretá-la literalmente ou havia algo mais, subentendido, escondido, como um enigma num romance de mistério? Agarrei-me à segunda hipótese por receio que fosse tão simples como estava escrito – e tudo o que isso significava.

Afastei-me dali. A terra tinha secado e parecia agora que não chovia há muito tempo, contrariando o que eu tinha visto ao ali chegar. A cada passo que dava, uma pequena nuvem de poeira erguia-se atrás de mim, caindo exactamente no mesmo lugar, cobrindo as minhas pegadas – anulando qualquer vestígio da minha presença. O calor era sufocante e à medida que caminhava parecia haver menos oxigénio disponível. Comecei a arfar e a ter dificuldade em avançar. Tinha também sono e a crescente sensação que algo me abandonava, lentamente. A angústia foi-se instalando à volta do coração, comprimindo-o, e alastrou-se rapidamente. Doía-me tudo quando, esgotado, me prostrei, de joelhos. A cabeça foi-me descaindo até ficar entre os braços, a tocar o asfalto – que já não era suave como uma pista de atletismo, mas rugoso e ressequido como tudo o resto.

Eu estava em pleno cruzamento, não longe da casa, e interrogava-me se valia ainda a pena o esforço de tomar uma outra direcção, procurar outro caminho, deixar a estrada, voltar para trás, avançar. Sair dali.

Uma lágrima surpreendeu-me. Apressei-me a limpá-la. Olhei em redor. Ninguém. Nada. Dei um murro no alcatrão. Ainda aquela maldita resta de esperança, quando era já evidente que ninguém ia aparecer. E era também evidente que, qualquer que fosse a direcção que eu tomasse, acabaria sempre ali, naquele cruzamento, naquela casa – que, percebia-o agora perfeitamente, para mim, não eram apenas o local de inicio de uma jornada, mas também o ponto de chegada.

No céu, o movimento perpétuo dos flocos de neve, mantinha-se. Seguiam em todas as direcções. Com várias formas. Talvez até a velocidades distintas – mas isso eu não conseguia perceber. Que ventos seriam aqueles, que permitiam tamanhas façanhas? Sorri o sorriso dos aliviados; de quem começa a perceber, quando um raio de sol rompeu a formação nebulosa e encheu a paisagem. O banco de pedra, o relvado, a sebe. Em todo o lado, havia agora uma quase total falta de cor. Tudo era em vários tons de branco.

Aguardei por algum movimento, mas nada aconteceu. Fui desnecessariamente cauteloso na aproximação à sebe, à minha frente. O corpo estava de bruços, o rosto quase totalmente tapado pelo braço direito. Era-me familiar. Junto à cabeça, percebiam-se os contornos de uma mancha, que se tinha espalhado, fazendo-a parecer desproporcionada. Um calafrio percorreu-me de alto abaixo, fazendo-me vacilar. Avancei sem o querer fazer: queria afastar-me daquele lugar, mas avançava.

Dirigi-me à lareira. Junto a ela estavam alguns troncos pequenos, cuidadosamente empilhados. Dei por mim a pensar que viriam de longe, que ali não se vislumbravam árvores. E depois ri.

Eram perfeitamente redondos e tinham sido cortados com um único e certeiro golpe, que não deixou qualquer marca nas extremidades, tão lisas estavam. A madeira era ainda verde, jovem. A casca de um tom mais escuro. Um único fósforo estava colocado na boca da lareira. Li novamente a inscrição: O Fumo Indicar-te-à o Caminho.

segunda-feira, novembro 19, 2007

Um Jardim na Planície (5)

O sofá era um prolongamento da paisagem. Cansado, triste, desconfortável. Parecia aguardar por alguém que o levasse, terminada que tinha sido a sua missão. Ainda suportava o meu peso, mas já não permitia descanso e em nada aliviava o mal-estar que, cada vez mais, tomava conta de mim.

Apanhei o pano do chão e tentei perceber-lhe a textura. Seria do tamanho de um lençol e talvez fosse de algodão. Ou de linho. Passeio-o várias vezes entre os dedos e até pela cara e pelos lábios, como tantas vezes eu tinha visto a minha mãe fazer quando, no quintal das traseiras, queria avaliar se a roupa estendida já estava seca. Sem resultado. Eu estava a ficar sem sensibilidade: sentia o que tocava, mas apenas isso.

Mais calmo, mas com a cabeça ainda a doer-me imenso, levantei-me. Estava no centro do que parecia ser uma divisão única. Sozinho. O que eu tinha visto pela fechadura eram apenas enormes panos brancos, que tapavam alguns objectos de vários tamanhos e formas. Até onde conseguia ver – porque as extremidades da habitação estavam submersas por uma densa sombra –, as paredes, repletas dos grandes círculos castanhos da madeira, estavam despidas e não havia qualquer indício que a casa estivesse habitada. Apesar de, inexplicavelmente, não haver qualquer vestígio de pó.

Tacteei pela parede em busca da janela, à direita. Não demorei a sentir o ferro quente do ferrolho. Sem dificuldade, fi-lo subir e depois rodar. Estava bem oleado e não deixou escapar o mínimo ruído. Puxei ambas as portadas. Foi como abrir as comportas de uma barragem a transbordar de luz. Inesperadamente encadeado, ergui as mãos para proteger os olhos. Foi então que, por entre os dedos, vi um vulto a atravessar o relvado amarelo, mesmo à minha frente. Debrucei-me, mas quem quer que fosse já tinha desaparecido atrás de uma sebe. Gritei e, movimento contínuo, fiz por sair pela janela. Estava determinado a não deixar escapar aquela pessoa. Rapidamente, passei a perna esquerda pelo parapeito da janela e, ao passar a direita, o pé embateu numa das portadas e desequilibrei-me, ficando de gatas no alpendre. Quando me ergui não havia sebe, nem relvado, nem sol. Apenas o ofegante som da minha respiração, o meu desalento e o meu desespero, agora renovado e cada vez mais intenso.

Ao fundo, banhados pela ditatorial e fria luz sem vida, os cumes das montanhas circundantes, pareceram convergir em mim. Percebi que não havia saída, eles se assegurariam de não me deixar passar. Nesse momento a esperança cedeu e tudo se iluminou à minha volta. Uma rajada de vento passou a grande velocidade, como se fugisse de algo. O som de um trovão ecoou nas montanhas e o alpendre vibrou. Cerrei o punho direito, armei o braço e preparava-me para esmurrar a madeira junto da janela, quando, através dela, vi uma lareira. Por cima do umbral, uma inscrição numa placa de madeira, fixa na pedra da laje, deteve o meu movimento.


segunda-feira, novembro 12, 2007

Um Jardim na Planície (4)

Quando recuperei a consciência, depois de ter batido com a cabeça, mantive os olhos fechados e não me mexi. Não queria que quem quer que ali estivesse comigo percebesse que tinha voltado a mim. Durante alguns minutos, mantive-me atento ao mais pequeno som, à menor vibração do chão. Não escutei nem senti nada. Apenas uma crescente dificuldade em respirar e uma forte dor no alto da cabeça, que latejava. Contrastando com o exterior, ali o calor era intenso e eu tinha agora a boca muito seca. Os lábios tinham inchado e estavam gretados. A língua era um trapo velho, curtido pelo sol e enrolado na boca, sem qualquer préstimo. Fiz um esforço por me concentrar. Precisava raciocinar, mas o oxigénio parecia estar a desaparecer e o pânico a ocupar o seu lugar.
Com as pontas dos dedos da mão, avaliei a situação como pude: estava virado de barriga para cima; a cabeça inclinada para o meu lado direito; o silêncio era absoluto; o chão era duro e uniforme, talvez em madeira; o cheiro – muito ligeiro – era o mesmo que me tinha chegado pelo buraco da fechadura. Concluí o óbvio: estava dentro da famigerada casa. O mais lentamente que consegui, entreabri a pálpebra direita. A porta estava aberta, à minha frente. Movimentei o olho e algo branco, volumoso e sem forma conhecida, surgiu mesmo ao meu lado. Fechei o olho e esperei. Estaria alguém a vigiar-me? Aguardaria apenas por um movimento para cair sobre mim? O coração começou a bater-me descontroladamente e foi a custo que controlei o impulso de sair dali a correr. Procurei dominar a respiração e os pensamentos. Alguma ideia me havia de ocorrer, apenas necessitava aguentar mais um pouco. Até que senti várias gotas de suor a convergir na têmpora esquerda. Quem está inconsciente também transpira? A garganta contraiu-se e engoli em seco, o que me doeu bastante. Maior, a gota de suor começou a deslizar-me lentamente pela face. Senti que traçava o meu destino. Num movimento que não foi pensado, abri os olhos e levantei-me rapidamente, encarando a figura branca.

No céu, o grande círculo de luz continuava vagamente amarelo e baço. Era como se eu estivesse num lugar fixo no firmamento. Desprovido de movimento de rotação e translação. Por detrás dos farrapos de nuvens, o sol continuava no mesmo local. Imperturbável. Combalido e cada vez mais confuso, eu tinha vindo ao alpendre para tentar perceber quanto tempo tinha estado inconsciente. Não podia ter sido muito.
Tudo permanecia imutável. O horizonte diante de mim, era como que a projecção de um filme com as cores desbotadas e gastas, no ecrã de um cinema antigo, num sítio parado no tempo e no espaço, em que eu era o único espectador. Tudo continuava em suspenso, à espera, como se tudo naquela paisagem tivesse sustido a respiração durante o clímax de uma cena – veio-me à ideia que talvez fosse eu que fizesse parte do filme, e fosse a natureza, diante de mim, que aguardasse pela cena seguinte.
Voltei a entrar na casa, onde a escassa e fria mancha de luz que entrava pela porta, pouco penetrava a escuridão reinante. A meus pés, jazia umas das formas brancas.

terça-feira, novembro 06, 2007

Um Jardim na Planície (3)

A imagem da minha mãe, ainda nova, materializou-se no meu espírito. Tinha aquele ar habitual, em que não se percebia onde terminava a severidade e começava a reprovação. Inclinou um pouco a cabeça e franziu um nada a testa, num movimento que me enchia de terror, enquanto criança.

Depois de muito ter batido à porta e chamado por alguém, tinha-me lembrado de espreitar pelo buraco da fechadura, e foi quando olhei em redor, com receio de ser apanhado em tão flagrante acto de intromissão, que me lembrei da minha mãe.

Mas eu já não era criança e, naquele sítio, no meio do nada, onde nem um insecto se tinha ainda deixado ver; ali, onde só as nuvens pareciam ter vida – fosse aquela massa informe e indistinta, nuvens –, onde nem eu, realmente, sabia se estava, quem se poderia ofender?

Coloquei-me de cócoras. Lentamente, encostei o nariz à madeira, fechei o olho direito e levei o esquerdo à fechadura. Não vi nada. A escuridão era absoluta, mas uma ligeira fragrância parecia escapar-se de dentro da casa. Levei o nariz à estreita abertura da chave e inspirei profundamente. Sem dúvida que havia ali um aroma, mas não consegui identificar a quê. Lembrou-me o Outono e estrelas.

Era noite e estava deitado numa manta, sobre relva, ao ar livre. O céu estava carregado de pontos brancos tremeluzentes. Uma estrela cadente e depois outra. A luz inquieta de uma fogueira reflectia-se vagamente nas copas das árvores, perto de mim. O calor suave do lume chegava-me como se fosse uma carícia. Pensava em como fazer para que aquele momento nunca acabasse, quando uma mão pousou na minha face. O polegar veio ao encontro de uma lágrima que lá não estava e fez o seu percurso até à maçã do rosto. Virei-me para ver quem comigo partilhava aquele instante, mas uma pinha estalou na fogueira e faíscas voaram em todas as direcções. As copas das árvores incendiaram-se e, no céu, as estrelas fundiram-se num mar de luz sem cor que, de tão intensa, não permitia ver nada. O toque suave e cúmplice de há pouco, era agora húmido e viscoso. Quente. E abandonava-me, cara abaixo.

Consegui vislumbrar a relva branca e o banco de pedra. Junto a mim, alguém se afastava. E depois, traves de madeira. Um tecto.

Maldisse a paisagem seca e cansativa. Maldisse a minha sorte e ter nascido. Caído no alpendre, senti pela primeira vez as forças ceder. Merecia a pena levantar-me? Talvez se dormisse um pouco o sonho acabasse.

Fosse tudo um sonho. O desespero fez-me levantar de um pulo e gritei pelo buraco da fechadura. Nada. Voltei a espreitar e, desta vez, deixei que a vista se habituasse à escuridão. Não demorei a vislumbrar vultos brancos. Três, talvez quatro, era difícil perceber. Eram baixos e largos mas, aparentemente, todos diferentes uns dos outros. Apurei a vista e respirei fundo. Precisava perceber o que era aquilo que, recebendo alguma luz que entrava pela fresta da porta, contrastava com a escuridão. Gritei de novo. Estou a vê-los! Sem resposta. A minha imagem reflectida e distorcida pela superfície côncava e dourada do puxador, era a de um desconhecido, tão grande era o transtorno em que me encontrava. Num assomo de fúria, puxei pela maçaneta da porta com quanta força consegui reunir. Ao fazer o movimento contrário, a porta, que estava aberta, escancarou-se e eu caí desamparado, indo bater com a cabeça em algo.