
Os primeiros sons passaram despercebidos aos adultos mas não à criança, que logo se pôs de pé, à escuta, só para ter a absoluta certeza. Eram marteladas descompassadas no telhado, primeiro espaçadas, logo depois uma torrente impetuosa que se alastrou às janelas, cujas vidraças pareciam não estar preparadas para a suster. Quando os adultos ergueram as cabeças dos seus afazeres domésticos, foi para ver a criança a desaparecer na moldura da porta, correndo para a rua, também ele impetuoso. Foram encontrá-lo de joelhos no chão, em pleno passeio, indiferente ao granizo que lhe ia acertando nas costas e na cabeça. “Que fazes”? “Sai daí”. “Tu levas”! gritaram-lhe da protecção da ombreira. “Já, imediatamente”! “Queres ver…” Mas ele não via nem ouvia, consumido pelo desgosto da ausência de gosto. As pedradas do céu acalmaram, por fim, e a mãe foi dar com ele a chupar um grande pedaço de gelo. Sobre ele, caíram então interjeições de incredulidade e violência prometida, que aleijavam mais que qualquer pedrisco.
“Porquê, diz-me só porquê”?! pediu a mãe por entre desconcertante esbracejar, depois de o ter arrastado por um braço para casa. Não lhe respondeu, indo-se fechar no quarto. À janela, procurou sem sucesso consolo na água em que se iam metamorfoseando os seixos gelados. Poderia o seu melhor amigo lhe ter mentido ao contar o quão doce era a neve que um dia comera?