– Estes livros… são de que editora?
De cócoras, o professor hesitava em pegar num dos livros dispostos em cima do plástico, no chão.
– Também não é mencionado o autor… quem é ele? Ou ela…
Sentado no degrau, o homem perscrutava atentamente o semblante do seu interlocutor. Via nele, particularmente no olhar, um interesse e uma curiosidade pelos livros, como nunca antes vira em alguém.
Não se preocupou em responder às perguntas porque não eram realmente perguntas; percebeu as palavras do outro apenas como pensamentos em voz alta, e não quis incomodar. Haveria de responder, mas não era aquele o momento.
Após alguma indecisão, em que a mão se aproximou, para logo se afastar, de vários exemplares, o professor acabou por pegar num deles. Leu alto o título: “Xavier, Visto a Partir do Espelho”. Virou a página.
Junto deles, o ajuntamento revoltado tinha-se já dissolvido e a rua voltara ao ameno ritmo do final das tardes de sábado. A água vinda da janela era já uma memória distante e os comentários indignados, um murmúrio que a brisa não transportava. Notava-se, no entanto, uma diferença na rua: as pessoas iam, já não vinham.
– Não informa a autoria da capa… bom, está bem… mas devia mencionar onde se fez a impressão e encadernação, o ISBN, o depósito legal, a tiragem. Nada disso consta – e, visivelmente intrigado, acrescentou: – Nada normal, uma situação destas…
Estava ausente, num mundo muito seu – só seu –, onde tudo à volta cessara de existir, ficando em suspenso, a aguardar a sua atenção. Era apenas ele e o livro, numa espécie de confronto ritualizado, em que um escondia a verdade e o outro a procurava desvendar. Maravilhava-o, aquele processo de descoberta e não conseguia evitar ficar excitado quando não obtia imediatamente respostas. Há algum tempo que tal não lhe acontecia.
O texto começava logo na primeira página.
Não conheço ninguém que tenha consciência do seu período intra-uterino. Eu tenho. Recordo com inusitado detalhe os últimos meses de gestação. Sim, dos primeiros meses não tenho memória. Não estaria ainda formado o local onde guardamos os pensamentos e os sonhos, dentro de nós. Talvez o facto de conhecer a minha mãe extremamente bem, por dentro e por fora, explique muito daquilo que sou. Daquilo em que me tornei. Se ela me sentiu, como apenas uma mãe sente um filho – tantas vezes me o disse –, também eu a senti, como só um filho sente uma mãe. E sinto ainda, apesar de tudo – e de nunca lhe haver dito tal.
Fechou o livro, observou a lombada e torceu o nariz.
– Temo que não deve ter tido uma vida lá muito interessante, o senhor Xavier – e, nesse momento, tomou consciência da presença do outro. Sentiu-se atrapalhado e as faces ruborizaram quando se interrogou sobre que outras coisas teria dito em voz alta. Apesar de tudo, conhecia-se suficiente bem para saber que, quando se entusiasmava verdadeiramente com algo, tinha o embaraçante hábito de falar sozinho.
Achou-se na obrigação de dar uma explicação.
– É que a autobiografia não conseguiu ocupar assim muito papel… Presumo que não deva ter tido uma vida muito emocionante.
– Consegue-se medir a emoção de uma vida pelo número de páginas em que se fala dela?
O professor sentiu novamente as faces aquecerem. Tossicou, atrapalhado. Ia falar, mas o homem no degrau falou primeiro.
– Peço-lhe desculpa, nem o convidei a sentar. Não quer? – apontou para a cadeira articulada, ao lado dos livros. – Chamo-lhe “A Cadeira do Leitor”.
– Eu… na verdade, não me posso demorar. Habitualmente, a esta hora – olhou para o relógio – já devia estar… em casa.
– Esteja à vontade.
Não disfarçando um esgar de dor, o professor ergueu-se com dificuldade. Tinha estado demasiado tempo agachado e agora doíam-lhe as costas e as articulações. As pernas latejavam-lhe.
– Precipitei-me no juízo de valor. Não cedi a moralismos fáceis… – o seu interlocutor fez-lhe sinal com a mão para esquecer o assunto. – Estes livros… – com a autobiografia na mão, apontou para os livros expostos. O resto da pergunta deixou-a subentendida na sua expressão.
– Edição de autor.
– Não é mencionado o nome do autor.
– Funciona ao contrário. A lógica é outra. Habitualmente, lêem-se as obras sem nunca se conhecer pessoalmente o autor, sabemos apenas o seu nome; mas aqui não: conhece-se o autor ao mesmo tempo que a obra.
– É o senhor o autor.
– Sou eu quem escreve estes livros, sim.
– Onde é que os imprime, como é que faz? – examinou o exemplar que mantinha em sua posse. Tinha uma encadernação impecável.
– São manufacturados por mim, desde a ideia, até à encadernação, passando pela escrita. É um processo solitário, mas nada angustiante, antes pelo contrário, se quer saber – esboçou um sorriso. – Há uma moça que me passa os papéis para o computador. Agora que penso nisso, não é apenas uma relação a dois, entre mim e os livros… tem piada, nunca tinha pensado nisso.
– Directamente do produtor ao consumidor, bem vejo. Mas reparo que o livro também não tem preço indicado.
– Não são para vender.
– Não? – na testa, tinham-se formado uma série de vincos ondulantes, paralelos entre si.
– São para ler.
– Como pode isso ser? Qualquer um destes livros leva o seu tempo a terminar. Certamente, não espera que uma pessoa se sente nessa cadeira a lê-los de uma penada.
– Certamente que não. Até porque apenas me demoro uma hora, duas, no máximo. Essa cadeira, acima de tudo, serve para descansar. Quem passa, pode sentar-se aí e aliviar o peso das pernas e, se quiser, tem o que ler. Um paragrafo, que seja. Se gostar, se tiver interesse no que leu, pode levar.
– Não entendo.
– Os livros são para dar. O senhor, pode escolher um e levá-lo.
– Confia assim nas pessoas? Sabe que vai ficar sem muitos, não sabe.
– Eu não disse que eram para emprestar. Os livros são para dar!
O professor sentou-se na cadeira – que se revelou mais confortável do que aquilo que aparentava – e folheou lentamente a vida de Xavier.
– Não entenda mal a minha pergunta, mas como é que se tem uma ideia destas? O que o levou a… – deixou a pergunta no ar.
– Sinceramente, não sei. Precisava sair de casa, acho.
As folhas passaram uma a uma pelos dedos do professor. Sentiu-se subitamente inquieto. O que disse a seguir deveria ter sido apenas um pensamento.
– Não daria muitas páginas, a minha biografia…
Sentado no degrau, o homem revolveu os bolsos, apenas encontrando um rebuçado peitoral. Suspirou.
– Santo Onofre...
– Eremita. Viveu no deserto – não conteve uma gargalhada, perante a ironia que encontrou no desabafo do outro. Há quanto tempo não ria? – Desculpe-me, mas…
– Está a desculpar-se por rir? Faz tanta falta – guardou o rebuçado, inconformado. – Por acaso não tem um cigarro que me dispense, não?
FIM
