quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Avenidas Velhas (11)

– Estes livros… são de que editora?

De cócoras, o professor hesitava em pegar num dos livros dispostos em cima do plástico, no chão.

– Também não é mencionado o autor… quem é ele? Ou ela…

Sentado no degrau, o homem perscrutava atentamente o semblante do seu interlocutor. Via nele, particularmente no olhar, um interesse e uma curiosidade pelos livros, como nunca antes vira em alguém.

Não se preocupou em responder às perguntas porque não eram realmente perguntas; percebeu as palavras do outro apenas como pensamentos em voz alta, e não quis incomodar. Haveria de responder, mas não era aquele o momento.

Após alguma indecisão, em que a mão se aproximou, para logo se afastar, de vários exemplares, o professor acabou por pegar num deles. Leu alto o título: “Xavier, Visto a Partir do Espelho”. Virou a página.

Junto deles, o ajuntamento revoltado tinha-se já dissolvido e a rua voltara ao ameno ritmo do final das tardes de sábado. A água vinda da janela era já uma memória distante e os comentários indignados, um murmúrio que a brisa não transportava. Notava-se, no entanto, uma diferença na rua: as pessoas iam, já não vinham.

– Não informa a autoria da capa… bom, está bem… mas devia mencionar onde se fez a impressão e encadernação, o ISBN, o depósito legal, a tiragem. Nada disso consta – e, visivelmente intrigado, acrescentou: – Nada normal, uma situação destas…

Estava ausente, num mundo muito seu – só seu –, onde tudo à volta cessara de existir, ficando em suspenso, a aguardar a sua atenção. Era apenas ele e o livro, numa espécie de confronto ritualizado, em que um escondia a verdade e o outro a procurava desvendar. Maravilhava-o, aquele processo de descoberta e não conseguia evitar ficar excitado quando não obtia imediatamente respostas. Há algum tempo que tal não lhe acontecia.

O texto começava logo na primeira página.

Não conheço ninguém que tenha consciência do seu período intra-uterino. Eu tenho. Recordo com inusitado detalhe os últimos meses de gestação. Sim, dos primeiros meses não tenho memória. Não estaria ainda formado o local onde guardamos os pensamentos e os sonhos, dentro de nós. Talvez o facto de conhecer a minha mãe extremamente bem, por dentro e por fora, explique muito daquilo que sou. Daquilo em que me tornei. Se ela me sentiu, como apenas uma mãe sente um filho – tantas vezes me o disse –, também eu a senti, como só um filho sente uma mãe. E sinto ainda, apesar de tudo – e de nunca lhe haver dito tal.

Fechou o livro, observou a lombada e torceu o nariz.

– Temo que não deve ter tido uma vida lá muito interessante, o senhor Xavier – e, nesse momento, tomou consciência da presença do outro. Sentiu-se atrapalhado e as faces ruborizaram quando se interrogou sobre que outras coisas teria dito em voz alta. Apesar de tudo, conhecia-se suficiente bem para saber que, quando se entusiasmava verdadeiramente com algo, tinha o embaraçante hábito de falar sozinho.

Achou-se na obrigação de dar uma explicação.

– É que a autobiografia não conseguiu ocupar assim muito papel… Presumo que não deva ter tido uma vida muito emocionante.

– Consegue-se medir a emoção de uma vida pelo número de páginas em que se fala dela?

O professor sentiu novamente as faces aquecerem. Tossicou, atrapalhado. Ia falar, mas o homem no degrau falou primeiro.

– Peço-lhe desculpa, nem o convidei a sentar. Não quer? – apontou para a cadeira articulada, ao lado dos livros. – Chamo-lhe “A Cadeira do Leitor”.

– Eu… na verdade, não me posso demorar. Habitualmente, a esta hora – olhou para o relógio – já devia estar… em casa.

– Esteja à vontade.

Não disfarçando um esgar de dor, o professor ergueu-se com dificuldade. Tinha estado demasiado tempo agachado e agora doíam-lhe as costas e as articulações. As pernas latejavam-lhe.

– Precipitei-me no juízo de valor. Não cedi a moralismos fáceis… – o seu interlocutor fez-lhe sinal com a mão para esquecer o assunto. – Estes livros… – com a autobiografia na mão, apontou para os livros expostos. O resto da pergunta deixou-a subentendida na sua expressão.

– Edição de autor.

– Não é mencionado o nome do autor.

– Funciona ao contrário. A lógica é outra. Habitualmente, lêem-se as obras sem nunca se conhecer pessoalmente o autor, sabemos apenas o seu nome; mas aqui não: conhece-se o autor ao mesmo tempo que a obra.

– É o senhor o autor.

– Sou eu quem escreve estes livros, sim.

– Onde é que os imprime, como é que faz? – examinou o exemplar que mantinha em sua posse. Tinha uma encadernação impecável.

– São manufacturados por mim, desde a ideia, até à encadernação, passando pela escrita. É um processo solitário, mas nada angustiante, antes pelo contrário, se quer saber – esboçou um sorriso. – Há uma moça que me passa os papéis para o computador. Agora que penso nisso, não é apenas uma relação a dois, entre mim e os livros… tem piada, nunca tinha pensado nisso.

– Directamente do produtor ao consumidor, bem vejo. Mas reparo que o livro também não tem preço indicado.

– Não são para vender.

– Não? – na testa, tinham-se formado uma série de vincos ondulantes, paralelos entre si.

– São para ler.

– Como pode isso ser? Qualquer um destes livros leva o seu tempo a terminar. Certamente, não espera que uma pessoa se sente nessa cadeira a lê-los de uma penada.

– Certamente que não. Até porque apenas me demoro uma hora, duas, no máximo. Essa cadeira, acima de tudo, serve para descansar. Quem passa, pode sentar-se aí e aliviar o peso das pernas e, se quiser, tem o que ler. Um paragrafo, que seja. Se gostar, se tiver interesse no que leu, pode levar.

– Não entendo.

– Os livros são para dar. O senhor, pode escolher um e levá-lo.

– Confia assim nas pessoas? Sabe que vai ficar sem muitos, não sabe.

– Eu não disse que eram para emprestar. Os livros são para dar!

O professor sentou-se na cadeira – que se revelou mais confortável do que aquilo que aparentava – e folheou lentamente a vida de Xavier.

– Não entenda mal a minha pergunta, mas como é que se tem uma ideia destas? O que o levou a… – deixou a pergunta no ar.

– Sinceramente, não sei. Precisava sair de casa, acho.

As folhas passaram uma a uma pelos dedos do professor. Sentiu-se subitamente inquieto. O que disse a seguir deveria ter sido apenas um pensamento.

– Não daria muitas páginas, a minha biografia…

Sentado no degrau, o homem revolveu os bolsos, apenas encontrando um rebuçado peitoral. Suspirou.

– Santo Onofre...

– Eremita. Viveu no deserto – não conteve uma gargalhada, perante a ironia que encontrou no desabafo do outro. Há quanto tempo não ria? – Desculpe-me, mas…

– Está a desculpar-se por rir? Faz tanta falta – guardou o rebuçado, inconformado. – Por acaso não tem um cigarro que me dispense, não?


FIM

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Avenidas Velhas (10)

Chegou ao acesso do Metro da Alameda como o trapezista chega à extremidade do arame, depois de o atravessar. A sensação de alívio confundiu-se com a pressa em tomar o apontamento. Tirou a caneta e a folha do bolso e, no espaço em branco da tabela, escreveu o número 447.

Não fez logo comparações, nem tirou conclusões – este último apontamento era mais o cumprir de uma tarefa a que se tinha proposto, que uma necessidade, pois já tinha obtido a resposta que procurava –, aproveitou para respirar fundo e retomar a compostura que sentia ter perdido na última hora, desde que tomara café na Mexicana. Ajeitou as roupas e passou os dedos pelos cabelos, enquanto olhava em redor, fixando-se em quem passava por si. Ninguém lhe devolveu o olhar. Uma dúvida em particular sobrepôs-se a uma série de dúvidas que tentava processar, naquele momento: o que achariam todas aquelas pessoas das questões – ou seriam problemas?, interrogou-se, sobrepondo mais uma interrogação – que lhe traziam o espírito ocupado nos últimos tempos? Por certo que só se poderiam rir daquele velho, de ar emproado e barriga proeminente. Aquilo não eram problemas, nem sequer questões que merecessem dois minutos de atenção. Aquilo, não era nada!

E, no entanto…

Olhou para a folha. O último valor situava-se dentro do intervalo – o número de passos que, no seu passeio habitual das tardes de sábado, passou a contar entre o candeeiro junto à esplanada da Mexicana e o acesso ao Metro da Alameda. O objectivo inicial tinha sido o de desmentir as observações dos seus alunos mas, agora que se tinha convencido do quanto previsível ele era, não sabia o que sentir em relação a isso. Seria uma coisa má? Poder-se-iam fazer extrapolações a partir desse facto? O que diria sobre ele? Deveria importar-se com isso? Considerou que talvez fosse melhor voltar para casa onde, com tranquilidade, poderia ponderar as várias questões, analisá-las sobre vários pontos de vista, argumentar a favor e contra elas. Certamente que chegaria a uma conclusão.

Se fosse um assunto que merecesse tamanho dispêndio de energia…

Amarrotou a folha. Desta vez, lenta e demoradamente, de uma forma exagerada, como quem se despede de alguém para sempre. Fez uma bola compacta e fechou-a na mão. Depois, atirou-a ao ar, apenas uns centímetros, e voltou a apertá-la. Num impulso, atirou-a de novo ao ar, bem mais alto. Ao cair, a bola bateu-lhe no polegar, depois no indicador e escapou-lhe da mão, antes que a conseguisse fechar. Fitou o papel na calçada e sentiu uma enorme vontade de saltar em cima dele, de o pontapear, de ali o deixar. Por fim, a custo, curvou-se, apanhou a bola amarrotada e colocou-a num caixote do lixo.

Doíam-lhe as costas, as pernas, os braços, a cabeça. Mas a dor maior, sentia-a dentro de si, algures, num local que não conseguiu identificar.

Iniciou o trajecto de regresso a casa no passo de sempre, tentando não pensar em nada, até que, ao chegar outra vez à Zara, uma quantidade significativa de água, vinda de uma das janelas cimeiras, se abateu inesperadamente sobre os transeuntes. Na confusão que se seguiu, o professor foi obrigado a dar um passo descontrolado à esquerda e depois, empurrado por um rapaz, três passos atrás, quase caindo. Um coro de protestos irrompeu na indolente tarde de compras. Todos os olhares apontavam para cima, em busca dos responsáveis. Algumas senhoras sacudiam as roupas, mais ou menos molhadas, as cabeleiras, os sacos de compras. Havia já quem falasse dos valores perdidos, da amoralidade da juventude, das trevas que, no futuro, aguardavam a espécie humana. Isto precisa é de outro Salazar! Olhe que este que lá está agora não é muito diferente.

O professor era uma das duas únicas pessoas que não estava a olhar para cima. Antes pelo contrário, olhava para o chão. Apesar da água ter caído bem perto de si, não o tinha atingido e toda a confusão que se seguiu, levou-o a reparar nos livros que estavam expostos em cima de um plástico, no passeio. Aproximou-se, por entre as pessoas que, aparentemente já esquecidas da brincadeira de mau gosto, debatiam agora a qualidade da democracia portuguesa.

Já não pensava em mais nada, apenas nos livros que tinha diante de si. Conhecedor e interessado por tudo o que dizia respeito a livros – mais até do que por literatura –, aqueles exemplares intrigavam-no. Geralmente, apenas pelo design da capa, conseguia identificar a editora, o género e a colecção a que determinado livro pertencia, mas aquelas não lhe diziam nada. Impressas em papel de um amarelo muito suave, nas capas apenas constava, a preto, o que deveria ser o título. Indiferente às dores que lhe castigavam as articulações, agachou-se para pegar num dos livros. Suspendeu o movimento do braço quando percebeu a presença de alguém que, sentado num degrau, à sua frente, o observava com intensidade. Não era evidente, mas teve a nítida sensação que o homem sorria para si.

terça-feira, janeiro 27, 2009

Avenidas Velhas (9)

O percurso é sempre o mesmo mas, para ele, nunca é igual. Vai pelo separador central: é um espaço (quase) só seu, de onde se vêem as coisas de maneira diferente. Quando os outros transeuntes estão parados, a aguardar passagem, ele avança – quando todos avançam, pára ele. Tem o cuidado necessário no atravessamento dos cruzamentos, de resto, vai concentrado nas pessoas com quem se cruza.

Sem ser nas passadeiras – ou um ou outro peão que ali fica momentaneamente detido, vítima de um atravessamento incauto –, quase nunca se cruza com outras pessoas, naquele estreito passeio.

Ao se aproximar do Hotel Roma, a orquestra de buzinas automóveis iniciou mais um dos seus habituais concertos. Quase sempre relacionados com estacionamentos em segunda fila, desta vez tinha a ver com um veículo abandonado no entroncamento com a Rua Infante D. Pedro. Literalmente abandonado: a trabalhar, porta do lado do condutor aberta, ninguém dentro. Nas suas caminhadas pela cidade, já tinha assistido a muita situação estranha, mas um carro a trabalhar, no meio da via, era a primeira vez. Não resistiu e, para ter a certeza que os seus olhos não o enganavam, ficou a ver. Como as folhas das árvores no final do verão, uma pequena multidão de transeuntes começou a juntar-se no passeio, junto ao hotel; e com ela, as teorias sobre o bizarro fenómeno. Depois de quase cinco minutos de buzinadelas incessantes e de buscas infrutíferas do automobilista desaparecido, retomou o seu caminho mas, uns metros à sua frente, deu de caras com Karl Marx.

Bem no centro do separador central, uma réplica humana do autor do Manifesto Comunista, parecia esperar por ele. Vestia um colete branco, com o que lhe pareceu ser o símbolo de uma ordem religiosa, em vermelho. No braço direito, uma braçadeira com o mesmo símbolo e suspenso do ombro esquerdo, um recipiente circular, a tiracolo. Depois de dois passos hesitantes, avançou direito ao sujeito, que o interpelou.

– Não quer ajudar a combater o cancro? – perguntou-lhe Marx, numa voz cavernosa e densa, que se sobrepôs à sinfonia automóvel, ao mesmo tempo que lhe estendeu o objecto que trazia ao ombro. Um peditório no separador central! Mais uma novidade. Desculpou-se com a falta de dinheiro – o que era verdade – e contornou o homem, que permaneceu estático, como que à espera de alguém.

Não tinha andado vinte metros quando, vinda a correr do passeio lateral, uma rapariga parou à sua frente. Murmurou qualquer coisa imperceptível, mas foram os seus olhos, de um cinzento baço e frio, que falaram. Pediram-lhe – suplicaram-lhe – compreensão e ajuda. Reparou que ela trazia na mão o Borda d’Água e pensos rápidos. Já depois de a ter deixado para trás, aqueles olhos estrangeiros e suplicantes continuaram a falar com ele. Disseram de uma criança pequena, muito doente, e do dinheiro que fazia falta para o remédio. Interrogou-se se seria isso que diziam, mas depressa afastou a ideia. Ele, que nunca fora bom a escutar os outros, não podia querer agora entender quem se expressava pelo olhar.

Não se cruzou com mais ninguém até chegar ao Centro Comercial, mas aí, voltou a deter a marcha. Um segurança implicava com um ciclista de idade, que ali queria encostar a bicicleta. Na verdade, sendo alguém que ali tinha chegado de bicicleta, não se tratava de um ciclista. Era, antes de mais, um amolador – e, seguramente, no tempo de chuva, um arranjador de chapéus-de-chuva. Não via um há bastante tempo e depressa esqueceu a disputa que ocorria diante de si. Ficou a olhar a bicicleta, certamente tão antiga como o dono (que era velho), sem mudanças (como o dono, que não soubera ou conseguira mudar), suja (também como ele), adaptada a uma função para a qual não tinha sido criada (ao contrário dele, que não se adaptou a mais nada).

Com desprezo evidente, o segurança empurrou o velocípede, que caiu com estrondo. O amolador tentou empurrar o homem, mas acabou também por cair desamparado, de joelhos, junto da bicicleta.

Deixou cair a cadeira, tirou o cigarro da boca e esmagou-o com a mão. Sentia o sangue a ferver-lhe nas veias e, num impulso, quis atravessar a rua para ajudar o homem, mas o trânsito não lhe deu passagem. À porta do Centro Comercial ninguém dera importância ao sucedido, ninguém parara sequer para olhar. Com excepção de duas senhoras de ar distinto, portadoras cada uma de uma muito bem composta e volumosa cabeleira platinada, que se mostraram visivelmente incomodadas com o espaço que a bicicleta e o homem ocupavam, obrigando-as a contorná-los para entrarem no Centro Comercial.

Por fim, o amolador ergueu a bicicleta, montou-a e afastou-se, pedalando lentamente pelo passeio – o que provocou a indignação de vários transeuntes, que o invectivaram.

Caminhou até ao cruzamento com a Avenida João XXI e esperou no semáforo para atravessar para o passeio lateral. Era ali que o separador central terminava. Enquanto esperava o sinal de passagem, aproveitou para retirar um cigarro do maço, mas devolveu-o à caixa. Sentia ainda os nervos à flor da pele, o que lhe relembrava perigosamente o efeito calmante da nicotina. Sentiu-se observado. Discretamente, olhou pelo canto do olho. Ao seu lado, uma adolescente sorria para ele, mas só reparou nisso mais tarde. Impressionou-o o quão escuro eram os olhos e o cabelo dela, apanhado em dois totós, não de lado, mas na parte de trás da cabeça. Estava integralmente vestida de preto, o que lhe acentuava ainda mais a palidez da pele. A única nota de cor era a capa vermelha do caderno que ela tinha na mão.

Comprou rebuçados peitorais Santo Onofre na Mercearia Mourinha e atirou o maço de tabaco para o primeiro caixote do lixo que encontrou. Enquanto atravessava a Praça de Londres, recordou os olhares com que se tinha cruzado e o estranho sorriso da rapariga de há pouco. Não conseguiu deixar de achar que era um sorriso cúmplice, trocado entre pessoas que possuíam um segredo em comum. Se ele ao menos tivesse um segredo para partilhar…

Foi arrancado às suas suposições quando subitamente, ao passar pela Mexicana, um homem em desequilíbrio veio direito a si, quase o derrubando.

quarta-feira, janeiro 14, 2009

Avenidas Velhas (8)

Sentiu que estava descomposto, que a camisa lhe saía das calças e que o casaco não lhe assentava bem nos ombros. Instintivamente, fez algo que nunca antes tinha feito perante outros: levou a mão à braguilha, para confirmar que estava fechada. O sangue afluiu-lhe à cabeça, como se tivesse sido injectado do exterior. Ao mesmo tempo, um intenso calor envolveu todo o seu corpo. Tomando consciência do despudor seu acto, procurou refúgio atrás do quiosque abandonado, junto da igreja. Necessitava como nunca de um momento só para si, imediatamente, e ir para casa não era opção. A vizinha Jacinta jamais o poderia ver naquele estado de confusão.

Preparava-se para respirar fundo, na protecção daquela gaiola esquecida em plena cidade, quando deu de caras com uma mulher de idade, imóvel, atrás do quiosque. Vestia, a despropósito para a altura do ano, uma gabardine que já perdera a cor e uma boina vermelha, de lã. Calçava umas galochas da cor dos limões que não são amarelos nem verdes. Surpreendido, o professor hesitou sobre o que fazer. Deu dois passos à frente, parou e depois rodou sobre si próprio, como que à procura de uma saída de emergência da Praça de Londres. Reparou então que uma ténue nuvem de fumo se elevava de um dos lados da mulher, subindo até à altura dos ombros dela e desaparecendo em seguida.

Ela olhava-o de lado, sobrancelhas franzidas, com uma expressão dura, que lhe acentuava as rugas e os sulcos que lhe percorriam as faces, como meridianos. A mensagem era clara e ele percebeu-a: estava a invadir propriedade privada.

O professor pareceu encontrar a saída nuns degraus que, um pouco mais à frente, se afundavam no passeio – o acesso ao parque de estacionamento subterrâneo – e tomou a sua direcção. Deteve-se antes de os alcançar. Retirou um lenço do bolso do casaco e limpou as gostas de suor que se acumulavam na testa. Passou-o em seguida pelo rosto e olhou para trás. Como uma figura de cera rude, em exposição, a mulher permanecia imóvel, com o olhar em cima dele, a enxotá-lo dali.

Percebeu-a indigente, sem-abrigo. Quis vê-la melhor e voltou-se, mas ela tinha desaparecido. Quem lá estava agora era ele, difuso, imperfeito, abandonado, nos vidros imundos do quiosque. O reflexo interpelou-o.

– Tens medo do quê, de quem? Porque te escondes?

Começou a responder.

– De também eu ser como essa mulher, de…

Calou-se.

A nuvem de fumo tinha voltado. Saía de um sujo e enferrujado Termo, decorado com pequenos quadrados que, em tempos, tinham sido vermelhos e pretos. A mulher e o quiosque faziam outra vez companhia um ao outro. Ela já não olhava para ele. Servia-se do que seria um chá, ou talvez café.

Ficou ali algum tempo. A sombra projectada pela igreja tinha-o absorvido e a mulher seguido o seu caminho. Atravessou novamente a praça e dirigiu-se ao caixote do lixo preso ao poste de iluminação, junto da Mexicana. Sentia-se estranhamente confiante – o suficiente para não se importar que o vissem a remexer no lixo. Espreitou pela abertura e viu o papel. Por sorte, uma casca de banana tinha-o evitado por pouco. Retirou-o o colocou-o no bolso, ainda amarrotado. Colocou-se então, hirto, ao lado do poste, certificando-se que o seu ombro direito estava paralelo a ele. Depois de uns segundos em que permaneceu imóvel, começou a descer a Rua Guerra Junqueiro.

Não é fácil contar enquanto se caminha. Como já antes sucedera, teve que fazer um esforço suplementar de concentração para não se baralhar na contagem. Queria dar o ar mais natural possível ao passeio; que aquele fosse apenas mais um, mas a verdade é que se preocupava a cada passo que dava – este foi muito longo… este demasiado curto?! – e isso distraía-o e baralhava-lhe a sequência. Quando sentiu que estava prestes a perder o rumo da contagem, parou. Retirou a folha do bolso, alisou-a o melhor que conseguiu e, com a Mont Blanc que sempre trás consigo, escreveu três algarismos no canto inferior esquerdo da página. Procurou acalmar-se. Libertar o espírito de todos os pensamentos, pelo menos, até chegar ao fundo da rua.

Havia muitas pessoas na rua, principalmente ali, junto à Zara. Reparou que a maioria eram mulheres e que quase todas transportavam, para além da sacramental mala a tiracolo, um saco com compras. Um grupo de ciganas aproveitava a concentração feminina naqueles metros de calçada, para apregoar em surdina malas e carteiras Louis Vuitton. Verdadeiras, menina; isto veio da França, de umas caixas que caíram de um camião deles; acredite, menina, isto é de qualidade, ora apalpe.

O professor lembrou-se de uma conversa que escutara, um dia, na sala de professores: que os ciganos tinham um tal pavor a sapos e rãs, que havia lojas a colocar nas montras e nas portas, imagens dos batráquios, com o objectivo de afugentar a indesejada venda ambulante das ciganas. Fazia aqui falta, considerou.

Uma voz sumida e atrapalhada pelo catarro, chegou-lhe pelas costas. Um homem muito magro e torto, encostado a uma muleta, olhava para ele. A íris dos seus olhos não tinha cor.

– É para comer, acredite – só então se apercebeu que o homem tinha a mão estendida e, apenas num segundo momento, que a mão se estendia na sua direcção.

– Peço perdão, fala comigo?

– Qualquer coisinha. Pode ser a moeda mais pequena.

– Queira desculpar-me, mas não tenho nada para lhe dar.

O outro não arredou pé.

– Por caridade – disse, acentuando o tom de súplica.

O professor deu um passo à frente e depois recuou o mesmo passo. Queria sair dali, mas não se sentiu capaz de reiniciar a contagem. Tinha parado para se concentrar e não o conseguira ainda. Virou costas e nada disse. O pedinte deu um passo ao lado, na direcção de uma idosa que, desafiando o relativo calor daquele final da tarde, subia a rua dentro de um casaco de peles. Os dois grandes sacos de papel que transportava faziam-na avançar com dificuldade.

– A senhora dê-me qualquer coisinha para comer…

– Vá importunar outra. Deixe-me passar! – atirou-lhe ela com voz esganiçada e sem deter o passo.

– Isto está cada vez mais difícil – disse o aleijado para o homem que estava sentado no degrau que dá acesso a uma instalação eléctrica, entre as duas portas da Zara. À sua frente, no passeio, tinha estendido em cima de um plástico, vários livros. Sem esperar pela resposta, o pedinte colocou-se à frente de duas senhoras que tinham abusado da maquilhagem.

– Boa tarde minhas caras senhoras, queria pedir-vos…

Por esta altura, o professor tinha retomado o passo, rua abaixo.

Duzentos e oitenta e dois, duzentos e oitenta e três, duzentos e oitenta e quatro…