A cerimónia foi marcada para um final de manhã de Maio, que calhou quente e caótico. Encostado a uma parede, mesmo por baixo de uma saída de ar condicionado, Joaquim reflectia sobre a possibilidade de todos os casais solteiros de Lisboa e arredores terem escolhido aquele dia para contrair matrimónio. Era tanta a confusão de noivos e convidados, que pareciam estar ali todos reunidos para um grande casamento em conjunto.
Um homem com um grande bigode e uma proeminente barriga, de casaco de camurça castanho pendurado no braço e a abanar-se com a ponta da gravata, veio encostar-se à parede, perto dele. A sua camisa azul clara era agora azul escura, das manchas de suor. O homem olhou para cima e abanou a cabeça com pesar: dali não viria alivio para os seus padecimentos, o ar condicionado ou estava desligado ou cansado demais para fazer alguma diferença num dia como aquele.
– Os padres estão lixados – disse ele a Joaquim. – Já ninguém casa pela igreja. É bem-feita, quero é que eles se lixem – não obteve resposta.
Por entre a confusão de fatos escuros, vestidos de folhos com motivos florais e crianças transformadas em adultos miniatura, que corriam em todas as direcções, Joaquim, de sorriso e pescoço esticados, espreitava um carro parado à porta da Conservatória.
O ruído era quase ensurdecedor. Havia quem chamasse pelos padrinhos, havia quem procurasse crianças extraviadas, havia quem chorasse e miúdos que gritavam a plenos pulmões, só pelo prazer de gritar.
– Grande ajuntamento, hein? Isto parece aquela coisa dos casamentos de Santo António, não parece? – perguntou o homem, dando-lhe um toque com o cotovelo.
– Não, não parece – Joaquim sorria, mas tinha cara de poucos amigos. – Esses são na igreja – e foi ter com o sogro, que tinha vindo também espreitar o carro.
– Que chatice, isto… – o olhar do noivo tinha já petrificado por completo.
– Quando é que vamos ter a sala livre? Ainda falta muito para o casamento acabar? – o sogro estava visivelmente zangado.
– Atrasou… sabe como são estas coisas…
– O que eu sei é que a Deolinda deve estar a assar como um leitão, dentro do carro. Devíamos ter chegado atrasados, como manda a lei.
Joaquim ia corrigi-lo, dizendo que ela estaria a assar como uma leitoa, mas um súbito nó nas tripas interrompeu-lhe a frase: nunca mais se tinha lembrado dos avós.
(continua)