Duas características físicas faziam Arminda Maria de Jesus sobressair: sempre foi a mais alta entre as crianças da sua idade - mais alta que qualquer dos rapazes - e também a única nas redondezas com olhos claros.
Com 13 anos era já a mais alta habitante de Espinhosela, a sua aldeia natal, cravada nos contrafortes da Serra de Montezinho. Aos 16, media 1,80m.
Na sua maneira simples de ver as coisas, a sua mãe tinha razão, Arminda sempre se sentiu muito maior que a Serra em que nasceu e cresceu.
O seu passatempo favorito, desde tenra idade, era subir ao sítio mais alto que conhecia e ali ficar, a olhar para terras de Espanha, a imaginar o seu futuro, longe dali. Voltava a casa com o horizonte gravado no olhos.
Não lhe foi difícil conseguir que Laureano Costa, vendedor ambulante de retrosarias e todos os artigos para o lar, que visitava a aldeia quinzenalmente para vender a partir da traseira da sua camioneta, lhe trouxesse umas revistas do Porto.
Aprendeu muito nova a fazer uso dos seus atributos: corpo bem torneado; pernas a perder de vista; um sorriso inocente como só ela sabia fazer; olhos claros de uma cor indefinível, rodeados por umas longas pestanas que, ao piscar, deixavam o vendedor ambulante afogueado.
Enquanto as senhoras da aldeia se reuniam na traseira da camioneta Bedford, entretidas nas compras e em trocar dois dedos de má-língua com a mulher de Laureano, Arminda colocava-se no adro da igreja, de mão dadas no regaço, cabeça baixa, enquanto com o pé ia raspando na terra batida. Laureano não conseguia tirar os olhos dela, depressa arranjava uma desculpa e escapava-se para uns baldios atrás da igreja com as revistas debaixo da roupa, ao encontro da moça.
- Tens sorte, menina, desta vez trouxe-te a Flama e uma Paris-Match que uma cliente me deu.
- O que é isso?
- É uma revista do estrangeiro. Não se percebe nada, mas tem umas fotografias bonitas.
- Deixe ver…
- Primeiro quero o meu beijinho.
E lá Arminda fechava os olhos e sustinha a respiração, tentando evitar ao máximo o cheiro a suor e o bafo a vinho de Laureano, e lhe dava um beijo por cima da barba por fazer.
- Quando é que me deixas dar-te um abracinho?
- Arisca esta miúda, um dia perco a cabeça…
Já gosto da Arminda.
ResponderEliminar"grande demais para a aldeia" - delicioso!
ResponderEliminarNão é fácil ser diferente de todos os outros, especialmente numa terra pequena, de curtas visões...
Gostei muito do texto (tem continuação, a história?)
Excelente inicio. Isto promete!
ResponderEliminar(tadinha da Arminda, nao lhe podias ter arranjado um vendedor jovem, bonito e a cheirar bem????)
Bjs
Olá, gosto da forma viva e fluente como escreves.Nas palavras as imagens e pressupostos. Não é difícil ser mais um na Aldeia, subir e olhar do alto e ver chegar Arminda com horizontes gravados...Parabéns
ResponderEliminargostei do blog,gostei da historia da Arminda que promete ser uma Grande mulher,docil mas sedutora.
ResponderEliminarObrigada pela visita ao meu.
Vou passando.
Bj
Arisca...pq é que essa palavra me é tão familiar?? Lololololo
ResponderEliminarEsta tua história faz me lembrar um livro de paulo coelho só espero que o desenlaçe não seja tão triste. Tá excelente...
Beijos e boa semana ;)
Vejo-me grega para comentar no teu blog!!Estava a ver que a caixa dos comentários nunca mais abria!!Este conto promete, estou a gostar!!Mas dar beijos a homens com hálito a bagaço e a cheirar mal dos sovacos, nem pensar.....eeheh
ResponderEliminarmmmmm.... palpita-me que ela tb será grande demais para ir no "perder da cabeça" do homensito "bafento"...
ResponderEliminar... pelo menos assim espero! e aqui fica a cunha... para o II
:o)
BJs
Rui primeiro quero agradecer-te a tua ida à minha cabana, não conhecia este cantinho que me deliciou
ResponderEliminargostei da tua forma de escrever, consegues envolver quem te está a ler
que força essa linda miúda, a Arminda, estou a gostar, virei acompanhar-te nesta tua "caminhada" e continuar a ler-te com o mesmo prazer q tive hoje
beijinhos para ti
lena
estou em "suspense"... de ti já percebi que se deve esperar o inesperado, portanto, li direitinho a parte I, aguardo a parte II, se for preciso, a III, a IV e por aí fora... mas não acredito que não me surpreenda!...
ResponderEliminarArminda era o que se chama "uma matulona", não é?
ResponderEliminarNão sei por quê mas não lhe auguro bom futuro.
Será a Arminda alguém que apenas usa o outro para ir mais além, ou não será isto apenas um grito de revolta de alguém que se sente estagnar num lugar sem futuro? A ver veremos...
ResponderEliminarEste comentário foi removido por um gestor do blogue.
ResponderEliminarOi, obg pela resposta ao meu desafio e pela visita. Mais uma vez encantas com a tua escrita: será que isto promete asas para voar ou a queda de um anjo?
ResponderEliminarFico expectante pela continuação :-)
Bjnhs
Um início de história delicioso! :)
ResponderEliminarBeijinhos!
Vai ter continuação, não vai?
ResponderEliminarEla era grande demais, ele era tarado demais, a mulher era distraida demais, a aldeia era pequena demais...
Aguardo com ansiedade pelo desenvolver da estória.
Tem um óptimo dia
Beijo, Clotilde
a ler com muita calma, nas m/insonias, logo :) bjs
ResponderEliminarcontinuam a existir muitas Armindas por ái...
ResponderEliminarvamos ver o que acontece com esta...
*beijos*
Arminda & Laureano; um duo que qualquer realizador de cinema ou director teatral não desdenharia. Ela a despontar para a vida, ele faminto do elixir da existência.
ResponderEliminarSe não aparece por aqui o terceiro elemento do triângulo amoroso, quer-me parecer que isto não vai acabar bem... Mas dou a palavra a quem decide do quotidiano dos intérpretes.
A Flama; vais recuperar "umas coisas" interessantes...
... estes homens chatagistas e manhosos são lixados, Rui diz a Arminda pra lhe espetar uma trolitada... merece coisa melhor
ResponderEliminar;-)Bjs. Jaqui
Rui acredita que não há mesmo melhor paliativo...e the first strik continua a ser muito deadly!!! Dá uma espreitadela no soumolhar...tenho lá umas fotos ;) Beijos
ResponderEliminarObrigada pela visita:)
ResponderEliminarArisca a miúda, hein? Já não ouvia isto há muito tempo... Ouvia muito, sim!:))))
Beijinhos
Bom, a modos que a Arminda não gostava da barba por fazer do Laureano!
ResponderEliminarO mundo é das ousadas :)
ResponderEliminarA serra dos poetas;)
As revistas eram o passaporte da Arminda para o Mundo...
Laureano era o diabo em figura de gente, tão bem descrito pelo padre, aos domingos, na pequena igreja de Espinhosela
VaideretroSatanás!!!!! :)
Pronto, fiquei quase meia hora a ler os textos em atraso :) mas valeu a pena :)
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